
Ptalas ao Vento
V. C. Andrews


Nota

     Este livro foi escaneado e corrigido por Vera Lcia Figueiredo; para uso exclusivo de deficientes visuais, de acordo com as leis de direitos autorais.

     Janeiro, 2005




PTALAS AO VENTO

V. C. ANDREWS

A SAGA DOS FOXWORTH

Autora de O Jardim dos Esquecidos

3.500.000 exemplares

2 Edio

Francisco Alves



2 EDIO

Traduo de

Lus Horcio da Matta

Francisco Alves

#1
PRIMEIRA PARTE

#3
Livres, Afinal!

    Como ramos jovens no dia em que fugimos! Como nos deveramos sentir
exuberantes por estarmos livres, finalmente, de um lugar to sombrio, solitrio e abafado! Quo lamentavelmente satisfeitos deveramos estar por viajarmos num nibus 
que rumava vagarosamente para o sul! Entretanto, se estvamos alegres, no o demonstrvamos. Ficamos os trs calados, plidos, olhando pelas janelas, muito amedrontados 
por tudo que vamos.
     Livres. Haveria palavra mais maravilhosa que esta? No, mesmo que as mos frias e esquelticas da morte se estendessem para arrastar-nos de volta, caso Deus 
no estivesse em algum lugar l em cima, ou talvez at no interior do nibus, viajando conosco e zelando por ns. Em alguma poca de nossa vida tnhamos que acreditar 
em algum.
     As horas se passaram com os quilmetros. Nossos nervos se tornaram sensveis porque o nibus fazia freqentes paradas para embarcar e desembarcar passageiros. 
Fazia paradas para descanso, para o caf da manh e, ento, para embarcar uma enorme senhora preta que o aguardava no ponto em que uma
estrada de terra desembocava no piso de concreto da rodovia interestadual. A mulher levou uma eternidade para subir no nibus e,
depois, puxar para dentro as muitas trouxas que trazia consigo. Quando, afinal, ela se sentou numa poltrona, cruzamos o limite estadual entre a Virgnia e a Carolina 
do Norte.
     Oh! Que alivio sairmos do estado onde framos prisioneiros! Pela primeira vez em muitos anos, comecei a relaxar-me um pouco.
ramos os trs passageiros mais jovens no nibus. Chris tinha dezessete anos, notavelmente bonito, com cabelos longos e ondulados que lhe tapavam os ombros e se 
curvavam para cima. Seus olhos azuis orlados por clios escuros rivalizavam com a cor do cu de vero e sua personalidade era como um clido dia ensolarado - tinha 
no rosto uma expresso corajosa, a despeito de nossa
situao desanimadora. O nariz reto e de conformao fina adquirira fora e
maturidade que prometiam fazer dele tudo o que nosso pai fora: o tipo de homem que
#4
fazia o corao de todas as mulheres palpitar quando ele as olhava - e mesmo
quando no olhava. Tinha uma expresso confiante; parecia quase feliz. Se ele no olhasse para Carrie, poderia at mesmo ser feliz. Entretanto, quando lhe viu o 
rosto plido e doentio, franziu a testa e seus olhos se toldaram de preocupao. Comeou a dedilhar o violo que trazia a tiracolo. Chris tocou "Oh, Suzana", cantando 
baixinho numa voz doce e melanclica que me tocou o corao. Entreolhando-nos, entristecemo-nos com as lembranas evocadas pela melodia. ramos como um s, ele e 
eu. No podia fit-lo por muito tempo, pois tinha medo de chorar.
     Encolhida em meu colo, estava minha irmzinha. No aparentava mais que trs anos, to mida, to penosamente mida e enfraquecida, embora j tivesse oito. Em 
seus grandes olhos azuis, marcados por olheiras, havia mais sofrimentos e segredos sombrios do que uma criana de sua idade deveria conhecer. Os olhos de Carrie 
eram idosos, muito idosos. Ela nada esperava:
Nem felicidade, nem amor, nada - pois tudo o que houvera de maravilhoso em sua vida lhe fora tomado. Enfraquecida pela apatia, parecia disposta a passar da vida 
para a morte. Magoava-me v-la to sozinha, to terrivelmente solitria, agora que Cory se fora.
     Eu tinha quinze anos. Estvamos em novembro de 1960. Eu queria tudo, precisava de tudo, e sentia um medo horrvel de que jamais em minha vida conseguisse encontrar 
o bastante para compensar tudo o que perdera.
Sentia-me tensa, pronta para gritar se mais alguma coisa ruim acontecesse. Como um estopim enrolado e ligado a uma bomba-relgio, sabia que mais cedo ou mais tarde 
eu explodiria e derrubaria todos os que viviam em Foxworth Hall!
     Chris pousou a mo na minha, como se pudesse ler-me os pensamentos e soubesse que eu j planejava o modo de trazer o inferno a todos os que nos tinham tentado 
destruir. Disse em voz baixa:
     - No fique assim, Cathy. Tudo dar certo. Estaremos bem.
     Continuava a ser o eterno e incorrigvel otimista, acreditando, a despeito de tudo, que as coisas que aconteciam s podiam ser para o melhor? Oh! Deus! Como 
podia ele pensar assim quando Cory estava morto? Como isso poderia ser para o melhor?
     - Cathy - sussurrou. - Precisamos aproveitar ao mximo o que nos resta, isto
, um ao outro. Temos que aceitar o que aconteceu e partirmos da. Temos que
acreditar em ns mesmos, em nossos talentos; se acreditarmos, havemos de conseguir o que desejamos.  assim que funciona, Cathy,
pode crer. Tem que dar certo!
     Ele desejava ser um mdico inspido e srio, que passava os dias em
consultrios, cercado pelas misrias humanas. Eu desejava algo muito mais
fantasioso - e uma montanha disso! Queria realizar todos os meus sonhos estrelados de amor e romance - no palco, onde eu seria a "prima ballerina" mais famosa do 
mundo; nada menos que isso me satisfaria! Isso mostraria a Mame!
#5
     Maldita seja, Mame! Espero que Foxworth Hall queime at os alicerces! Espero que voc jamais consiga dormir uma noite tranqila naquela grandiosa cama de cisne 
-nunca mais! Espero que seu jovem marido arranje uma amante mais jovem e bonita que voc! Espero que ele lhe d o inferno que voc merece!
     Carrie virou-se para murmurar:
     - Cathy, no me sinto bem... Estou com uma coisa engraada no estmago...
     Fui dominada pelo medo. O rostinho mido de minha irm parecia doentiamente plido; seus cabelos, antes sedosos e brilhantes, escorriam em mechas sem vida. 
Sua voz estava reduzida a um dbil sussurro.
     - Querida, querida - reconfortei-a, beijando-a. - Agente firme. Logo ns a
levaremos a um mdico. No demoraremos a chegar  Flrida e l nunca mais ficaremos trancados.
     Carrie relaxou-se em meus braos, enquanto eu olhava desoladamente para o
musgo espanhol pendente das rvores que indicava encontrarmo-nos agora na Carolina do Norte. Ainda tnhamos que atravessar a Georgia. Seria uma longa viagem at 
chegarmos a Sarasota. Carrie teve um sobressalto violento, passando a engasgar-se e ter nsias de vmitos.
     Precavidamente, eu enchera os bolsos de guardanapos em nossa ltima parada, de modo que pude limpar Carrie. Passei-a para os braos de Chris, de modo a poder 
ajoelhar-me no cho do nibus e limpar o resto. Chris escorregou-se pelo assento at a janela e tentou abri-la a fim de jogar fora os
guardanapos sujos. Por mais fora que ele usasse para pux-la e empurr-la a
janela no se moveu. Carrie comeou a chorar.
     - Enfie os guardanapos no espao entre a poltrona e a parede do nibus - sussurrou Chris.
     Mas o atento motorista devia estar observando pelo retrovisor, pois gritou:
     - Vocs a atrs, garotos! Livrem-se dessa porcaria de outra maneira!
     Que outra maneira poderia haver seno esvaziar o estojo da mquina Polaroid
de Chris, que eu estava usando como bolsa, e enfiar nele os fedorentos guardanapos?
     - Desculpem-me - soluou Carrie, desesperadamente agarrada a Chris. - Eu no
queria vomitar. Agora, vamos para a cadeia?
     - No, claro que no - disse Chris com seu jeito paternal. - Em menos de duas horas estaremos na Flrida. Tente agentar firme at l. Se saltarmos agora, perderemos 
o dinheiro que pagamos pelas passagens e no
temos muito para desperdiar.
     Carrie comeou a choramingar e tremer. Apalpei-lhe a testa: estava mida. Agora, o rosto no estava apenas plido, mas branco! Como o de Cory antes de morrer.
     Orei a Deus para que, pelo menos uma vez, tivesse piedade de ns. J no suportramos o suficiente? Aquilo precisava continuar, interminavelmente? Enquanto 
eu hesitava, sentindo tambm um melindroso desejo de
#6
vomitar, Carrie comeou tudo outra vez. Eu simplesmente no podia acreditar que ela ainda tivesse dentro de si algo para vomitar. Apoiei-me de encontro a Chris enquanto 
Carrie ficou inerte nos braos dele, parecendo estar angustiosamente prxima da inconscincia.
     - Creio que ela est entrando em estado de choque - sussurrou Chris, quase to plido quanto Carrie.
     Foi quando um passageiro mesquinho e sem corao comeou a reclamar em altos brados, de modo que os mais bondosos pareciam embaraados e indecisos quanto ao 
que fazer para ajudar-nos. O olhar de Chris procurou o
meu, numa indagao muda: que fazer em seguida?
     Eu comeava a entrar em pnico. Ento, ao longo do corredor, balanando de um lado para outro ao avanar em nossa direo, surgiu a enorme mulher negra, exibindo 
um sorriso reconfortante. Trouxe sacos de papel e os segurou enquanto eu jogava dentro deles os malcheirosos guardanapos. Com gestos, mas
sem palavras, deu-me palmadinhas no ombro. acariciou o queixo de Carrie e entregou-me um punhado de trapos tirados de uma das
suas trouxas.
     - Muito obrigada - murmurei, sorrindo desajeitadamente enquanto me limpava da melhor maneira possvel.
     Depois, fiz o mesmo com Carrie e Chris. A mulher pegou os trapos, enfiou-os num saco de papel e recuou um pouco, como se para proteger-nos.
     Cheia de gratido, sorri para a mulher imensamente gorda que enchia o corredor do nibus com seu corpanzil coberto pelo berrante vestido estampado. Ela piscou 
para mim e sorriu tambm.
     - Cathy - disse Chris, parecendo ainda mais preocupado que antes. - Precisamos levar Carrie a um mdico - e depressa!
     - Mas pagamos a passagem at Sarasota!
     - Eu sei. Mas trata-se de uma emergncia!
     A nossa benfeitora sorriu animadoramente e depois debruou-se para examinar o rosto de Carrie. Pousou a grande mo preta na testa mida da menina e depois tomou-lhe 
o pulso. Fez com as mos alguns gestos que me intrigaram, mas Chris disse:
     - Creio que ela  muda, Cathy. Esses so gestos usados pelos surdos-mudos.
     Sacudi os ombros, para indicar que no a compreendia. Ela franziu a testa e depois tirou do bolso sob a pesada suter vermelha um bloco de folhas de papel multicor. 
Rabiscou muito depressa um bilhete que me entregou em seguida. Escrevera:
     "Meu nome  Henrietta Beech. Posso ouvir, mas no falar. A menininha est muito doente, mesmo, e precisa de um bom mdico.
     Li o bilhete e tornei a olhar para ela, esperando que tivesse mais informaes.
     - Conhece algum bom mdico? - indaguei.
#7
     Ela meneou vigorosamente a cabea em afirmativa e logo rabiscou outro rpido
bilhete:
     "Vocs tm sorte porque estou no nibus e posso lev-los ao meu filho, que 
timo mdico".
     - Puxa vida! - murmurou Chris, quando lhe passei o bilhete. - Devemos ter
mesmo uma boa estrela para encontrarmos algum que nos indique tal mdico!
     - Escute aqui, motorista! - gritou o mais malvado dos passageiros do nibus. - Leve essa criana para um hospital! Macacos me mordam se paguei meu bom dinheiro 
para viajar num nibus fedendo a vmito!
     Os demais passageiros fitaram-no com ar de reprovao e pude ver, pelo retrovisor, que o rosto do motorista ficou rubro de raiva ou, talvez, de humilhao. 
Nossos olhos se encontraram no espelho. Ento, ele me disse, encabulado:
     - Sinto muito, mas tenho mulher e cinco filhos. Se eu no cumprir os horrios, minha mulher e meus filhos ficaro sem comida, porque perderei o emprego.
     Calada, implorei-lhe com o olhar, ouvindo-o murmurar com seus botes:
     - Malditos domingos. Os dias de semana correm muito bem. Ento chegam os domingos, malditos domingos.
     Foi ento que Henrietta Beech pareceu ter escutado o suficiente. Tornou a
pegar o lpis e escreveu no bloco outro bilhete que logo passou a mim.
     "Muito bem. O moo ao volante detesta os domingos. Se ele continuar ignorando a menininha doente, os pais dela processaro os chefes da empresa de nibus por 
uma indenizao de dois milhes de dlares!"
     Mal Chris teve tempo de ler o bilhete e Henrietta se afastou pelo corredor, at enfiar o papel sob o nariz do motorista. Com um gesto impaciente, o motorista 
afastou o brao da negra, mas esta voltou a insistir e, desta vez, ele fez uma tentativa para ler enquanto mantinha a ateno voltada para
o trfego.
     - Oh! Deus! - suspirou o motorista, cujo rosto eu podia ver pelo espelho. - O hospital mais prximo fica a trinta quilmetros fora de meu itinerrio!
     Chris e eu observamos enquanto a gigantesca senhora negra fazia gestos e
sinais que deixaram o motorista to frustrado quanto havamos ficado. Mais
uma vez, Henrietta foi obrigada a escrever um bilhete. E o contedo deste, qualquer que fosse, levou o motorista a tirar o nibus da larga rodovia e tomar uma estrada 
lateral que ia a uma cidade chamada Clairmont.
Henrietta Beech permaneceu ao lado do motorista, obviamente dando-lhe instrues, mas voltava-se para ns a intervalos, exibindo um brilhante sorriso, para mostrar-nos 
que tudo correria bem.
     Em breve percorramos ruas largas e tranqilas, orladas de rvores cujas copas se curvavam graciosamente para formar uma espcie de toldo. As casas que vi eram 
grandes, aristocrticas, com prticos e elevadas cpulas.
#8
Embora nas montanhas da Virgnia j tivesse nevado uma ou duas vezes, aqui o outono ainda no pousara sua mo gelada. Os bordos, faias, carvalhos e magnlias ainda 
mantinham a maioria das folhas de vero e algumas flores continuavam vivas.
     O motorista julgava que Henrietta Beech no o orientava corretamente e, para falar com franqueza, eu era da mesma opinio. Na realidade, no se instalavam hospitais 
naquele tipo de ruas residenciais. Entretanto, exatamente quando eu comeava a preocupar-me, o nibus parou bruscamente
diante de uma grande casa branca que se erguia no topo de uma colina baixa e
arredondada, cercada por espaosos gramados e canteiros floridos.
     - Vocs a, garotos! - gritou o motorista, virando-se para ns. - Peguem sua
tralha e entreguem as passagens para devoluo do dinheiro, ou tratem de utiliz-las antes que o prazo expire!
     Ento, saltou rapidamente do nibus e abriu o bagageiro na parte interior da
carroceria, tirando cerca de quarenta malas antes de chegar s nossas duas. Pendurei a tiracolo o violo e o banjo de Cory, enquanto Chris, muito devagar e com extrema 
ternura, erguia Carrie nos braos.
     Como uma gorda galinha protegendo seus pintinhos, Henrietta Beech conduziu-nos ao longo da comprida alameda de tijolos que levava  varanda da frente. Ali eu 
hesitei, olhando para a casa e para as duplas portas pretas.  direita, um pequeno aviso impresso dizia: EXCLUSIVO DOS PACIENTES. Tratava-se, evidentemente, de um 
mdico que tinha consultrio na prpria residncia. Nossas duas maletas foram deixadas na sombra, perto da calada de concreto, enquanto eu examinava a varanda at 
avistar um homem
adormecido numa cadeira de vime branca. Nossa boa samaritana aproximou-se
dele com um largo sorriso antes de tocar-lhe de leve no brao. Como o homem continuasse a dormir, ela fez sinal para que avanssemos e falssemos por ns mesmos. 
Em seguida, apontou para a casa e fez sinais para indicar que entraria a fim de preparar algo para comermos.
     Eu teria preferido que ela ficasse para apresentar-nos ao homem e explicar-lhe o motivo de nossa presena em sua varanda num domingo. Enquanto Chris e eu avanvamos 
nas pontas dos ps, sentindo-me dominada pelo medo, eu aspirava o ar carregado pelo perfume das rosas e tinha a impresso de que
j estivera ali e conhecia o local. O ar fresco com perfume de rosas no era o tipo de ar que eu me acostumara a esperar que algum como eu merecesse.
     -  domingo, maldito domingo - sussurrei para Chris. - Aquele mdico pode no gostar de estarmos aqui.
     - Ele  um mdico - replicou Chris. - Est acostumado a que lhe roubem os
momentos de lazer... mas voc pode tratar de acord-lo.
     Aproximei-me vagarosamente. Era um homem grande, usando um terno cinza claro com um cravo branco na lapela. Tinha as pernas compridas esticadas e apoiadas no 
topo da balaustrada da varanda. Parecia um tanto elegante, apesar de escarrapachado como estava, com as mos pendentes dos braos da
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poltrona de vime. Dava a impresso de estar to acomodado que me pareceu uma grande pena acord-lo e arrast-lo de volta ao trabalho.
     -  o Dr. Paul Sheffield? - indagou Chris, que lera a placa com o nome do mdico.
     Carrie jazia nos braos de Chris, o pescoo arqueado para trs, os olhos
fechados, os compridos cabelos dourados balanando-se  brisa suave e clida. Relutantemente, o mdico acordou. Fitou-nos durante longo intervalo, como se no conseguisse 
acreditar nos prprios olhos. Eu sabia que tnhamos uma aparncia estranha, em nossas muitas camadas de roupas. Ele sacudiu a cabea, como se tentasse focalizar 
os olhos - eram olhos castanhos, muito
bonitos, matizados por tons azuis, verdes e dourados sobre o fundo castanho claro. Aqueles olhos notveis me beberam, engolindo-me em seguida. O homem parecia atordoado, 
levemente brio e por demais sonolento para afivelar a mscara profissional que o impediria de baixar os olhos do meu rosto para meus seios e descer at minhas pernas, 
antes de refazer lentamente o mesmo trajeto em direo inversa. Mais uma vez, ficou como que hipnotizado por meu rosto, meus cabelos. Eu sabia que os cabelos estavam 
compridos demais, mal cortados no alto da cabea, desbotado e frgil nas pontas.
     - O senhor  o mdico, no ? - quis saber Chris.
     - Sim,  claro. Sou o Dr. Sheffield - disse o homem finalmente, passando a
prestar ateno em Chris e Carrie.
     Com surpreendente graa e rapidez, ergueu as pernas da balaustrada, postou-se de p  nossa frente, muito mais alto que ns, passou os dedos esguios pelo cabelo 
escuro e depois se aproximou para examinar com ateno o rostinho mido e branco de Carrie. Usou o polegar e o indicador para afastar-lhe as plpebras fechadas e 
fitou por um instante o que lhe revelava aquele olho azul.
     - H quanto tempo essa criana est inconsciente?
     - H alguns minutos - disse Chris, que quase j era um mdico de tanto estudar enquanto ficamos trancados no sto. - Carrie vomitou trs vezes no nibus e 
depois comeou a tremer e suar. Havia no nibus uma senhora chamada Henrietta Beech. Foi ela quem nos trouxe para c.
     O mdico meneou a cabea e explicou que a Sra. Beech era sua governanta e cozinheira. Em seguida, fez-nos entrar pela porta reservada exclusivamente aos pacientes, 
conduzindo-nos a uma parte da casa onde havia um consultrio e duas saletas de exames, no parando de desculpar-se por
no ter disponvel a sua enfermeira de costume.
     - Tire todas as roupas de Carrie, menos as calcinhas - ordenou-me ele.
     Enquanto eu obedecia, Chris correu de volta  calada para pegar nossas
maletas. 
     Invadidos por mil e uma ansiedades, Chris e eu nos encostamos  parede e observamos enquanto o mdico verificava a presso, o pulso e a temperatura de Carrie, 
auscultando-lhe o corao pela frente e por trs. A essa altura, Carrie j recobrara os
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sentidos, de modo que ele lhe pediu que tossisse. Tudo o que eu conseguia fazer era indagar-me por que tudo de ruim nos acontecia. Por que o destino se mostrava 
to persistentemente contra ns? ramos to ruins quanto afirmava a av? Carrie morreria tambm?
     - Carrie - disse jovialmente o Dr. Sheffield, depois que terminei de vesti-la outra vez. - Vamos deix-la neste quarto por algum tempo, a fim de que voc possa 
descansar - explicou, agasalhando-a com um cobertor leve. Agora, no tenha receio. Estaremos a ao lado, no meu consultrio. Sei que essa mesa no  muito macia, 
mas tente dormir enquanto converso com seus
irmos.
     Ela o fitava com olhos muito abertos e inexpressivos, sem realmente importar-se com o fato de a mesa ser ou no macia.
     Poucos minutos mais tarde, o Dr. Sheffield estava sentado  sua grande e
impressionante mesa de trabalho, com os cotovelos apoiados sobre o mata-borro. Ento, comeou a falar com muita seriedade e alguma preocupao:
     - Vocs dois me parecem embaraados e pouco  vontade. No temam estarem
interrompendo minhas folias dominicais, pois no sou muito dado a elas. Sou vivo e, para mim, o domingo  um dia como qualquer outro...
     Oh! Sim! Ele podia dizer aquilo, mas parecia cansado, como se trabalhasse durante muitas horas a fio. Eu estava nervosamente sentada na beirada do macio sof 
de couro marron, ao lado de Chris. O sol que se filtrava pelas janelas incidia diretamente em nossos rostos, enquanto o mdico permanecia  sombra. Minhas roupas 
causavam-me uma sensao mida e desconfortvel.
De repente, lembrei-me do motivo. Levantei-me depressa e abri o fecho da saia externa. Fiquei bastante satisfeita ao ver o mdico sobressaltar-se. Como sara da 
sala quando eu comeara a despir Carrie, no percebera que eu usava dois vestidos por baixo da saia. Quando tornei a sentar-me ao lado de
Chris, estava usando apenas um vestido azul, estilo princesa, que me caa bem e estava limpo.
     - Sempre usa mais de um vestido aos domingos? - perguntou ele.
     - S nos domingos em que fujo - respondi. - E temos apenas duas malas, de modo que precisamos de espao para guardar os objetos valiosos que poderemos empenhar 
mais tarde, quando houver necessidade.
     Chris deu-me uma cotovelada rpida, numa advertncia muda de que eu estava falando demais. Contudo, eu sabia a respeito de mdicos, principalmente por intermdio 
dele. Aquele mdico sentado  mesa era digno de confiana - estava escrito em seus olhos. Poderamos contar-lhe qualquer coisa, tudo
mesmo.
     - Ento, esto fugindo - comentou o Dr. Sheffield. - Fugindo de qu? De pais que os ofenderam por negar-lhes alguns privilgios?
     Oh! Se ele soubesse! 
     -  uma longa estria, Doutor - respondeu Chris. - E, no momento, s desejamos saber a respeito de Carrie.
     - Sim, tem razo - concordou ele. - Portanto, falaremos a respeito de Carrie
- acrescentou, assumindo uma atitude profissional. - No sei quem vocs so, de #11
onde vm ou por que julgam que devem fugir. Mas aquela garotinha est muito, muito doente. Se hoje no fosse domingo, eu a internaria num hospital para fazer outros 
exames que no tenho condies de fazer
aqui. Sugiro que entrem imediatamente em contato com seus pais.
     Exatamente as palavras certas para me causarem pnico!
     - Somos rfos - disse Chris. - Mas no se preocupe quanto a receber seus honorrios. Podemos pagar.
     -  bom terem dinheiro - disse o mdico. - Vo precisar dele.
     Lanou-nos um prolongado olhar observador, avaliando-nos.
     - Duas semanas num hospital seriam suficientes para descobrirmos o fator na
doena de sua irm que no consigo perceber neste momento.
     E enquanto prendamos a respirao, atordoados por sabermos que Carrie estava to doente, o mdico fez uma previso aproximada da quantia que aquilo custaria. 
Ficamos perplexos. Oh! Meu bom Deus! Nosso tesouro roubado no daria para pagar uma semana de hospital, muito menos duas.
     Meu olhar deparou com a expresso apavorada nos olhos azuis de Chris. O que
faramos agora? No podamos pagar tanto dinheiro!
     O mdico percebeu prontamente nossa situao.
     - Ainda so rfos? - indagou suavemente.
     - Sim, ainda somos rfos - declarou Chris em tom de desafio; em seguida,
olhou firme para mim, indicando que eu deveria manter a boca fechada. - Uma
vez rfos, assim permanecemos. Agora, diga-nos o que suspeita haver de
errado com nossa irm e o que pode fazer para cur-la.
     - Calma l, meu rapaz. Antes, ter que responder algumas perguntas - disse o
mdico com voz suave, mas firme o suficiente para nos mostrar que ele comandava a situao. - Em primeiro lugar. qual o seu sobrenome?
     - Sou Christopher Dollanganger e esta  minha irm, Catherine Leigh Dollanganger, e Carrie tem oito anos, quer o senhor acredite ou no!
     - Por que no haveria de acreditar? - replicou tranqilamente o mdico,
embora poucos minutos antes, na pequena sala de exames, se mostrasse chocado ao ser informado sobre a idade de Carrie.
     - Compreendemos que Carrie  muito franzina para a idade que tem disse
Christopher, na defensiva.
     - Certamente  muito franzina.
     - O mdico olhou para mim ao dizer isso e, depois, fitou Chris. Debruou-se sobre os braos cruzados, numa atitude amistosa e confidencial que me tornou tensa 
de expectativa.
     - Agora, ouam. Vamos parar de desconfiar uns dos outros. Sou um mdico e tudo o que me confidenciarem permanecer confidencial.
     - Se desejam realmente ajudar sua irm, no podem ficar a sentados, inventando mentiras. Precisam falar a verdade, do contrrio estaro desperdiando meu tempo 
e colocando em risco a vida de Carrie.
     Ficamos ambos calados, de mos dadas, ombro a ombro. Senti Chris estremecer e estremeci tambm. Estvamos com medo, mortos de medo de contar a verdade nua e 
crua - pois quem acreditaria em ns? Confiramos 
#12
antes em quem era supostamente honrado; portanto, como poderamos confiar outra vez? No obstante, aquele homem sentado  mesa... parecia-me to familiar, como se 
eu j o tivesse visto antes.
     - Est bem - disse ele. - Se  difcil para vocs, deixem-me fazer mais perguntas. Digam-me o que todos trs comeram na ltima refeio.
     Chris suspirou, aliviado.
     - Nossa ltima refeio foi o caf da manh, hoje mesmo. Comemos todos trs
a mesma coisa: cachorros-quentes com todos os molhos, batatas fritas com molho de tomate, milkshake de chocolate. Carrie comeu apenas um pouco da sua poro.  enjoada 
para comer, mesmo nas melhores circunstncias. Eu diria que nunca teve um apetite saudvel.
     Franzindo a testa, o mdico anotou tudo.
     - E todos trs comeram exatamente as mesmas coisas no caf da manh? Mas s
Carrie teve nuseas?
     - Certo. S Carrie.
     - Carrie costuma ter nuseas?
     - Ocasionalmente, mas no com freqncia.
     - Como ocasionalmente?
     - Bem... - Disse Chris, devagar. - Carrie vomitou duas vezes na semana passada e cerca de cinco vezes no ltimo ms. Isso me tem preocupado muito: os ataques 
de vmito parecem tornar-se mais violentos e surgem com maior freqncia.
     Oh! a maneira evasiva como Chris relatava a situao de Carrie fez-me ficar realmente furiosa! Ele protegia nossa me at mesmo agora, depois de tudo o que 
ela fizera. Talvez fosse minha expresso que traiu Chris e levou o mdico a debruar-se em minha direo, como se soubesse que escutaria de
mim um relato mais completo.
     - Ouam: vieram procurar-me em busca de auxlio e estou disposto a fazer o possvel, mas no me daro uma oportunidade justa se no me fornecerem todos os fatos. 
Se Carrie sofre de algum mal interno, no posso olhar
dentro dela para verificar o que  - ela precisa me dizer, ou vocs tero que contar. Preciso de informaes para trabalhar - informaes completas. J sei que Carrie 
 subnutrida, subexercitada e franzina demais para sua idade. Percebi que vocs trs tm pupilas dilatadas! Vejo que todos esto
plidos, magros e com aparncia cansada. No consigo compreender por que razo hesitam em questo de dinheiro quando usam relgios que me parecem muito caros e algum 
escolheu suas roupas com bom gosto e considervel
dispndio - embora esteja alm de minha capacidade imaginar o motivo pelo qual
elas no se lhes ajustem bem ao corpo. Ficam a sentados, com relgios de ouro e brilhantes, usando roupas elegantes e surrados sapatos de tnis, dizendo-me meias-verdades. 
Portanto, agora vou-lhes dizer algumas verdades inteiras! - sua voz se tornou mais forte e dominadora. - Desconfio de que sua irmzinha esteja perigosamente anmica. 
E por estar anmica,  suscetvel a uma infinidade de infeces. Sua presso arterial est perigosamente baixa. E existe algum fator fugidio que no consegui
identificar. Portanto, amanh Carrie
#13
ser internada num hospital, quer vocs chamem ou no seus pais, e tratem de
empenhar seus valiosos relgios para pagar pela vida dela. Agora... se a internarmos no hospital esta noite, podemos comear os exames amanh cedo.
     - Faa o que julgar necessrio - disse Chris num tom inexpressivo.
     - Espere um minuto! - gritei, erguendo-me de um salto e chegando  mesa do mdico. - Meu irmo no lhe contou tudo!
     Lancei por cima do ombro um olhar duro a Chris, enquanto ele me fixava com a feroz expresso que me proibia revelar toda a verdade. Pensei amargamente: No 
se preocupe, protegerei o mximo possvel nossa preciosa me!
     Creio que Chris percebeu, pois vieram-lhe lgrimas aos olhos. Oh! quanto aquela mulher fizera para mago-lo, para ferir todos ns, e ele ainda conseguia chorar 
por ela! Suas lgrimas arrancaram-me lgrimas do corao -
no por ela, mas por ele, que a amava tanto, e por mim, que o amava tanto -, lgrimas por tudo o que havamos compartilhado e sofrido...
     Ele meneou a cabea como se concordasse e me mandasse prosseguir. Ento, comecei a contar ao mdico o que lhe deve ter parecido uma estria inacreditvel. A 
princpio, percebi que ele julgava que eu estava mentindo ou, ao menos, exagerando. Por que todos os dias os jornais publicavam as
coisas horrveis que pais amorosos faziam aos filhos?
     ... E assim, depois que Papai morreu naquele acidente, Mame veio contar-nos
que estava muito endividada e no tinha meios de ganhar o sustento de ns cinco. Comeou a escrever cartas aos pais, que moravam na Virgnia. No incio, eles no 
responderam; afinal, certo dia, chegou uma carta. Ela nos disse que os pais moravam numa bela manso luxuosa, na Virgnia, e eram fabulosamente ricos; todavia, ela 
se casara com um meio-tio e fora deserdada. Agora, amos perder tudo o que possuamos. Tivemos que deixar nossas bicicletas na garagem e ela nem mesmo nos deu tempo 
de nos
despedirmos dos amigos. Naquela mesma manh,  partimos de trem para as montanhas Blue Ridge.
     - Estvamos felizes por irmos morar numa bela manso luxuosa, mas no muito alegres por termos que enfrentar um av que nos parecia cruel. Nossa me nos disse 
que precisaramos permanecer escondidos at que ela recuperasse a afeio do pai. Mame afirmou que seria apenas uma noite; talvez duas ou trs, no mximo. Ento, 
poderamos descer para conhecermos o pai dela. Ele
estava morrendo de uma doena cardaca e nunca subia escadas, de modo que estaramos seguros l em cima desde que no fizssemos
muito barulho. Ento, nossa av permitiu que usssemos o sto para brincar. Era enorme - e sujo, cheio de aranhas, camundongos e insetos. E era l que brincvamos 
at que Mame conseguisse recuperar a boa vontade do pai e pudssemos descer e comear a gozar a vida de crianas ricas. Todavia, logo
descobrimos que nosso av jamais perdoaria Mame por ter-se casado com o meio-irmo dele e que permaneceramos "frutos do Demnio". Teramos que viver l em cima 
at que ele morresse!
#14
     A despeito da expresso de dolorida incredulidade nos olhos do mdico, prossegui:
     - Como se no fosse bastante ruim vivermos trancados num quarto, com o sto
servindo de playground, logo descobrimos que nossa av tambm nos odiava! Ela nos deu uma longa lista do que podamos e no podamos
fazer. Jamais deveramos espiar pelas janelas ou mesmo abriras pesadas cortinas para deixar entrar alguma luz.
     - A princpio, as refeies que nossa av nos levava numa cesta de piquenique eram razoveis, mas pioraram at constarem apenas de sanduches, salada de batatas 
e galinha frita. Nunca tnhamos sobremesa, pois estragaria nossos dentes e no podamos ir ao dentista. Naturalmente, quando chegavam
nossos aniversrios, Mame contrabandeava sorvetes e um bolo de padaria, alm de dar-nos muitos presentes. Oh! Pode apostar que ela nos comprava de tudo para compensar 
o que nos fazia - como se livros, jogos e brinquedos pudessem compensar tudo o que estvamos perdendo: nossa sade, a confiana
em ns mesmos. E, pior que tudo, comeamos a perder a confiana nela!
     - Chegou um ano novo e, naquele vero, Mame nem mesmo nos visitou! Ento, tornou a aparecer em outubro para dizer-nos que se casara pela segunda vez e passara 
o vero viajando pela Europa em lua-de-mel! Tive mpetos de mat-la! Ela devia ter-nos contado, mas partira sem uma palavra de explicao! Trouxe-nos presentes caros, 
roupas que no se ajustavam, imaginando que isso nos compensava por tudo, quando, na verdade, no compensava nada! Afinal, consegui convencer Chris de que precisvamos
encontrar uma maneira de fugir daquela casa e esquecer a herana da fortuna. Chris no
queria fugir, pois julgava que nosso av podia morrer de um dia para outro e ele queria ir para a universidade cursar a faculdade de medicina, tornando-se mdico 
- como o senhor.
     - Um mdico como eu... - disse o Dr. Sheffield, suspirando, os olhos cheios
de simpatia e toldados por algo mais sombrio. -  uma estria estranha, Cathy, difcil de acreditar.
     - Espere um minuto! - exclamei. - Ainda no terminei. No lhe contei o pior! Nosso av morreu e incluiu nossa me no  testamento, para que ela herdasse a imensa 
fortuna - mas acrescentou um codicilo estipulando que ela jamais poderia ter filhos. Se algum dia ficasse provado que ela tivera filhos do primeiro casamento, seria 
obrigada a abrir mo da herana e de tudo o que tivesse comprado com aquele dinheiro!
     Fiz uma pausa. Lancei um olhar a Chris, que permanecia sentado, parecendo muito plido e fraco, fitando-me com olhos magoados e suplicantes. Mas ele no precisava 
preocupar-se; eu no pretendia falar de Cory. Virei-me novamente para o mdico:
     - Agora, quanto ao misterioso e fugidio fator que o senhor no consegue identificar - o mal que aflige Carrie, fazendo-a vomitar e a ns tambm, s vezes, na 
verdade,  muito simples. Compreenda: quando nossa me percebeu que jamais poderia reconhecer-nos como filhos e, ao mesmo tempo, conservar a
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herana, resolveu livrar-se de ns. A av comeou a colocar rosquinhas aucaradas na cesta de comida. E ns praticamente as devorvamos, sem saber que estavam cobertas 
de arsnico.
     Portanto, eu revelara.
     Rosquinhas envenenadas para adoar nossos dias de priso, enquanto saamos
furtivamente do quarto usando a chave de madeira fabricada por Chris. Dia a dia, durante nove meses, enquanto nos esgueirvamos at o grandioso apartamento de nossa 
me e surrupivamos todas as notas de um e de cinco dlares que podamos encontrar. Ao longo de quase um ano, percorremos os corredores compridos e escuros, entrando 
no quarto dela para roubar quanto dinheiro pudssemos.
     - Naquele nico quarto trancado, Doutor, ns vivemos trs anos, quatro meses e dezesseis dias.
     Quando terminei minha longa estria, o mdico ficou muito calado, fitando-me com compaixo, choque e preocupao.
     - Como v, Doutor - disse eu, para concluir -, o senhor no nos pode obrigar
a procurar a polcia e contar nossa estria! Talvez jogassem a av e nossa me numa cela, mas ns tambm sofreramos! No s pela publicidade, mas por nos separarem. 
Mandar-nos-iam para lares adotivos, ou nos
colocariam sob a custdia de um tribunal - e juramos permanecer juntos para sempre!
     Chris fitava o cho. Falou sem erguer os olhos.
     - Cuide de nossa irm. Faa o que for necessrio para cur-la. Cathy e eu
daremos um jeito de saldar nossas  obrigaes.
     - Calma, Chris - disse o mdico, com seu jeito vagaroso e paciente. - Voc e Cathy tambm ingeriram arsnico e tero que passar por alguns dos mesmos exames 
a que ser submetida Carrie por minha ordem. Olhe s para vocs dois: magros, plidos, debilitados. Necessitam de boa alimentao, repouso, muito ar livre e sol. 
Talvez eu possa fazer algo para ajudar.
     -  um estranho para ns, senhor - disse Chris num tom respeitoso. - E no esperamos ou queremos a piedade ou caridade de ningum. Cathy e eu no estamos to 
doentes ou debilitados. Carrie  a mais afetada.
     Cheia de indignao, girei nos calcanhares para olhar Chris com expresso furiosa. Seramos imbecis se rejeitssemos a ajuda daquele homem bondoso s para salvar 
um pouco de nosso orgulho que tantas derrotas sofrera no passado. Que diferena poderia fazer mais uma vez?
     - ... Sim - continuou o mdico, como se eu e Chris j tivssemos concordado com sua generosa proposta de auxlio. - As despesas no so to elevadas para um 
paciente de "fora" quanto para um internado - no h dirias a pagar. Agora, escutem bem:  apenas uma sugesto, que vocs tm liberdade
para recusar e viajar para onde bem entenderem... A propsito, para onde esto indo?
     - Para Sarasota, na Flrida - disse Chris, em tom dbil. - Cathy e eu costumvamos balanar-nos nas cordas quando estvamos no sto, de modo que imaginamos 
poder tornar-nos acrobatas, com alguma prtica.
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     Parecia tolice ouvi-lo dizer aquilo em voz alta. Esperei que o mdico risse, mas no O fez. Simplesmente pareceu ainda mais entristecido.
     - Francamente, Chris, eu detestaria ver voc e Cathy arriscarem a vida dessa
maneira e, como mdico, creio que no devo permitir que partam nas condies em que se encontram. Tudo em minha tica pessoal e profissional me impede de deix-los 
partir sem o tratamento mdico adequado. O bom senso me aconselha a manter-me distante e no dar a mnima importncia ao que acontece com trs garotos sozinhos. 
Pelo que sei, essa estria horrenda talvez no passe de um
monte de mentiras destinadas a captar minha simpatia - o Dr. Sheffield sorriu  bondosamente para atenuar a rudeza das palavras. - No obstante, minha intuio me 
induz a acreditar no que me contaram. Suas roupas caras, os relgios e os sapatos de tnis, a palidez da pele e a expresso assediada do olhar , tudo isso testemunha 
em favor da verdade.
     Sua voz era impressionante, hipntica, suave e melodiosa, com um leve sotaque sulino.
     - Vamos - insistiu ela, encantando-me, seno a Chris. - Esqueam o orgulho e a caridade. Venham morar em minha casa de doze cmodos solitrios. Deus deve ter 
colocado Henrietta naquele nibus para conduzi-los a
mim. Henny  uma excelente trabalhadora e mantm a casa imaculada, mas reclama constantemente de que doze quartos e quatro banheiros so demais para uma mulher cuidar 
sozinha. L atrs, tenho dois hectares de jardins. Pago dois jardineiros para ajudarem, pois no posso dedicar   jardinagem todo o tempo necessrio.
     Nesse ponto, ele fixou diretamente em Chris os olhos brilhantes.
     - Voc pode ajudar a pagar a hospedagem aparando os gramados, podando as sebes, preparando os canteiros para o inverno. Cathy pode cuidar da casa.
     Lanou-me um olhar indagador e brincalho, os olhos faiscando.
     - Sabe cozinhar?
     Cozinhar? Estaria ele brincando? Passramos mais de trs anos trancados
naquele quarto do ltimo andar e nem mesmo tnhamos uma torradeira para esquentar o po de manh, nem manteiga ou margarina.
     - No! - repliquei com rispidez. - No sei cozinhar. Sou bailarina. Quando me tornar uma prima ballerina famosa, contratarei uma cozinheira, como o senhor faz. 
No quero ficar prisioneira na cozinha de um homem, lavando loua para ele, tendo seus filhos, preparando sua comida! Isso no  para mim.
     - Compreendo - disse ele, com o rosto inexpressivo.
     - No quero parecer ingrata - expliquei. - Farei o possvel para ajudar a Sra.
Beech. At mesmo aprenderei a cozinhar para ela... e para o senhor.
     - timo - disse ele, os olhos risonhos lanando fascas, sorrindo ao apoiar o queixo nas mos. - Voc vai ser uma prima ballerina e Chris um mdico famoso - 
e vo conseguir tudo isso fugindo para a Flrida e trabalhando num circo? Naturalmente, perteno a uma gerao mais inspida e no
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consigo acompanhar-lhes o raciocnio. Isso faz realmente algum sentido para vocs?
     Agora, que estvamos longe do quarto trancado e do sto,  forte luz da
realidade, no - aquilo no fazia sentido; parecia mais uma fantasia tola, infantil e afastada da realidade.
     - Entendem que seriam obrigados a enfrentar acrobatas profissionais? - indagou o mdico. - Teriam que competir com pessoas treinadas desde a infncia, descendentes 
de longas linhagens de artistas circenses. No seria fcil. Ainda assim, admito que exista algo nesses olhos azuis que me diz que vocs so dois jovens muito decididos 
e no h dvida de que conseguiro tudo o que desejarem, desde que realmente desejem muito. Contudo, e a escola? E quanto a Carrie? O que far ela enquanto vocs 
dois ficam pendurados nos trapzios? No precisam responder - interps rapidamente, quando meus lbios se entreabriram para falar. - Tenho certeza de que apresentaro 
argumentos para convencer-me, mas devo dissuadi-los. Em
primeiro lugar; precisam de cuidar da prpria sade e de Carrie. A qualquer
momento, um de vocs dois pode adoecer to repentinamente quanto Carrie e ficar to mal quanto ela. Afinal, no viviam os trs juntos nas mais miserveis condies?
     Ns quatro, no trs, sussurrou uma voz aos meus ouvidos. Mas no mencionei Cory.
     - Se falou srio a respeito de acolher-nos enquanto Carrie se recupera, ficamos extremamente gratos - disse Chris, com os olhos brilhando de desconfiana. - 
Trabalharemos com afinco e, quando pudermos, partiremos depois de pagar-lhe cada centavo que o senhor gastar conosco.
     - Falei srio. E no precisam pagar-me, exceto trabalhando na casa e no jardim. Portanto, como podem ver, no se trata de piedade ou caridade, mas apenas de 
um acerto comercial em benefcio de todos.

Um Novo Lar

     Foi assim que comeou. Ingressamos tranqilamente na casa do Doutor e em sua
vida. Ns o encampamos, compreendo agora. Tornamo-nos importantes para ele, como se nunca tivesse vivido antes de nossa chegada;
isto eu tambm entendo agora. Ele dava a impresso de que lhe fazamos um favor ao alivi-lo de uma vida solitria e enfadonha com nossa presena juvenil. Fazia-nos 
sentir que ns ramos generosos ao compartilhar de sua vida - oh! desejvamos tanto acreditar em algum!
     Ele destinou a Carrie e a mim um quarto grandioso, com duas camas gmeas e quatro altas janelas voltadas para o sul, duas janelas para leste e oeste.
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Chris e eu olhvamos com uma terrvel mgoa dividida entre ns. Pela primeira vez h tanto tempo dormiramos em quartos diferentes. Eu no queria afastar-me dele 
e enfrentar a noite sozinha com Carrie, a quem eu nunca poderia proteger como ele protegia. Creio que nosso mdico pressentiu algo
que o aconselhou a deixar-nos a ss, pois pediu licena e afastou-se na direo da outra extremidade do corredor. S ento Chris falou:
     - Precisamos tomar cuidado, Cathy. No queremos que ele desconfie...
     - No h o que desconfiar. Tudo est acabado - repliquei, mas no o encarei,
adivinhando mesmo ento que jamais acabaria.
Oh! Mame! veja o que voc comeou ao colocar-nos, os quatro, num nico quarto trancado e deixar-nos crescer J dentro, sabendo como seria! Voc, dentre todas as 
pessoas neste mundo, deveria saber!
     - No - sussurrou Chris. - D-me um beijo de boa-noite. No haver percevejos em nossas camas.
     Ele me beijou, eu o beijei, dissemo-nos boa-noite e isto foi tudo. Com lgrimas nos olhos, observei meu irmo recuar ao longo do corredor, ainda olhando para 
mim.
     Em nosso quarto, Carrie gritou bem alto:
     - No consigo dormir numa caminha pequena s para mim! - chorou. - Vou cair da cama? Cathy, por que esta cama  to pequena?
     Tudo terminou com a volta do mdico e Chris ao quarto, retirando a mesinha de cabeceira que separava as camas. Ento, juntaram as duas camas de solteiro, que 
passaram a parecer uma larga cama de casal. Isto agradou imensamente a Carrie, mas, com o passar das noites, a fenda entre as duas
camas foi-se alargando cada vez mais at que eu, que tinha sono agitado, acabei por acordar com uma perna e um brao enfiados na brecha, arrastando Carrie comigo 
para o cho.
     Adorei o quarto que Paul reservara para ns. Era lindo, com papel de parede azul claro e cortinas combinando no mesmo tom. O tapete era azul, tambm. Cada uma 
de ns tinha uma poltrona com almofadas amarelo-limo e todos os mveis eram brancos, em estilo antigo. Nada sombrio. Nenhuma
gravura do inferno nas paredes. Todo o inferno que eu tinha estava na mente, por recordar demais o passado. Mame poderia ter encontrado outra soluo, se realmente 
desejasse! No precisava trancar-nos naquele quarto! Foi ambio, avareza, aquela maldita herana... e Cory estava sepultado por
causa da fraqueza de Mame!
     - Esquea, Cathy - disse Chris, quando nos despedimos outra vez.
     Eu sentia um medo horrvel de contar-lhe o que suspeitava. Baixei a cabea, colando-a ao seu peito.
     - Chris, cometemos um pecado, no foi?
     - No acontecer novamente - replicou ele.
     Em seguida, afastou-se de mim e saiu quase correndo pelo corredor, como se eu o perseguisse. Eu desejava levar uma vida boa, sem magoar ningum - especialmente 
Chris. Mesmo assim, tive que levantar-me da cama e
#19
ir para junto de Chris. Enquanto ele dormia, esgueirei-me para a cama, deitando-me a seu lado. Chris acordou ao ouvir o rangido das molas da cama.
     - Cathy, que diabo est fazendo aqui?
     - Est chovendo l fora - sussurrei. - Deixe-me ficar deitada perto de voc um momento. Depois, irei embora.
     Nenhum de ns dois se mexeu, ou mesmo ousou respirar. Ento, sem que chegssemos a perceber como aconteceu, estvamos abraados e ele me beijava. Beijos to 
ardentes e fervorosos que me obrigaram a corresponder, embora no quisesse. Era mau e pecaminoso! Mesmo assim, eu no queria que Chris
parasse. A mulher adormecida dentro de mim despertou e assumiu o comando, desejando o que Chris sentia que precisava ter; e eu, a parte pensante, calculista, empurrei-o 
para longe de mim.
     - Que est fazendo? Pensei que voc tivesse dito que isto nunca mais aconteceria.
     - Voc veio... - disse ele, engasgado.
     - No para isto!
     - De que acha voc que sou feito? De ao? Cathy, no torne a fazer isto.
     Voltei para meu quarto e chorei na cama, pois ele estava na outra extremidade do corredor e no perto de mim, para acordar-me se eu tivesse um pesadelo. Ningum 
para me reconfortar. Ningum para me dar foras. Ento, as palavras de minha me voltaram a perseguir-me com uma idia horrvel: seria
eu to igual a ela? Crescera para ser uma mulher fraca, do tipo parasita, que necessita sempre de um homem para proteg-la? No! Eu era auto-suficiente!
     Creio que foi no dia seguinte que o Dr. Paul me trouxe quatro quadros para pendurar no quarto. Bailarinas em quatro posies diferentes. Para Carrie, ele trouxe 
uma jarra de vidro fosco cheia de delicadas violetas plsticas. J tomara conhecimento da paixo de Carrie por roxo e vermelho.
     - Faam o que quiserem para deixar o quarto a seu gosto - disse ele. - Se no gostam das cores, mudaremos tudo na primavera.
     Fitei-o, espantada. Na primavera no mais estaramos ali.
     Carrie ficou sentada, segurando sua jarra de violetas, enquanto eu me obriguei a dizer o que devia.
     - Dr. Paul, no estaremos mais aqui na primavera, de modo que no nos podemos dar ao luxo de nos apegarmos demais aos quartos que o senhor nos destinou.
     Ele estava junto  porta, prestes a sair, mas parou e virou-se para me olhar. Era alto, com um metro e oitenta e cinco, ou mais; tinha ombros to largos que 
quase ocupavam toda a porta.
     - Julguei que gostassem daqui - disse num tom tristonho, os olhos escuros desolados.
     - Eu gosto daqui! - respondi depressa. -Todos ns gostamos daqui, mas no devemos abusar para sempre da sua bondade.
     Ele meneou a cabea, sem responder, e saiu. Virei-me e percebi que Carrie me
fitava com uma boa dose de animosidade.
#20
     O Doutor levava diariamente Carrie consigo ao hospital. No incio, ela
chorava e se recusava a ir a menos que eu a acompanhasse. Inventava estrias fantsticas a respeito do que lhe faziam no hospital e reclamava da quantidade de perguntas 
que lhe faziam.
     - Carrie, voc bem sabe que nunca mentimos. Ns trs sempre dizemos a verdade uns aos outros - mas no contamos a todo mundo nossa vida naquele quarto. Entendeu?
     Ela me encarou com os grandes olhos assustados.
     - No contei a ningum que Cory foi embora para o cu e me abandonou. No
contei a ningum, a no ser ao Dr. Paul.
     - Contou a ele?
     - No pude deixar de contar, Cathy - disse Carrie, enterrando o rosto no
travesseiro e comeando a chorar.
     Portanto, agora o Dr. Paul sabia a respeito de Cory e de como este morrera
no hospital, supostamente de pneumonia. Seus olhos estavam cheios de profunda tristeza naquela noite, quando ele interrogou Chris e a mim, desejando conhecer todos 
os detalhes da doena de Cory, que resultara em sua
morte.
     Chris e eu estvamos aconchegados um de encontro ao outro no sof da sala de visitas quando Paul disse:
     - Fico muito feliz por comunicar-lhes que o arsnico no causou qualquer dano permanente aos rgos de Carrie, como temamos a princpio. Ora, no fiquem assim. 
No revelei o segredo de vocs, mas tive que dizer aos tcnicos do laboratrio o que deveriam pesquisar. Inventei uma estria a
respeito de vocs terem ingerido o veneno acidentalmente; disse tambm que seus pais
eram meus amigos e que eu estava pensando seriamente em assumir a responsabilidade legal de tutor de todos trs.
     - Carrie ficar boa? - sussurrei, sufocada de alvio.
     - Sim, ela ficar boa - desde que no se pendure em trapzios - respondeu ele com um sorriso. - Marquei hora para vocs dois serem examinados amanh - por mim 
- a menos que tenham alguma objeo.
     Oh! Eu tinha objees! No estava disposta a despir-me e permitir que ele me
apalpasse, mesmo que houvesse uma enfermeira na sala. Chris me afirmara ser tolice pensar que um mdico de quarenta anos tivesse algum prazer ertico ao olhar para 
uma garota da minha idade. Mas, ao fazer tal afirmativa, estava olhando para o outro lado. Portanto, como poderia eu saber o que ele realmente pensava a respeito? 
Talvez Chris tivesse razo, pois quando fiquei deitada na mesa de exames, nua e coberta com um roupo de papel, o Dr. Paul no parecia o mesmo homem que me olhava 
quando estvamos na parte
residencial da casa. Fez comigo o mesmo que fizera com Carrie, mas insistiu num nmero ainda maior de perguntas. Perguntas embaraosas. 
     - J ficou sem menstruao por mais de dois meses?
     - Na verdade, nunca fui regular! Comecei aos doze anos e duas vezes fiquei sem menstruao de trs a seis meses. Preocupava-me com isso, mas Chris leu
a respeito num dos livros de medicina que Mame comprara para ele e me explicou que excesso de ansiedades e de tenses podem acarretar essa irregularidade. O senhor 
no
#21
acha... quero dizer... no h nada errado comigo, no ?
     - No que eu possa perceber. Voc me parece bastante normal. Apenas magra demais, muito plida e ligeiramente anmica. Chris tambm, embora, por ser do sexo 
masculino, menos que voc. Vou receitar vitaminas especiais para todos trs.
     Fiquei aliviada quando tudo terminou e pude vestir-me e escapar daquele consultrio onde as mulheres que trabalhavam para o Dr. Paul me olhavam de modo to 
esquisito.
Corri de volta  cozinha. A Sra. Beech estava preparando o jantar. Seu sorriso brilhou amplamente quando entrei, iluminando a cara de lua coberta por uma pele to 
negra e lisa como borracha lubrificada. Os dentes que ela exibia eram os mais alvos e perfeitos que eu j vira.
     - Puxa vida! Graas a Deus, terminou! - exclamei, deixando-me cair numa cadeira e pegando uma faca para descascar batatas. - No gosto de ter mdicos me cutucando. 
Gosto mais do Dr. Paul quando ele  apenas um homem como os outros. Quando ele veste aquele comprido avental branco, parece
colocar tambm uma viseira sobre os olhos. Ento, no posso perceber o que est pensando. E sou muito boa leitora de olhares, Sra. Beech.
     Ela sorriu para mim com fingida malcia e tirou um bloquinho cor-de-rosa do grande bolso quadrado do avental branco engomado. Com o avental amarrado em torno 
do corpo, parecia mais um acolchoado de penas de ganso
enrolado, vagando mudamente de um lado para outro. A essa altura, eu j sabia que ela sofria de mudez congnita. Embora estivesse procurando ensinar-nos sua linguagem 
de mmica, nenhum de ns ainda aprendera o
suficiente para conversar com rapidez. Creio que eu gostava demais dos bilhetes que ela redigia - escritos com a rapidez do raio, num estilo muito abreviado.
     "O Doutor diz que jovens precisam de muitas frutas e legumes frescos, bastante carne magra, mas devagar com amidos e sobremesas. Quer que ganhem msculos e 
no banha".
     J havamos ganho um pouco de peso nas duas semanas em que comemos os deliciosos quitutes da Sra. Beech - at mesmo Carrie, que era to malditamente cheia de 
no-me-
-toques. Agora, comia com entusiasmo, o que era algo notvel para uma criana como ela. Ento, enquanto eu continuava a descascar as batatas, a Sra. Beech redigiu 
outro bilhete, quando seus sinais fracassaram em mais uma
tentativa de comunicao.
     "Menina-Fada, de agora em diante sou apenas Henny. Nada de Sra. Beech"
     Ela era a primeira pessoa de cor que eu conhecera e, embora a princpio eu me sentisse pouco  vontade e levemente temerosa em sua presena, duas semanas de 
intimidade me haviam ensinado muito. Tratava-se apenas de um ser humano de outra raa e cor diferente, com as mesmas  sensibilidades, esperanas e temores que todos 
ns.
     Eu adorava Henny, seus largos sorrisos, seus amplos e esvoaantes vestidos estampados com flores de cores berrantes, e, acima de tudo, adorava a sabedoria que 
suas
#22
pequenas folhas de papel colorido transmitiam. Eventualmente, aprendi a
compreender sua linguagem de mmica, embora nunca me tenha aperfeioado nela tanto quanto "o filho mdico" de Henny.
     Paul Scott Sheffield era um homem estranho. Freqentemente parecia triste
quando no havia motivo aparente para entristecer-se. Ento, sorria:
     - Sim, Deus prestou um grande favor a Henny e a mim quando colocou vocs trs naquele nibus. Perdi uma famlia, chorei muito por ela, mas o destino foi muito 
bondoso ao enviar-me outra famlia, feita sob medida.
     - Chris - disse eu naquela noite, quando nos separamos com relutncia. - Quando vivamos trancados, voc era o homem, o chefe da casa... s vezes sinto uma 
coisa esquisita ao ver o Dr. Paul por perto, observando o que fazemos e escutando o que dizemos.
     Chris corou.
     - Eu sei; ele est tomando meu lugar. Para ser sincero, - aqui ele fez uma breve pausa e ficou ainda mais vermelho - no me agrada v-lo tomar meu lugar em 
sua vida, Cathy, mas sou muito grato pelo que ele fez em favor de Carrie.
     De certo modo, tudo o que nosso "doutor" fizera por ns tornava Mame mil vezes pior. Dez mil vezes pior!
     O dia seguinte foi aniversrio de Chris; jamais conseguirei esquecer. Surpreendi-me ao verificar que o mdico planejara uma festa com muitos presentes timos, 
que trouxeram um novo brilho aos olhos de Chris, mas logo os toldaram com o sentimento de culpa que nos dominava. J tnhamos aceitado
demais. J fazamos planos para partir dentro em breve. Simplesmente no podamos permanecer, aproveitando-nos da bondade do Dr. Paul, agora que Carrie j estava 
bem e podia viajar.
     Depois da festa, Chris e eu nos sentamos na varanda dos fundos, ruminando o assunto. Um olhar ao rosto de meu irmo bastou-me para perceber que ele no desejava 
abandonar o nico homem que podia e haveria de ajud-lo a alcanar seu objetivo de formar-se em medicina.
     - Realmente no me agrada o modo como ele no pra de olhar voc, Cathy. O olhar dele a acompanha por toda parte. Aqui est voc, to disponvel, e homens da 
idade dele acham garotas da sua idade irresistveis.
     Era mesmo? Que fascinante saber disso!
     - Mas os mdicos tm muitas enfermeiras a seu dispor - respondi sem muita convico, sabendo que seria capaz de qualquer coisa, menos matar algum, para ver 
Chris atingir seu objetivo. - Lembra-se do dia em que aqui
chegamos? Ele falou no tipo de competio que enfrentaramos no circo. E est com a razo, Chris: no podemos trabalhar num circo. Isso no passa de um sonho tolo.
     Chris franziu a testa, fitando o espao.
     - Sei de tudo isso.
     - Chris, ele  apenas solitrio. Talvez olhe para mim apenas porque no tem algo mais interessante para observar.
#23
     No obstante, fascinava-me saber que homens de quarenta anos eram suscetveis aos encantos de garotas de quinze. Como era maravilhoso exercer sobre eles o mesmo 
poder que minha me!
     - Chris, se o Dr. Paul disser a coisa certa... quero dizer, se ele real e
sinceramente nos quiser aqui, voc ficar?
     Ainda com a testa franzida, ele olhou para as sebes que aparara to recentemente. Depois de refletir bastante, respondeu devagar:
     - Vamos test-lo. Se lhe dissermos que vamos partir e ele no levantar objees, ser um modo delicado de nos dar conhecimento de que realmente no se importa.
     - Acha justo test-lo dessa maneira?
     - Sim.  uma tima forma de dar-lhe a oportunidade de livrar-se de ns sem sentir remorsos. Voc sabe, gente como ele muitas vezes pratica boas aes porque 
se acha no dever disso e no porque realmente deseja agir assim.
     - Oh!...
     No ramos dados a procrastinar. Na noite seguinte, depois do jantar, o Dr. Paul veio juntar-se a ns na varanda dos fundos. Eu j o chamava simplesmente de 
Paul em meus pensamentos, tornando-me ntima, gostando dele cada vez mais por mostrar-se to naturalmente elegante, limpo, educado, ao
sentar-se na predileta cadeira de balano de vime pintada de branco, usando um suter vermelho tricotado  mo, calas esporte cinzentas, e tirando baforadas sonhadoras 
do cigarro. Ns trs tambm usvamos suteres, pois a noite estava fria. Chris sentou-se a meu lado, empoleirado na balaustrada,
enquanto Carrie permanecia agachada no ltimo degrau da escada. Os jardins de Paul
eram fabulosos. Rasos degraus de mrmore, com trs metros de largura, levavam a um nvel inferior, de onde outros degraus subiam para um local mais elevado. Havia 
uma pequena ponte japonesa laqueada de vermelho,
arqueando-se sobre um pequeno riacho. Esttuas de mulheres e homens nus colocadas
a esmo davam aos jardins uma atmosfera de seduo, de sensualidade. Eram nus clssicos, graciosos e em poses elegantes, mas, ainda assim... ainda assim... eu sabia 
muito bem para que servia aquele jardim, pois j estivera ali muitas vezes, anteriormente, em meus sonhos.
     Enquanto o vento se tornava mais frio e comeava a soprar as folhas mortas de um lado para outro, o mdico nos contou que viajava para o exterior em anos alternados, 
a fim de procurar as lindas esttuas de mrmore e despach-las para casa, aumentando a coleo. Na ltima vez, tivera a sorte
De encontrar uma cpia em tamanho natural de O Beijo, de Rodin.
     Suspirei com o vento. No desejava partir. Gostava de ficar ali com Paul, com Henny, com os jardins que me encantavam e faziam-me sentir fascinante, linda, 
desejvel. 
     - Portanto, todas as minhas rosas so de espcies antigas, que no tiveram o aroma deturpado pelos cruzamentos e enxertos - disse o Dr. Paul. - Para que ter 
rosas se no possurem perfume?
      luz esmaecida e purprea do crepsculo, seus olhos cintilantes encontraram os meus. Minhas pulsaes se aceleraram, obrigando-me a suspirar outra vez. Imaginei 
como teria
#24
sido a esposa de Paul e como seria sentir-se amada por algum como ele. Com um sentimento de culpa, desviei os olhos de seu olhar prolongado e perscrutador, temerosa 
de que ele percebesse meus pensamentos.
     - Parece perturbada, Cathy. Por qu?
     A pergunta parecia zombar de mim, como se ele j conhecesse meus segredos. Chris virou a cabea para lanar-me um duro olhar de advertncia.
     - Estava observando seu suter vermelho - respondi tolamente. - Foi Henny quem o fez?
     Paul riu baixinho, baixando os olhos para o belo suter.
     - No, no foi Henny. Minha irm mais velha o tricotou como presente de
aniversrio e o enviou pelo correio. Ela mora no outro lado da cidade.
     - Por que enviou o presente pelo correio, em vez de traz-lo pessoalmente? - perguntei. - E pior, por que no nos contou que fez aniversrio? Ns tambm lhe 
daramos presentes.
     - Bem - comeou ele, acomodando-se na cadeira e cruzando as pernas. - Meu aniversrio foi pouco antes de vocs chegarem. Fiz quarenta anos, caso Henny ainda 
no lhes tenha contado. Faz treze anos que estou vivo e minha irm, Amanda, no fala comigo desde o dia em que minha esposa e filho morreram num acidente.
     Sua voz foi sumindo aos poucos e ele fitou o espao com ar pensativo, solene, distante.
     Folhas mortas corriam pelo gramado, subiam pelo alpendre e vinham parar aos meus ps, como patinhos escuros e  essecados. Tudo aquilo me levou de volta a uma 
certa noite proibida, em que Chris e eu rezamos to desesperadamente, encolhidos nas telhas frias de ardsia, sob uma lua que parecia o
olho irado de Deus. Haveria um preo a pagar por apenas um terrvel pecado cometido? Haveria? A av se apressaria em responder: Sim! Vocs merecem o pior dos castigos! 
Filhos do Demnio, eu j sabia!
     E enquanto eu me debatia interiormente, Chris tomou a palavra:
     - Doutor, Cathy e eu estivemos conversando e achamos que agora, que Carrie j melhorou, devemos seguir nosso caminho. Agradecemos profundamente tudo o que o 
senhor fez por ns e pretendemos pagar-lhe cada centavo, embora isto talvez nos leve alguns anos...
     Os dedos de Chris apertaram os meus, prevenindo-me para no dizer algo
diferente:
     - Um momento, Chris - interrompeu o Dr. Paul, empertigando-se bruscamente na
cadeira e plantando solidamente os ps no cho. Era bvio que levava a srio a situao.
     - No julguem, por um segundo sequer, que eu no percebi que este momento estava prestes a chegar. Tenho temido cada amanhecer, receoso de acordar e verificar 
que vocs se foram.
     - Estive pesquisando as possibilidades de assumir a tutela de vocs trs. E verifiquei que no  to complicado quanto eu imaginava. Ao que parece, a maioria 
das crianas que fogem de casa alegam ser rfs, de modo que vocs precisam fornecer-me
#25
provas de que seu pai morreu realmente. Se ele estiver vivo, necessitarei do seu consentimento, bem como do de sua me.
     Sufoquei-me! O consentimento de minha me! Isso significava que teramos que v-la outra vez! Eu no a queria ver, nunca mais!
     Ele prosseguiu, com olhar suave ao perceber meu constrangimento:
     - O tribunal intimaria sua me a comparecer a uma audincia. Se ela residisse neste estado, teria que cumprir a intimao num prazo de trs dias, mas como mora 
na Virgnia ter prazo de trs semanas. Se ela no comparecer, ao invs de conceder-me a tutela temporria de vocs, o tribunal me garantir a tutela permanente 
- mas s se vocs estiverem dispostos a declarar que tenho feito um bom trabalho como seu guardio.
     - Tem sido maravilhoso! - exclamei. - Mas ela no vir! Se algum descobrir que existimos, ela perder toda aquela fortuna. Portanto, quer manter-nos em segredo! 
O marido tambm poderia ficar contra ela se soubesse que nos escondeu dele. Pode apostar o que quiser como conseguir a tutela
permanente, se assim desejar - e talvez termine arrependido disso!
     A mo de Chris apertou ainda mais a minha e Carrie ergueu os olhos grandes e
amedrontados.
     - Dentro de poucas semanas, chegar o Natal. Vo permitir que eu passe mais um feriado solitrio, sozinho nesta casa? J faz quase trs semanas que esto aqui 
e expliquei a todos que perguntaram, que vocs so filhos de um parente meu que faleceu h pouco tempo. No estou mergulhando s cegas nesta situao. Henny e eu 
pensamos muito sobre o assunto. Ela acha, assim como eu, que vocs so um grande benefcio para ns. Queremos ambos que vocs trs permaneam aqui. Ter gente jovem 
na casa faz com que esta se assemelhe mais a um verdadeiro lar. Sinto-me mais saudvel do que me sentia h
anos; e mais feliz, tambm. Desde a morte de minha esposa e filho, tenho sentido falta de uma famlia. Durante todo este tempo, nunca me acostumei novamente a ser 
solteiro - seu tom persuasivo tornou-se tristonho. - Sinto
que o destino quer que eu tenha a custdia de vocs. Sinto que Deus planejou a presena de Henny naquele nibus, a fim de que  pudesse traz-los para mim. E quando 
o destino se intromete e assume as decises, quem sou eu para recusar? Aceito o fato de que vocs trs so um auxlio enviado por Deus para que eu compense os erros 
que cometi no passado.
     Puxa! Enviados por Deus! Eu estava praticamente convencida. Sabia que as pessoas sempre conseguem encontrar a  motivao que justifique seus desejos;
oh! como eu sabia bem disso! Mesmo assim, as lgrimas me assomaram aos olhos quando fitei Chris numa interrogao muda. Ele enfrentou meu olhar e sacudiu a cabea, 
confuso, sem saber ao certo o que eu desejava. Sua mo apertou a minha como uma garra de ao enquanto ele disse, olhando para mim e no para o Dr. Paul:
     - Sentimos muito que tenha perdido a esposa e o filho, senhor. Mas no podemos substitu-los e no sei se estaramos agindo certo ao sobrecarreg-lo com as 
despesas de trs crianas que no so seus filhos.
     Ento, fitando o mdico diretamente nos olhos, acrescentou:
#26
     - E existe algo mais em que o senhor deve pensar; ser muito difcil conseguir outra esposa quando assumir nossa tutela.
     - No pretendo casar-me outra vez - disse o Dr. Paul num tom estranho, prosseguindo com ar abstrato: - Minha esposa se chamava Julia e meu filho Scotty. Tinha 
apenas trs anos quando morreu.
     - Oh! - sussurrei. - Como deve ser horrvel perder um filho to pequeno, alm da esposa, tambm.
     O evidente remorso e sofrimento do Dr. Paul me tocaram; eu sintonizava perfeitamente com os que sofriam.
     - Morreram num acidente, um acidente de automvel, como nosso pai? - indaguei.
     - Num acidente - respondeu ele bruscamente. - Mas no de automvel.
     - Nosso pai tinha apenas trinta e seis anos quando morreu; tnhamos preparado uma festa surpresa de aniversrio, com bolo, presentes... mas ele no chegou... 
apenas dois patrulheiros rodovirios...
     - Sim, Cathy - disse ele suavemente. - Voc me contou. Os anos de adolescncia no so fceis para ningum. Ser jovem e sozinho, sem instruo adequada, com 
pouco dinheiro, sem famlia, sem amigos...
     - Temos um ao outro - declarou Chris em tom firme, como se para test-lo ainda mais. - Portanto, nunca ficaremos verdadeiramente sozinhos.
     Paul prosseguiu:
     - Se no me querem e o que tenho para lhes oferecer no  o bastante, sigam para a Flrida com as minhas bnos. Jogue fora todas as longas horas que passou 
estudando, Chris, justamente quando est quase atingindo sua meta. E voc, Cathy, pode esquecer o sonho de tornar-se uma prima ballerina. E no julguem, por um segundo 
que seja, que ser uma vida saudvel e feliz para Carrie. No estou procurando persuadi-los a ficar, pois faro o que desejam
e o que tm de fazer. Portanto, decidam - ou ficam comigo e a oportunidade de realizarem suas aspiraes, ou partem para enfrentar um mundo cruel e desconhecido.
     Fiquei sentada na balaustrada, o mais perto possvel de Chris, minha mo na dele. Eu queria ficar. Queria o que o mdico poderia proporcionar a Chris, para 
no falar em Carrie e em mim.
     As brisas do sul continuavam a soprar, acariciando-me o rosto, sussurrando de modo mais que convincente que tudo daria certo. Eu podia escutar os movimentos 
de Henny na cozinha, preparando massa fresca para os pes que comeramos na manh seguinte, dourados com manteiga derretida. Manteiga era uma das coisas que nos 
tinham sido negadas e o luxo do qual Chris sentia
maior falta.
     Tudo ali me encantava: o ar, o brilho suave e clido nos olhos do mdico. At mesmo o barulho que Henny fazia com as panelas tinha um efeito mgico em meu corao 
que, de to sobrecarregado durante to longo tempo, comeou a parecer mais leve. Talvez a perfeio existisse fora dos contos de fadas. Talvez fssemos suficientemente 
bons para andar eretos e orgulhosos sob o cu azul criado por Deus;
#27
talvez no fssemos brotos contaminados, produzidos pela semente errada plantada em solo errado.
     E, mais do que tudo que o mdico dissera, mais do que insinuavam seus olhos cintilantes, creio que foram as roseiras ainda em flor, apesar de estarmos no inverno, 
que me provocaram uma sensao de tonteira com a avassaladora doura de seu perfume.
     Mas no fomos Chris e eu que decidimos. Foi Carrie. De repente, ergueu-se de um salto do ltimo degrau e voou para os braos estendidos do mdico. Jogou-se 
contra ele, enlaando-lhe o pescoo com os bracinhos magros.
     - No quero ir! Eu amo o senhor, Dr. Paul! - gritou, quase frentica. - No
quero nada de Flrida! No quero nada de circo! No quero ir para lugar nenhum!
     Ento, comeou a chorar, desabafando sua dor por causa de Cory, reprimida por tanto tempo. O Dr. Paul ergueu-a, segurando-a no colo, beijando-lhe o rosto molhado 
de lgrimas antes de usar o leno para enxug-las.
     - Eu tambm amo voc, Carrie. Sempre desejei uma garotinha de cachos dourados e grandes olhos azuis, como os seus.
     Mas ele no olhou para Carrie. Falou olhando para mim.
     - E quero ficar aqui para o Natal - soluou Carrie. - Nunca vi Papai Noel,
nem uma vez.
     Claro que vira, havia anos, quando nossos pais levaram os gmeos a uma grande loja de departamentos e Papai tirou uma fotografia dos dois no colo de Papai Noel. 
Mas talvez Carrie tivesse esquecido.
     Como era possvel um desconhecido entrar to facilmente em nossas vidas, dando-nos tanto amor, quando nossos prprios parentes consangneos tinham procurado 
dar-nos a morte?

A Segunda Oportunidade da Vida

     Carrie decidira. Ficamos. Mesmo que ela no tivesse decidido, ficaramos. Como poderamos deixar de faz-lo?
     Tentamos dar ao Dr. Paul o dinheiro que nos restava. Ele recusou:
     - Guardem o dinheiro para vocs. Tiveram muito trabalho para consegui-lo, no foi? E acho melhor saberem que j falei com meu advogado: ele redigir as peties 
para que sua me seja intimada a vir at Clairmont. Sei que vocs acreditam que ela no vir, mas nunca se pode ter certeza. Se eu tiver
a sorte de receber a custdia permanente de vocs, darei a cada um uma mesada, que ser dividida em parcelas semanais. Ningum consegue ficar livre e feliz sem algum 
dinheiro no bolso. A maioria de meus colegas d aos filhos adolescentes cinco dlares por semana. Trs dlares devem bastar para uma
menina da idade de Carrie.
#28
     O Dr. Paul tencionava comprar todas as nossas roupas e tudo o que precisssemos para freqentarmos a escola. S conseguimos fit-lo, boquiabertos, perplexos 
por ser ele to generoso conosco - outra vez.
     Poucos dias antes do Natal, ele nos levou a um centro comercial atapetado de vermelho; o teto era uma cpula de vidro; gente fervilhava por toda parte, enquanto 
o sistema de alto-falantes tocava msicas natalinas em estilo "pop". Era como um conto de fadas! Eu estava fascinada; o mesmo acontecia a Chris, Carrie e - ao nosso 
Doutor, cuja mo enorme segurava a minscula
mo de Carrie, enquanto eu e Chris andvamos de mos dadas. Percebi que ele nos observava, saboreando nossos olhares espantados. Ficamos encantados, atnitos, impressionados, 
desejando muitas coisas e temerosos de que ele, ao perceber, tentasse satisfazer todos os nossos anseios.
     Chegando ao departamento que vendia roupas para moas adolescentes, passei a
andar em crculos. Atordoada e esfusiada por tanta coisa, olhava isso e aquilo, incapaz de decidir o que comprar quando tudo era to bonito e eu jamais tivera anteriormente 
uma oportunidade de fazer compras para mim
mesma. Chris riu de minha indeciso.
     - V em frente - disse-me ele. - Agora que tem a oportunidade para vestir-se bem, experimente tudo que gostar.
     Eu sabia o que ele estava pensando, pois era meu costume reclamar de que Mame nunca comprava roupas que me cassem corretamente.
     Com extremo cuidado, selecionei parcimoniosamente as roupas que julguei
adequadas para a escola, cujas aulas se iniciariam, para ns, em janeiro. Alm disso, eu precisava de um casaco, sapatos de verdade, uma capa e chapu de chuva, 
bem como um guarda-chuva. Tudo que aquele homem generoso e bem intencionado me permitia comprar causava-me sentimento de culpa, como se nos estivssemos aproveitando 
dele.
     A fim de recompensar minha lentido e relutncia em comprar exageradamente, Paul declarou num tom impaciente:
     - Pelo amor de Deus, Cathy! No julgue que faremos compras assim todas as semanas. Quero que vocs faam hoje as compras para todo o inverno. Chris, enquanto 
terminamos aqui, corra ao departamento juvenil masculino e comece a escolher o que deseja. Enquanto voc faz isso, Cathy e eu podemos escolher para Carrie as roupas 
de que ela necessita.
     Percebi que todas as adolescentes na loja se voltavam a fim de olhar para meu irmo quando este se encaminhou ao departamento juvenil masculino.
     Afinal, seramos crianas normais. Ento, quando eu j comeava a me sentir relativamente segura, Carrie soltou um grito capaz de rachar todos os palcios de 
cristal em Londres! Seus berros abalaram as balconistas, assustaram os fregueses, e uma senhora esbarrou com o carrinho de beb
contra um manequim, que caiu fragorosamente. O beb no carrinho juntou seus berros aos gritos de Carrie!
     Chris veio correndo para ver quem tentava assassinar sua irmzinha. Esta se mantinha ereta, com os ps afastados um do outro, a cabea atirada para trs, lgrimas 
de frustrao escorrendo pelo rosto.
#29
     - Meu Deus! Que aconteceu agora? - indagou Chris, enquanto o nosso mdico
permanecia esttico, perplexo.
     Homens... o que sabiam eles, afinal? Obviamente, Carrie sentia-se injuriada pelos lindos vestidinhos em tons pastis que lhe apresentavam para aprovao. Roupas 
de bebs - eis o problema. Mesmo assim, todos eram grandes demais para ela e, alm disso, nenhum tinha cor vermelha ou roxa - estavam
absolutamente fora do estilo de Carrie!
     - Tentem no departamento de bebs - sugeriu a loura impiedosa e petulante, com o cabelo penteado em forma de casa de  marimbondos.
     Sorriu graciosamente para o nosso Doutor, que pareceu encabulado.
     Carrie tinha oito anos! A simples meno de "roupas de beb" era insultuosa! Ela franziu o rosto at parecer uma ameixa murcha.
     - No posso ir  escola com roupas de beb! - continuou a chorar, com o rosto comprimido em minha coxa e agarrando-se s minhas pernas. - Cathy, no me obrigue 
a usar vestidinhos rosa ou azuis de beb! Todo mundo vai zombar de mim! Sei que vi! Quero roxo, vermelho - nada de cores de bebs!
     O Dr. Paul procurou consol-la.
     - Querida, eu adoro garotas louras de olhos azuis com roupas em tons pastis. Portanto, por que no espera at crescer mais um pouco para usar cores brilhantes?
     Tom meloso como aquele era coisa que algum to teimoso quanto Carrie simplesmente no conseguia engolir. Seus olhos faiscaram e ela cerrou os punhos, preparando-se 
para desferir pontaps e aprontando as cordas vocais para berrar, quando uma senhora gorda que devia ter uma neta com o gnio de Carrie sugeriu calmamente que esta 
podia ter roupas feitas sob medida. Carrie hesitou, insegura, olhando alternadamente de mim para o Dr. Paul, depois de Chris para a balconista.
     - Uma soluo perfeita! - exclamou o Dr. Paul entusiasticamente, parecendo aliviado. - Vou comprar uma mquina de costura e Cathy poder fazer roupas roxas, 
vermelhas e azuis-brilhantes. Voc ficar arrazadora!
     - No quero ficar arrazadora! - quero apenas cores brilhantes.
     Carrie fez beicinho e eu fiquei boquiaberta. Eu era uma bailarina, no uma costureira! (Algo que no escapou  observao de Carrie).
     - Cathy no sabe fazer boas roupas - declarou ela. - Cathy s sabe danar. Quanta lealdade! A mim, que ensinara Cory e Carrie a escrever, com pouco auxlio 
por parte de Chris!
     - O que h com voc, Carrie? - indagou rispidamente Chris. - Porta-se como um beb. Cathy  capaz de fazer tudo o que lhe der na cabea - nunca se esquea disso!
     O mdico concordou prontamente. Permaneci calada enquanto fomos procurar uma mquina de costura eltrica.
     - Enquanto isso, porm, que tal comprarmos alguns vestidos amarelos, azuis e cor-de-rosa, hem, Carrie? - sorriu o Dr. Paul, com ar zombeteiro. - E Cathy poder 
#30
economizar-me muito dinheiro fazendo roupas para ela, tambm.
     A despeito da costura que eu teria de aprender, aquele dia foi celestial para ns. Voltamos para casa carregados de presentes, aps nos embelezarmos em barbeiros 
e sales de cabeleireiros. Cada um de ns usava sapatos novos, com solas de couro. Eu ganhara meu primeiro par de sandlias de salto alto e uma dzia de pares de 
meias de nylon! Minhas primeiras meias de nylon, meu
primeiro suti - e, alm de tudo isso, uma sacola de compras cheia de cosmticos! Eu levara uma eternidade para escolher os artigos de maquilagem, enquanto o Dr. 
Paul se mantinha de lado, observando-me com a mais estranha das expresses. Chris resmungara que eu no precisava de ruge ou batom, nem de sombra ou delineador, 
nem de base.
     - Voc nada sabe a respeito de ser uma garota - repliquei com ar de superioridade.
     Era minha primeira expedio para compras e - por Deus! - pretendia aproveitar-me ao mximo dela! Tinha que comprar tudo o que vira na fabulosa penteadeira 
de Mame. At mesmo o tipo de creme contra rugas que ela
usava, bem como um preparado de lama para firmeza da pele.
     Mal saltamos do carro e terminamos de descarregar os presentes, Chris, Carrie e eu corremos ao andar de cima para experimentarmos todas as nossas roupas novas. 
Engraado como anteriormente ganhvamos roupas novas com tanta facilidade e no nos sentamos to felizes como agora. Naquela poca, no havia ningum para apreci-las. 
No obstante, sendo eu o que era, lembrei-me de Mame quando vesti o vestido de veludo azul com minsculos botes na frente. Quanta ironia eu sentir vontade de chorar 
pela me que perdramos e a quem eu estava decidida a odiar para sempre! Sentei-me na beirada da cama e refleti sobre o assunto. Mame nos dava roupas novas, jogos 
e brinquedos, movida pelo remorso do que nos estava fazendo, privando-nos de
uma infncia normal. Uma infncia que jamais teramos oportunidade para recuperar. Anos perdidos, alguns dos melhores anos da vida - e Cory numa sepultura, sem roupas 
novas.
     O violo de Cory estava no canto, onde Carrie podia acordar e v-lo ao lado do banjo. Por que ramos sempre ns quem sofria? Por que no nossa me? Ento, tive 
uma sbita lembrana! Bart Winslow era da Carolina do Sul! Desci correndo  biblioteca do nosso mdico e tomei emprestado seu grande atlas geogrfico. Voltei correndo 
ao quarto e procurei o mapa da Carolina do
Sul. Encontrei Clairmont... mas mal acreditei em meus olhos ao verificar que
era uma cidade vizinha a Greenglenna! No, era coincidncia demais... ou no seria? Ergui os olhos e fitei o espao. Deus nos levara a morar ali, perto de Mame 
- se ela alguma vez visitasse a cidade natal do marido. Deus quisera dar-me a oportunidade de tambm causar sofrimento. To logo me fosse possvel, eu iria a Greenglenna 
colher todas as informaes disponveis a respeito
de Bart Winslow e sua famlia. Eu ganhava cinco dlares semanais - para fazer uma assinatura do jornal comunitrio que relatava todas as atividades sociais das pessoas 
ricas que residiam nas proximidades de Foxworth Hall.
#31
     Sim, eu fugira de Foxworth Hall, mas tomaria conhecimento de cada movimento
feito por nossa me; e, quando ela viesse  Carolina do Sul, eu saberia! Mais cedo ou mais tarde, Mame ouviria falar de mim e ficaria sabendo que eu nunca, jamais 
esqueceria ou perdoaria. De algum jeito ou maneira, ela sofreria dez vezes mais do que havamos sofrido!
     Tendo chegado a essa deciso, fiquei livre para juntar-me a Chris e Carrie na sala de visitas, a fim de desfilar todas as nossas roupas novas diante do Dr. 
Paul e de Henny. O sorriso de Henny brilhava como o sol de vero. Observei os olhos bonitos de nosso benfeitor e percebi neles uma sombra.
Olhava-nos com a testa franzida, pensativo, sem demonstrar admirao ou aprovao. De repente, levantou-se e saiu da sala, apresentando a esfarrapada desculpa de 
precisar tratar de alguns papis. 
     Logo Henny tornou-se minha mentora em todos os assuntos domsticos. Ensinou-me a fazer biscoitos, inclusive a massa, e tentou conseguir que eu fizesse pes 
leves e fofos.
Bum! O punho de Henny batia na massa. Ento, limpou a farinha de trigo das mos e rabiscou um bilhete:
     "A vista de Henny est fraca para enxergar coisas pequenas, como buracos de agulha. Voc tem boa vista. Pregue os botes que faltam nas camisas do filho mdico 
- est bem?"
     - Claro - concordei sem entusiasmo. -  Consigo enxergar buracos de agulha e tambm sei fazer tric, croch, bordado de crivo e de l. Minha me me ensinou a 
fazer todas essas coisas para manter-me ocupada.
     De repente, no consegui mais falar. Tive vontade de chorar. Vi o lindo rosto de minha me. Vi Papai. Vi Chris e eu quando crianas, correndo ao voltarmos da 
escola, entrando em casa com neve nos ombros e encontrando Mame a tricotar roupinhas de beb para os gmeos. No pude deixar de
encostar a testa no colo de Henny e chorar - chorar de verdade. Henny no podia falar, mas sua mo suave no meu ombro demonstrou que ela compreendia. Quando ergui 
os olhos, percebi que ela tambm chorava. Grandes lgrimas lhe escorriam pelo rosto, pingando no berrante vestido vermelho.
     - No chore, Henny. Ser um prazer pregar os botes nas camisas do Dr. Paul. Ele nos salvou a vida e no existe nada que eu no seja capaz de fazer por ele.
     Henny lanou-me um olhar estranho e depois foi buscar um monte de roupas para costurar e cerca de doze camisas nas quais faltavam botes.
     Chris passava cada momento disponvel em companhia do Dr. Paul, que lhe dava lies para que ele pudesse ingressar num curso especial de preparao para a faculdade 
de medicina, no meio do ano letivo. Carrie era nosso maior problema. Sabia ler e escrever, mas era muito franzina. Como se daria numa escola pblica, onde as crianas 
nem sempre so bondosas?
     - Pretendo matricular Carrie numa escola particular - explicou o nosso mdico. - Uma tima escola para meninas, dirigida por uma excelente equipe. J que fao 
parte da junta diretora, creio que Carrie receber uma ateno especial e no ser submetida a qualquer espcie de tenso.
#32
     Lanou-me um olhar significativo.
     Aquele era meu maior temor: que Carrie fosse ridicularizada e se sentisse envergonhada da cabea grande e do corpo mido. Em certa poca, Carrie fora to bem 
proporcionada, to perfeita. Todos aqueles anos perdidos, durante os quais o acesso ao sol nos fora negado, haviam-na tornado to franzina. Fora isso - eu tinha 
certeza!

     Eu sentia um medo mortal que Mame aparecesse no dia marcado para a audincia no tribunal. Contudo, tinha quase certeza de que ela no viria. Como poderia comparecer? 
Tinha muito a perder e nada a ganhar. Que ramos ns, seno pesadas cargas, difceis de suportar? Alm disso, havia a cadeia,
uma acusao de homicdio...
     Sentamo-nos muito calados ao lado de Paul, usando nossas melhores roupas para comparecer perante o juiz, e esperamos. Esperamos uma eternidade. Por dentro, 
eu parecia uma corda de violino, to esticada e tensa a ponto de estourar - e comear a chorar a qualquer momento. Ela no nos queria. Ao no aparecer, mostrava-nos 
mais uma vez quo pouco se importava conosco! O juiz nos olhou com grande piedade, fazendo-me sentir pena de todos ns - e muita
raiva dela! Oh! que ela fosse para o inferno! Trouxera-nos ao mundo, afirmava ter amado nosso pai! Como podia fazer isto com os filhos dele - seus prprios filhos? 
Que tipo de me era ela? Eu no queria a piedade
daquele juiz - nem a de Paul. Mantive a cabea erguida, mordendo a lngua para no gritar. Atrevi-me a olhar para Chris e vi-o sentado, o rosto inexpressivo, embora 
eu soubesse que seu corao se despedaava tanto quanto o meu. Carrie estava enroscada como uma bola no colo do mdico, que a
tranqilizava com carcias, murmurando-lhe algo ao ouvido. Creio que ele disse:
     - No importa, tudo est bem. Agora, vocs me tm por pai e Henny por me. Enquanto eu viver, nunca lhes faltar nada.
     Naquela noite, chorei. Molhei o travesseiro com lgrimas derramadas por uma
me que eu amara tanto a ponto de me causar dor lembrar os dias em que Papai ainda era vivo e a nossa vida no lar era perfeita. Chorei por todas as coisas boas que 
ela nos proporcionara naquela poca e, sobretudo, por todo o amor que ela nos dedicara - ento. Chorei mais por Cory, que era como meu prprio filho. E foi ento 
que parei de chorar e voltei-me para pensamentos amargos e cruis de vingana. Quando se deseja derrotar algum, o caminho mais certo  pensar da mesma maneira que 
a pessoa. O que a magoaria mais? Ela no desejaria lembrar-se de ns. Tentaria esquecer nossa existncia. Bem, no esqueceria. Eu providenciaria para que no esquecesse. 
Naquele mesmo Natal, eu lhe enviaria um carto assinado com as seguintes
palavras: "Das quatro bonecas de Dresden vivas que voc rejeitou". Mas precisei mudar
para: "Das trs bonecas de Dresden vivas que voc rejeitou e tambm da morta, que voc levou e nunca mais trouxe de volta". Pude imagin-la olhando para o carto 
e dizendo com seus botes: Fiz apenas o que tinha de fazer.
     Tnhamos baixado a guarda e nos permitido sermos vulnerveis outra vez. Deixamos que a
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f, a esperana e a confiana viessem danar como confeitos em nossas mentes.
     Os contos de fadas podiam tornar-se realidade.
     Estavam acontecendo conosco. A rainha malvada sara de nossas vidas e Branca de Neve assumiria o trono algum dia. No comeria a ma envenenada. Mas todo conto 
de fadas tem um drago a ser morto, uma bruxa a ser vencida, ou algum obstculo para dificultar as coisas. Durante todo o tempo eu sabia quem era a bruxa - e esta 
era a parte mais triste de mim mesma.
     Levantei-me e sa para a varanda do andar superior, a fim de olhar a lua. Vi Chris postado junto  balaustrada, olhando tambm para a luz. Pela atitude curvada 
de seus ombros normalmente to orgulhosos e eretos, compreendi que ele sangrava interiormente, assim como eu. Avancei nas pontas dos ps,
tencionando surpreend-lo. Quando me aproximei, porm, ele se voltou e estendeu os braos para mim. Sem pensar, lancei-me neles, abraando-lhe o pescoo. Ele usava 
o roupo quente que Mame lhe dera de presente no Natal anterior, embora j estivesse pequeno demais. Quando procurasse sob a rvore na manh de Natal, ele encontraria 
um roupo novo, com seu monograma bordado no bolso do peito - CFS - pois nunca mais desejava ser chamado de Foxworth, mas de Sheffield.
     Seus olhos azuis buscaram os meus. Olhos to cheios de vida. Eu o amava tanto quanto amava o meu lado melhor, o lado mais alegre e mais feliz.
     - Cathy - sussurrou ele, os olhos brilhando, e acariciou-me as costas. - Se
tem vontade de chorar, no hesite. Eu entenderei. Chore bastante por mim, tambm. Eu estava esperando, rezando, que Mame viesse e, de algum modo, apresentasse uma 
explicao razovel para ter feito o que fez.
     - Uma explicao razovel para assassinato? - repliquei amargamente. - Como
poderia ela inventar uma desculpa bastante inteligente para isso? No  to esperta a esse ponto.
     Chris pareceu to desolado e magoado que apertei ainda mais os braos em torno de seu pescoo. Enfiei os dedos em seus cabelos, enroscando-os. Baixei a outra 
mo para acariciar-lhe o rosto. Amor, uma palavra de sentido to amplo, diferente de sexo e dez vezes mais irresistvel. Senti-me transbordar de amor quando Chris 
encostou o rosto em meus cabelos e comeou a soluar.
Murmurava meu nome repetidamente, como se eu fosse a nica pessoa no mundo capaz de ser real, slida, digna de confiana.
     De algum modo, os lbios dele encontraram os meus e nos beijamos - com tamanha paixo que ele ficou excitado e tentou puxar-me para seu quarto.
     - Quero apenas abra-la, Cathy, s isso. Nada mais. Quando eu me for para a faculdade, precisarei de algo a que me agarrar... D-me um pouquinho mais,
Cathy, por favor. 
     Antes que eu pudesse responder, ele tornou a me abraar, beijando-me com lbios to ardentes que fiquei aterrorizada - e excitada tambm. 
     - No! Pare com isso! - exclamei, mas ele insistiu, tocando-me os seios e afastando-me a camisola para poder beij-los. Furiosa, sibilei: - Chris! No me ame, 
Chris. Quando
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voc se for, o que sente por mim  desaparecer como se nunca tivesse existido. Obrigar-nos-emos a amar outras pessoas, a fim de nos sentirmos limpos. No podemos 
ser como nossos pais em duplicata. No podemos cometer o mesmo erro.
     Ele me abraou com mais fora e ficou calado. Compreendi que estava refletindo. Jamais haveria outros. Ele no permitiria que isto acontecesse. Uma mulher o 
magoara profundamente demais, traindo-o de modo terrivelmente monstruoso quando ele era jovem e muito, muito vulnervel. S conseguia confiar em mim.
     Recuou, com duas lgrimas brilhando nos cantos dos olhos. Cabia-me romper o lao, ali e agora. Para o bem dele. Todo mundo sempre fazia algo pelo bem de algum.
     No consegui adormecer. Ouvia-o chamar-me, desejando-me. Levantei-me da cama e esgueirei-me pelo corredor, deitando-me mais uma vez na cama de Chris, que me 
aguardava deitado.
     - Voc jamais se livrar de mim, Cathy. Jamais. Enquanto voc viver, ser
voc e eu.
     - No!
     - Sim!
     - No!
     Mas eu o beijei. Depois, pulei da cama e corri de volta a meu quarto, batendo a porta e trancando-a. O que havia comigo? Jamais deveria ter ido ao quarto de 
Chris e me deitado em sua cama. Seria eu to pecaminosa quanto afirmava nossa av?
     No, no era.
     No podia ser!

#35
SEGUNDA PARTE

#37
Vises de Confeitos

     Era Natal. A rvore tocava o teto de trs metros e sessenta de altura e, espalhados sob ela, havia presentes suficientes para dez crianas! Carrie estava eletrizada 
por cada coisa que Papai Noel lhe trouxera. Chris e eu utilizamos o que nos restava do dinheiro roubado para comprar um delicioso
robe de chambre vermelho para Paul e um brilhante vestido de veludo vermelho-rubi
para Henny - tamanho cinqenta e oito! Estonteada e satisfeita, Henny segurou o vestido na frente do corpo, depois rabiscou um bilhete de agradecimento:
     "Dar timo vestido de ir  igreja. Todas as amigas ficaro com inveja".
     Paul experimentou o luxuoso robe de chambre novo. Ficou divino naquela cor,
que lhe caa maravilhosamente bem.
     Ento, veio a maior de todas as surpresas. Paul se encaminhou para mim e
acocorou-se nos calcanhares. Tirou da carteira cinco grandes bilhetes amarelos. Se ele nada fizesse durante um ano inteiro seno imaginar um meio de me causar o 
maior prazer possvel, no alcanaria mais sucesso. Ali, abertas em leque na sua mo grande e bem conformada, estavam cinco entradas para O Quebra-nozes, apresentado 
pela Escola de Ballet Rosencoff!
     - Ouvi dizer que  uma companhia de bal muito profissional - explicou ele. - No entendo muito de bal, mas andei indagando por a e fui informado de que  
uma das melhores. Tambm do aulas a alunos principiantes, mdios e adiantados. Em que nvel voc est?
     - Adiantado! - proclamou Chris, enquanto eu s conseguia fitar Paul, emudecida de felicidade. - Cathy era principiante quando fomos morar no sto. Mas algo 
maravilhoso lhe ocorreu l em cima: o esprito de Anna
Pavlova encarnou em seu corpo. E Cathy aprendeu sozinha como fazer pointe.
     Naquela noite, todos ns - inclusive Henny - sentamo-nos, encantados, no centro da terceira fila da platia. Os bailarinos no palco no eram apenas bons - eram 
soberbos! Especialmente o belo homem chamado Julian Marquet, que danou o papel
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principal. Como num sonho, acompanhei Paul aos bastidores no intervalo, pois ia ser apresentada aos bailarinos!
     Paul conduziu-me at um casal que estava perto do palco.
     - Madame, Georges - disse ele a uma mulherzinha lustrosa como uma foca e no
muito mais alta que o homem a seu lado. - Esta  minha tutelada, Catherine Doll, de  quem lhes falei. Este  o irmo dela, Chris. E esta beleza mais jovem  Carrie. 
Voces j conhecem Hennetta Beech...
     - Sim, naturalmente - disse a dama que parecia uma bailarina, falava como
bailarina e usava o cabelo preso  nuca, como  costume das bailarinas - penteado para trs e amarrado num grande coque. Sobre a malha preta, usava um esvoaante 
vestido de chiffon preto e, por cima de tudo isso, um bolero de pele de leopardo. Seu marido, Georges, era um homem calado, magro mas
robusto, de rosto plido e cabelos espantosamente negros, com lbios to
vermelhos que pareciam feitos de sangue coagulado. Formavam realmente um par, pois os lbios da mulher tambm estavam pintados de escarlate e seus olhos pareciam 
pintados a carvo num rosto de gesso branco. Dois pares de olhos negros examinaram-me e, depois, estudaram Chris.
     - Voc tambm  bailarino? - perguntaram a meu irmo.
     Oh! Deus! Ser que falavam sempre ao mesmo tempo?
     - No! No dano - respondeu Chris, aparentemente embaraado.
     - Ah! que pena - suspirou tristemente a madame. - Que par glorioso vocs
formariam no palco! As pessoas lotariam os teatros s para ver uma beleza como a que voc e sua irm possuem.
     Lanou um rpido olhar  pequena Carrie, temerosamente agarrada  minha mo, e ignorou-a com a maior naturalidade.
     - Chris pretende ser mdico - explicou o Dr. Paul.
     - Ah! - exclamou Madame Rosencoff, como se Chris tivesse perdido o juzo.
     Tanto ela como o marido voltaram os olhos de bano para mim, concentrando-se com tamanha intensidade que comecei a sentir-me quente, suada e encabulada.
     - J estudou dana? (Ela sempre dava  palavra "dana" uma pronncia peculiar, como se tivesse um "u" - "dauna").
     - Sim - respondi com voz sumida.
     - Que idade tinha ao comear?
     - Quatro anos.
     - E agora tem...?
     - Farei, dezesseis em abril.
     - Bom. Muito, muito bom - disse ela, esfregando as palmas das mos compridas e ossudas. - Mais que onze anos de aprendizado profissional. Com que idade fez 
pointe?
     - Doze;
     - Maravilhoso! - exclamou ela. - Nunca permito que as meninas faam pointe
completa antes dos treze anos, a menos que sejam excelentes.
     Ento, franziu a testa, desconfiada:
#39
     - Voc  excelente, ou apenas medocre?
     - No sei.
     - Quer dizer que nunca ningum lhe disse?
     - Exato.
     - Ento, deve ser apenas medocre,
     Esboou uma expresso desdenhosa, voltou-se para o marido e: dispensou-nos com um gesto arrogante da mo.
     - Ora, espere um momento! - explodiu Chris, parecendo vermelho e muito zangado. - No vi naquele palco, esta noite, uma s bailarina que se compare a Cathy! 
Nenhuma! Aquela garota que dana o papel principal de
Clara - s vezes sai do compasso da msica. Cathy nunca perde o compasso! Seu ritmo  perfeito; seu ouvido  perfeito! Mesmo quando dana a mesma melodia, Cathy 
sempre varia um pouco, de modo que nunca duplica uma dana, improvisando sempre para aperfeioar-se e torn-la mais bonita, mais
emocionante. Vocs teriam sorte se possussem uma bailarina como Cathy na
sua companhia!
     Os olhos negros e oblquos voltaram-se para Chris, saboreando-lhe a intensidade do relato.
     - Voc  uma autoridade em bal? - indagou a madame com algum desdm. - Voc
sabe como separar as bailarinas bem dotadas da horda medocre?
     Chris parecia imerso num sonho, com os ps pregados no cho, e at mesmo sua voz tinha um tom rouco que lhe traa os sentimentos:
     - S sei o que vejo e as emoes que Cathy me faz sentir quando dana. S sei que quando a msica se inicia e ela comea a danar meu corao pra de bater. 
S sei que quando a dana termina eu chego a sentir dor porque toda aquela beleza desaparece, Ela no apenas dana um papel, ela  o
personagem; faz-nos acreditar - porque ela acredita. E no existe na sua companhia uma s bailarina que me alcance, agarre meu corao e o aperte at faz-lo latejar. 
Portanto, tratem de rejeitar Cathy e deixem que alguma outra companhia se beneficie com os lucros da sua estupidez!
     Os olhos negros de Madame fixaram-se prolongada e penetrantemente no rosto de Chris, como os de nosso mdico. Ento, lentamente, Madame Rosencoff se voltou 
para mim; fui medida, pesada e avaliada dos cabelos s pontas dos ps.
     - Amanh, a uma hora em ponto, voc danar para mim no meu estdio.
     No era um pedido, mas uma ordem - que no admitia desobedincia. Por algum
motivo, fiquei furiosa quando deveria sentir-me feliz.
     - Amanh  cedo demais - repliquei. - No tenho roupas, nem malhas, nem sapatilhas.
     Tudo aquilo fora deixado para trs, no sto de Foxworth Hall.
     - Ninharias  -rejeitou ela com um gesto petulante da mo. - Dar-lhe-emos todo o necessrio. Trate apenas de estar l - e no se atrase, pois exigimos que nossos
#40
bailarinos sejam disciplinados em tudo, inclusive em pontualidade.
     Fomos dispensados com um gesto majestoso e Madame Rosencoff se afastou graciosamente, rebocando o marido, deixando-me atordoada. Boquiaberta e emudecida, percebi 
que estava sendo atentamente observada por Julian
Marquet, o bailarino, que deveria ter escutado cada palavra de nossa conversa. Seus olhos brilhavam de interesse e admirao.
     - Sinta-se lisonjeada, Catherine - disse ele. - Normalmente, ela e Georges no aceitam bailarinos que no tenham aguardado meses, ou at mesmo anos, para fazer 
um teste.
     Naquela noite, chorei nos braos de Chris.
     - Estou destreinada - solucei. - Sei que vou fazer papel de tola amanh. No  justo ela me recusar um prazo maior para me preparar! Preciso recuperar a agilidade. 
Estarei rgida, desajeitada, e eles me rejeitaro. Sei que rejeitaro!
     - Ora, deixe disso, Cathy - disse ele, abraando-me com mais fora. - J vi voc nesta casa, segurando o poste do p da cama e fazendo seus plis e tendus. 
Voc no est rgida ou destreinada - est apenas amedrontada. Sofre simplesmente um ataque de nervosismo muito comum aos artistas antes de
pisarem o palco. S isso. E no tem necessidade de preocupar-se:  magnfica.
Eu sei e voc tambm sabe.
     Deu-me um leve beijo de boa-noite nos lbios, deixou cair os braos ao longo do corpo e recuou em direo  porta.
     - Esta noite, vou ajoelhar-me e rezar por voc. Pedirei a Deus que voc os deixe tontos amanh. E l estarei para gozar-lhes as caras de espanto pois ningum 
vai acreditar na maravilha que voc  quando dana.
     Com isso, retirou-se do quarto. E fui deixada cheia de nsia e desejo. Enfiei-me sob as cobertas e permaneci bem acordada, dominada por mil e uma trepidaes.
     Amanh ser meu grande dia, minha oportunidade de provar o que eu era e se
possua aquele algo especial que  preciso ter quando se deseja atingir o topo. Eu tinha que ser a melhor; nada menos que isto me serviria. Tinha que mostrar a Mame, 
 av, a Paul, a Chris - a todo mundo! Eu no era m, ou corrupta, ou filha de Demnio. Era apenas eu - a melhor bailarina do mundo!
     Debati-me, virei-me na cama, mergulhei e emergi de pesadelos, enquanto Carrie continuava a dormir placidamente. Em meus sonhos, eu fazia tudo errado durante 
o teste e, o que era pior, fazia tudo errado pelo resto de minha vida inteira! Terminava como uma velhinha encarquilhada, mendigando
Nas ruas de uma grande metrpole. No escuro, passava por minha me e lhe implorava uma esmola. Ela continuava jovem e bonita, elegantemente trajada, coberta de jias 
e peles, acompanhada pelo sempre jovem e fiel Bart Winslow.
     Acordei. Ainda era noite. Que noite comprida! Desci as escadas e encontrei as luzes da rvore de Natal acesas. Chris, deitado no cho, fitava os galhos da rvore. 
Era o que costumvamos fazer quando  crianas. Embora eu devesse saber que no #41
estava correto, sentir-me irresistivelmente atrada para ele, deitei-me a seu lado. Olhei para a rvore cintilante, que parecia irreal.
     - Pensei que voc tivesse esquecido - murmurou Chris sem me olhar. - Lembre-se: quando estvamos em Foxworth Hall a rvore de Natal era pequena e ficava em 
cima de uma mesa, de modo que no nos podamos deitar sob ela como agora. E veja o que aconteceu. No futuro, mesmo que nossas rvores tenham
menos de meio metro de altura, ns as penduraremos bem alto, para podermos
deitar-nos embaixo.
    O modo como ele disse aquilo preocupou-me. Virei lentamente a cabea a fim de ver-lhe o perfil. Chris era to lindo, ali deitado, com os cabelos louros mudando 
constantemente de cor. Cada mecha parecia captar uma tonalidade diferente do arco-ris e, quando ele virou a cabea para fitar-me, seus olhos tambm brilhavam.
    - Voc parece... to divino - disse com voz tensa. - Vejo doura em seus olhos - e as jias da coroa da Inglaterra tambm.
    - No... isso  o que vejo nos seus, Cathy. Est linda nessa camisola branca. Adoro quando usa camisolas brancas com fitas de cetim azul. Adoro a maneira como 
seus cabelos se abrem em leque e voc vira a cabea, descansando o rosto num travesseiro de cetim dourado.
    Aproximou-se de mim, de modo que tambm seu rosto repousou em meus cabelos. Aproximando-se ainda mais, at que nossas testas quase se tocaram. Seu hlito clido 
me acariciou o rosto. Movi a cabea para trs, arqueando o pescoo. No me senti totalmente real quando seus lbios quentes me beijaram a curva do pescoo, permanecendo 
ali. Prendi a respirao. Por longos,
interminveis momentos esperei que ele se afastasse. Queria afastar-me dele,
mas no conseguia. Uma doce paz me invadiu, estremecendo-me a pele com uma sensao deliciosa e arrepiante.
    - No me beije outra vez - sussurrei, agarrando-me mais a ele, comprimindo-lhe a cabea contra meu pescoo.
    - Eu a amo - sufocou ele. - Nunca haver ningum para mim, a no ser voc. Recordei esta noite com voc, sob a rvore de Natal, e me lembrarei de como voc foi 
bondosa ao me permitir abra-la assim.
    - Chris, voc tem mesmo que ir embora e tornar-se mdico? No pode ficar aqui e decidir-se por alguma outra profisso?
    Ele levantou a cabea para fitar-me nos olhos.
    - Cathy... voc precisa perguntar? Foi a nica coisa que eu realmente quis em toda a minha vida, mas voc...
    Recomecei a soluar. No queria que ele fosse! Fiz-lhe ccegas no rosto com as pontas do meu cabelo at que ele soltou um grito e me beijou os lbios - um beijo 
to suave, que desejava tornar-se mais ousado, mas temia que eu me afastasse caso isto acontecesse. Quando o beijo terminou, Chris
disse uma poro de loucuras a respeito de minha beleza angelical.
    - Cathy... olhe para mim! No vire a cabea para fingir que no sabe o que estou fazendo e dizendo! Veja o tormento que me causa! Como poderei encontrar outra 
pessoa, se voc faz parte de meus ossos - de minha carne?
#42
Suas pulsaes se aceleram quando as minhas o fazem! Seus olhos ardem quando os meus tambm ardem - no negue!
    Seus dedos trmulos comearam a abrir os pequenos botes cobertos de renda que fechavam minha camisola at a cintura. Fechei os olhos e vi-me outra vez no sto, 
quando Chris me ferira acidentalmente o flanco com a tesoura - e, agora, eu sangrava e sentia dor, necessitando beijar-lhe os
lbios para aliviar o sofrimento.
    - Como so lindos os seus seios! - suspirou ele, esfregando de leve o nariz nos bicos eriados. - Lembro-me de como seu peito era chato e, depois, comeou a 
crescer. Voc era to tmida com relao a eles, sempre querendo usar suteres largos para que eu no os percebesse. Por que se envergonhava?
     Tive a impresso de pairar acima da cena, observando-o beijar-me os seios e, bem no ntimo, estremeci. Por que lhe permitia fazer aquilo? Meus braos lhe puxaram 
o corpo com mais fora contra mim e, quando meus lbios tornaram a encontrar os seus, talvez tenham sido meus prprios dedos
que abriram os botes do seu pijama, de modo a sentir-lhe o peito nu de encontro ao meu. Mesclamo-nos numa massa ardente de desejo insatisfeito - antes que eu gritasse 
de repente:
    - No!.. seria pecado!
    - Ento, vamos pecar!
    - Ento, no me deixe nunca mais! Esquea a medicina! Fique comigo! No v embora e me deixe sozinha! Tenho medo de mim mesma, sem voc! s vezes, cometo loucuras! 
Por favor, Chris, no me deixe sozinha! Nunca estive sozinha - por favor, fique!
    - Tenho que ser mdico - gemeu ele. - Pea-me para desistir de qualquer outra coisa e concordarei. Mas no me pea para abrir mo da nica coisa que nos manteve 
juntos. Voc no desistiria da dana... no  mesmo?
    Eu no sabia, enquanto correspondia a seus beijos cada vez mais exigentes, o fogo entre ns aumentando, dominando-nos e arrastando-nos  beira do inferno.
    - Eu a amo tanto que, s vezes, nem sei o que fazer! - exclamou ele. - Se ao menos pudesse possu-la uma nica vez e voc no sentisse dor, s prazer...
    O inesperado abrir de seus lbios quentes, a lngua que obrigava meus lbios a se abrirem tambm, percorreram-me o corpo como um choque eltrico!
    - Eu a amo! Oh! como eu a amo! Sonho com voc! Penso em voc o dia inteiro!
    E continuou a dizer coisas assim, respirando mais depressa at ficar ofegante, enquanto eu era dominada por meu corpo  pronto e ansioso por ser satisfeito. Enquanto 
meus pensamentos queriam rejeitar Chris, meu corpo o desejava! Sufoquei-me de vergonha!
    - Aqui no - disse ele entre beijos. - L em cima, no meu quarto.
    - No! Sou sua irm... e seu quarto fica perto demais do de Paul. Ele nos escutaria.
 #43
    - Ento, usaremos o seu quarto. Carrie  capaz de dormir durante uma batalha.
    Antes que eu me desse conta do que acontecia, Chris pegou-me nos braos,
subiu correndo a escada dos fundos, entrou em meu quarto e caiu comigo na cama. Tirou minha camisola e o seu pijama; ento, deitado junto a mim, recomeou o que 
iniciara. Eu no queria aquilo. No queria que se repetisse!
    - Pare! -  protestei, rolando na cama para sair de baixo dele.
     Ca no cho. Numa frao de segundo, Chris estava no cho comigo, lutando.
Rolamos interminavelmente, dois corpos nus que, de repente, bateram em algo slido.
Foi o que deteve Chris. Ele fitou a caixa de doces, um po, mas, laranjas, meio quilo de queijo, vrias latas de atum, ervilhas, suco de tomate, mais um abridor 
de latas, pratos, copos e talheres.
    - Cathy! Por que rouba comida de Paul e a esconde sob a cama?
    Sacudi a cabea, sem saber ao certo por que motivo roubara a comida e a escondera. Ento, sentei-me e, recatadamente, peguei a camisola que ele arrancara e segurei-a 
em frente do corpo.
    - V embora! Deixe-me em paz! Amo voc apenas como irmo, Christopher!
    Ele se aproximou, abraando-me e pousando a cabea no meu ombro.
    - Sinto muito. Oh! Querida! Sei por que razo pegou a comida: tem necessidade
de manter alimentos ao alcance da mo - sente medo de sermos castigados novamente. No sabe que sou a nica pessoa que compreender? Cathy, deixe-me am-la apenas 
mais uma vez - s mais uma vez, para durar
pelo resto de nossas vidas. Deixe-me ao menos uma vez proporcionar-lhe o prazer que no lhe dei antes - s uma vez, para durar at o final de nossas vidas.
    Esbofeteei-lhe o rosto!
    - No! - bradei furiosa. - Nunca mais! Voc prometeu e julguei que fosse cumprir a promessa! Se tem que ser mdico, ir embora e deixar-me sozinha - ento, a 
resposta ser sempre no!
    Calei-me. No desejava dizer aquilo.
    - Chris... no me olhe assim, por favor!
    Ele vestiu vagarosamente o pijama. Depois, lanou-me um olhar magoado.
    - No haver vida para mim se eu no for mdico, Cathy.
    Tapei a boca com ambas as mos, para no gritar. O que havia de errado em mim? No tinha o direito de exigir-lhe que  abandonasse o seu sonho. Eu no era como 
minha me, que fazia todo mundo sofrer para satisfazer suas vontades. Solucei nos braos de Chris. Em meu irmo, eu j encontrara o
amor eterno, sempre vivo, primaveril, que jamais poderia florescer.
    Mais tarde, deitada de olhos abertos em minha cama, compreendi pelo modo desesperanado e inerte como me sentia, que at mesmo num vale sem montanhas o vento 
ainda era capaz de soprar.

#44
O Teste

   Era o dia seguinte ao Natal. A uma hora da tarde eu precisava estar em
Greenglenna, terra natal de Bart Winslow e sede da Escola de Ballet Rosencoff.
   Embarcamos todos no automvel do Dr. Paul e chegamos l cinco minutos antes da hora.
     Madame Rosencoff disse-me que, se fosse aceita, eu deveria cham-la de Madame Marisha. Se fracassasse, nunca mais deveria dirigir-me a ela, por qualquer nome. 
Usava apenas uma malha preta que realava todos os contornos de seu corpo soberbo, gil e esguia apesar de estar beirando os cinqenta
anos de idade. Os bicos dos seios empurravam as malhas do tecido negro, duros como pontas de metal. O marido, Georges, tambm usava malha preta para mostrar o corpo 
magro mas musculoso, que j revelava sinais de idade
nas pequenas protuberncias da barriga. Vinte moas e trs rapazes deviam fazer testes.
     - Que msica escolhe? - indagou ela.
   (Tive a impresso de que o marido jamais falaria, embora me observasse
constantemente com os negros olhos brilhantes).
     - "A Bela Adormecida", - respondi timidamente, pois julgava o papel da Princesa Aurora a melhor de todas as obras do repertrio clssico.
     Portanto, por que escolher uma pea menos exigente?
     - Sou capaz de danar sozinha o Adgio da Rosa - gabei-me.
   - Maravilhoso - disse ela, sarcstica. acrescentando com desdm ainda maior: - S por sua aparncia, adivinhei que escolheria A Bela Adormecida.
     Seu tom me fez desejar ter escolhido algo mais fcil.
   - Que cor de malha prefere?
   - Rosa.
   - Foi o que presumi.
   Jogou-me uma desbotada malha cor-de-rosa e depois, com a mesma indiferena, escolheu a esmo um par de sapatilhas numa fileira tripla com dzias delas. Por mais 
incrvel que parea. jogou-me um par que se ajustou
com perfeio aos meus ps. Aps despir-me e vestir a malha e as sapatilhas, sentei-me
a uma longa penteadeira com um espelho do mesmo comprimento e comecei a prender o cabelo. Ningum precisou dizer-me que Madame desejaria ver-me o pescoo e qualquer 
paulement que eu fizesse certamente lhe desagradaria. Isso, eu j sabia.
     Mal terminei de vestir-me e prender o cabelo, com um bando de garotas soltando risadinhas ao meu redor, quando Madame Marisha enfiou a cabea pela porta entreaberta, 
a fim de verificar se eu j estava pronta. Seus olhos negros me estudaram criticamente.
     - Nada mau. Venha comigo - ordenou, afastando-se.
     Tinha pernas fortes e musculosas. Como permitira que aquilo acontecesse? Eu jamais ficaria tanto em pointe at que minhas pernas se tornassem masculinas como 
as dela.
#45
Nunca!
     Madame levou-me a um amplo salo cujo assoalho polido no era to liso quanto aparentava. Ao longo das paredes havia cadeiras para os espectadores e vi Chris, 
Carrie, Henny e o Dr. Paul ali sentados. Agora, arrependia-me de t-los convidado. Se eu fracassasse, eles assistiriam  minha humilhao. Havia tambm outras oito 
ou dez pessoas, mas no lhes prestei muita ateno.
As moas e rapazes da companhia agruparam-se num canto para assistirem. Eu estava mais amedrontada do que presumi que ficasse. Claro que praticara um pouco desde 
que fugira de Foxworth Hall, mas no com a mesma dedicao que empregava no sto. Deveria ter passado a noite inteira fazendo
exerccios e chegado  escola de madrugada, para aquecer-me melhor. Ento, talvez
no me sentisse to nervosa a ponto de querer vomitar.
     Desejava ser a ltima, a fim de observar todas as outras, ver os erros que cometessem e tirar lies deles, ou assistir s bem sucedidas e aproveitar-me disso. 
Dessa forma, poderia avaliar o que eu deveria fazer.
     O prprio Georges sentou-se ao piano. Engoli em seco, para aliviar o n que
me apertava a garganta; tinha a boca seca e borboletas em pnico esvoaavam-me dentro do peito enquanto meus olhos buscavam entre os
espectadores a pedra-m de que eu necessitava: os olhos azuis de Chris. E
como sempre, l estava ele para sorrir, telegrafando-me seu orgulho, confiana e
imorredoura admirao. Meu querido, meu amado Christopher como sempre presente quando eu precisava dele, sempre me dando algo e tornando-me melhor do que seria sem 
ele. Oh! Deus! Rezei. Ajude-me a ser boa! Permita-me corresponder s expectativas de Chris!
     No consegui olhar para Paul. Este desejava ser meu pai, no minha pedra-m. Se eu fracassasse e o embaraasse, certamente passaria a encarar-me de uma maneira 
diferente. Eu perderia o encanto que tinha para ele. Deixaria de ser uma pessoa especial.
     Um toque em meu brao sobressaltou-me. Girando nos calcanhares, deparei com Julian Marquet.
     - Quebre uma perna - sussurrou ele, sorrindo para mostrar dentes muito alvos
e perfeitos.
     Seus olhos escuros brilhavam travessamente. Era mais alto que a maioria
dos bailarinos, com quase um metro e oitenta, e eu logo saberia que tinha dezenove anos. Tinha a pele clara como a minha, embora, em contraste com os cabelos escuros, 
parecesse muito plida. O queixo forte tinha uma cova central; uma covinha no lado direito do rosto parecia brincar de aparecer e desaparecer  vontade. Agradeci-lhe 
os votos de boa sorte, muito
impressionada com sua beleza fsica.
     - Puxa! - exclamou quando lhe sorri. Tinha uma voz grave. - Voc  muito bonita. Pena que seja uma garotinha.
     - No sou garotinha!
     - O que , ento - uma senhora de dezoito anos?
   Sorri, muito satisfeita por aparentar aquela idade.
   - Talvez sim, talvez no.
#46
     Ele sorriu, como se conhecesse todas as respostas. Pelo modo como se gabava
de ser um dos melhores bailarinos de uma companhia de Nova York, talvez
conhecesse realmente todas as respostas.
- Estou aqui apenas durante as festas do final de ano - para dar uma ajuda 
Madame. Logo voltarei a Nova York, que  o meu lugar.
Olhou em torno, como se as "provncias" o matassem de tdio. Meu corao deu
uma cambalhota. Rezei para que ele fosse um dos bailarinos com quem eu
trabalharia.
Trocamos mais algumas palavras, ento soou a minha "deixa" musical. De
repente, eu estava sozinha no sto, com flores coloridas de papel
penduradas em barbantes compridos; ningum seno eu e aquele amante secreto
que danava  pequena distncia de mim, nunca permitindo que eu me
aproximasse o suficiente para ver-lhe o rosto. Comecei a danar, tmida a
princpio, mas depois fazendo as coisas certas - todos os entrechats,
movimentos de braos e
piruetas. Tive o cuidado de manter os olhos abertos e o rosto sempre voltado
para os espectadores que eu no conseguia ver. Ento, a magia chegou e tomou
conta de mim. No precisei planejar o movimento nem contar o compasso, pois
a msica me dizia o que fazer e como fazer - eu era a sua voz e,
portanto, infalvel. E como sempre, aquele homem surgiu para danar comigo -
s que desta vez eu lhe vi o rosto! Um rosto lindo, plido, com olhos
escuros e faiscantes, cabelos negros como a noite e lbios de rubi. Julian!
Eu o vi como num sonho, estendendo os braos fortes, apoiando um joelho no
cho, a outra perna esticada graciosamente para trs. Com os olhos, fez-me
sinal para correr e pular nos braos que me aguardavam. Encantada por v-lo
ali, um verdadeiro profissional, estava a meio caminho do ponto
onde deveria iniciar o salto quando senti uma dor lancinante no abdome!
Dobrei-me, gritando! A meus ps, uma grande poa de sangue! O sangue me
escorria pelas pernas, manchando a malha e as sapatilhas cor-de-rosa.
Escorreguei e ca ao cho, sentindo-me to fraca que s consegui permanecer
deitada, imvel, e escutar os gritos. Os gritos no eram meus, mas de
Carrie. Fechei os olhos, sem me importar em saber quem veio socorrer-me. 
distncia, escutei as vozes de Paul e Chris. O rosto preocupado de meu irmo
debruou-se, revelando nitidamente todo o seu amor por mim; senti-me
simultaneamente reconfortada e temerosa, pois no queria que Paul
percebesse. Chris disse-me algo a respeito de no ter medo. Ento, a
escurido chegou e carregou-me para um lugar muito remoto, onde ningum me
queria.
E minha carreira de bailarina, ainda nem iniciada, estava terminada.
Terminada.
Emergi de um sonho povoado por bruxas e vi Chris sentado na cama de
hospital, segurando-me a mo inerte... e aqueles olhos azuis... Oh! Meu
Deus! Aqueles olhos...
- Ol - disse ele suavemente, apertando-me os dedos. - Estava esperando que
voltasse a si.
- Ol.
   Ele sorriu, debruando-se para beijar-me o rosto.
#47
   - Uma coisa eu lhe digo, Catherine Doll: voc realmente sabe dar um final
dramtico  dana!
- Sim, isso  talento. Verdadeiro talento. Acho melhor dedicar-me ao teatro.
Ele sacudiu os ombros, indiferente.
   - Creio que seria uma tima atriz, mas duvido que tente.
   - Oh! Chris! - protestei com voz sumida. - Voc sabe que estraguei toda e
qualquer possibilidade! Por que sangrei daquela maneira?
Sabia que meu olhar estava carregado de medo - medo de que ele percebesse e
adivinhasse a causa. Chris inclinou-se para me abraar e estreitar contra o
peito.
- A vida oferece mais que uma oportunidade, Cathy, como voc bem sabe, Voc
precisou fazer uma D & C. Amanh, estar boa e de p.
- O que  uma D & C?
   Ele sorriu, acariciando-me ternamente o rosto, sempre esquecido de que eu
no era to esclarecida quanto ele em questes mdicas.
- Abreviatura de dilatao e curetagem, um processo no qual uma mulher 
dilatada e o mdico emprega um instrumento chamado cureta para raspar a
parede interna do tero. Aqueles perodos em que voc no ficou menstruada
devem ter provocado cogulos, que se soltaram de repente.
- Quem fez a curetagem? - sussurrei, com medo de que fosse Paul.
- Um ginecologista chamado Dr. Jarvis, amigo do nosso doutor. Paul afirma
que  o melhor ginecologista da regio.
Nossos olhares se encontraram.
   - Foi s isso, Cathy... nada mais.
Recostei-me nos travesseiros, sem saber o que pensar. De todas as ocasies
para acontecer algo assim... diante de todas as pessoas que eu tentava
impressionar! Oh! Meu Deus! Por que a vida era to cruel para mim?
- Abra os olhos, minha dama Catherine - disse Chris. - Est fazendo
tempestade num copo de gua, quando, na verdade, no faz diferena nenhuma.
D uma olhada naquela cmoda e veja todas as flores lindas que recebeu.
Flores reais, no de papel. Espero que no se importe de eu ter lido os
cartes.
    Naturalmente, eu no me importava que ele lesse. Chris foi  cmoda e
logo voltou, colocando em minha mo flcida um pequeno envelope branco.
Olhei para o enorme ramalhete de flores, julgando que fosse lembrana de
Paul. S ento olhei para o envelope. Meus dedos trmulos tiraram dele um
pequeno carto que dizia:

"Espero que se recupere depressa. Aguardo-a na prxima segunda-feira, s
trs em ponto.
Madame Marisha."

Marisha! Eu fora aceita!
   - Chris, os Rosencoff me querem!
#48
   - Claro que querem - disse ele suavemente. - Do contrrio, seriam
imbecis. Mas aquela mulher me mata de medo! Apesar de ser mida, eu no
desejaria t-la controlando minha vida. Todavia, creio que voc saber muito
bem como lidar com ela; de todo modo, sempre poder ter outra hemorragia.
Sentei-me na cama para abra-lo.
- Tudo vai dar certo para ns, no vai, Chris? Acha realmente que poder ser
assim? Ser que teremos tanta sorte?
Chris meneou a cabea, sorrindo, e apontou para outro buqu. Fora enviado
por Julian Marquet, acompanhado de um rpido bilhete:
"Tornarei a v-la quando vier de Nova York Portanto, Catherine Doll, no se
esquea de mim."
Vi por cima do ombro de Chris, enquanto este me estreitava nos braos, Paul
entrar no quarto e hesitar junto  porta ao observar-nos. Em seguida, exibiu
um sorriso e avanou. Chris e eu nos separamos depressa.

Voltam os Tempos de Escola

Chegou o dia de janeiro em que tivemos que separar-nos. Tnhamos prestado
exames para avaliar nossa capacidade e para nosso grande espanto -
recebramos todos notas excelentes. Classifiquei-me para a dcima srie,
Carrie para a terceira e Chris para o curso preparatrio para a faculdade de
medicina. Mas o rosto de Carrie no demonstrava satisfao quando ela
berrou:
- No! No! - preparou-se para desferir pontaps e cerrou os punhos para
combater quem tentasse for-la. - No quero escola particular para
garotinhas esquisitas! No irei! No podem me obrigar! Vou contar ao Dr.
Paul, Cathy!
Tinha o rosto rubro de fria e sua voz chorosa parecia o uivo de uma sirene.
No fiquei eufrica com a idia de enviar Carrie a um colgio interno
situado a dezesseis quilmetros da cidade. Chris tambm partiria, no dia
seguinte  ida de Carrie. Eu ficaria sozinha para freqentar o ginsio - e
tnhamos feito a solene promessa de jamais nos separarmos. (Eu me obrigara a
devolver a comida roubada - e ningum tinha conhecimento do fato, exceto
Chris).   Peguei Carrie no colo para explicar-lhe que o Dr. Paul escolhera
aquela escola muito especial e j pagara uma enorme quantia de matrcula.
Ela fechou os olhos com fora, tentanto no escutar.
- E no  uma escola para garotinhas esquisitas, Carrie - acrescentei em tom
tranqilizador, beijando-lhe a testa. -  uma escola para meninas ricas,
cujos pais podem pagar pelo melhor. Deve sentir-se muito orgulhosa e
afortunada por termos o Dr. Paul como nosso responsvel legal.
#49
   Consegui convenc-la? Alguma vez conseguira convenc-la de alguma coisa?
- Mesmo assim, no quero ir - chorou ela, obstinada. - Por que no posso ir
para a sua escola, Cathy? Por que tenho que ir sozinha, sem ningum comigo?
- Ningum? - repeti, rindo para esconder que sentia um temor semelhante ao
dela. - No estar sozinha, querida. Ficar com centenas de outras meninas
da sua idade. A sua  uma escola primria; eu tenho que freqentar o
ginsio.
Embalei-a em meus braos, alisando-lhe a comprida e brilhante cascata de
cabelos dourados, depois voltei seu provocante rostinho de boneca para o
meu. Era uma coisinha linda. Como seria bela caso o corpo crescesse em
proporo com a cabea!
- Carrie, voc tem quatro pessoas que a amam muito: o Dr. Paul, Henny, Chris
e eu. Todos ns desejamos o que  melhor para voc e, mesmo que alguns
quilmetros nos separem, voc permanecer em nossos coraes e
pensamentos. Alm disso, poder Vir passar todos os fins de semana em casa.
E, acredite se quiser, a escola no  um lugar to ruim; na verdade, 
divertida. Voc partilhar um belo quarto com uma menina da sua idade, ter
timas professoras e, melhor que tudo, estar em companhia de meninas que a
acharo a coisa mais linda que j tiveram oportunidade de ver. E deve ter a
companhia de outras crianas;  necessrio. Sei que estar com muitas meninas
 um bocado divertido. A gente joga, tem sociedades secretas, d festas,
troca segredos e ri a noite inteira. Voc vai adorar.
Sim. Claro. Ela adoraria.
Carrie s aquiesceu depois de derramar uma torrente de lgrimas, os olhos
suplicantes dizendo-me que ela s iria para agradar a mim e ao Dr. Paul, a
quem ela queria muito bem. E, para ela, aquele internato de meninas seria
uma cama de pregos que ela se via obrigada a suportar. Paul e Chris entraram
bem a tempo de ouvi-la perguntar:
- E terei que ficar l por muito, muito tempo?
   Ambos tinham-se trancado na biblioteca de Paul durante muitas horas, com
Paul ensinando a Chris a parte de qumica que este no estudara no sto
enquanto l estivemos presos. Paul lanou um rpido olhar a Carrie,
percebeu-lhe o sofrimento e se encaminhou para o armrio embutido no
corredor. Voltou logo depois com uma grande caixa embrulhada em papel roxo e
amarrada com uma fita de cetim vermelho de dez centmetros de largura.
- Isto  para a minha loura predileta - anunciou.
   Os olhos grandes e assustados de Carrie O fitaram antes que ela exibisse
um leve sorriso.
- Oh! - exclamou deliciada ao abrir o presente e deparar com o conjunto de
malas vermelhas, completo, de couro, tendo at mesmo uma frasqueira com
pente de ouro, escova de cabelo, espelho e uma srie de frascos para
cosmticos. Havia igualmente uma pasta de couro vermelho para papis,
a fim de que ela pudesse escrever cartas para ns.
#50
   -  Lindo! - exclamou Carrie, imediatamente conquistada pela cor
vermelha e excelente qualidade do presente. - Eu no sabia que faziam malas
vermelhas com espelhos de ouro dentro!
Tive que olhar para Paul, que certamente no julgava que uma garotinha
precisasse de maquilagem.
Como se lesse meus pensamentos, ele disse:
- Sei que  um presente um tanto adulto, mas desejava dar  Carrie algo que
ela pudesse usar durante muitos e muitos anos. Quando ela olhar para essas
malas, daqui a anos, vai lembrar-se de mim.
- So as malas mais lindas que j vi - declarei alegremente. - Voc poder
colocar na frasqueira suas escovas de dentes, pasta dentifrcia, talco e
gua de colnia.
- No vou botar gua de colnia fedorenta nas minhas malas!
   Todos ns tivemos que rir. Ento, levantei-me e subi correndo a escada
para buscar uma caixinha, que levei para Carrie. Segurei a caixa com extremo
cuidado, indecisa se devia entreg-la  Carrie e despertar velhas
lembranas.
- Dentro desta caixa esto alguns velhos amigos seus, Carrie. Quando estiver
na Escola Para Moas Bem Educadas da Srta. Emily Dean Calhoun e se sentir
solitria, basta abrir a caixinha e ver o que h dentro dela. No mostre o
contedo a qualquer pessoa, mas apenas s suas amigas mais ntimas.
Carrie arregalou os olhos ao ver as minsculas pessoas de porcelana e o beb
de quem ela tanto gostava, roubadas por mim daquela enorme e fabulosa casa
de bonecas com a qual ela passara tantas horas brincando no sto. Eu
trouxera at mesmo o bero.
- O Sr. e a Sra. Parkins - murmurou Carrie, com lgrimas de felicidade nos
grandes olhos azuis. - E Clara, a nenenzinha! De onde vieram eles, Cathy?
- Voc sabe de onde vieram.
Ela olhou para mim, segurando a caixa cheia de algodo para proteger os
frgeis bonecos e o bero de madeira feito  mo - uma herana inestimvel.
- Cathy, onde est Mame?
   Oh! Deus! Exatamente o que eu no desejava que ela perguntasse!
   - Carrie, voc bem sabe que devemos dizer a todo mundo que nossos pais
morreram.
- Mame morreu mesmo?
   - No... mas precisamos fingir que morreu.
- Por qu?
   Mais uma vez, tive que explicar a Carrie o motivo pelo qual jamais
poderamos revelar nossa verdadeira identidade e o fato de nossa me ainda
estar viva: seramos trancados de volta naquele quarto horrvel. Carrie
permaneceu sentada no cho, perto das lindas malas de couro vermelho,
segurando no colo a caixa com os bonecos de porcelana, a fitar-me com o
olhar assustado, sem
compreender.
#51
   - Falo srio, Carrie! Voc nunca falar na nossa famlia a no ser com
Chris, o Dr. Paul, Henny e eu. Compreende?
    Ela assentiu com a cabea, mas no compreendeu. Seus lbios trmulos
e expresso tristonha revelavam claramente: ela ainda queria Mame!
Ento, chegou o dia terrvel em que fizemos de automvel o trajeto de
dezesseis quilmetros at a elegante escola particular para filhas de gente
rica. O prdio era grande, pintado de branco, tendo na frente o prtico e as
colunas caractersticas de arquitetura da regio. Uma placa de bronze ao
lado da porta principal anunciava: FUNDADA EM 1824.
Fomos recebidos num escritrio aquecido e acolhedor por uma descendente do
fundador da escola, a Srta. Emily Dean Dewhurst. Uma mulher bonita e
imponente, com cabelos espantosamente brancos e nem uma s ruga
que lhe trasse a idade.
-  uma linda criana, Dr. Sheffield. Naturalmente, faremos o possvel para
mant-la feliz e confortvel enquanto estuda.
Curvei-me para abraar e beijar Carrie, que estremecia, e sussurrei-lhe ao
ouvido:
- Anime-se e faa um esforo para divertir-se. No se sinta abandonada.
Todos os fins de semana viremos busc-la para irmos juntos para casa. Ser
to ruim?
Carrie animou-se e forou um sorriso:
   - Sim, posso fazer isso - murmurou com voz sumida.
No foi fcil irmos embora, deixando Carrie naquela manso bonita pintada de
branco.
No dia seguinte, foi a vez de Chris partir para o curso preparatrio. Oh!
como doeu v-lo arrumar as bagagens! Observei mas no consegui falar. Chris
e eu no suportvamos olhar um para o outro.
   A escola de Chris ficava ainda mais afastada. Paul dirigiu quarenta e
oito
quilmetros antes de chegarmos ao campus com prdios de tijolos cor-de-rosa
e, mais uma vez, as indefectveis colunas brancas. Sentindo que precisvamos
ficar a ss, Paul apresentou uma desculpa esfarrapada de querer inspecionar
os jardins. Chris e eu no ficamos realmente a ss, mas numa alcova com
grandes portas para o exterior. Rapazes passavam constantemente l fora para
espiar-nos. Eu desejava ficar nos braos de Chris, com o rosto colado ao
seu. Queria que aquilo fosse um adeus ao amor, um adeus to completo que nos
desse a certeza de que o amor se fora para sempre - ao menos o amor que
estava errado entre ns.
   - Chris - gaguejei,  beira das lgrimas. - O que farei sem voc?
   Seus olhos azuis mudavam constantemente de tonalidade, acompanhando-lhe o
caleidoscpio de emoes.
- Nada mudar, Cathy - sussurrou ele com voz embargada, segurando-me as
mos. - Quando nos encontrarmos outra vez, ainda sentiremos a mesma coisa.
Eu a amo. Sempre a amarei, seja certo ou errado. No consigo
evitar. Estudarei com tanto afinco que nem terei tempo de pensar em voc, ou
sentir saudades, ou imaginar o que estar acontecendo em sua vida.
#52
   - E acabar sendo o mais jovem mdico diplomado na histria da humanidade
- zombei, embora minha voz estivesse to embargada quanto a sua. - Poupe um
pouquinho de amor para mim e guarde-o bem no fundo do
corao, da mesma forma como guardarei meu amor por voc. No podemos
cometer o mesmo erro que nossos pais.
Chris suspirou pesadamente e baixou a cabea. observando o cho a seus ps.
Ou talvez observasse meus ps, calados em sapatos de salto alto que
tornavam minhas pernas muito mais bonitas.
- Cuide-se bem.
   -  claro. E voc tambm. No estude demais. Divirta-se e escreva-me ao
menos uma vez por dia, pois acho que no devemos engordar a conta de
telefone do Dr. Paul.
- Cathy, voc  muito bonita. Talvez bonita demais. Olho para voc e revejo
nossa me em seu modo de gesticular e de tombar a cabea para um lado. No
encante demais o nosso mdico. Quero dizer: afinal, ele  um
homem. No tem esposa - e voc estar morando na mesma casa que ele.
Ergueu a cabea, com uma sbita expresso penetrante no olhar.
   - No cometa erros ao tentar fugir do que sente por mim. Falo srio,
Cathy.
- Prometo comportar-me.
   Era uma promessa to fraca. quando ele despertara em mim aquele anseio
primitivo, que deveria ser contido at que eu tivesse idade suficiente para
enfrent-lo. Agora, tudo o que eu desejava era ser amada e satisfeita por
algum com quem me sentisse bem.
- Paul  um grande sujeito - disse Chris, hesitante. - Eu gosto dele. Carrie
o ama. O que sente voc por ele?
- Gosto dele, como voc e Carrie. Sinto gratido. Isso no  errado.
- Ele no fez nada fora do certo?
   - No.  honrado e decente.
   - Eu o vejo sempre olhando para voc, Cathy.  to jovem, to bela, to
necessitada de amor... - fez uma pausa e corou, desviando culposamente o
olhar antes de acrescentar: - Sinto-me mesquinho ao lhe dizer isso, quando
ele fez tanta coisa por ns, mas s vezes penso que nos aceitou apenas...
bem... apenas por causa de voc. Porque deseja voc!
- Chris, ele  vinte e cinco anos mais velho que eu! Como pode pensar uma
coisa dessas?
Chris pareceu aliviado.
   - Tem razo - disse ele. - Voc  tutelada de Paul e moa demais para
ele. Nesses hospitais devem existir muitas beldades que ficariam felizes se
pudessem estar com ele. Creio que voc estar segura.
Sorrindo, puxou-me para si e baixou os lbios at os meus. Apenas um beijo
leve e terno, uma despedida temporria.
- Perdoe-me pela noite de Natal - disse ele quando terminou o beijo.
   Meu corao era uma runa dolorosa quando recuei para deix-lo. Como
viveria sem ele a meu lado? Mais uma das coisas que ela nos fizera:
querer-mo-nos demais, quando nunca
#53
deveramos amar-nos daquela forma. Culpa
dela, sempre culpa dela! Tudo que houvera de errado em nossas vidas podia
ser atribudo a ela!
- No estude demais, Chris, ou logo precisar usar culos.
   Chris riu, fazendo um gesto de adeus com evidente relutncia. Nenhum de
ns conseguiu pronunciar a palavra "adeus". Girei nos calcanhares, as
lgrimas queimando-me os olhos enquanto corri pelos compridos corredores, e
sa para o sol brilhante. No carro branco de Paul, derreei-me no assento e
solucei de verdade, como Carrie quando chorava.
De repente, Paul pareceu surgir do nada e sentou-se, calado, ao volante.
Ligou o motor, fez a manobra e partiu em direo  estrada. No mencionou
meus olhos inflamados nem o lencinho mido que eu tinha na mo para enxugar
as lgrimas que continuavam a brotar. No me indagou por que razo eu
permanecia to calada, quando geralmente brincava, provocava ou tagarelava
coisas sem sentido s para no escutar o silncio. Quietude, silncio. Oua
as penas carem, escute a casa estalar. Era a escurido do sto.
As mos fortes e bem cuidadas de Paul dirigiam o automvel com uma
habilidade tranqila e natural, enquanto ele se mantinha relaxado no
assento. Estudei-as, pois, em seguida aos olhos, as mos eram a primeira
coisa que eu notava num homem. Depois, baixei os olhos para suas pernas:
coxas bem torneadas, que as calas de malha azul mostravam muito bem -
talvez bem
demais, pois de repente j no me senti triste ou deprimida, mas dominada
por
uma onda de sensualidade.
rvores gigantescas orlavam a estrada larga e negra, troncos retorcidos e
escuros, grossos e velhos.
- Magnlias Buli Bay - disse Paul. -  uma pena no estarem floridas nesta
poca. Mas no demoraro muito a florir, pois nossos invernos so curtos.
Uma coisa que voc no deve esquecer: jamais cheire ou toque numa flor de
magnlia; se o fizer, murchar e morrer com ela.
Lanou-me um olhar provocante, de modo que no pude perceber se dizia ou no
a verdade.
- Antes de voc chegar com seus irmos, eu costumava ter medo de entrar com
o carro na minha rua. Estava sempre to solitrio! Agora, volto para casa
cheio de felicidade.  gostoso ser feliz outra vez. Obrigado, Cathy, por
terem vindo para o Sul - e no para o Norte ou o Oeste.
Logo que chegamos em casa, Paul foi para o consultrio e eu subi, a fim de
tentar afugentar a solido exercitando-me na barra. Paul no veio jantar em
casa e isto piorou ainda mais a situao. Tambm no apareceu aps o jantar,
de modo que fui deitar-me cedo. Sozinha. Carrie se fora. O meu fiel
Christopher tambm. Pela primeira vez, dormiramos sob tetos separados. Eu
precisava de algum; sentia-me mal, amedrontada. O silncio da casa e o
profundo
negrume da noite pareciam gritar ao meu redor: Sozinha! Sozinha! voc est
sozinha e ningum se importa, ningum se importa! Pensei em comida.
Preocupei-me por no manter um grande suprimento ao alcance da mo. Ento,
lembrei-me de que devia tomar um
#54
pouco de leite quente. Diziam que leite
quente ajudava a dormir - e dormir era o de que precisava.

Sedutora, Eu?

A luz suave da lareira iluminava a sala de visitas. As achas cinzentas
tinham-se transformado em cinzas e Paul, envolto no quente robe vermelho,
estava sentado numa poltrona de braos, tirando lentas baforadas do
cachimbo.
Olhei para aquela cabea envolta num halo de fumaa e vi uma pessoa clida,
necessitada, triste e ansiosa, como eu. E, como a tola que eu era com tanta
freqncia, aproximei-me dele com ps descalos e silenciosos. Que bom v-lo
usar nosso presente to depressa. Eu estava usando um presente dele: um leve
pegnoir azul-turqueza de tecido vaporoso, que esvoaava sobre uma
camisola da mesma cor.
Paul sobressaltou-se ao ver-me ali, to perto de sua poltrona, altas horas
da noite. Contudo, ficou calado para no quebrar o encanto que, de algum
modo, nos unia numa necessidade mtua.
Havia muita coisa que eu no conhecia a respeito de mim mesma, do mesmo modo
que no compreendi o impulso que me levou a erguer a mo para acariciar-lhe
o rosto. Tinha a pele spera, como se precisasse fazer a barba. Recostou a
cabea na poltrona e virou o rosto para o meu.
- Por que me toca, Catherine?
A pergunta, feita numa voz tensa e fria, poderia fazer-me sentir rejeitada e
magoada, mas seus olhos eram poas lmpidas e suaves de desejo - eu j vira
desejo anteriormente, s que em olhos diferentes dos dele.
- No gosta que o toquem?
          - No uma jovem sedutora, com roupas transparentes, vinte e cinco anos
mais moa que eu.
- Vinte e quatro anos e sete meses mais moa - corrigi. - E minha av
materna se casou com um homem de cinqenta e cinco anos, quando tinha apenas
dezesseis.
- Ela era uma tola e ele tambm.
   - Minha me disse que ela foi boa esposa para ele - acrescentei, sem
jeito.
- Por que no est deitada, dormindo? - indagou Paul, rspido.
- No consigo dormir. Acho que estou por demais excitada ante a perspectiva
de iniciar as aulas amanh.
- Ento, acho melhor voltar para a cama, para acordar bem descansada.
   Comecei a obedecer - de verdade - pois a idia do leite quente ainda no
#55
me sara da cabea; por outro lado, tive tambm outras idias, mais sedutoras.
- Dr. Paul...
   - Detesto quando voc me chama assim! - interrompeu ele. - Use meu
primeiro nome ou no fale comigo.
   - Acho que devo tratar o senhor com o respeito que merece.
   - Que se dane o respeito! No sou diferente dos outros homens. Um mdico
no  infalvel, Catherine.
- Por que me chama de Catherine?
   - Por que no deveria cham-la de Catherine?  o seu nome e me parece um
tratamento mais adulto que Cathy.
- H pouco, quando lhe toquei o rosto, olhou-me com raiva, como se no
quisesse que eu fosse adulta.
- Voc  uma feiticeira. Em um segundo, transforma-se de uma garota ingnua
numa mulher sedutora e provocante - uma mulher que parece saber exatamente o
que est fazendo quando coloca a mo no meu rosto.
    Meus olhos se desviaram ante a investida. Senti-me corada, nervosa,
arrependida de no ter ido diretamente para a cozinha. Olhei para os
valiosos livros nas estantes e os pequenos objetos de arte que ele parecia
adorar. Para onde eu olhasse, havia algo que me recordava que a coisa de que
ele mais necessitava era beleza.
- Catherine, vou-lhe fazer agora uma pergunta sobre um assunto que no me
diz respeito, mas que sinto necessidade de indagar. O que realmente existe
entre voc e seu irmo?
Meus joelhos comearam a chocalhar nervosamente. Oh! Meu Deus! Ser que
nossas fisionomias revelavam? Por que ele tinha que perguntar? No era da
sua conta. No tinha o direito de fazer tal pergunta. O bom senso e a
capacidade de julgamento deveriam ter-me colado a lngua no cu da boca,
impedindo-me de responder, envergonhada e sem jeito:
- Ficaria chocado se soubesse que quando estvamos trancados num quarto,
sempre juntos, os quatro irmos, quando cada dia equivalia a uma eternidade,
Chris e eu nem sempre nos encarvamos como irmos? Chris fixou uma barra no
sto, a fim de que eu pudesse manter os msculos geis e continuar a sonhar
que poderia ser, algum dia, uma grande bailarina. E, enquanto eu danava
naquele assoalho de madeira macia e apodrecida, ele estudava na sala de
aulas do sto, passando horas e horas a ler velhas enciclopdias. Escutava
a msica de meus bailados e vinha observar-me, oculto nas sombras...
- Prossiga - instou ele, quando fiz uma pausa.
Fiquei de cabea baixa, recordando o passado, esquecendo-me de Paul. Ento,
este se inclinou repentinamente, agarrou-me e sentou-me em seu colo.
- Conte-me o resto.
- Eu no queria contar, mas seus olhos brilhavam, exigentes, fazendo-o
parecer uma pessoa diferente.
#56
Engolindo em seco, continuei com relutncia:
- A msica sempre me causou uma sensao especial, mesmo quando era criana.
Apodera-se de mim, animando-me, e me faz danar. E quando me enlevo dessa
maneira, no existe outro modo de voltar  realidade seno sentindo amor por
algum. Se voltar a sentir os ps no cho, com ningum ali para amar, fico
vazia e perdida. E no me agrada ficar vazia e perdida.
- Ento, voc danava no sto, deixando-se levar pela imaginao
fantasiosa, e ao voltar  realidade constatava que a nica pessoa ali
presente a quem voc podia amar era o seu irmo? - perguntou ele com glida
veemncia, os olhos queimando os meus - Correto? Voc tinha outra espcie de
amor que reservava para os pequenos gmeos, no  mesmo? Para eles, voc era me.
Eu sei. Vejo isto a cada vez que voc olha para Carrie ou fala de Cory. Mas
que tipo de amor nutre por Christopher? Maternal? Fraternal? Ou ...
- fez uma pausa, corando, e sacudiu-me. - O que fez com seu irmo quando
estavam trancados l em cima, sozinhos?
Dominada pelo pnico, sacudi a cabea e empurrei suas mos de meus ombros.
- Chris e eu fomos decentes! Fizemos o melhor possvel!
- "O melhor possvel"? - bradou ele, com olhar duro e belicoso, como se o
homem bondoso e gentil que eu conhecera no passasse de um disfarce. - Que
diabo quer dizer isso?
- Tudo o que voc precisa saber! - reagi com violncia, os olhos ardendo de
raiva to grande e brutal quanto a dele. - Acusa-me de seduzi-lo. Mas  voc
quem faz isso: observa cada movimento que fao! Despe-me com os olhos.
Leva-me para a cama com o olhar. Fala em aulas de bal e em enviar meu irmo
para a faculdade de medicina, mas, durante todo o tempo, insinua que, mais
cedo ou mais tarde, exigir o pagamento em troca disso - e eu sei que tipo
de pagamento voc tem em mente!
Libertei as mos e rasguei a frente do peignoir, deixando  mostra o difano
corpete da camisola azul-turqueza.
- Veja o tipo de presente que me deu!  a camisola adequada a uma mocinha de
quinze anos? No!  o tipo de camisola que a noiva usa na noite de npcias!
E voc me fez presente dela, viu Chris franzir a testa, e nem mesmo teve a
decncia de corar!
O riso dele zombou de mim. Senti o cheiro do forte vinho tinto que ele
gostava de tomar antes de deitar-se. Seu hlito quente em meu rosto, seu
rosto muito prximo ao meu, de modo que via cada fio de cabelo que brotava
da pele. Era o vinho que lhe provocava aquele comportamento, refleti. S o
vinho. Qualquer mulher em seu colo serviria - qualquer mulher! Provocadora.
mente, ele tocou os bicos de meus seios, passando de um para outro. Ento,
teve a audcia de enfiar a mo por baixo de meu corpete, para poder
acariciar os seios jovens, inflamados de calor pelas inesperadas carcias.
Os bicos se enrijeceram e passei a respirar to depressa e profundamente
quanto ele.
- Quer despir-se para mim, Catherine? - indagou com aquele seu ar
zombeteiro. - Quer sentar-se nua em meu colo e deixar-me fazer tudo a meu
modo? Ou prefere pegar aquele cinzeiro de cristal veneziano e quebr-lo em
minha cabea?
#57
Olhou-me fixamente. Ento, de repente, chocado ao perceber onde estava sua
mo - cobrindo meu seio esquerdo - puxou-a bruscamente, como se o contato
com minha pele o queimasse. Procurou recompor o frgil tecido de meu
peignoir, escondendo o que antes seus olhos devoravam avidamente. Olhou-me
os lbios levemente entreabertos que esperavam ser beijados; julgo que
planejava beij-los antes de recuperar o controle e afastar-me de si com um
empurro. Naquele momento, um trovo ribombou no cu e um raio desceu,
iluminando a noite e provocando fogo ao atingir um fio telefnico l fora.
Dei um pulo! Gritei!
To repentinamente quanto retirara a mo de meu seio, Paul emergiu da nvoa
mental, transformando-se outra vez no que costumava ser: um homem solitrio
e introspectivo, decidido a manter-se distante. O quanto fui sbia, em minha
inocncia, para compreender isto antes que ele dissesse bruscamente:
- Que diabo est fazendo sentada em meu colo, seminua? Por que me permitiu
fazer o que fiz?
Permaneci calada. Paul estava envergonhado; agora, eu o percebia  luz
fraca do fogo que morria na lareira e  claridade dos relmpagos
intermitentes. Tinha a respeito de si mesmo todos os tipos de pensamentos
condenatrios, punitivos, reprobatrios, aoitando-se com eles - e eu sabia
que a culpa era minha - como sempre, a culpa era minha.
- Sinto muito, Catherine. No sei o que me possuiu para me fazer agir dessa
maneira.
- Eu o perdo.
- Por que me perdoa?
- Porque o amo.
Mais uma vez, Paul virou a cabea de perfil e no lhe pude ver os olhos e
ler o que neles havia.
- Voc no me ama - replicou calmamente. - Apenas sente gratido pelo que
fiz.
- Eu o amo - e sou sua quando, ou se, voc me quiser. E pode dizer que no
me ama, mas estar mentindo, pois vejo isso nos seus olhos cada vez que voc
olha para mim.
Aproximei-me e virei-lhe o rosto para o meu.
- Quando fui trancada por Mame, jurei que ao ficar livre abriria a porta
para o amor se este chegasse e exigisse de mim. No primeiro dia em que aqui
cheguei, encontrei amor em seus olhos. No precisa casar comigo; basta
amar-me, quando precisar de mim.
Paul me abraou e observamos a tempestade. O inverno lutou contra a
primavera e terminou vencendo. Agora, caa apenas granizo; os troves e
raios tinham sumido e eu me sentia to... to bem! ramos muito semelhantes,
Paul e eu.
- Por que no tem medo de mim? - perguntou ele, em voz baixa, enquanto suas
mos grandes e delicadas acariciavam-me as costas e os cabelos. - Sabe que
no deveria
#58
estar aqui, permitindo que eu a abrace ou a toque.
- Paul... - comecei, hesitante. - No sou m; nem Chris. Quando estvamos
trancados, fizemos o melhor possvel, juro. Mas ficamos fechados num nico
quarto e estvamos crescendo. A av tinha uma lista de regras que nos
proibiam at mesmo de olhar um para o outro; agora, creio que entendo o
motivo. Nossos olhares se cruzavam com muita freqncia e, sem dizer uma s
palavra, Chris conseguia reconfortar-me. E dizia que meus olhos lhe faziam o
mesmo efeito. Isto no era sermos maus, era?
- Eu no deveria perguntar. Alm disso,  claro que tinham de olhar um para
o outro.  para isso que possumos olhos.
- Vivendo como vivemos por tanto tempo, no sei muito a respeito das moas
de minha idade, mas desde que tinha apenas a altura da mesa, qualquer
espcie de beleza me ilumina por dentro. Apenas o sol incidindo nas ptalas
de uma rosa, ou o modo como a luz atravessa as folhas das rvores e destaca
as nervuras, ou a forma como a chuva na estrada torna o leo iridescente,
tudo isto me faz sentir bela. Mais do que qualquer outra coisa, quando a
msica est tocando - o meu tipo de msica, de bailado - no preciso de sol,
flores ou ar livre. Acendo-me interiormente e o local onde me encontro se
transforma, num passe de mgica, em palcios de mrmore, ou num bosque
verdejante onde fico em total liberdade. Eu costumava fazer isso no sto e
sempre um homem de cabelos escuros danava perto de mim. Jamais lhe vi o
rosto, embora desejasse. Certa vez, pronunciei-lhe o nome, mas, quando
acordei, no consegui lembrar-me de qual fosse. Portanto, creio que estou
realmente apaixonada por ele, embora no saiba quem seja. Toda vez que vejo
um homem de cabelos escuros que se movimenta graciosamente, desconfio de que
seja ele.
Paul riu baixinho e enfiou os dedos compridos em meus cabelos soltos.
- Ora, como voc  romntica!
- Voc zomba de mim. Acha que no passo de uma criana. Julga que beijar-me
no seria excitante.
Paul sorriu, aceitou o desafio e lentamente, muito lentamente, inclinou a
cabea at seus lbios encontrarem os meus. Oh! Ento era assim, o beijo de
um desconhecido! Arrepios eltricos subiram e desceram loucamente ao longo
de meus braos e todos os nervos que uma "criana" da minha idade ainda no
deveria possuir arderam em fogo! Afastei-me bruscamente, amedrontada.
Eu era m, pecaminosa, filha do Demnio!
E Chris ficaria chocado!
- Que diabo estamos fazendo? - bradou Paul, livrando-se do encantamento que
eu lhe lanara. - Que tipo de diabinho  voc para deixar-me toc-la com
tanta intimidade e beij-la? Voc  muito linda, Catherine, mas no passa de
uma criana.
Alguma compreenso toldou-lhe o olhar quando ele adivinhou em parte meus
motivos.
- Agora, meta bem uma coisa na sua cabecinha: voc nada me deve - nada! O
que fao por voc, seu irmo e sua irm  por livre e espontnea vontade,
#59
 por prazer, sem esperar qualquer retribuio de qualquer espcie. Entendeu?
- Mas... mas... - gaguejei. - Sempre detestei quando chove forte e o vento
sopra  noite. Esta  a primeira vez em que me sinto aquecida e protegida,
aqui, com voc, perto do fogo.
- E segura? - brincou ele. - Acha que est segura comigo, sentando-se em meu
colo e beijando-me daquela maneira? De que pensa que sou feito?
- Da mesma coisa que os outros homens, S que melhor.
- Catherine - disse Paul, com voz mais suave e bondosa. - J cometi tantos
erros na vida e vocs trs me ofereceram uma oportunidade para redimir-me
deles. Se eu ousar encostar um dedo em voc, quero que grite por socorro. Se
no houver outra pessoa em casa, fuja para seu quarto ou quebre-me alguma
coisa na cabea.
- Ohhh! - Sussurrei. - Pensei que me amava!
As lgrimas me escorreram pelo rosto. Senti-me outra vez uma criana, punida
por excesso de presuno. Quanta tolice acreditar que o amor j estivesse
batendo  minha porta! Amuei-me quando Paul me afastou de si. Ento,
ajudou-me a levantar, mas manteve as mos em minha cintura ao fitar-me o
rosto.
- Meu Deus! Como voc  bonita e desejvel - comentou com um suspiro. - No
me tente demais, Catherine... para seu prprio bem.
- No precisa amar-me - repliquei, baixando a cabea para esconder o rosto e
verificando que o cabelo comprido era um bom esconderijo. Respondi
desavergonhadamente: - Basta usar-me quando quiser e isso ser o bastante
para mim.
Paul recostou-se na poltrona, retirando as mos de minha cintura.
- Catherine, jamais permita que eu volte a escut-la fazendo semelhante
oferta. Voc vive num pas de fadas, no na realidade. As meninas se
machucam quando brincam de adultas. Poupe-se para o homem com quem se casar
- mas, pelo amor de Deus, espere crescer primeiro. No tenha pressa de se
entregar ao sexo com o primeiro homem que a desejar.
Recuei, com medo dele. Paul levantou-se, para manter-me ao alcance dos
braos.
- Linda criana, os olhos de Clairmont esto fixos em voc e em mim,
imaginando, especulando. No gozo de uma reputao imaculada. Portanto, para
a sade de minha clnica mdica e o bem de minha alma e conscincia,
mantenha-se afastada de mim. Sou apenas um homem, no um santo.
Mais uma vez, recuei amedrontada, subi as escadas correndo como se ele me
perseguisse. Pois, afinal, Paul no era o tipo de homem que eu queria. No
ele, um mdico, talvez um mulherengo - a ltima espcie de homem que poderia
preencher meus sonhos de amor fiel, devotado, eterno e romntico!
A escola para a qual Paul me enviou era grande e moderna, com uma piscina
interna. Meus colegas me achavam bonita e diziam que falava engraado, como
uma nortista. Riam do modo como eu pronunciava todas as palavras com "a"
aberto. No me agradava ser alvo de risos. No me agradava ser diferente.
Queria
#60
ser como as outras, mas, por mais que me esforasse, verifiquei que era
diferente. Como poderia ser de outra forma? Ela me tornara diferente. Eu
sabia que Chris tambm se sentia solitrio em sua escola, pois era um
estranho num mundo que continuara a existir sem ns. Eu temia por Carrie na
sua escola, sozinha, tambm tornada diferente. Maldita fosse Mame por fazer
tanto no sentido de alienar-nos dos outros, a ponto de no podermos
mesclar-nos na multido, falar como eles falavam, acreditar no que
acreditavam. Eu era uma forasteira e minhas colegas faziam tudo para que eu
o sentisse de todas as formas possveis.
S um lugar me deixava  vontade. Eu saa diretamente do ginsio para pegar
um nibus que me levasse s aulas de bal, carregando comigo a sacola com as
malhas, sapatilhas e uma bolsinha. No camarim, as moas  compartilhavam
todos os segredos. Contavam piadas ridculas, estrias de sexo, algumas at
mesmo pornogrficas. O sexo pairava no ar, cercando-nos por todos os lados,
bafejando clida e exigentemente em nossas nucas. Ao modo tolo das mocinhas,
elas discutiam se deviam ou no preservar o corpo para os eventuais maridos.
Se deviam namorar inteiramente vestidas ou despidas, se deviam ir "at o
final", ou como conter um rapaz depois de excit-lo "inocentemente".
Uma vez que me sentia to mais sbia que as outras quanto ao assunto,
abstinha-me de dar palpites. Podia imaginar como  esbugalhariam os olhos se
eu ousasse falar de meu passado, dos anos em que vivera "em lugar nenhum",
da maneira como o amor brotara num solo estril! No poderia censur-las.
No censurava ou culpava ningum, exceto a nica pessoa que fizera tudo
aquilo acontecer: Mame!
Um dia, corri do ponto de nibus para casa e redigi uma carta longa e
venenosa  minha me - e depois no soube para onde envi-la. Deixei-a de
lado at que descobrisse o endereo em Greenglenna. Uma coisa era certa: no
queria que ela soubesse onde morvamos. Embora ela houvesse recebido a
intimao, esta no mencionava o nome ou endereo de Paul, mas apenas o
endereo do tribunal. Mais cedo ou mais tarde, porm, ela teria notcias
minhas e muito sofreria com isso.
Todos os dias, comevamos usando pesados agasalhos tricotados para aquecer
as pernas e fazamos exerccios na barra at acelerar as pulsaes, aquecer
os msculos e, ao comearmos a suar, retirvamos os agasalhos de l. Nossos
cabelos, enrolados como os das mulheres que esfregam assoalhos, tambm
ficavam molhados de suor. Assim, tomvamos dois a trs banhos de chuveiro
por dia - em especial aos sbados, quando trabalhvamos de oito a dez horas.
Fazamos plis, tendus, glisss, fondus e ronds de jambe  terre - e
nada disso era fcil. s vezes, a dor de  imprimir rotao aos quadris nos
rodopios quase me arrancava gritos. Ento, vinham os frappes em trs quartos
de pointe, os ronds de jambe em l'air, os petit e grande batllements, os
deve developps e todos os exerccios de aquecimento que nos tornavam os
msculos mais compridos, fortes e geis. Em seguida, deixvamos a barra e
passvamos ao centro do salo, para repetir tudo aquilo sem o auxlio da
barra.
#61
E o incio era a parte mais fcil, porque dali em diante o trabalho
aumentava de dificuldade, exigindo habilidades tcnicas espantosamente
dolorosas de conseguir.
Ouvir dizer que eu era boa, at mesmo excelente, elevavam-me s alturas...
de modo que houvera benefcios produzidos por danar no sto, ao danar
mesmo quando estava morrendo - assim refletia eu, fazendo plis... un,
deux... interminavelmente, enquanto Georges continuava a martelar o
velho piano. Alm disso, havia Julian.
Algo o trazia freqentemente de volta a Clairmont. Julguei que suas visitas
tivessem como objetivo saciar o ego, de modo que pudssemos ficar sentadas
no cho, formando um crculo no centro do qual ele se apresentava, exibindo
seu virtuosismo superior, seus rodopios que pareciam mais velozes que a
vista. Sua incrvel elevao nos saltos desafiava a gravidade e, partindo
desses grand jets, ele pousava os ps de volta ao cho com a leveza de uma
pluma. Encurralou-me num canto para afirmar que era a "sua" maneira de
danar que adicionava tanta sensao ao espetculo.
- Na verdade, Cathy, voc jamais ter visto bal antes de assistir a um
espetculo em Nova York.
Bocejou, simulando enfado, e voltou os atrevidos olhos negros na direo de
Norma Belle, que usava uma justa malha  transparente. Perguntei depressa por
que ele voltava com tanta freqncia a Clairmont se Nova York era o melhor
lugar para se estar.
- Para visitar meus pais - disse ele, com certa indiferena. - Como deve
saber, Madame  minha me.
- Oh! eu no sabia.
- Claro que no. No gosto de me gabar do fato - disse ele com um
devastador sorriso de malcia. - Voc ainda  virgem?
Repliquei que isso no era de sua conta e ele riu outra vez.
- Voc  boa demais para este lugar provinciano, Cathy. Voc  diferente.
No sei definir exatamente, mas faz as outras garotas parecerem desajeitadas
e sem graa. Qual  o seu segredo?
- Qual  o seu?
Ele sorriu e colocou a mo espalmada em meu peito.
- Sou grande, eis a o meu segredo. Sou o melhor que existe. Em breve, o
mundo inteiro saber.
Raivosa, afastei-lhe a mo com um tapa, pisei-lhe no p e me afastei,
dizendo:
- Pare com isso!
De repente, com a mesma rapidez com que me encurralou, ele perdeu totalmente
o interesse por mim e foi embora, deixando-me de olhos arregalados.
Na maior parte das vezes, eu voltava para casa direto da aula de bal e
passava o resto do tempo com Paul. Este era tima companhia quando no
estava cansado. Falava-me de seus pacientes, sem mencionar nomes, e relatava
casos de sua infncia e de como sempre desejara ser mdico, como Chris.
#62
Tinha que sair logo depois do jantar para fazer a ronda em trs hospitais
das
redondezas, inclusive um em Greenglenna. Eu tentava ajudar Henny aps o
jantar, enquanto aguardava que Paul regressasse. s vezes, assistamos a
programas de TV, outras vezes ele me levava ao cinema.
- Antes de vocs chegarem, eu nunca ia ao cinema.
- Nunca? - indaguei.
- Bem, quase nunca - disse Paul. - Tive alguns encontros antes de voc
chegar, mas, depois disso, parece que meu tempo disponvel desapareceu. No
sei o que some com ele.
- Falar comigo - repliquei, provocando-o ao correr-lhe o dedo pelo rosto bem
barbeado. - Acho que sei mais a seu respeito do que sobre qualquer outra
pessoa neste mundo, com exceo de Chris e Carrie.
- No - declarou ele com voz tensa. - Eu no lhe conto tudo.
- Por que no?
- Voc no precisa conhecer todos os meus segredos sombrios.
- J lhe revelei todos os meus segredos sombrios e voc no se afastou de
mim.
- V deitar-se, Catherine!
Ergui-me de um salto, corri at ele e beijei-lhe o rosto, que estava muito
corado. Ento, sa correndo para a escada. Quando cheguei ao topo, virei-me
e deparei com ele parado junto ao pilar do corrimo, olhando para cima como
se a viso de minhas pernas abaixo da curta camisola baby-doll cor-de-rosa o
fascinasse.
- E no ande pela casa com essas roupas! - advertiu. - Trate de usar um
roupo!
- Foi o senhor quem me deu esta camisola, Doutor. No imaginei que desejasse
ver-me coberta do pescoo aos tornozelos. Pensei que queria ver-me com ela.
- Voc pensa demais.
De manh, levantava-me muito cedo - antes das seis - a fim de poder tomar
caf da manh com Paul. Este gostava de minha companhia  mesa, embora no o
dissesse. No obstante, eu percebia. Eu conseguira encant-lo, enfeiti-lo.
Aprendia a ser cada vez mais como Mame.
Creio que Paul tentava evitar-me, mas eu no permitia. Era o homem adequado
para me ensinar o que eu necessitava saber.
Seu quarto ficava perto do meu, mas nunca ousei procur-lo  noite, como
fazia com Chris. Sentia falta de Chris e de Carrie. Quando acordava, doa-me
no v-los no mesmo quarto, sofria ainda mais por no t-los  mesa do caf
e, se Paul ali no estivesse, creio que todos os meus dias se iniciariam
com lgrimas em vez de sorrisos forados.
- Sorria para mim, minha Catherine - disse-me Paul certa manh, quando eu
fitava meu prato de canjica, ovos mexidos e toucinho.
Ergui os olhos, despertada por algo que ouvi em sua voz: um tom tristonho,
como se ele precisasse de mim.
- Jamais diga meu nome desta maneira outra vez - adverti com voz embargada.
#63
- Chris costumava chamar-me de sua Lady Catherine e no gosto de ouvir
qualquer outra pessoa dizer que sou sua Catherine.
Paul no disse mais nada, limitando-se a deixar de lado o jornal,
levantar-se da mesa e sair para a garagem. De l, iria aos hospitais e
depois voltaria ao consultrio em casa; eu s tornaria a v-lo  hora do
jantar. No o via o suficiente; jamais via o suficiente as pessoas de quem
eu gostava.
S nos fins de semana, quando Chris e Carrie estavam em casa, Paul parecia
ficar realmente  vontade comigo. Ainda assim, quando Chris e Carrie
retornavam s respectivas escolas, algo se interpunha entre ns, uma espcie
de centelha sutil que revelava estar Paul to atrado por mim quanto eu por
ele. Tentei adivinhar se seu verdadeiro motivo era o mesmo que o meu.
Estaria procurando fugir s lembranas de sua Julia, deixando-me penetrar em
seu
corao? Exatamente como eu tentava fugir de Chris?
Contudo, minha vergonha era maior que a sua - ou, pelo menos, era o que eu
pensava na poca. Julgava ser a nica com um passado feio e sombrio. Nunca
pude sonhar que algum to bom e nobre como Paul tivesse mculas na
vida.

Apenas duas semanas se passaram e Julian tornou a voar de Nova York para
Clairmont. Desta feita, deixou bem claro que viera apenas para ver-me.
Senti-me lisonjeada e um tanto embaraada, pois ele j atingira o sucesso,
enquanto eu ainda me limitava a alimentar esperanas. Julian tinha um velho
calhambeque de fundo de quintal, alegando que o carro lhe custara apenas o
tempo gasto para mont-lo, pois todas as peas vinham de ferros-velhos.
- Depois de danar, o que mais gosto de fazer  mexer em automveis -
explicou-me ele, ao dar-me carona da aula de bal para casa. - Algum dia,
quando eu for rico, terei carros de luxo: trs ou quatro. Ou talvez at
sete, um para cada dia da semana.
Ri, pois aquilo me soou por demais extravagante e ostensivo.
- Danar  to remunerativo?
- Ser, quando eu atingir o topo da carreira - replicou Julian
confidencialmente.
Tive que virara cabea para fitar-lhe o belo perfil. Examinando
separadamente as feies, uma a uma, era possvel encontrar falhas nelas,
pois o nariz poderia ser melhor, a pele necessitava de mais cor e talvez os
lbios fossem por demais cheios, vermelhos e sensuais. Em conjunto, porm, o
resultado era sensacional.
- Cathy - comeou ele, lanando-me um prolongado olhar enquanto o
calhambeque seguia tossindo e espirrando. - Voc adoraria Nova York. L
existe tanta coisa para se fazer, para se ver, para se experimentar. Aquele
mdico com quem voc mora no  seu verdadeiro pai; no deve ficar presa a
este fim de mundo s para agrad-lo. Pense em Nova York o mais breve
possvel.
Passou o brao por meus ombros, puxando-me para perto de si.
- Que dupla formaramos, voc e eu - comentou suavemente.
#64
E, num tom persuasivo, pintou em cores vivas um quadro do que seria nossa
vida em Nova York. Deixou bem explcito que eu ficaria sob sua proteo e
compartilharia de sua cama.
- Eu no o conheo - respondi, movendo-me para ficar o mais longe possvel
dele. - No lhe conheo o passado, nem voc conhece o meu. Nada temos de
semelhante e, embora eu me sinta lisonjeada por sua ateno, tambm tenho
medo de voc.
        - Por qu? No tenciono violent-la.
Detestei-o por dizer aquilo. No era estupro que me amedrontava. Na verdade,
eu no sabia o que me causava medo nele, a menos que sentisse mais medo de
mim mesma quando estava a seu lado.
- Diga-me quem  voc, Julian Marquet. Conte-me a respeito de sua infncia,
de seu pas. Diga-me por que motivo se julga uma ddiva divina ao mundo do
bal e a todas as mulheres que o conhecem.
Com a maior naturalidade, ele acendeu um cigarro, embora no devesse fumar.
- Saia comigo esta noite e lhe darei todas as respostas que deseja.
Chegamos  grande casa em Bellefair Drive. Julian estacionou em frente e
olhei para as janelas suavemente iluminadas ao brilho rosado do crepsculo.
Mal consegui discernir a sombra escura de Henny, que espiou para ver quem
estacionava o carro  sua porta. Pensei em Paul, mas, acima de tudo,
lembrei-me de Chris, a minha outra metade. Chris aprovaria Julian? Julguei
que no aprovaria mas, no obstante, aceitei o convite para sair com Julian
naquela noite. E que noite ela se revelou!

Meu Primeiro Encontro

Hesitei em abordar com Paul o assunto de Julian. Era noite de sbado; Chris e
Carrie estavam em casa e, na verdade, eu preferiria ir a um cinema com eles
e Paul. Foi com grande relutncia que mencionei o fato de ter um encontro
marcado com Julian Marquet.
- Esta noite, Paul, se voc no se importar. Est bem?
Paul lanou-me um olhar cansado e um sorriso amarelo.
- Acho que j  tempo de voc comear a sair com rapazes. Ele no  muito
mais velho que voc, ?
- No - murmurei, um tanto desapontada por ele no levantar objees.
Julian chegou pontualmente s oito horas. Estava bem arrumado, com treno
novo, sapatos engraxados, os cabelos revoltos bem penteados e maneiras to
perfeitas que nem parecia a mesma pessoa. Apertou a mo de Paul, curvou-se
para beijar Carrie. Chris o fitava raivosamente. Meus irmos estavam
andando de bicicleta quando eu falara com Paul a respeito de meu primeiro
encontro com um rapaz e, mesmo enquanto Julian me ajudava a vestir um casaco
leve, senti a desaprovao de Chris.
Julian levou-me a um restaurante muito elegante, onde luzes coloridas
rodopiavam e msica de rock enchia o ambiente. Com surpreendente segurana,
Julian examinou a lista de vinhos e, depois, provou a bebida trazida pelo
garom, meneando a cabea em aprovao. Tudo aquilo era total novidade
para mim e senti-me nervosa, temendo cometer uma gafe. Julian entregou-me um
cardpio. Minhas mos tremiam tanto que o devolvi a ele, pedindo-lhe que
escolhesse por mim. Eu no sabia ler francs, mas Julian, a julgar pela
rapidez com que selecionou nossos pratos, sabia muito bem. Quando a salada e
o prato principal chegaram, estavam to deliciosos quanto ele prometera.
Eu usava um vestido novo, bem decotado na frente e por demais adulto para
uma garota da minha idade. Desejava parecer  sofisticada, embora no o
fosse.
- Voc  linda - disse Julian, quando eu pensava a mesma coisa a seu
respeito, sentindo-me esquisita, como se trasse algum. - Linda demais para
permanecer enfiada aqui nesta aldeia de matutos anos a fio, enquanto minha
me explora seu talento. Ao contrrio do que lhe disse antes, Cathy, no sou
primeiro bailarino; apenas fao parte do corpo de baile. Queria
impression-la. Todavia, tenho absoluta certeza de que se formssemos um
par, alcanaramos grande sucesso. Existe entre ns uma certa magia que
jamais encontrei com outra bailarina. Naturalmente, voc teria que comear
no corpo de baile, mas logo Madame Zolta perceberia que seu talento
ultrapassa em muito sua idade e experincia. Ela  uma gralha velha, Cathy,
mas nada tem de tola. Tive que danar como um louco para chegar onde estou,
mas poderia facilitar as coisas para voc. Com meu auxlio, voc progrediria
mais depressa que eu. Juntos, formaramos um par sensacional. Seu tipo louro
complementaria o meu moreno: a combinao perfeita.
E prosseguiu naquele tom, quase me convencendo de que eu j era grande
bailarina, ao mesmo tempo em que outra parte de mim, bem no fundo, sabia que
eu no era sensacional nem estava perto de poder apresentar-me em Nova York.
Alm disso, havia Chris, a quem eu no poderia ver se fosse para Nova York,
Carrie que precisava de mim nos fins de semana. E Paul, que de
algum modo tinha um lugar em minha vida - disso eu tinha absoluta certeza. O
problema era que tipo de lugar?
Depois do vinho e do jantar, Julian levou-me para a pista de dana. Logo
danvamos rock como nenhum dos presentes seria capaz. Todos se afastaram
para observar e, depois, aplaudir. Eu estava zonza com a proximidade de
Julian e a quantidade de vinho que consumira. A caminho de casa, Julian
estacionou numa alameda retirada, onde os namorados costumavam parar. Eu
jamais fizera aquilo e no estava preparada para algum to avassalador
quanto Julian.
- Cathy, Cathy, Cathy - murmurava ele, beijando-me o pescoo, as orelhas,
#66
enquanto a mo procurava acariciar a parte superior de minha coxa.
- Pare! - gritei, - No faa isso! No o conheo bem! Est avanando
depressa demais!
- Porta-se como uma criana - disse ele, aborrecido. - Tomei um avio em
Nova York s para v-la e nem mesmo permite que eu a beije.
- Julian! - esbravejei. - Leve-me para casa!
- Uma criana - resmungou ele raivosamente, ligando o motor. - No
passa de uma maldita criana linda que tenta e seduz, mas no satisfaz.
Cresa, Cathy, pois no estarei por perto pelo resto da vida.
Ele fazia parte do meu mundo, do encantador mundo da dana; de repente tive
medo de perd-lo.
- Por que se chama Marquet quando o sobrenome de seu pai  Rosencoff? -
indaguei, estendendo a mo para desligar o motor.
Julian sorriu, recostou-se no banco e virou-se para mim.
- Est bem, se prefere conversar. Creio que voc e eu somos muito parecidos,
por mais que se recuse a admitir. Madame e Georges so meus pais, mas nunca
me encararam como um filho. Especialmente meu pai, que v em mim uma
continuao de si mesmo. Na sua opinio, se eu for um grande bailarino, no
ser por meu prprio mrito, mas porque sou seu filho e tenho o seu nome.
Portanto, resolvi pr fim a tal idia e troquei de sobrenome. Inventei um,
como faz qualquer artista que resolve mudar de nome.
- Sabe quantas partidas de beisebol eu j joguei? Nenhuma! Eles nunca
permitiram. Futebol estava fora de quaisquer cogitaes. Alm disso,
mantinham-me to ocupado ensaiando posies de bal que eu estava sempre
cansado demais para fazer qualquer outra coisa. Georges nunca me permitiu
cham-lo de "Pai", mesmo quando eu era pequeno. A partir de uma certa poca,
eu no o chamaria assim mesmo que ele se prostrasse de joelhos e me
implorasse. Sempre me esforcei ao mximo para agrad-lo e nunca consegui.
Ele sempre encontrava alguma falha, algum pequeno detalhe que impedia que
minhas apresentaes fossem perfeitas. Portanto, quando eu me tornar um
grande bailarino, ser por minha prpria conta - e ningum saber que ele 
meu pai! Ou que Marisha  minha me. Assim, trate de no espalhar a novidade
entre seus colegas. Nenhum deles sabe. No  engraado? Tenho um ataque de
nervos toda vez que Georges ousa mencionar que tem um filho; ento,
recuso-me a danar. Isto quase o mata, de modo que ele permitiu que eu
partisse para Nova York, pois julgava que seria incapaz de vencer sem usar o
seu nome. Mas venci - sem a sua ajuda. E creio que isto tambm o mata.
Agora, fale-me a respeito de voc. Por que mora com um mdico e no com seus
pais?
- Meus pais morreram - declarei, aborrecida com a pergunta. - O Dr. Paul era
amigo de meu pai e nos acolheu em sua casa. Teve pena de ns e no quis que
fossemos para um orfanato.
- Vocs tiveram sorte - comentou ele com certa amargura. - Eu nunca tive
essa felicidade.
#67
Ento, aproximou-se at que nossas testas se tocaram e as bocas ficaram bem
prximas. Pude sentir-lhe o hlito quente em meu rosto.
- Cathy, no desejo dizer ou fazer qualquer coisa errada com voc. Quero
transform-la na melhor coisa que j surgiu em minha vida. Sou o dcimo
terceiro membro de uma linhagem de bailarinos que se casaram, na maioria dos
casos, com grandes bailarinas. Como supe que isso me faa sentir? No muito
afortunado, pode apostar. Fui para Nova York quando tinha dezoito anos e
completei vinte em fevereiro passado. Dois anos - e ainda no sou um astro.
Com voc, eu poderia ser. Tenho que provar a Georges que sou o melhor, muito
melhor do que ele conseguiu ser. Jamais contei isto a algum, mas machuquei
as costas, na adolescncia. tentando erguer um motor pesado demais. Sinto
dores constantes, mas, mesmo assim, continuo a danar. E no se
trata apenas de voc ser pequena e leve. Conheo outras bailarinas menores e
mais leves, mas voc possui algo em suas propores que parece proporcionar
o equilbrio certo quando eu a levanto. Ou talvez seja porque seu corpo se
ajusta s minhas mos... Seja l o que for, o fato  que voc foi feita sob
medida para mim. Por favor, Cathy, venha comigo para Nova York.
- No se aproveitaria de mim, se eu aceitasse?
- Seria o seu anjo da guarda.
- Nova York  to grande...
- Conheo-a como a palma de minha mo. Logo voc a conhecer to bem quanto
eu.
- H meu irmo e minha irm. No quero deix-los ainda to cedo.
- Eventualmente, ser obrigada a deix-los. Quanto mais tempo permanecer
aqui, mais difcil ser afastar-se. Cresa, Cathy, torne-se independente. 
impossvel ser independente em casa, deixando-se dominar pelos outros.
Fitou o espao, a testa franzida numa expresso de amargura. Senti pena dele
e fiquei emocionada.
- Talvez. Deixe-me pensar um pouco mais no assunto.
Quando entrei no quarto para me despir, Chris estava na varanda, perto da
minha porta. Quando o avistei l fora, de pijama. senti-me atrada para ele
pela atitude de seus ombros encurvados.
- Como foi? - indagou sem me encarar.
Gesticulei nervosamente.
- Muito bem, creio. Tomamos vinho no jantar. Julian ficou um pouco tocado,
acho. Talvez eu tambm tenha ficado.
Chris se voltou para me fitar nos olhos.
- No gosto dele, Cathy! Seria melhor que ficasse em Nova York e deixasse
voc em paz! Pelo que ouvi seus colegas de bal  comentarem, Julian
arrogou-se o direito de exclusividade sobre voc, de modo que nenhum dos
outros bailarinos a convidar para sair. Ele  de Nova York, Cathy. Aqueles
caras agem depressa e voc tem apenas quinze anos!
Avanou para tomar-me nos braos.
- Com quem voc tem sado? - indaguei, sufocando um soluo. - No me diga
que no tem sado com garotas.
#68
Ele manteve o rosto colado ao meu quando replicou pausadamente:
- Ainda no conheci uma garota que se comparasse a voc.
- Como vo os estudos? - perguntei, tentando desviar-lhe o pensamento de mim
- Muito bem Quando no estou pensando em tudo o que serei obrigado a estudar
no primeiro ano de medicina - anatomia geral, micro-anatomia e
neuro-anatomia -, consigo preparar-me para o exame de ingresso  faculdade.
- O que faz nas horas vagas?
- Que horas vagas? No me sobra tempo quando paro de me preocupar com o que
possa estar acontecendo com voc! Gosto do curso, Cathy. Realmente teria
prazer em faz-lo se no passasse o tempo todo pensando em voc. Vivo 
espera dos fins de semana, quando posso rever Carrie e voc.
- Oh! Chris... precisa esquecer-me e tentar encontrar outra pessoa.
Mas um simples olhar  sua expresso torturada foi-me suficiente para
compreender Que o Que se iniciara h tanto tempo atrs no seria fcil de
deter.
Eu precisava tratar de encontrar outra pessoa, pois s assim Chris
perceberia que tudo acabara para sempre. Meus pensamentos se voltaram para
Julian, que tanto lutava para provar que era melhor bailarino que o pai.
Como era semelhante a mim, que tinha a necessidade de mostrar-me melhor que
minha me em todos os sentidos!
Da outra vez que Julian veio de Nova York, eu estava preparada. No negaceei
quando ele me convidou para sair. Era melhor que fosse ele; afinal tnhamos
os mesmos objetivos. Ento, aps um cinema e uma visita a um clube para
tomarmos um refrigerante e uma cerveja, ele tornou a levar o carro para a
alameda dos namorados que, aparentemente, existia em todas as cidades. Desta
feita, permiti que ele fosse um pouco alm de beijar-me. Logo ele
se tornou ofegante. tocando-me com tanta percia que em breve comecei a
corresponder, mesmo involuntariamente. Julian deitou-me de costas no
assento. De repente, percebi o que ele pretendia fazer. Agarrei minha bolsa
e comecei a bater-lhe com ela no rosto.
- Pare! J lhe disse antes: vamos mais devagar!
- Foi voc quem pediu! - esbravejou ele. - No pode acender-me e depois
apagar-me. Detesto garotas deste tipo!
Lembrei-me de Chris e comecei a chorar.
- Por favor, Julian. Gosto de voc, palavra de honra, mas no me d
oportunidade de am-lo. Por favor, pare de agir com tanta pressa.
Julian agarrou-me o brao e torceu-o impiedosamente para as costas at que
gritei de dor. Julguei que pretendesse quebr-lo, mas ele me soltou quando
eu j estava prestes a berrar de pavor.
- Oua. Cathy. J estou meio apaixonado por voc, mas garota nenhuma pode
tratar-me como um matuto. Existem muitas garotas dispostas a se
entregarem. Portanto, no preciso de voc tanto quanto imagina - no em troca de nada!
Naturalmente, Julian no precisava de mim. Ningum precisava de mim, exceto
Chris e Carrie, embora Chris necessitasse de mim de um modo errado.
#69
Mame o perturbara e distorcera, empurrando-o para mim; agora, ele no
conseguia afastar-se. Mame tinha que pagar por tudo que nos causara de
errado. Se Chris e eu tnhamos pecado, ela nos obrigara a isso.
Naquela noite, pensei muito em uma maneira de poder fazer Mame pagar e
encontrei a resposta exata, o preo que lhe causaria maior sofrimento. No
seria dinheiro, pois isto ela tinha de sobra. Teria que ser alguma coisa que
ela prezasse mais que dinheiro. Duas coisas: sua honrada reputao, um tanto
prejudicada pelo fato de haver-se casado com seu meio-tio, e seu jovem
marido. Ela perderia ambas, quando eu desse minha tarefa por terminada.
Ento, chorei. Por Chris, por Carrie que no crescia e por Cory que,
provavelmente, no passava de um monte de ossos na sepultura.
Virei-me na cama, querendo abraar Carrie e estreit-la contra mim. Mas
Carrie estava no internato para meninas, a dezesseis quilmetros do permetro
urbano. A escola de Chris ficava a cinqenta quilmetros.
Chovia forte. O matraquear das gotas no telhado era como o rufar de tambores
militares que me levavam a sonhar e voltar exatamente para onde eu no
desejava. Vi-me jogada de volta num quarto trancado, abarrotado de
brinquedos, jogos e grandes mveis escuros, com gravuras do inferno nas
paredes. Sentada numa velha cadeira de balano prestes a desmontar-se, eu
segurava no colo um frgil irmozinho que me chamava de "Mame",
acalentando-o enquanto as tbuas do assoalho rangiam, o vento uivava, a
chuva batia com fora e, por cima, por baixo e em torno de ns, a enorme
manso com incontveis aposentos aguardava o momento de devorar-nos.
Detestei a chuva que caa logo acima de minha cabea, como costumava cair
quando ramos prisioneiros. Como nossa vida piorava quando chovia e o quarto
se tornava mido e frio, quando no sto s havia uma escurido deprimente e
rostos mortos ao longo das paredes. Faixas como tecido cinza de
nossa av vieram apertar-me a cabea, esmagando-me os pensamentos,
confundindo-me e aterrorizando-me.
No conseguindo dormir, sa da cama e vesti um neglig transparente. Por
algum motivo peculiar, esgueirei-me at o quarto de Paul e abri
cautelosamente a porta. O despertador na mesinha de cabeceira marcava duas
horas - e ele ainda no estava em casa! Ningum na casa exceto Henny, que
ficava to longe - na outra extremidade da casa, em seu quarto adjacente  cozinha.
Sacudi a cabea e tornei a olhar para a cama perfeitamente arrumada de Paul.
Oh! Chris era louco ao desejar ser mdico! Jamais teria uma noite inteira de
repouso. E estava chovendo. Ocorriam muitos acidentes em noites chuvosas. Se
Paul morresse? O que seria de ns? Paul, Paul! gritei com meus botes ao
correr para a escada, descendo-a depressa e indo espiar pelas vidraas
da sala. Rezei para ver um carro branco estacionado na alameda de acesso ou
chegando ao porto. Meu Deus! - Implorei. - No permita que ele sofra um
acidente! Por favor, no o leve como levou Papai! Por favor!
- Cathy, por que no est deitada?
Girei nos calcanhares. L estava Paul, confortavelmente sentado em sua
poltrona predileta, fumando um cigarro no escuro. A luz mal dava para
perceber que ele usava o
#70
roupo vermelho que lhe tnhamos dado de presente no Natal. Fui invadida por
um grande alvio ao v-lo em segurana e no estendido, morto, sobre uma
mesa de necrotrio. Pensamentos mrbidos. Papai, mal
consigo lembrar-me de sua fisionomia ou do som de sua voz. E aquele seu
cheiro caracterstico desapareceu.
- H algo errado, Catherine?
Errado? Por que ele me chamava de Catherine  noite; quando estvamos
sozinhos, e s Cathy durante o dia? Tudo estava errado! Os jornais de
Greenglenna e o da Virgnia que eu assinara e recebia na escola de bal
falavam a respeito das providncias tomadas pela Sra. Bartholomew Winslow
para instalar sua segunda casa "de inverno" em Greenglenna. Mandara realizar
uma extensa reforma para que o lar do marido ficasse restaurado exatamente
como quando fora construdo. Minha me s se satisfazia com o melhor!
Por algum motivo que nem mesmo eu conhecia, ataquei Paul como uma megera:
- H quanto tempo est em casa? - bradei. - Preocupei-me tanto com voc que
nem consegui dormir! E voc estava aqui, o tempo todo! No veio jantar hoje.
Tambm no veio jantar ontem; devia levar-me ao cinema, mas
esqueceu completamente! Terminei os deveres de casa, vesti as melhores
roupas e fiquei sentada, esperando que voc aparecesse - mas esqueceu-se!
Por que permite que os pacientes lhe faam tantas exigncias que o impedem
de ter sua prpria vida?
Paul passou muito tempo sem responder. Ento, quando tornei a abrir a boca
para falar, ele disse num tom suave:
- Parece mesmo perturbada. A nica desculpa que posso apresentar  dizer que
sou mdico e o tempo de um mdico nunca lhe pertence. Sinto muito ter
esquecido o cinema. Peo-lhe desculpas por no ter telefonado para explicar
que houve uma emergncia e no pude voltar a tempo.
- Esqueceu-se... como pde esquecer-se? Ontem, esqueceu-se de trazer as
coisas da lista que lhe entreguei, de modo que aps esperar horas a fio por
voc, fiquei sentada na esperana de que talvez trouxesse o xampu que lhe
pedi. Mas voc no trouxe!
- Mais uma vez, peo-lhe desculpas. s vezes, tenho algo na cabea alm do
cinema e do xampu que voc pediu.
- Est sendo sarcstico?
- Estou tentando controlar a raiva. Seria timo se voc pudesse controlar a
sua.
- No estou com raiva! - berrei.
Paul era to semelhante a Mame, to controlado, to seguro - quando eu
jamais conseguia s-lo! No se importava. Por este motivo, conseguia
permanecer sentado, olhando para mim daquela forma! Realmente no se
importava de fazer promessas e no as cumprir - como ela! Avancei para
agredi-lo mas ele me segurou os pulsos, fitando-me totalmente surpreso.
- Seria capaz de me bater, Catherine? Ser que ir ao cinema significa tanto
para voc que no consegue compreender como pude esquecer-me? Agora, pea
#71
desculpas por ter gritado comigo, da mesma forma que lhe pedi
desculpas por desapont-la.
O que me torturava era algo mais que simples desapontamento! Em lugar nenhum
existia algum em quem eu pudesse confiar -  exceo de Chris, que era
territrio proibido para mim. S Chris jamais se esqueceria de algo que eu
desejasse ou necessitasse.
Estremeci. Oh! que tipo de pessoa era eu? Seria to semelhante a Mame a
ponto de ter que conseguir tudo o que queria, quando queria, sem me importar
com o que pudesse custar aos outros? Pretenderia obrigar Paul a pagar pelo
mal que ela me causara? Ele no tinha a menor culpa.
- Paul, desculpe-me ter gritado. Eu o compreendo.
- Deve estar muito cansada. Talvez leve as aulas de bal a srio demais.
Talvez deva relaxar um pouco.
Como poderia eu explicar-lhe que era impossvel relaxar? Eu tinha que ser a
melhor - e ser a melhor em qualquer atividade significava horas e horas
de trabalho insano. Eu estava disposta a abrir mo totalmente de todos os
divertimentos aproveitados pelas moas da minha idade. No queria um
namorado que no fosse bailarino. No queria amigas que no danassem. No
queria coisa nenhuma que pudesse constituir obstculo  minha carreira e,
no obstante... no obstante... ali sentado, encarando-me, estava um homem
que declarava necessitar de mim e ficara magoado com a maneira detestvel
pela qual eu o tratara.
- Hoje, li a respeito de minha me - declarei, sem jeito. - Est remodelando
e redecorando uma casa. Ela sempre consegue o que quer. Eu nunca consigo
alguma coisa. Portanto, sou malcriada com voc e me esqueo de tudo o que
fez por ns.
Recuei alguns passos, com uma vergonha que chegava a doer.
- H quanto tempo est em casa? - indaguei.
- Desde onze e meia - respondeu Paul. - Comi a salada e o bife que Henny
deixou para mim no forno. Mas no consigo dormir bem quando estou fatigado
demais. E no gosto do barulho da chuva no telhado.
- Porque a chuva o isola do resto do mundo, causando-lhe solido?
Paul sorriu de leve.
- Sim, algo mais ou menos desse tipo. Como adivinhou?
O que ele sentia estava estampado no rosto to sombrio quanto a espaosa
sala de estar. Paul pensava nela: em Julia, sua falecida esposa. Sempre
apresentava um semblante triste quando se lembrava dela. Aproximei-me da
poltrona e, impulsivamente, estendi a mo para tocar-lhe o rosto.
- Por que continua a fumar? Como pode aconselhar os pacientes a deixarem o
vcio, se voc mesmo no o faz?
- Como sabe o que digo aos meus pacientes? - indagou ele naquela voz macia
que me provocava arrepios na espinha.
Soltei um riso nervoso, replicando que nem sempre ele fechava bem a porta do
consultrio e, se eu estivesse no corredor dos fundos, s vezes escutava
certas coisas, embora involuntariamente. Ele replicou que eu devia ir para a
cama e deixar de
#72
perambular pelo corredor dos fundos, que no era meu lugar. Acrescentou que
continuaria a fumar enquanto desejasse.
- s vezes, porta-se como uma esposa, fazendo perguntas dessa espcie e
zangando-se porque me esqueci de comprar algo para voc na farmcia. Tem
certeza de que est to desesperadamente necessitada de xampu?
Sentindo-me tola, tornei a zangar-me.
- S lhe pedi que me trouxesse as coisas daquela lista porque voc costuma
passar por uma drogaria onde tudo  mais barato! Minha. inteno era apenas
economizar seu dinheiro! De agora em diante, nunca mais lhe pedirei
para comprar algo de que eu necessite! Quando voc me convidar para jantar
fora ou ir a um cinema, estarei preparada para ser desapontada e, assim, no
me desapontarei. Acho melhor estar pronta para esperar o pior de todo mundo.
- Catherine! Pode odiar-me, se  o que deseja. Pode fazer-me pagar por tudo
o que sofreu. Ento, talvez consiga dormir  noite, em vez de se debater na
cama, chorar dormindo e chamar por sua me como uma criana de trs anos.
Aturdida, arregalei os olhos.
- Eu chamo por ela?
- Sim. Muitas e muitas vezes eu a ouvi chamar por sua me - respondeu ele,
com os olhos cheios de pena. - No se envergonhe de ser humana, Catherine.
Todos ns esperamos o melhor de nossas mes.
Eu no queria falar a respeito dela. Portanto, aproximei-me outra vez da
poltrona.
- Julian est de volta  cidade. J que voc me deu o bolo ontem, sa com
ele esta noite. Julian acha que estou pronta para enfrentar Nova York.
Acredita que sua professora de bal, Madame Zolta, poder desenvolver-me
mais depressa que sua me. Julga que, juntos, formaremos um par brilhante.
- E o que pensa voc?
- Acho que ainda no estou pronta para enfrentar Nova York - murmurei. - Mas
Julian fala com tanto entusiasmo que s vezes me faz acreditar, porque
parece to convicto.
- V devagar, Catherine. Julian  um jovem bonito, com arrogncia suficiente
para dez homens maduros. Trate de usar o seu bom senso e no se deixe
influenciar por algum que talvez deseje apenas us-la.
- Toda noite sonho que estou em Nova York, no palco. Vejo minha me na
platia, observando-me cheia de incredulidade. Ela quis me matar. Eu quero
que ela me veja danar e compreenda que tenho muito mais que ela a dar ao
mundo.
Paul franziu a testa, como se tivesse levado uma punhalada.
- Por que sente tanta necessidade de Vingar-se? Julguei que acolhendo vocs
trs e fazendo o melhor possvel em seu favor, voc encontraria a paz e
perdoaria tudo. No consegue perdoar e esquecer? A nica possibilidade que
ns, pobres seres humanos, temos de alcanar a santidade  aprendendo a
perdoar e esquecer.
#73
- Voc e Chris - atalhei com amargura. - Para voc,  fcil falar em perdoar
e esquecer - porque no foi vtima. Mas eu fui. Perdi meu irmo mais moo,
que era como um filho para mim. Eu amava Cory e ela lhe roubou a vida. Eu a
odeio por isso! Odeio por dez milhes de motivos - portanto, no
me venha falar em perdoar e esquecer, pois ela ter que pagar pelo que fez!
Mentiu para ns, traindo-nos da pior maneira possvel! No nos disse uma s
palavra que nos informasse da morte de nosso av e continuou a manter-nos
trancados durante nove longos meses - e nesses nove meses interminveis,
alimentou-nos com doces envenenados! Assim, no se atreva a falar em perdoar
e esquecer! No sei como perdoar ou esquecer! S sei odiar! E voc nem
imagina o que seja odiar como eu odeio!
- No, mesmo? - replicou ele num tom inexpressivo.
- No. Voc no sabe.
Quando comecei a soluar, com as lgrimas escorrendo-me pelo rosto, Paul
sentou-me em seu colo. Reconfortou-me como um pai, com beijinhos suaves e
mos caridosas que me acariciavam.
- Catherine, tambm tenho minha estria para contar. Talvez, sob certos
aspectos, se iguale ao horror da sua. Talvez, se eu lhe contar, voc consiga
tirar proveito de algo que aprendi.
Observei-lhe o rosto. Paul afrouxou os braos em torno de mim, recostando-se
na poltrona.
- Vai contar-me a respeito de Julia e Scotty?
- Sim - a voz dele assumiu um tom duro. Com os olhos fixos nas vidraas
banhadas pela chuva, apertou-me a mo com fora. - Voc julga que apenas sua
me cometeu crimes contra as pessoas que ama. Pois est enganada. Isso
acontece todos os dias. s vezes, no intuito de ganhar dinheiro. Contudo,
existem outros motivos.
Fez uma pausa, suspirou e prosseguiu:
- Espero que voc, aps escutar minha estria, consiga voltar para a cama e
esquecer a vingana. Se no conseguir, causar mais mgoa a si mesma que a
qualquer outra pessoa.
Eu no acreditei naquilo porque no desejava acreditar, mas estava bastante
ansiosa para saber como Julia e Scotty haviam morrido no mesmo dia. Quando
Paul comeou a falar de Julia, tive medo do final. Fechei os olhos com
fora, desejando ento que meus ouvidos no fossem obrigados a escutar, pois
no necessitava de mais nada para acrescentar  angstia que j sentia por
um menino morto. Mas Paul falou por minha causa, para salvar-me - como se
isto fosse possvel.,
- Julia e eu ramos namorados de infncia. Ela nunca teve outro namorado; eu
nunca tive outra namorada. Julia me pertencia e eu fazia questo de deixar O
fato bem evidente para todos os outros meninos. Nunca proporcionei a mim
mesmo, nem a ela, a oportunidade de experimentar como eram os outros - e
isto foi um erro terrvel. Fomos bastante tolos para acreditarmos que nosso
amor duraria para sempre.
#74
- Namorvamos firmes e trocvamos cartas, embora morssemos apenas a alguns
quarteires de distncia um do outro. Com o decorrer do tempo, Julia
tornou-se cada vez mais bela. Eu me julgava o sujeito mais afortunado do
mundo e Julia me achava perfeito. Colocamo-nos mutuamente em pedestais. Ela
seria a esposa perfeita para um mdico e eu seria o marido ideal;
teramos trs filhos. Julia era filha nica, mimada pelos pais. Ela adorava
o pai e costumava dizer que eu era como ele.
Neste ponto, a voz de Paul se tornou mais profunda, como se o que tinha a
dizer fosse muito doloroso.
- Coloquei um anel de noivado no dedo de Julia no dia em que ela completou
dezoito anos. Na poca, eu tinha dezenove. Quando fui para a universidade,
lembrava-me dela aqui e imaginava que homem a estaria cobiando. Tinha medo
de perd-la para outro, se no nos casssemos logo. Portanto,
casamo-nos quando Julia tinha dezenove anos e eu vinte.
Sua voz assumiu um tom amargo, os olhos ficaram inexpressivos e seus braos
me estreitaram.
- Julia e eu nos beijramos muitas vezes e andvamos sempre de mos dadas,
mas ela jamais permitiu que eu fizesse algo mais ntimo - isto teria que
esperar at que ela tivesse uma aliana no dedo. Eu tivera algumas
experincias sexuais, no muitas. Julia era virgem e julgava que eu tambm
fosse. No levei meus votos matrimoniais na brincadeira e estava decidido a
ser exatamente o tipo de marido capaz de faz-la feliz. Amava-a muito.
Assim, na nossa noite de npcias, Julia levou duas horas para despir-se no
banheiro. Entrou no quarto usando uma longa camisola branca e tinha o rosto
to branco quanto a camisola. Percebi que estava aterrorizada. Convenci-me de
que me portaria com tanta ternura e amor que ela feria prazer em ser minha
esposa.
- Julia no sentia prazer no sexo, Cathy. Fiz o possvel para excit-la,
enquanto ela se encolhia com os olhos arregalados e cheios de pavor; gritou
quando tentei despir-lhe a camisola. Depois que ela me implorou que lhe
desse mais tempo, parei e decidi tentar outra vez na noite seguinte.
Entretanto, na noite seguinte tudo se repetiu, s que pior. Ela indagou,
lacrimosa: "Ora, por que no pode ficar aqui deitado e apenas me abraar?
Por que tem que
ser to feio?"
- Eu tambm era apenas um menino e no sabia como enfrentar uma situao
daquelas. Amava Julia, desejava-a e, afinal, terminei por possu-la  fora
- ou, pelo menos, era o que ela no se cansava de repetir. No obstante, eu
a amava. Amara-a durante a maior parte de minha vida e simplesmente no
conseguia acreditar que fizera a escolha errada. Portanto, passei a ler
todos os
livros sobre relaes sexuais que consegui encontrar, tentando todas as
tcnicas para excit-la e fazer com que me desejasse - mas s lhe causei
repulsa.
Comecei a beber depois que me formei na universidade e, quando sentia
vontade, procurava alguma outra mulher que tivesse prazer em minha companhia
na cama. Os anos se passaram enquanto Julia se mantinha distante, tratando
de conservar a casa limpa e arrumada, lavar minhas roupas, passar minhas
camisas e pregar os botes que caam. Era to linda, to desejvel e estava
#75
To prxima de mim que eu ocasionalmente a forava, embora ela sempre chorasse
depois. Ento, Julia descobriu que estava grvida. Fiquei eufrico e creio
que ela tambm. Nunca uma criana foi to amada e mimada como meu filho e,
felizmente, era o tipo de menino que no se deixa estragar por excesso de
amor.
A voz de Paul passou para um tom ainda mais grave, enquanto me aninhei
melhor em seus braos, temendo o que estava por vir, pois sabia que era algo
terrvel.
- Aps o nascimento de Scotty , Julia disse-me sem maiores rodeios que j
cumprira o seu dever, dando-me um filho, e que daquele momento em diante eu
deveria deix-la em paz. No me incomodei com ter de deix-la em paz, mas
fiquei profundamente magoado. Conversei com a me dela a respeito de nosso
problema e minha sogra insinuou que havia um sombrio segredo no passado de
Julia, algo a respeito de um primo que lhe fizera certas coisas quando ela
tinha apenas quatro anos de idade. Jamais fiquei sabendo ao certo o que fez
o primo, mas, fosse l o que fosse, inibiu para sempre o sexo de minha
esposa. Sugeri a Julia que fssemos ambos consultar um conselheiro
matrimonial ou um psiclogo, mas ela se recusou terminantemente, alegando
que seria por demais embaraoso e querendo saber por que motivo eu no podia
deix-la em paz.
- Depois disso, deixei-a realmente em paz - prosseguiu Paul. - Sempre havia
por perto mulheres dispostas a satisfazer os desejos de um homem e eu
tinha no consultrio uma linda recepcionista que no fazia, segredo de estar
mais do que disponvel a qualquer hora e em qualquer lugar. Tivemos um caso
que durou vrios anos. Julguei que ramos ambos muito discretos e que
ningum tinha conhecimento de nossas relaes. Ento, certo dia, ela me
procurou para dizer que estava esperando um filho meu. No pude acreditar,
pois ela me dizia que tomava plulas anticoncepcionais. Nem mesmo pude
acreditar que a criana fosse minha, pois sabia que ela possua vrios
amantes. Portanto, recusei-me a pedir divrcio de minha esposa e arriscar-me
a perder Scotty para servir de pai a um filho que talvez nem fosse meu. Ela perdeu a
calma.
- Naquela noite, voltei para casa e encontrei uma esposa que eu jamais
tivera oportunidade de conhecer. Julia acusou-me furiosamente de
infidelidade conjugal, argumentando que fizera o melhor possvel e dera-me o
filho que eu tanto desejava. Agora, eu a traa, quebrando meus votos
matrimoniais e transformando-a em alvo de zombaria da cidade inteira!
Ameaou matar-se. Tive pena dela quando gritou que me faria pagar caro, que
me faria sofrer! J
ameaara matar-se antes, mas nunca tentara o suicdio.
- Julguei que aquela exploso serviria para purificar a atmosfera entre ns.
Julia nunca mais me falou no caso. Na verdade, parou de falar comigo, a no
ser quando Scotty estava por perto, pois desejava que nosso filho tivesse um
lar normal, com pais ostensivamente felizes. Eu lhe dera um filho que ela
amava de forma quase irracional.
- Ento, chegou o ms de junho e o aniversrio de Scotty, que completava
#76
trs anos. Julia planejou para ele uma festa de aniversrio e convidou seis
outras crianas que, naturalmente, viriam com as respectivas mes. Foi num
sbado. Eu estava em casa e, a fim de ajudar a acalmar Scotty, que estava
por demais excitado com a perspectiva da festa, dei-lhe um veleiro de
brinquedo para combinar com a roupa de marinheiro que ele usaria naquele dia. Julia,
vestindo voile azul, desceu a escada com Scotty. Seus belos cabelos escuros
estavam amarrados para trs com uma fita de cetim azul. Scotty segurava a
mo da me e trazia sob o outro brao o veleiro que eu lhe dera. Julia me
disse que temia no ter comprado balas suficientes para a festa e, j que
fazia um dia to lindo, iria a p com Scotty at a confeitaria mais prxima, a fim
de comprar mais balas. Ofereci-me para lev-los no carro, mas ela recusou,
pois queria que eu permanecesse em casa para a eventualidade de algum
convidado chegar antes da hora. Sentei-me na varanda da frente e esperei.
Dentro de casa, a mesa da sala de jantar estava arrumada para a festa, com
bolas penduradas no lustre, lnguas-de-sogra, chapus de palhao e outros
brindes para as crianas. Henny preparara um bolo enorme.
- Os convidados comearam a chegar por volta das duas horas. Julia e Scotty
ainda no tinham voltado. Comecei a ficar preocupado, de modo que peguei o
carro e fui  confeitaria, esperando v-los no caminho. Mas no os vi. Na
confeitaria, perguntei se tinham comprado balas, mas ningum os vira l. Foi
ento que comecei a sentir-me realmente amedrontado. Rodei pelas ruas a
procur-los, parando para indagar dos transeuntes se tinham visto uma
senhora vestida de azul e um menino com roupa de marinheiro. Acho que
interroguei cinco ou seis pessoas antes que um rapaz de bicicleta me desse
uma resposta positiva: vira uma senhora de azul e um menino carregando um
veleiro de brinquedo. Apontou a direo que haviam tomado.
- Dirigiam-se ao rio! Segui com o carro at onde me foi possvel. Ento,
saltei e corri a p ao longo da trilha de terra, temendo chegar l tarde
demais. Tentei acalmar-me, dizendo com meus botes que Scotty apenas
desejava colocar o bote e flutuar no rio, como eu costumava fazer quando
criana. Corri to depressa que meu corao chegou a doer. Ento, cheguei 
margem gramada do rio. L estavam eles: ambos flutuavam na gua, de rosto
para
cima. Julia mantinha os braos apertados em torno de Scotty , que obviamente
lutava para libertar-se dela. O pequeno veleiro vagava ao sabor da
correnteza. A fita azul se soltara do cabelo de Julia e tambm flutuava. As
mechas de longos cabelos escuros estendiam-se para enroscar-se nas plantas
aquticas. O rio era raso, chegando apenas  altura dos joelhos de uma
pessoa adulta.
Sentindo a terrvel angstia de Paul, produzi um som sufocado, mas ele no
escutou. Prosseguiu:
- Num piscar de olhos, tomei-os nos braos e os trouxe de volta  margem.
Julia ainda vivia, mas Scotty parecia morto. Portanto, tentei tratar dele,
num esforo intil para faz-lo recobrar os sentidos. Fiz todo o possvel
para bombear-lhe a gua dos pulmes, mas meu filho estava morto. Ento,
repeti o processo com Julia, que tossiu, engasgou-se e vomitou a gua. No
abriu os olhos, mas, pelo menos, ainda respirava. Coloquei-os ambos no carro
e os levei ao hospital mais prximo onde os
#77
mdicos lutaram desesperadamente para
reviver Julia. Mas no conseguiram, da mesma forma que eu no conseguira
reviver Scotty.
Paul fez uma pausa e me fitou no fundo dos olhos.
- Eis a minha estria para uma garota que julga ser a nica pessoa que
sofreu, a nica que perdeu algum, a nica que tem saudade e tristeza. Oh!
eu tenho saudade e tristeza como voc, mas tambm carrego comigo o remorso.
Deveria ter percebido quo instvel era Julia. Assistimos  Media na TV,
poucos dias antes do aniversrio de Scotty, e Julia demonstrara um interesse
desusado, embora no gostasse de televiso. Fui estpido por no perceber o
que ela estava pensando e planejando fazer. No obstante, mesmo agora ainda
no consigo compreender como ela foi capaz de matar nosso filho, a quem
tanto amava. Poderia ter-se divorciado de mim e eu no lhe tiraria Scotty.
Contudo, isso no seria vingana suficiente para Julia. Ela teve que matar a
pessoa que eu mais amava: meu filho.
No consegui falar. Que espcie de mulher fora Julia? Semelhante  minha
me? Minha me matara para ganhar uma fortuna. Julia matara por vingana.
Faria eu a mesma coisa? No, no, claro que no. Minha maneira seria melhor,
muito melhor, pois ela continuaria viva para continuar sofrendo
interminavelmente.
- Sinto muito - declarei com voz embargada, com tanta pena que tive
necessidade de beijar o rosto de Paul. - Mas voc pode ter outros filhos.
Pode casar-se novamente.
Abracei-o quando ele sacudiu a cabea.
- Esquea Julia! - exclamei, abraando-lhe o pescoo e estreitando-me contra
ele. - No vive me dizendo para perdoar e esquecer? Perdoe-se e esquea o
que aconteceu a Julia.
Lembrei-me de meu pai e minha me; estavam sempre acariciando-se e
beijando-se. Desde pequenina, sei que os homens precisam  ser amados e
acariciados. Costumava observar minha me para ver como ela amansava Papai
se este ficava zangado. Fazia-o por meio de beijos, olhares ternos e
pequenas carcias. Joguei a cabea para trs e sorri para Paul como vira
Mame sorrir para Papai.
- Diga-me como uma esposa deve agir na noite de npcias. No quero
desapontar meu noivo.
- No lhe direi tal coisa!
- Ento, eu apenas fingirei que voc  meu noivo e que acabo de sair do
banheiro, depois de me despir. Ou acha melhor despir-me na sua frente? Que
tal?
Ele pigarreou e tentou afastar-me de si, mas agarrei-me como visgo.
- Acho que voc deve ir para a cama e esquecer essa brincadeira de fingir.
Permaneci onde estava. Beijei-o repetidamente e logo ele comeou a
corresponder. Senti-lhe a carne esquentar, mas, de repente, seus lbios se
contraram numa linha firme sob os meus e ele passou os braos por baixo de
meus joelhos e ombros. Levantou-se comigo nos braos e se encaminhou para a
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escada. Julguei que me levava a seu quarto a fim de fazermos amor e me senti amedrontada,
envergonhada - mas tambm ansiosa e excitada. Entretanto,
Paul foi direto ao meu quarto e, parando ao lado de minha cama estreita,
hesitou. Apertou-me contra o corao por um tempo dolorosamente prolongado,
enquanto a chuva fustigava as vidraas. Paul deu a impresso de esquecer-se
de quem eu era e roou o rosto spero no meu, acariciando-me sem usar
as mos. Mais uma vez, como sempre, tive que falar e estragar tudo.
- Paul... Minha voz tmida arrancou-o de um devaneio que, se eu ficasse
calada, talvez me conduzisse mais cedo ao xtase sempre adiado pelo qual meu
corpo tanto ansiava.
- Quando estvamos trancados no quarto, nossa av nos chamava de filhos do
Demnio. Dizia que ramos sementes daninhas plantadas no solo errado e
jamais produziramos algo de bom. Tornou-nos inseguros a respeito
do que ramos, fazendo-nos duvidar de que tnhamos direito de viver. Foi to
terrvel o que Mame fez: casar-se com seu meio-tio, que era apenas trs
anos mais velho que ela? Nenhuma mulher que tivesse um corao dentro do
peito seria capaz de resistir a ele. Tenho certeza de que eu no resistiria.
Ele era como voc. Nossos avs julgavam que nossos pais haviam cometido um
pecado
mortal e, por isso, ramos desprezados - at mesmo os gmeos, to pequenos e
adorveis. Chamavam-nos de corruptos. Tinham razo? Estavam certos ao
desejarem matar-nos?
Eu pronunciara exatamente as palavras certas para trazer Paul de volta 
realidade. Largou-me depressa e virou a cabea para o lado, a fim de que eu
no lhe visse os olhos. Eu detestava quando as pessoas ocultavam os olhos e
eu no podia ler neles a verdade sobre o que pensavam.
- Creio que seus pais estavam muito apaixonados e eram muito jovens - disse
Paul numa voz tensa e estranha. - To apaixonados que no pararam a fim de
analisar o futuro e as conseqncias.
- Oh! - exclamei, ultrajada. - Acha que os avs tinham razo - que somos
frutos do mal!
Ele girou para me encarar, os lbios cheios e sensuais entreabertos, uma
expresso furiosa no rosto.
- No tora o que digo para satisfazer sua necessidade de vingana. Nunca
existe motivo suficiente para justificar homicdio, a menos que seja em
legtima defesa. Vocs no so maus. Seus avs eram tolos  preconceituosos
que deveriam ter aprendido a aceitar a realidade e aproveit-la da melhor
forma possvel. E tinham muito de que se orgulharem dos quatro netos que
seus pais
lhes deram. E, caso seus pais tenham assumido um risco calculado quando
resolveram ter filhos, eu diria que acertaram em cheio. Deus e as
probabilidades
tomaram seu partido e deram a vocs muita beleza, o dom de saber apreci-la
e, talvez, at mesmo um excesso de talentos. No h dvida de que tenho 
minha frente uma garota fervilhante de emoes adultas, grandes demais para
seu tamanho e idade.
- Paul...?
- No me olhe assim, Catherine.
#79
- No sei como estou olhando.
- V dormir, Catherine Sheffield - imediatamente!
- Como me chamou? - perguntei, enquanto ele recuava em direo  porta.
Paul sorriu.
- No foi uma falha Freudiana, se  isso que est pensando. Dollanganger 
um nome comprido demais. Sheffield seria uma escolha bem melhor. Podemos
providenciar para que seu nome seja mudado legalmente.
- Oh! - murmurei, doente de desapontamento.
- Escute aqui, Catherine - disse ele da porta, to volumoso que bloqueava a
luz do corredor. - Est jogando um jogo perigoso. Tenta seduzir-me;  muito
linda e difcil de resistir. Mas seu lugar em minha vida  o de filha - nada
mais que isso.
- Estava chovendo naquele dia de junho em que voc sepultou Julia e Scotty?
- Que diferena faz? Qualquer dia em que enterramos entes queridos 
chuvoso!
E se afastou de minha porta, caminhando depressa para seu quarto, onde
entrou e bateu a porta com fora.
Portanto, eu tentara duas vezes e ele me rejeitara outras tantas. Agora, eu
estava livre para prosseguir meu alegre e destrutivo caminho, para danar
cada vez mais, at chegar ao topo. E isto seria uma lio para Mame, que s
sabia bordar e tricotar, ensinando-lhe quem era mais inteligente e
talentosa. Ela veria quem era capaz de ganhar uma fortuna por seus prprios
meios, sem precisar vender o corpo, sem apelar para assassinato a fim de
herd-la!
O mundo inteiro tomaria conhecimento de mim! Comparar-me-iam com Anna
Pavlova e me considerariam melhor. Minha me compareceria a uma festa em
minha homenagem, acompanhada pelo marido. Estaria velha, abatida,
cansada, enquanto eu seria fresca e jovem: seu marido Bart viria diretamente
a
mim, embevecido, para beijar-me a mo.
-  a mulher mais linda e talentosa do mundo - diria ele.
E bastaria seu olhar para demonstrar que me amava - dez vezes mais do que
jamais amara minha me. Ento, quando eu possusse Bart e ela estivesse
sozinha, abandonada, eu revelaria a ele minha verdadeira identidade. A
princpio, ele no acreditaria. Depois, acabaria acreditando. E odiaria
minha me!
Tomar-lhe-ia todo o dinheiro. Para onde iria a fortuna? Parei, confusa. Que
seria feito do dinheiro se fosse tomado de Mame? Voltaria  av? Certamente
no viria para ns, Chris, Carrie e eu, pois no existamos como membros da
famlia Foxworth. Ento, sorri com meus botes ao lembrar-me das
quatro certides de nascimento que eu encontrara costuradas sob o forro de
uma das nossas velhas maletas. Comecei a rir. Oh! Mame! quantas coisas
estpidas voc fez! Imaginem: esconder as certides de nascimento! Com
aqueles documentos, eu podia provar que Cory existira; sem eles, seria a
minha palavra contra a dela, a menos que a polcia decidisse ir a Gladstone
e encontrasse o mdico que fizera o parto dos gmeos. E havia tambm nossa
#80
antiga bab Sra. Simpson... e Jim Johnston. Oh! eu esperava que nenhum deles se tivesse
mudado da cidade e que todos ainda se lembrassem das quatro bonecas de
Dresden.
E eu sabia que era m, nascida para ser m - como dissera minha av desde o
incio. Fora castigada antes de cometer qualquer ato mau: portanto, por que
no permitir que o castigo correspondesse a um crime que ainda
estava por ser cometido? No havia motivo pelo qual eu devesse ser
perseguida e desgraada pelo simples fato de haver, numa ocasio de
sofrimento e misria, procurado refgio nos braos de meu irmo. Apenas me
voltara para o homem que mais necessitava de mim. Se isso era pecado - dar o
que suas
palavras recusavam e seu olhar implorava -, ento, que me deixassem ser m!
 medida que ficava sonolenta, comecei a planejar tudo. Ele no se
afastaria, rejeitando-me, porque eu tornaria tal coisa impossvel. Ele no
desejaria magoar-me. Possuir-me-ia e pensaria consigo que fora obrigado a
isso; no teria o mnimo remorso.
A culpa seria toda minha. E Chris me odiaria; seria obrigado a procurar
outra pessoa.

Mais Suave que Todas as Rosas

Completei dezesseis anos em abril de 1961. Encontrava-me na idade
florescente e propcia em que todos os homens, jovens e velhos,
principalmente os que j passavam dos quarenta anos, viravam-se na rua para
olhar-me. Quando eu esperava o nibus na esquina, os carros diminuam a
velocidade porque os motoristas no podiam deixar de fitar-me com olhos
esbugalhados e cobiosos.
E se eles ficavam maravilhados, mais ainda ficava eu. Pavoneava-me diante
dos muitos espelhos da casa de Paul e via - s vezes, surpresa, uma jovem
linda, cuja beleza chegava a tirar o flego. E aquela viso gloriosa era eu!
Era espantosamente bela e tinha conscincia do fato. Julian vinha
freqentemente de Nova York deleitar em mim o olhar desejoso, declarando
saber o que queria, embora eu no soubesse o que eu queria. Via Chris apenas
nos fins de semana e sabia que ele ainda me desejava,  continuando a amar-me
mais do que chegaria a amar outra pessoa.
Chris e Carrie vieram para casa no fim de semana de meu aniversrio e rimos,
abraamo-nos e falamos to depressa como se nunca dispusssemos de tempo
para dizer tudo o que queramos - especialmente Chris e eu. Tive vontade de
dizer a Chris que Mame em breve viria morar em Greenglenna, mas temi que
ele me impedisse de fazer o que planejava, de modo que no mencionei o
assunto. Aps algum tempo, Carrie afastou-se para sentar-se num canto e
observar com seus olhos grandes e
#81
tristes o nosso benfeitor, aquele homem grande e bonito que me mandara
vestir minhas melhores roupas.
- Por que no usa aquele vestido que vem reservando para uma ocasio
especial? Para festejar seu aniversrio, pretendo oferecer-lhe um festim de
gourmet no meu restaurante favorito - The Plantation House.
Tive que subir imediatamente e comear a preparar-me. Pretendia aproveitar
ao mximo meu aniversrio. Meu rosto no precisava de maquilagem, mas
coloquei-a assim mesmo - o servio completo, incluindo mscara preta
como nanquim nos clios, dando-me ao trabalho de usar o curvex. Minhas unhas
brilhavam como prolas e o vestido de gala era cor-de-rosa. Oh! como me
senti linda ao arrumar-me diante do espelho triplo colocado sobre minha
penteadeira.
- Minha Lady Catherine - disse Chris da porta aberta. - Est muito linda,
mas  profundo mau gosto admirar-se tanto a ponto de beijar a prpria imagem
no espelho. No duro, Cathy, deve esperar elogios dos outros - e no faz-los
a si mesma.
- Tenho medo de que ningum me elogie - repliquei na defensiva.- Portanto,
elogio-me a fim de ficar mais confiante em mim. Estou linda ou apenas
bonita?
- Est linda, sim - disse Chris numa voz engasgada e esquisita. - Duvido que
encontre outra garota to linda como voc est agora.
- Diria que estou melhorando com a idade?
- No lhe farei mais elogios! No  de espantar que nossa av tenha quebrado
todos os espelhos! Sinto vontade de fazer o mesmo. Quanta vaidade e
convencimento!
Franzi a testa, no gostando de ser lembrada da velha.
- Voc est fantstico, Chris - repliquei comum largo e ardoroso sorriso. -
No sinto vergonha ou embarao de fazer elogios quando so merecidos. Voc 
to bonito quanto Papai.
Cada vez que vinha para casa da escola, Chris parecia mais maduro e bonito.
No obstante, quando eu o observava com mais ateno percebia que a
sabedoria emprestava-lhe ao olhar uma caracterstica estranha, algo que o
fazia parecer muito, muito mais velho que eu. Parecia tambm mais triste e
mais vulnervel que eu, uma combinao extremamente atraente.
- Por que no  feliz, Chris? - perguntei. - A vida o decepciona? Est
aqum do que voc imaginava quando estvamos presos e tnhamos tantos sonhos
para o futuro? Arrepende-se, agora, de ter resolvido ser mdico? Em vez
disso, preferiria ser bailarino, como eu?
Eu me aproximara para observar seus olhos to reveladores, mas Chris
baixou-os para ocult-los. Tentou circundar minha cintura com as mos, mas a
circunferncia no era to pequena, nem suas mos to grandes. Ou estaria
apenas arranjando uma desculpa para tocar-me? Transformando em brincadeira
algo muito srio. Seria isso? Abaixei-me para fitar-lhe o rosto e nele
encontrei o amor que procurava. De repente, desejei no ter tomado
conhecimento.
#82
- No me respondeu, Chris.
- O que perguntou?
- A vida, os estudos de medicina, esto correspondendo s suas expectativas?
- O que corresponde s nossas expectativas?
- Isso me parece cinismo.  o meu estilo, no o seu.
Chris ergueu a cabea e exibiu um brilhante sorriso. Oh! meu Deus!
- Sim - disse ele. - A vida aqui fora  o que eu imaginava que fosse. Fui
realista, ao contrrio de voc. Gosto da escola e das amizades que fiz.
Entretanto, ainda sinto saudades de voc;  difcil viver longe, sempre a
imaginar o que voc andar aprontando.
Desviou outra vez os olhos, que se toldaram com um desejo impossvel de
satisfazer.
- Feliz aniversrio, minha Lady Catherine - disse baixinho, roando de leve
os lbios nos meus, num leve beijo que no ousava passar desse ponto. Ento,
tomou-me a mo: - Vamos. Todos esto prontos menos a vaidosa e
convenci da aniversariante.
Descemos a escada de mos dadas. Paul e Carrie j estavam prontos,
aguardando. Henny tambm. A casa parecia esquisita, to silenciosa e
carregada de expectativa - to fantasmagoricamente escura, com todas as
luzes apagadas, menos as do vestbulo. Que gozado!
Ento, de repente, um coro berrou no escuro:
- Surpresa! Surpresa!
As vozes continuaram a berrar quando todas as luzes se acenderam e meus
colegas da aula de bal cercaram Chris e a mim.
Henny trouxe um bolo de aniversrio com trs camadas, cada uma menor que a
inferior, declarando orgulhosamente t-lo preparado e decorado pessoalmente.
Que eu consiga sempre sucesso em tudo o que tentar, desejei de
olhos fechados, apagando as velas. Estou ganhando terreno sobre voc, Mame,
tornando-me mais velha e esperta a cada dia. Quando chegar a hora, estarei
pronta para derrot-la!
Soprei com tanta fora que a cera cor-de-rosa derretida respingou as
delicadas rosas de acar que repousavam entre folhas de glac verde claro.
Em frente a mim estava Julian, cujos olhos negros, pregados nos meus,
repetiam mudamente a mesma pergunta.
Sempre que eu procurava o olhar de Chris, ele desviava o rosto para o lado
ou baixava os olhos para fitar o cho. Carrie mantinha-se colada a Paul, que
se sentara a alguma distncia dos ruidosos festejos e tentava no parecer
severo. To logo terminei de abrir todos os presentes, Paul se ergueu, pegou
Carrie no colo e desapareceu com ela na escada.
- Boa noite, Cathy - disse Carrie, o rostinho feliz e corado cheio de sono.
-  a melhor festa de aniversrio que j vi.
Quase chorei de dor ao escutar aquelas palavras, pois Carrie j tinha quase
nove anos e as festas de aniversrio de que podia Lembrar-se, com exceo da
festa de Chris, em novembro passado, foram meras tentativas de transformar
pouco em muito.
#83
- Por que parece to triste? - quis saber Julian, que se aproximara para me
abraar. - Alegre-se, pois agora tem-me a seus ps, pronto para
incendiar-lhe o corao e o corpo.
Na verdade, eu o detestava quando se comportava assim, tentando demonstrar
de todos os modos possveis que eu era sua propriedade exclusiva. Seu
presente fora uma sacola de couro para carregar meu material de bal:
malhas, sapatilhas, etc. Afastei-me dele com uma pirueta, pois no desejava
ser dominada por ningum naquela noite. Todas as garotas que ainda no
estavam vidradas em Julian gamaram por Chris de imediato, o que nada
contribuiu para fazer com que Julian detestasse menos meu irmo. No sei o
que ateou fogo  lenha, mas, de repente, Chris e Julian estavam num canto,
discutindo e prestes a se engalfinharem.
- No me importa o que voc pensa! - bradou Chris, com sua caracterstica
frieza nos momentos de maior raiva. - Minha irm  jovem demais para ter um
amante e ainda no est pronta para enfrentar Nova York!
- Voc! Seu... - retrucou Julian, furioso. - Que sabe voc a respeito de
bal? No sabe nada! Nem mesmo  capaz de mover os ps sem pisar nos
prprios calos!
- Talvez seja verdade - disse Chris num tom gelado. - Mas possuo outras
habilidades. Alm disso, estamos falando de minha irm e do fato de ela
ainda ser menor de idade. No permitirei que voc a convena a acompanh-lo
a Nova York quando ela nem mesmo ainda terminou o ginsio!
Minha cabea se movia de um lado para outro, observando um de cada vez; era
difcil dizer qual o mais bonito dentre os dois. Senti-me doente por eles
demonstrarem publicamente a hostilidade que sentiam um pelo outro  e porque
eu desejava tanto que se gostassem mutuamente. Estremeci, prestes a gritar
para que parassem de discutir. Mas fiquei calada.
- Cathy - chamou Chris, sem desviar por um instante os olhos de Julian, que
parecia pronto a desferir um murro ou pontap. -  Voc acredita francamente
que est preparada para estrear em Nova York?
- No... - respondi, quase num sussurro.
Julian lanou-me um olhar raivoso, pois vivia insistindo a cada minuto que
estvamos juntos, tentando convencer-me a acompanh-lo a Nova York para ser
sua amante e par de bal. Eu sabia por que razo ele me  desejava: meu peso,
altura e equilbrio adequavam-se com perfeio  sua capacidade. 
imprescindvel encontrar o par ideal quando se deseja impressionar a platia
num pas de deux.
- Que todos os seus aniversrios sejam um inferno na terra! - bradou Julian,
dirigindo-se  porta e batendo-a com fora atrs de si.
E assim terminou minha festa de aniversrio, com todos indo embora parecendo
embaraados. Chris subiu para seu quarto sem me dizer boa-noite. Com
lgrimas nos olhos, comecei a catar as migalhas que haviam cado no tapete
da sala de visitas. Encontrei um buraco no luxuoso tapete verde, produzido
por um cigarro que algum deixara cair. Algum quebrara uma das valiosas
#84
peas de Paul, uma cintilante e transparente rosa de cristal. Segurei os pedaos do
objeto, pensando em comprar a cola adequada para restaur-lo e at mesmo
imaginando um meio - pois tinha que haver algum - de tapar o
buraco no tapete e eliminar as manchas circulares deixadas pelos copos nos
mveis envernizados.
- No se preocupe com a rosa - disse Paul s minhas costas. - No passa de
uma quinquilharia barata. Sempre posso comprar outra.
Voltei-me para encar-lo. Paul postara-se com a maior naturalidade junto ao
arco que levava ao vestbulo. Enfrentou meu olhar lacrimoso com seus olhos
suaves e bondosos.
- Era uma linda rosa - declarei, engasgada. - E sei que custou caro.
Comprar-lhe-ei outra, se encontrar a duplicata. E tambm lhe darei algo
melhor quando...
- Esquea.
- Mais uma vez, muito obrigada pela linda caixinha de msica - disse eu,
levando nervosamente a mo ao profundo decote e tentando esconder o sulco
entre meus seios. - Certa vez, meu pai me deu uma caixinha de msica com uma
bailarina, mas fui obrigada a abandon-la...
Minha voz se embargou e no consegui continuar, pois a lembrana de meu pai
sempre me deixava em runas, desolada e sem esperanas.
- Chris me falou da caixinha de msica que seu pai lhe deu e procurei uma
igual para comprar. Acertei?
- Sim - respondi, embora no fossem iguais.
- timo. Agora, v dormir. Esquea a desordem: Henny limpar tudo. Parece
sonolenta.
Logo subi para meu quarto, onde verifiquei, espantada, que Chris me
aguardava.
- O que est havendo entre voc e Julian? - indagou ele com ar feroz.
- Nada!
- No minta para mim, Cathy! Ele no vem de avio de Nova York at aqui sem
um objetivo!
- Meta-se com sua vida, Christopher! - repliquei furiosa. - No tento dizer
o que voc deve fazer; portanto, exijo que proceda da mesma forma em relao
a mim! Voc no  santo e eu no sou anjo! O problema  que voc no passa
de um homem como os outros, pensando que pode fazer o que bem entender,
enquanto eu devo ficar quietinha de lado, muito recatada e pura,  espera de
que aparea algum que se case comigo! Pois no sou esse tipo de mulher!
Ningum vai me obrigar a fazer o que no quero - nunca mais! Nem Paul! Nem
Madame! Nem Julian! Nem voc, tambm!
Chris ficou muito plido, contendo-se para no me interromper.
- Quero que se mantenha fora de minha vida, Christopher! Farei o que tiver
que fazer, qualquer coisa que for preciso, para chegar ao topo!
Seus celestiais olhos azuis lanaram-me diablicas centelhas eltricas.
- Presumo que seja capaz de dormir com qualquer homem, se julgar necessrio.
#85
- Farei o que for preciso! - retruquei raivosa, embora no tivesse pensado
no assunto.
Chris pareceu prestes a esbofetear-me e o esforo que fez para controlar-se
obrigou-o a cerrar os punhos ao longo do corpo. Uma faixa branca
circundou-lhe os lbios contrados.
- O que deu em voc Cathy? - comeou num tom magoado. - Jamais imaginei que
se transformasse em outra oportunista.
Enfrentei-lhe amargamente o olhar. O que ele julgava estar fazendo?
Tivramos a felicidade de topar com um homem solitrio, infeliz, e o
estvamos usando; mais cedo ou mais tarde, teramos que pagar um preo por
isso. Nossa av sempre nos dizia que ningum faz nada em troco de nada. Mas,
de todo modo, eu no podia dizer algo mais para magoar Chris e tambm no
podia pronunciar uma s palavra contra Paul, que nos acolhera e fazia por
ns tudo o que lhe era possvel. Na realidade, sobravam-me razes para saber
que ele no esperava qualquer tipo de retribuio ou recompensa.
- Cathy - implorou Chris. - Detesto cada palavra que voc acaba de dizer.
Como pode falar comigo dessa maneira quando sabe o quanto a amo e respeito?
No se passa um nico dia sem que eu sinta sua falta. Vivo em funo dos
fins de semana, quando posso estar com voc e Carrie. No se afaste de mim,
Cathy; eu preciso de voc. Sempre precisarei. Morro de medo quando penso
que, nem de longe, sou to necessrio em sua vida.
Segurou-me os braos e ter-me-ia puxado de encontro ao peito, mas
libertei-me com um arranco e dei-lhe as costas. Como poderia discernir entre
o certo e o errado quando ningum parecia mais incomodar-se com isso?
- Chris - respondi com voz embargada. - Desculpe-me ter falado com voc
daquela forma. Importo-me muito com o que voc pensa, mas estou dilacerada
por dentro. Acho que preciso ter imediatamente tudo o que desejo, a fim de
compensar tudo o que perdi e sofri. Julian quer que eu v com ele para
Nova York. Julgo que ainda no estou suficientemente preparada e no possuo
a disciplina necessria - Madame sempre me diz isso e acho que est certa.
Julian diz que me ama e que cuidar de mim. Entretanto, no tenho certeza do
que seja o amor, ou de que ele realmente me ame; talvez deseje apenas
utilizar-me para atingir seu objetivo. Por outro lado, o objetivo de Julian
 tambm o meu. Portanto, diga-me como posso saber se ele me ama ou se
deseja apenas usar-me.
- Voc permitiu que ele lhe fizesse amor? - indagou ele friamente, com uma
expresso morta.
- No! Claro que no!
Seus braos me envolveram, apertando-me.
- Aguarde ao menos mais um ano, Cathy. Confie em Madame Marisha, no em
Julian. Ela sabe mais que ele.
Fez uma pausa, obrigando-me a erguer o rosto. Estudei-lhe a fisionomia
bonita e tentei adivinhar por que motivo ele hesitava em prosseguir.
Eu era um instrumento de desejo, cheia de uma insacivel necessidade de
satisfao. Tinha medo, tambm, do que existia dentro de mim. Medo de ser
como Mame. Quando me
#86
olhava no espelho, via o rosto de minha me comeando a surgir de modo mais
definido em minhas feies. Sentia-me exultada por parecer fisicamente com
ela, mas, paradoxalmente, detestava-me por ser seu reflexo vivo. No, eu no
era como ela por dentro, mas apenas por fora. Minha beleza no era
simplesmente superficial.
No parei de repetir isso para mim mesma ao fazer o trajeto at o centro da
cidade de Greenglenna. Na prefeitura local, arranjei uma desculpa
esfarrapada para procurar a certido de nascimento de minha me, a fim de
poder examinar a certido de nascimento de Bart Winslow. Constatei que ele
era oito anos mais moo que minha me e descobri tambm o seu endereo
exato. Percorri a p quinze quarteires, at chegar a uma tranqila rua
orlada de olmos, onde as velhas manses se apresentavam em mau estado de
conservao. Todas, exceto a casa de Bart Winslow! Estava cercada de
andaimes. Dzias de operrios colocavam novas esquadrias nas janelas de uma
manso de tijolos recm-pintada, com ornatos brancos em volta das portas e
janelas, e o indefectvel prtico branco.
Em outro dia, fui  biblioteca pblica de Greenglenna, onde pesquisei a
respeito da famlia Winslow. Para meu grande deleite, revendo os jornais
antigos, encontrei uma colunista social que parecia dedicar a maior parte de
sua coluna a Bart Winslow e sua esposa de origem aristocrtica,
fabulosamente rica e muito linda. "A herdeira de uma das maiores fortunas do
pas".
Recortei furtivamente a coluna e levei comigo para mostrar a Chris. No
queria que ele soubesse que Mame viria morar em Greenglenna. Chris ficou um
tanto contrariado aoler a coluna.
- Onde encontrou isto, Cathy?
Sacudi os ombros.
- Oh! num jornal da Virgnia, que encontrei numa banca da cidade.
- Ela est novamente na Europa - comentou ele num tom esquisito. - Gostaria
de saber por que motivo viaja tanto pela Europa.
Pousou em mim os olhos azuis e suas feies se suavizaram numa expresso
sonhadora.
- Lembra-se do vero em que ela foi para a lua-de-mel?
Se me lembrava? Como poderia esquecer? Como se eu me pudesse permitir
esquecer! Um dia, quando eu tambm fosse rica e famosa, Mame teria notcias
minhas - ento, seria melhor ela estar bem preparada, pois, pouco a pouco,
eu estava estabelecendo minha estratgia.
Julian no vinha a Greenglenna com a mesma freqncia que antes da minha
festa de aniversrio. Calculei que Chris o tivesse afugentado. E no sabia
se o fato me tornava feliz ou infeliz. Quando vinha visitar os pais, Julian
me ignorava. Passou a dar alguma ateno a Lorraine Du Val, minha melhor
amiga. Por algum motivo, fiquei magoada e ressentida, no apenas com ele,
mas tambm com Lorraine. Escondida num canto, observei-os danar um
apaixonado pas de deux. Foi ali que me decidi a estudar bal com o dobro do
afinco, pois tambm mostraria algo a Julian! Haveria de mostrar a todos do
que eu era feita!
#87
Ao - recoberto com malha fina e saiotes de tule!

Coruja no Telhado

Agora, narrarei um episdio na vida de Carrie, pois esta  tambm a estria
dela, tanto quanto minha e de Chris. Atualmente, revendo o passado, reflito
sobre o que a vida se tornou para Carrie e acredito com a mxima convico,
que o ocorrido a Carrie na Escola para Moas Bem Educadas da Srta. Emily
Dean Calhoun teve profunda influncia na maneira pela qual ela passou a
encarar-se no futuro.
Oh! seria preciso fazer uma piscina para eu encher com minhas lgrimas antes
de comear o relato, pois eu a amava tanto que padecia todos os seus
sofrimentos - at mesmo hoje.
Pelas peas do quebra-cabeas que recolhi da prpria Carrie e da Srta.
Dewhurst, bem como de vrias outras alunas daquela escola, procurarei narrar
do modo mais franco possvel o pesadelo que Carrie foi obrigada a suportar.
Carrie passava os fins de semana conosco, mas voltara a ser a mesma
criaturinha calada, um tanto aptica, que tanto sofrera com a morte do irmo
gmeo. Tudo em Carrie me preocupava. Embora eu a interrogasse, ela insistia
em afirmar que tudo estava bem e se recusava a dizer uma s palavra contra a
escola, as colegas ou as professoras. Disse apenas uma coisa, uma nica
coisa, para expressar seus sentimentos - e foi uma pista muito evidente:
- Gosto do tapete; parece grama colorida.
S isso. Deixou-me pensativa, preocupada, tentando adivinhar o que a
perturbava. Eu tinha certeza de que alguma coisa estava errada, mas Carrie
no me dizia o que era.
Todas as sextas-feiras, por volta das quatro da tarde, Paul ia de carro
buscar Carrie e Chris, a fim de traz-los para casa. Fazia o possvel para
tornar nossos fins de semana memorveis. Embora Carrie parecesse feliz em
nossa companhia, raramente ria. Por mais que tentssemos, tudo o que
conseguamos arrancar dela era um sorriso amarelo.
- O que h de errado com Carrie? - indagava Chris.
Eu s podia encolher os ombros. Em algum ponto dos acontecimentos, perdera a
confiana de Carrie. Agora, seus grandes olhos azuis viviam pregados em
Paul, implorando-lhe mudamente. Mas Paul olhava para mim, no para Carrie.
 medida que se aproximava a hora de partir de volta  escola, Carrie se
tornava muito calada; seu olhar ficava inexpressivo e resignado. Dvamos
beijos de despedida, recomendvamos que se portasse bem e fizesse amizades,
acrescentvamos: "Se precisar de ns, basta telefonar".
- Sim - dizia ela, com os olhos baixos.
#88
Eu a abraava com fora, dizendo-lhe mais uma vez que a amava muito e que se
estivesse infeliz devia contar-nos.
- No estou infeliz - respondia ela, com os olhos fixos em Paul.
Era realmente uma escola linda. Eu adoraria estudar numa escola como aquela.
Cada menina tinha o direito de decorar uma das paredes do quarto a seu
gosto. A Srta.  Dewhurst s impunha uma restrio: cada jovem tinha que
escolher atividades "adequadas e dignas de uma dama". No Sul, dava-se grande
nfase a uma feminilidade suave, passiva. Roupas macias, chiffon esvoaante,
vozes bem moduladas e discretas, olhos tmidos e baixos, mos frgeis e
gesticulantes para expressarem necessidade de proteo, e absolutamente
nenhuma opinio que conflitasse com os pontos de vista masculinos - pois
nunca, jamais, uma moa deveria permitir que um homem percebesse que ela
talvez tivesse um intelecto superior ao seu. Alis, pensando melhor, creio
que no seria realmente a escola adequada para mim.
Carrie tinha uma cama de solteiro, coberta com uma brilhante colcha cor de
prpura. Sobre a cama, colocara almofadas cor-de-rosa, vermelhas, roxas,
violetas e verdes, Ao lado da cama, uma mesinha de cabeceira com a jarra
branca cheia de violetas plsticas que Paul lhe dera de presente. Sempre que
possvel, Paul levava flores de verdade para Carrie. Esta, porm, por
estranho que pudesse parecer, adorava aquela jarrinha de violetas plsticas,
preferindo-as s flores reais, que logo murchavam e morriam.
J que Carrie era a menor dentre as cem alunas da escola, tinha como
companheira de quarto a segunda menor aluna, que se chamava Sissy Towers.
Sissy tinha cabelos cor de tijolo, olhos rasgados e estreitos cor de
esmeralda, pele branca como papel, alm de um temperamento vingativo e
mesquinho,
que jamais exibia diante dos adultos. Pior ainda: apesar de ser a segunda
menor aluna da escola, era quinze centmetros mais alta que Carrie!
Carrie comemorara seu nono aniversrio com uma festa na semana anterior ao
incio de sua provao. Estvamos em maio e tudo comeou numa quinta-feira.
Os dias escolares encerravam-se s trs da tarde e as alunas dispunham de
duas horas para brincarem ao ar livre antes do jantar s cinco e meia. Todas
elas usavam uniformes de cores correspondentes s classes de que faziam
parte. Carrie estava na terceira srie; seu uniforme era de tecido ingls
amarelo, com um gracioso avental de organdi por cima. Carrie tinha grande
averso
pela cor amarela. Para ela, assim como para Chris e para mim, o amarelo
representava a cor de todas as melhores coisas que no pudemos ter enquanto
permanecemos prisioneiros, fazendo-nos sentir perniciosos, indesejveis e
detestados. O amarelo era tambm a cor do sol que nos fora negado por
tanto tempo. O sol era o que Cory mais desejava ver e agora, que todas as
coisas amarelas nos eram to facilmente acessveis e a Cory no, aquela cor
se tornara detestvel para ns.
Sissy Towers adorava o amarelo. Tinha inveja dos longos cabelos louros e
cacheados de Carrie, desprezando os prprios cabelos grossos e cor de
ferrugem. Talvez invejasse tambm a beleza do rosto de boneca de Carrie e
aqueles grandes olhos azuis de clios
#89
compridos e recurvados, bem como os lbios vermelhos como morangos maduros.
Oh! sim, a nossa Carrie era uma boneca de rosto extico, sensacionais
cabelos louros e, o que era de causar uma pena infinita, aquela beleza
coroava um corpo magro e pequeno demais, com um pescoo por demais delicado
para suportar a cabea que parecia pertencer a algum de maior robustez e
estatura.
O amarelo dominava a parte do quarto pertencente a Sissy : a colcha da cama
e o forro das poltronas eram amarelos; as bonecas eram louras e usavam
roupas amarelas; at o papel que encapava os livros e cadernos era amarelo.
Sissy at mesmo usava saias e suteres amarelos quando ia para casa. O fato
de que as roupas amarelas faziam-na parecer doentiamente plida no diminuia
sua determinao no sentido de aborrecer Carrie com aquela cor - qualquer
que fossem as conseqncias. E naquele dia, por algum motivo ftil que
jamais foi elucidado, Sissy comeou a perseguir Carrie de um modo mesquinho
e vingativo.
- Carrie  an... an... an... - cantava ela num refro.
- Carrie devia estar no circo... circo... circo... - insistia Sissy, sem
parar.
Ento, pulou para a tampa de sua escrivaninha e, imitando a voz alta e
metlica de um apregoador de circo que procura atrair a ateno do pblico
para a exibio de fenmenos e monstros, passou a gritar:
- Venham logo! Venham todos! Paguem um quarto de dlar para verem a irm
viva do Pequeno Polegar! Venham ver a menor mulher do mundo! Comprem entrada
e venham ver a anzinha com os olhos enormes - como os
de uma coruja! Venham ver a cabea enorme no pescocinho fino! Comprem
entrada e venham ver a nossa monstrinha nua!
Dzias de meninas se acotovelavam no quarto para fitarem Carrie agachada num
canto do cho, com a cabea baixa e os cabelos compridos ocultando o rosto
envergonhado e apavorado.
Sissy abriu a bolsinha para receber as moedas que as colegas ricas lhe
pagavam de bom grado.
- Agora, dispa-se, anzinha - ordenou Sissy. - Mostre ao pblico o que ele
pagou para ver!
Trmula, comeando a chorar, Carrie encolheu-se ainda mais, puxando os
joelhos de encontro ao peito e rezando para que Deus abrisse no cho um
buraco por onde ela pudesse desaparecer. Entretanto, o cho jamais se abre
para ns quando desejamos sumir de algum lugar. O assoalho permaneceu slido
e duro, enquanto a voz impiedosa de Sissy continuava sem cessar:
- Vejam como ela treme... Vejam como chocalha... Vai provocar um terremoto!
Todas as alunas soltavam risadinhas, exceto uma menina de dez anos, de
tamanho normal, que olhou para Carrie com piedade e simpatia.
- Acho-a bonitinha - declarou Lacy St. John. - Deixe-a em paz, Sissy. O que
voc est fazendo no  bonito.
#90
- Claro que no  bonito! - replicou Sissy com uma risada. - Mas  to
divertido! Ela  uma ratinha tmida! Sabe, ela nunca diz nada. Acho que nem
sabe falar!
Sissy pulou da mesa e correu para onde estava Carrie, cutucando-a com a
ponta do p.
- Voc tem lngua, anzinha? Vamos, garotinha dos olhos grandes, conte-nos
como ficou parecendo to esquisita! O gato lhe comeu a lngua? Voc no tem
lngua? Bote-a para fora!
Carrie baixou ainda mais a cabea.
- Esto vendo? Ela no tem lngua! - proclamou Sissy, pulando no mesmo
lugar. Depois, fez uma pirueta e abriu os braos. - Vejam o que me deram
como colega de quarto: uma coruja sem lngua! Que podemos fazer
para obrig-la a falar?
Lacy aproximou-se de Carrie, numa atitude protetora.
- Vamos, Sissy. Isto j basta. Deixe-a em paz.
Girando sobre si mesma, Sissy pisou com fora o p de Lacy.
- Cale a boca! Este quarto  meu! Quando estiver no meu quarto, faa o que
eu mandar! E sou do mesmo tamanho que voc, Lacy St. John! Alm disso, meu
pai  mais rico que o seu!
- Acho que voc  mesquinha, maldosa e ruim, atormentando Carrie desta
maneira! - replicou Lacy.
Sissy ergueu os punhos como um boxeador profissional, danando em torno de
Lacy para desferir-lhe rpidos murros.
- Quer brigar comigo? Vamos, arregace as saias! Tente pegar-me antes que lhe
feche os olhos!
E antes que Lacy pudesse erguer as mos para proteger-se, Sissy desferiu-lhe
um golpe de direita que lhe atingiu em cheio o olho esquerdo. Ento, o punho
esquerdo de Sissy acertou o belo nariz reto de Lacy! O sangue espirrou para
todos os lados!
Foi ento que Carrie ergueu os olhos e viu a nica menina que lhe
demonstrara alguma considerao e bondade levar uma surra implacvel. Foi o
bastante para que Carrie colocasse em ao sua arma mais formidvel: a voz.
Comeou a gritar. Jogando a cabea para trs e empregando at a ltima gota
de sua energia vocal, Carrie comeou a gritar a plenos pulmes!
Em seu escritrio no andar trreo, a Srta. Emily Dean Dewhurst
sobressaltou-se, manchando de tinta a pgina do livro de registros. Correu
para o corredor a fim de dar o alarme que chamaria s pressas todas as
professoras.
Eram oito horas da noite. A maior parte do corpo docente j se retirara para
seus aposentos. Usando roupes de banho, negligs - e at mesmo uma delas,
aparentemente prestes a sair sorrateiramente da escola, num vestido de gala
vermelho - as professoras correram em direo ao tumulto. Entrando no quarto
que Carrie compartilhava com Sissy, depararam com uma cena apavorante. Uma
dzia de alunas engalfinhavam-se numa batalha, enquanto as outras se
mantinham afastadas, observando. Uma delas, como Carrie, limitava-se a
gritar; as outras gritavam, davam pontaps, rolavam atracadas pelo cho,
puxando
#91
cabelos, mordendo, rasgando roupas - e acima de todo aquele barulho,
ressoava a trombeta metlica de um pequeno ser humano dominado pelo pavor.
- Onde est o homem... o homem? - quis saber a Srta. Longhurst, a professora
que usava o vestido de gala vermelho, com o busto prestes a saltar do
generoso decote.
- Controle-se, Srta Longhurst! - ordenou a Srta. Dewhurst, que avaliou
prontamente a situao e planejou sua estratgia. - No h homem algum aqui
dentro.
Erguendo a voz tonitruante, comandou:
- Meninas! Parem imediatamente com esta baguna, ou ficaro todas de castigo
na escola durante o fim de semana!
Ento, acrescentou em voz baixa para a sensual Srta. Longhurst:
- Voc comparea a meu gabinete quando isto aqui estiver sob controle.
Cada menina naquele quarto que estava prestes a ter os cabelos puxados, o
rosto arranhado por unhas, ficou repentinamente imvel e calada.
Horrorizadas, as alunas olharam em torno e viram o quarto cheio de
professoras - e, pior que tudo, a Srta. Dewhurst, famosa por no ter
complacncia em casos de tumulto, que no eram raros. Todas se calaram.
Todas menos Carrie, que continuou a berrar, os olhos fechados com fora, as
pequenas mos plidas contradas em punhos cerrados.
- Por que essa criana est gritando? - quis saber a Srta. Dewhurst,
enquanto a Srta. Longhurst, com ar de culpada, se esgueirava para fora do
quarto a fim de desfazer-se das provas que a incriminavam -  pois em algum
lugar havia um homem escondido  sua espera.
Naturalmente, foi Sissy Towers quem se recobrou primeiro.
- Foi ela quem comeou tudo, Srta. Dewhurst. Tudo foi culpa de Carrie. Ela 
como um nenm. A senhorita precisa me arranjar uma nova colega de quarto, ou
acabarei morrendo por ter que morar com um beb.
- Repita o que acaba de dizer, Srta. Towers. Diga-me o que preciso fazer.
Intimidada, Sissy sorriu nervosamente.
- Quero dizer: eu gostaria de ter uma nova colega de quarto; no me sinto
bem morando com algum to excepcionalmente pequena.
A Srta. Dewhurst encarou friamente Sissy Towers.
- Srta. Towers, voc  excepcionalmente cruel. De agora em diante, ficar
alojada no andar trreo, no quarto ao lado do meu, onde poderei mant-la sob
vigilncia - declarou a diretora, correndo o olhar pelo quarto. - Quanto ao
resto de vocs, notificarei seus pais de que suas sadas no fim de semana
esto canceladas! Agora, cada uma se apresente  Srta. Littleton, para que
seus
demritos sejam lanados nas fichas.
As alunas soltaram gemidos e, uma por uma, saram do quarto para terem seus
nomes anotados e devidamente marcados. S quando a Srta. Dewhurst avanou
at onde ela estava de gatinhas no cho, Carrie reduziu os
#92
berros a uma lamria. No obstante, continuou balanando a cabea de um lado
para outro, numa atitude histrica.
- Srta. Dollanganger, agora j est bastante calma para me contar o que
aconteceu?
Carrie no conseguia falar. O pavor e a viso de sangue tinham-na levado de
volta ao quarto trancado, ao dia faminto em que ela fora obrigada a beber
sangue para no morrer de fome. A Srta. Dewhurst ficou emocionada e confusa.
Fazia quarenta anos que via meninas chegarem e partirem; portanto, sabia que
meninas podem ser to devastadoramente mesquinhas e cruis quanto meninos.
- Srta. Dollanganger, a menos que me responda, no visitar sua famlia
neste fim de semana. Sei que passou por um grande aperto e desejo ser
bondosa com voc. Por favor, no pode explicar o que aconteceu?
Agora, estendida ao comprido no cho, Carrie ergueu os olhos. Viu a idosa
mulher postada a seu lado como uma torre, usando uma saia azul de tonalidade
quase cinzenta. Cinza era a cor que nossa av sempre usava. E nossa av
fazia coisas terrveis; de algum modo, ela causara a morte de Cory e agora
vinha buscar Carrie, tambm!
- Eu a odeio! Eu a odeio! - berrou Carrie, sem parar, at que finalmente a
Srta. Dewhurst se viu forada a sair do quarto e mandar a enfermeira da
escola ministrar sedativos a Carrie.
Na sexta-feira, atendi o telefone quando a Srta. Dewhurst ligou para
informar que doze de suas alunas haviam transgredido as regras e
desobedecido suas ordens, sendo Carrie uma delas.
- Sinto muito, realmente, mas no posso conceder privilgios  sua irm e,
ao mesmo tempo, castigar as outras. Ela estava no quarto e se recusou a
calar-se quando mandei.
Esperei at a hora do jantar para discutir o assunto com Paul.
-  um erro terrvel manter Carrie na escola durante o fim de semana, Paul.
Sabe que lhe prometemos que ela poderia vir passar todos os fins de semana
conosco.  pequena demais para poder causar algum problema e, portanto, no
 justo castig-la tambm.
- Francamente, Cathy - disse ele, pousando o garfo no prato. - A Srta.
Dewhurst me telefonou logo aps ter falado com voc. Ela estabeleceu as
normas da escola e se Carrie as desobedeceu deve ser punida como o resto das
meninas. E, embora voc no concorde, eu respeito a Srta. Dewhurst.
Chris, que chegara para passar o fim de semana em casa, tomou a palavra para
concordar com Paul.
- Claro, Cathy. Sabe to bem quanto eu o que Carrie  capaz de fazer quando
cisma. Mesmo que se limite a gritar, pode deixar qualquer pessoa maluca... e
surda.
O fim de semana sem Carrie foi um fiasco. No consegui afast-la do
pensamento. Enervei-me, temi, preocupei-me por causa de Carrie. Tinha a
impresso de escut-la chamar por mim. Quando fechava os olhos, via-lhe o
rostinho plido com os grandes
#93
olhos azuis arregalados de medo. Ela estava bem! Tinha que estar, no 
mesmo? O que poderia acontecer a uma menina numa escola to cara e famosa,
controlada por uma mulher responsvel e respeitvel como a Srta. Emily
Dewhurst?

Quando Carrie estava sofrendo e s turras consigo mesma e o resto do mundo,
no tendo a seu lado algum que a amasse, retrocedia ao passado e
refugiava-se no seguro conforto das minsculas bonecas de porcelana que
ocultava to cuidadosamente por baixo de todas as suas roupas. Agora, era a
nica aluna da escola que tinha um quarto  exclusivamente seu. Nem uma s
vez em seus nove anos de vida Carrie passara a noite sozinha num quarto.
Agora, estava sozinha e consciente do fato. Todas as alunas da escola se
haviam voltado contra ela, inclusive a bonita Lacy St. John.
Carrie retirava as bonecas de seu esconderijo muito secreto - o Sr. e a
Sra. Parkins, bem como seu lindo e querido beb, Clara - e conversava com
elas como costumava fazer quando era prisioneira no sto.
- E, Cathy - disse-me ela mais tarde -, pensei que Mame talvez estivesse no
cu de Deus, passeando nos jardins com Cory e Papai. Ento, tive raiva de
voc e Chris por deixarem o Dr. Paul levar-me para aquele lugar, apesar de
saberem o quanto eu gostava de estar com todos vocs. E odiei voc,
Cathy! Odiei todo mundo! Odiei Deus por fazer-me to pequena e permitir que
os outros zombassem de minha cabea grande e corpo pequeno!
Nos pequenos halls e compridos corredores acarpetados de verde, Carrie
escutava as meninas sussurrarem. Desviavam furtivamente os olhos quando
Carrie as fitava.
- Eu dizia comigo mesma que no me importava - sussurrou-me Carrie com voz
embargada. - Mas importava-me muito. Eu dizia com meus botes que era capaz
de ser corajosa, como voc, Chris e o Dr. Paul desejavam. Insistia em
fazer-me sentir corajosa, mas, na realidade, no o era. No gosto do escuro.
E dizia comigo que Deus escutaria minhas preces e me faria crescer
muito, pois todos crescem  medida que ficam mais velhos e o mesmo
aconteceria comigo.
- Estava to escuro, Cathy, e O quarto parecia to grande e ameaador. Voc
sabe que no gosto da noite e da escurido sem uma lmpada acesa. E eu ali
sozinha. At mesmo desejei ter Sissy de volta, pois ela seria melhor que
ningum. Algo se mexeu nas sombras e quase morri de medo. Embora no
devesse faz-lo, acendi uma lmpada. Queria pegar todas as minhas bonecas
para me fazerem companhia na cama. Tomaria cuidado para no me mexer
dormindo e quebr-las.
- Eu sempre guardava o Sr. e a Sra. Parkins  direita e  esquerda, com
Clara entre eles, na ltima gaveta da minha cmoda. Peguei primeiro o
chumao de algodo do meio e senti algo duro dentro dele. Mas quando olhei,
Cathy... quando olhei no encontrei o beb, mas um graveto! Desembrulhei
tambm o Sr. e a Sra. Parkins, mas s encontrei gravetos maiores! Doeu-me
tanto no encontr-los que comecei a chorar. Todas as minhas bonequinhas
#94
desapareceram, transformando-se em paus. Assim, fiquei sabendo que Deus nunca me faria
crescer, j que transformara minhas lindas bonecas em pedaos de pau.
- Ento, aconteceu-me uma coisa esquisita, como se eu tambm tivesse virado
madeira. Senti-me rgida, sem conseguir enxergar direito. Fui para um canto
e agachei-me l,  espera de que algo de ruim acontecesse. A av prometera
que algo de ruim aconteceria se eu quebrasse alguma das bonecas - lembra-se?
Carrie nada mais me disse a respeito, mas, atravs de outras pessoas, tomei
conhecimento do que aconteceu a seguir.
No escuro, muito depois de meia-noite, as doze meninas ricas cujas sadas no
fim de semana foram canceladas pela Srta. Dewhurst esgueiraram-se at o
quarto de Carrie. Foi Lacy St. John quem teve a integridade de revelarme a
verdade, mas s quando a Srta. Dewhurst estava fora do alcance de sua voz.
Doze meninas, todas elas usando as longas camisolas brancas exigidas pelos
regulamentos da escola, entraram no quarto de Carrie. Cada uma delas trazia
uma vela acesa, segurando-a de forma a iluminar o rosto por baixo do queixo.
Tal iluminao transformava-lhes os olhos em negras e fundas cavidades
vazias, alm de emprestar-lhes aos rostos juvenis uma aparncia horrvel,
fantasmagrica - o suficiente para aterrorizar a menininha que continuava
encolhida no canto, j mergulhada num transe de pavor.
Formaram um semicrculo diante de Carrie, olhando-a fixamente enquanto cada
uma enfiava pela cabea uma fronha com buracos no lugar dos olhos. Depois,
veio o ritual de movimentarem as velas formando intricados desenhos de luz,
enquanto entoavam cnticos como feiticeiras de verdade. Procuravam exorcizar
a pequenez de Carrie. Tentavam "libertar" Carrie e elas mesmas dos
malefcios que tinham sido levadas a praticar em legtima defesa contra
algum "to excepcionalmente mida e esquisita".
Uma voz aguda erguia-se acima das outras e Carrie percebeu que pertencia a
Sissy Towers. Para Carrie, todas aquelas meninas de camisolas compridas,
encapuzadas por fronhas com buracos no lugar dos olhos, eram demnios sados
diretamente do inferno! Ela comeou a choramingar e estremecer, to
apavorada quanto se a av estivesse novamente no quarto - s que, desta
feita, multiplicada uma dzia de vezes!
- No chore, no tema - disse a voz sepulcral sob o capuz sem boca. Se
sobreviver a esta noite, passando por esta iniciao, voc, Carrie
Dollanganger, tornar-se- parte de nossa sociedade ultra-secreta e muito
exclusiva. Se for bem sucedida, desta noite em diante compartilhar de
nossos rituais secretos, de nossas festas secretas, de nossos tesouros
secretos.
- Ohhh! - gemia Carrie. - Vo embora! Deixem-me em paz! Vo embora!
Deixem-me em paz!
- Cale-se! - ordenou a voz aguda da "bruxa" invisvel. - No ter
oportunidade de tornar-se uma de ns a menos que sacrifique suas posses mais
- queridas e preciosas. Ou faz isso ou ser submetida a julgamento!
#95
Encolhida no canto, Carrie s conseguia olhar para as sombras que se
movimentavam por detrs das feiticeiras brancas que a ameaavam. As chamas
das velas deram a impresso de crescer cada vez mais, transformando o mundo
de Carrie num universo de fogo amarelo e vermelho.
- Entregue-nos o que mais preza, ou ter que sofrer, sofrer, sofrer!
- No tenho nada! - murmurou Carrie, com toda a franqueza.
- As bonecas: entregue-nos as lindas bonecas de porcelana - ordenou a voz
austera. - Suas roupinhas de criana no nos serviro; no as queremos.
Entregue-nos as bonecas: o homem, a mulher e o lindo beb.
- Desapareceram! - gritou Carrie, temendo que lhe ateassem fogo. - Foram
transformadas em pedaos de vau!
- Ah! Ah! Uma bela inveno! E mentira! Portanto, agora ter que sofrer,
corujinha, para tornar-se uma de ns... ou morrer! Escolha.
Foi uma deciso fcil. Carrie meneou afirmativamente a cabea e tentou no
fungar.
- Muito bem. Desta noite em diante, voc, Carrie Dollanganger - nome
esquisito para um rosto esquisito - ser uma de ns.
Di-me relatar como elas pegaram Carrie, vendaram-lhe os olhos, ataram-lhe
os pulsos atrs das costas e a empurraram para o corredor, galgando em
seguida uma ngreme escada. De repente, emergiram ao ar livre. Carrie sentiu
o ar fresco da noite, a inclinao sob seus ps descalos e deduziu,
corretamente, que as meninas tinham-na levado para o telhado! S existia uma
coisa que Carrie temia mais que nossa av: o telhado - qualquer telhado!
Prevendo os gritos lancinantes de Carrie, as meninas tinham-na amordaado.
- Agora, deite-se ou sente-se quietinha, como uma coruja bem comportada -
ordenou a mesma voz rspida. - Fique aqui pousada no telhado, perto da
chamin,  luz do luar, e de manh ser uma de ns.
Debatendo-se; j frentica, Carrie tentou resistir a tantas mos que a
obrigavam a sentar-se. Ento, o que foi ainda pior, as mos se afastaram e
Carrie foi abandonada pelas meninas na escurido do telhado - sozinha! Ouviu
a distncia as risadinhas que se afastavam e o estalido de um trinco se
fechando.
- Cathy, Cathy! - berrou Carrie, sem produzir som. - Chris! Venham
salvar-me! Dr. Paul, por que me colocou aqui? Ser que ningum me quer?
Soluando, emitindo leves gemidos, amordaada, manietada e com os olhos
vendados, Carrie atreveu-se a enfrentar a ngreme inclinao daquele vasto
telhado desconhecido e comeou a avanar na direo de onde viera o estalido
do trinco do alapo. Progredia centmetro por centmetro, sentada e
deslizando sobre as ndegas, rezando a cada movimento para no cair l de
cima. Pelo relato entrecortado que me fez do episdio, muito mais tarde,
parece que no foi guiada apenas pelo instinto: escutava a voz de Cory,
Vinda do alto e dominando o rudo da tempestade primaveril que se aproximava  uma
voz suave e distante, que cantava enquanto Cory dedilhava no violo sua
melanclica cano sobre encontrar um lar e rever o sol.
- Oh! Cathy, foi tudo to estranho l em cima! O vento soprava, a chuva
comeou a
#96
cair, os troves ribombavam e os relmpagos rasgavam o cu com uma claridade
que eu podia divisar atravs da venda nos olhos - e Cory continuou a cantar
o tempo todo, guiando-me at o alapo que se abriu quando usei os ps para
empurr-lo. Ento, dei um jeito de esgueirar-me para dentro. Em seguida,
rolei pela escada! Ca no escuro e escutei um osso quebrar-se. Senti uma dor
terrvel, que dava a impresso de me morder. No conseguia ver ou sentir
nada; nem mesmo escutava o barulho da chuva. E Cory se foi.

O domingo amanheceu. Paul, Chris e eu nos sentamos  mesa para um desjejum
reforado.
Chris tinha na mo um po caseiro coberto de manteiga e abriu a boca para
arrancar pelo menos a metade com uma nica dentada. quando o telefone tocou
no corredor. Paul gemeu ao pousar o garfo. Gemi. tambm, pois acabava de
preparar meu primeiro souffl de queijo, que devia ser comido imediatamente.
- Incomoda-se de atender, Cathy? - indagou Paul. - Quero realmente provar
seu souffl. Tem uma aparncia deliciosa e um cheiro celestial.
- Pois trate de com-lo - respondi, levantando-me de um salto e correndo
para o telefone. - Farei o possvel para proteg-lo da chata da Sra.
Williamson...
Paul riu baixinho, lanando um olhar divertido ao pegar novamente o garfo.
- Talvez no seja a minha viva solitria com mais uma de suas mazelas.
Chris continuou a comer, sem fazer comentrios.
Peguei o telefone, dizendo com minha voz mais adulta e graciosa:
- Residncia do Dr. Paul Sheffield.
- Aqui fala Emily Dean Dewhurst - disse a voz rspida na outra ponta da
linha. - Por favor, chame imediatamente o Dr. Sheffield ao telefone!
- Srta. Dewhurst! - exclamei, j alarmada. - Aqui fala Cathy, a irm de
Carrie. Ela est bem?
- Voc e o Dr. Sheffield devem vir aqui imediatamente!
- Srta. Dewhurst...
Mas ela no me deixou terminar.
- Parece que sua irm desapareceu de modo um tanto misterioso. Aos domingos,
as meninas que tiveram como castigo o cancelamento da sada no fim de semana
devem comparecer  capela, para os servios dominicais. Fiz pessoalmente a
chamada e Carrie no respondeu.
Meu corao ficou aos pulos, temendo o que viria em seguida. Mesmo assim,
no esqueci de apertar o boto que ligava a voz da Srta. Dewhurst ao sistema
de som adaptado ao telefone, de modo que Paul e Chris pudessem escutar a
conversa enquanto comiam.
- Onde estava ela? - indaguei com voz sumida, sentindo-me aterrorizada.
A diretora replicou com calma:
#97
- Um silncio estranho reinou esta manh quando sua irm foi chamada, no
respondeu, e eu perguntei onde ela estava. Enviei uma professora ao quarto
de Carrie, mas esta no se encontrava l. Ento, ordenei uma busca
completa nos terrenos e no prdio da escola, do poro ao sto. Ainda assim,
sua irm no foi encontrada. Se Carrie tivesse um carter diferente, eu
presumiria que fugiu e estava a caminho de casa. Mas algo no ambiente indica
que pelo menos doze das meninas sabem o que aconteceu a Carrie e se recusam
a falar e incriminar-se.
Esbugalhei os olhos.
- Quer dizer que ainda no conhece o paradeiro de Carrie?
Paul e Chris tinham parado de comer. Ambos me fitavam com crescente
inquietao.
- Sinto muito, mas devo dizer que no sabemos onde ela est. Carrie no foi
vista a partir das nove horas da noite de ontem. Mesmo que percorresse a p
todo o caminho at em casa, j teria chegado a a esta hora, pois  quase
meio-dia. Se ela no est a nem aqui, ou est perdida, ferida... ou
sofreu algum acidente...
Mal consegui conter um grito de aflio. Como podia ela falar com tanta
indiferena? Por que motivo, sempre que algo terrvel acontecia em nossas
vidas, recebamos a notcia num tom indiferente, inexpressivo?

O carro branco de Paul percorria velozmente a Rodovia Overland em direo 
escola de Carrie. Eu estava sentada no banco dianteiro, espremida entre Paul
e Chris. Meu irmo trouxera sua mala, a fim de poder pegar o nibus de volta 
faculdade aps inteirar-se do que acontecera a Carrie. Segurava-me a mo com
fora, a fim de garantir-me que aquela de nossas crianas sobreviveria!
- Pare de ficar to preocupada, Cathy - disse ele, passando-me o brao pelos
ombros e puxando-me a cabea de encontro ao peito. - Voc conhece bem
Carrie. Provavelmente, est escondida e no quer responder. Lembra-se de
como ela se portava no sto? No ficava conosco, nem mesmo quando Cory
desejava. Tinha sempre que se afastar para agir sozinha. Ela no fugiu. Tem
muito medo do escuro. Algum fez algo que a magoou e ela est se vingando,
causando-lhes preocupaes. Seria incapaz de enfrentar o mundo na calada da
noite.
Na calada da noite! Oh! Deus! Eu gostaria que Chris no tivesse mencionado o
sto, onde Cory quase morrera num ba antes de partir deste mundo para
encontrar-se no cu com Papai. Chris beijou-me o rosto, enxugando-me as
lgrimas.
- Agora, vamos; no chore. Eu disse tudo errado. Carrie est bem.

- Como vem dizer que no sabe onde est a menina? - quis saber Paul num tom
feroz, encarando friamente a Srta. Dewhurst. - Deu-me a entender que as
alunas desta escola eram devidamente supervisionadas vinte e quatro horas
por dia!
#98
Estvamos no luxuoso gabinete da Srta. Emily Dean Dewhurst. Esta no se
sentara  grande e impressionante mesa de trabalho, mas andava de um lado
para outro, inquieta.
- Na verdade, Dr. Sheffield, jamais aconteceu antes algo semelhante. Nunca
perdemos uma aluna. Verificamos os quartos todas as noites, a fim de nos
certificarmos de que todas as meninas estejam acomodadas em suas camas e com
as luzes apagadas. E Carrie estava na cama. Verifiquei-a pessoalmente,
desejando reconfort-la caso ela permitisse, mas Carrie Se recusou a olhar
para mim ou falar comigo. Naturalmente, tudo comeou com aquele tumulto no
quarto de Carrie e os conseqentes demritos, que resultaram no cancelamento
das licenas para as meninas sarem durante o fim de semana. Todas as
professoras me auxiliaram na busca e interrogamos as meninas, que afirmam
nada saberem a respeito. Imagino que saibam, mas Se no quiseram falar, o
que posso eu fazer?
- Por que no me notificou logo que deu pela falta de Carrie? - quis saber
Paul.
Ento, tomei a palavra, pedindo para Ser levada ao quarto de Carrie. A Srta.
Dewhurst voltou-se ansiosamente para mim, aliviada por escapar  fria do
mdico. Enquanto subamos a escada, ela desfiou prolongadas excusas para que
entendssemos como era difcil controlar tantas meninas travessas.
Quando, afinal, chegamos ao quarto de Carrie, vrias alunas vinham em nosso
rastro, sussurrando comentrios a respeito do quanto Chris e eu nos
parecamos com Carrie, embora no fossemos "to excepcionalmente pequenos".
Chris virou-se para fit-las com uma carranca.
- No  de espantar que ela deteste a escola se vocs so capazes desse tipo
de comentrios!
Em seguida, assegurou:
- Ns a encontraremos, nem que tenhamos que permanecer aqui a semana inteira
e torturar cada uma dessas bruxinhas para obrig-las a contar o que sabem.
A Srta. Dewhurst explodiu:
- Meu caro jovem, ningum tortura minhas meninas, a no ser eu!
Eu conhecia Carrie melhor que qualquer outra pessoa e procurei acompanhar o
funcionamento de seu raciocnio. Ora, se eu tivesse a idade de Carrie,
tentaria fugir de uma escola que, de modo injusto, me impedisse de passar o
fim de semana em casa? Claro! Eu faria exatamente isso. Mas eu no era
Carrie; ela no fugiria vestindo apenas uma camisola de dormir. Todos os
pequenos
uniformes de Carrie, feitos sob medida por Henny, l estavam guardados com
os suteres, saias, blusas, vestidos bonitos - tudo. O que ela trouxera para
a escola estava meticulosamente arrumado em seu lugar adequado. S faltavam
as bonecas de porcelana.
Ainda ajoelhada diante da cmoda de Carrie, Sentei nos calcanhares e olhei
para Paul, mostrando-lhe a caixinha que continha apenas chumaos de algodo
e alguns gravetos.
- As bonecas no esto aqui - declarei atordoada, no entendendo a presena
dos
#99
gravetos. - At onde consigo perceber, a nica pea de roupa que est
faltando  uma das camisolas. Carrie jamais sairia ao ar livre vestindo
apenas uma camisola. Tem que estar aqui: em algum lugar onde ningum
procurou.
- Procuramos em toda parte! - declarou a Srta. Dewhurst, impaciente, como se
eu no tivesse voz ativa no assunto e valesse apenas a palavra do guardio,
Dr. Paul Sheffield, cujo favor ela procurava ganhar at mesmo quando ele
continuou a encar-la de modo severo e irritado.
Por algum motivo que no sei explicar, virei a cabea a tempo de surpreender
uma expresso de "gato que comeu o canrio" no rosto plido e doentio de uma
garotinha ruiva e magricela a quem eu detestava pelo pouco que ouvira Carrie
contar a seu respeito - a colega de quarto. Talvez fosse apenas o olhar, ou
a maneira pela qual ela passava a mo na borda do grande bolso do
avental de organdi, que me fez encar-la fixamente, procurando penetrar-lhe
at o fundo do pensamento. A ruiva ficou ainda mais branca e desviou os
olhos verdes para a janela; mexeu nervosamente os ps e retirou
apressadamente a mo do bolso. Este era forrado e apresentava um volume
suspeito.
- Voc a - disse eu. -  a colega de quarto de Carrie, no ?
- Era - murmurou a garota.
- O que tem no bolso?
Ela virou bruscamente a cabea para mim, com os olhos verdes faiscando e os
msculos dos lbios tremendo.
- No  da sua conta!
- Srta. Towers! - advertiu severamente a Srta. Dewhurst. - Responda 
pergunta da Srta. Dollanganger!
-  minha bolsa - disse Sissy Towers, encarando-me raivosamente com ar
desafiador.
-Uma bolsa bem grande -comentei.
Num gesto repentino, curvei-me para a frente e agarrei Sissy Towers,
abraando-a pelos joelhos. Enquanto ela gritava e resistia, usei a mo livre
para retirar do bolso dela um leno azul. Do leno caram o Sr. e Sra.
Parkins e o beb, Clara. Segurando as trs bonecas, indaguei:
- O que est fazendo com as bonecas de minha irm?
- As bonecas so minhas! - disse a ruiva, apertando raivosamente os olhos
penetrantes.
As meninas reunidas no quarto comearam a dar risadinhas e trocar
comentrios sussurrados.
- Suas? Pertencem  minha irm!
-  mentira! - explodiu Sissy .- Est me roubando e meu pai pode mandar voc
para a cadeia!
A diabinha estendeu a mo para pegar as bonecas e ordenou:
- Srta. Dewhurst, mande essa criatura me deixar em paz! No gosto dela, como
no gosto de sua irm an!
Levantei-me, postando-me diante dela em atitude ameaadora. Protegi as
bonecas, colocando a mo atrs das costas. Para peg-las, ela teria que
passar sobre o meu cadver!
#100
- Srta. Dewhurst! - berrou a moleca, agredindo-me. - Meus pais me deram
essas bonecas no Natal!
- Sua diabinha mentirosa! - respondi, louca para esbofetear-lhe o rosto
atrevido. - Roubou estas bonecas e o bero do beb. E por isso Carrie se
encontra agora em extremo perigo!
Eu sentia. Tinha certeza. Carrie precisava de auxlio - e depressa.
- Onde est minh irm? perguntei, quase fora de mim.
Olhei duro para a garota ruiva chamada Sissy, sabendo que ela conhecia o
paradeiro de Carrie mas nunca o revelaria. Estava escrito em seus olhos
mesquinhos e maldosos. Foi ento que Lacy St. John tomou a palavra e nos
contou o que tinham feito a Carrie na noite anterior.
Oh! Deus! Para Carrie no existia local mais terrvel que um telhado -
qualquer telhado! Voltei ao passado, quando Chris e eu tentamos levar os
gmeos para o telhado de Foxworth Hall, onde poderamos segur-los para
tomarem banho de sol e respirarem ar puro, a fim de crescerem normalmente.
E, como crianas desvairadas, enlouquecidas pelo medo, eles tinham
esperneado e berrado.
Cerrei as plpebras com fora, concentrando-me totalmente em Carrie. Onde,
onde, onde? Ento, mentalmente, avistei-a encolhida num canto escuro do que
parecia ser um profundo _canyon que se erguesse em ambos os lados dela.
- Quero procurar pessoalmente no sto - disse eu  Srta. Dewhurst.
Ela replicou rapidamente que j tinham revistado meticulosamente o sto
chamando interminavelmente por Carrie. Contudo, no conheciam Carrie tanto
quanto eu. No sabiam que minha irmzinha era capaz de isolar-se num mundo
remoto, onde no existiam sons, quando entrava em estado de choque.
Chris, Paul, eu e todas as professoras galgamos a escada que levava ao
sto. Era muito semelhante ao que nos servira de priso: um lugar vasto,
empoeirado e escuro. Entretanto, no estava entulhado de mveis velhos
cobertos com sujas capas cinzentas ou outros remanescentes do passado. S
havia pilhas e pilhas de pesados caixotes de madeira.
Carrie estava ali. Eu podia sentir isso. Sentia-lhe a presena como se ela
estendesse a mo e me tocasse, embora eu s conseguisse ver as pilhas de
caixotes.
- Carrie! - chamei, o mais alto possvel. - Sou eu, Cathy! No se esconda
nem fique calada porque est com medo! Peguei suas bonecas! O Dr. Paul e
Chris esto comigo! Viemos lev-la para casa e nunca mais voc ter que ir
para uma escola!
Chamei a ateno de Paul com uma leve cotovelada.
- Agora, chame-a voc tambm.
Paul abandonou seu tom suave e assumiu uma voz tonitruante:
- Carrie, se consegue escutar-me, saiba que sua irm diz a verdade. Queremos
lev-la definitivamente para casa. Desculpe-me, Carrie. Pensei que voc
fosse gostar daqui.
#101
Agora, entendo que no poderia ser feliz na escola. Carrie, venha por favor!
Precisamos de voc!
Tive a impresso de ouvir uma leve lamria. Corri naquela direo, com Chris
nos calcanhares. Conhecamos stos - como buscar, como encontrar.
Estaquei de sbito e Chris esbarrou-me nas costas. Bem  nossa frente, nas
sombras criadas pelas pilhas de pesados caixotes de madeira, avistei Carrie,
ainda de camisola, toda rasgada, suja e ensangentada. Tambm ainda estava
vendada e amordaada. Os cabelos louros brilhavam na luz difusa. A perna de
Carrie estava torcida sob o corpo, num ngulo grotesco.
- Meu Deus! - sussurraram Chris e Paul a um s tempo. - A perna parece
quebrada.
- Espere um minuto - acautelou Paul em voz baixa, segurando-me pelos ombros
quando eu, sem pensar, fiz meno de correr em socorro de Carrie. - Veja
aqueles caixotes. Um movimento brusco de sua parte e eles cairo sobre voc
e Carrie.
Em algum lugar atrs de mim, uma professora gemeu e comeou a rezar. Era
incrvel que Carrie, vendada e manietada, conseguisse arrastar-se por aquela
estreita passagem. Uma pessoa adulta no o conseguiria. Mas eu poderia
chegar at ela, pois ainda era suficientemente pequena.
Enquanto falava, planejei o modo de agir.
- Carrie, faa exatamente o que digo. No se incline para a direita ou para
a esquerda. Cole-se de bruos no cho e rasteje na direo da minha voz.
Rastejarei at a, a fim de segur-la por baixo dos braos. Mantenha a
cabea erguida, de modo a no arranhar o rosto. O Dr. Paul me agarrar pelos
calcanhares e puxar ns duas para fora da.
- Diga-lhe que a perna vai doer.
- Carrie, escutou o que disse o Dr. Paul? Sua perna doer; portanto, faa o
favor de no debater-se quando sentir a dor. Tudo acabar em questo de
segundos e o Dr. Paul tratar de sua perna.
Tive a impresso de levar horas para arrastar-me lentamente pelo tnel,
enquanto os caixotes tremiam e balanavam. Quando segurei Carrie pelos
ombros, escutei o Dr. Paul gritar:
- Agora, Cathy!
Ento, ele puxou - depressa e com forar Os caixotes desabaram! A poeira
voou para todos os lados. Em meio  confuso, fiquei junto a Carrie,
retirando-lhe a venda e a mordaa, enquanto o Dr. Paul desatava os ns que a
manietavam.
Em seguida, Carrie agarrou-se a mim, piscando porque a luz lhe feria os
olhos, chorando de dor na perna, aterrorizada de ver as professoras e a
posio torta da prpria perna.
Chris e eu viajamos na ambulncia que veio buscar Carrie para lev-la ao
hospital. Sentamo-nos no mesmo banquinho, cada um de ns segurando uma das
mos de Carrie. Paul nos seguiu em seu carro branco, a fim de estar presente
para supervisionar o ortopedista que cuidaria da perna fraturada de Carrie.
Deitados de costas no travesseiro ao lado da cabea de Carrie, com sorrisos
#102
fixos e corpos rgidos, estavam as trs bonecas de porcelana. Foi ento que
me lembrei: agora, o bero do beb tambm estava faltando, exatamente como o
bero de Carrie desaparecera anos atrs.

A perna quebrada de Carrie estragou a longa viagem de frias de vero que o
Dr. Paul planejara para todos ns. Mais uma vez, odiei violentamente Mame.
A culpa era dela; sempre ramos castigados pelo que ela causava! No era
justo que Carrie fosse obrigada a ficar de cama, impedindo-nos de viajar
para o Norte, enquanto nossa me vagabundeava por toda parte, comparecendo a
festas, convivendo com o jet set e astros do cinema como se ns nem mesmo
existssemos! Agora, estava na Riviera francesa. Recortei a notcia da
coluna social do jornal de Greenglenna e colei-a em meu grande lbum de
vingana. Houve um artigo que mostrei a Chris antes de col-lo no lbum. No
lhe mostrava todos os recortes, pois no queria que ele soubesse que eu
tinha uma assinatura do jornal da Virgnia que noticiava tudo o que os
Foxworth faziam.
- Onde arranjou isto? - quis saber ele, erguendo os olhos do recorte e
devolvendo-o a mim.
- No jornal de Greenglenna. Preocupa-se mais com a alta sociedade que o
Daily News de Clairmont. Nossa me  uma notcia quente, voc sabia?
- Ao contrrio de voc, procuro esquecer! - replicou ele, irritado. - No
estamos to mal, no  mesmo? Temos sorte de morarmos com Paul e a perna de
Carrie voltar inteiramente ao normal. E haver outros veres em que
poderemos visitar a Nova Inglaterra.
Como ele podia ter certeza? Nada se oferece duas vezes. Talvez chegassem
outros veres em que estivssemos todos ocupados demais para viajar.
- Naturalmente, sendo "quase" mdico, voc deve saber que a perna de Carrie
talvez no cresa enquanto estiver no aparelho de gesso, no  mesmo?
Chris me pareceu estranhamente inquieto.
- Se ela crescesse como uma criana normal, creio que poderia existir esse
risco. Entretanto, Cathy, ela no cresce muito, de modo que h poucas
probabilidades de que uma perna fique mais curta que a outra.
- Ora, v enterrar o nariz num compndio de anatomia! - repliquei furiosa,
porque ele sempre dava pouca importncia quando eu afirmava que Mame era a
causadora de alguma coisa ruim.
No entanto, ele sabia to bem quanto eu por que motivo Carrie no crescia.
Privada de amor, de sol e de liberdade, era um milagre ela ter sobrevivido!
Sem falar no arsnico! Maldita Mame - que sua alma ardesse no fogo do
inferno!
Dia a dia, meticulosamente, eu aumentava minha coleo de recortes de
notcias e fotografias tiradas de muitos jornais. Nelas enterrava quase
todas as minhas economias. Embora olhasse as fotografias de Mame com dio e
averso, admirava as de seu marido. Como era to belo e forte seu jovem
marido - alto, esbelto e bem bronzeado! Observei uma foto na qual ele erguia
uma taa de champanhe para brindar a esposa no segundo aniversrio de
casamento.
#103
Naquela noite, resolvi enviar um curto bilhete a Mame:

"Cara Sra. Winslow,
"Como me recordo de sua lua-de-mel. Foi um vero maravilhoso nas montanhas,
to refrescante e agradvel, trancados num quarto cujas janelas nunca eram
abertas.
"Parabns e meus melhores votos de felicidades, Sra. Winslow. E espero que
todos os seus futuros veres, invernos, primaveras e outonos sejam
assombrados pela lembrana do tipo de veres, invernos, primaveras e outonos
que tiveram suas bonecas de Dresden.
"Dos que j no lhe pertencem,
to boneco mdico,
a boneca bailarina,
a boneca que reza para crescer
e o boneco morto."

Corri para colocar a carta na caixa postal e mal a deixei cair pela fenda
arrependi-me, desejando t-la de volta. Chris me odiaria por fazer aquilo.
Choveu naquela noite e levantei-me da cama para observar a tempestade. As
lgrimas me escorriam pelo rosto como a chuva escorria pela vidraa. Era
sbado e Chris estava em casa. Estava l fora, na varanda, deixando que a
chuva soprada pelo vento lhe molhasse o pijama, colando-lhe o tecido 
pele.
Avistou-me quase no mesmo instante em que o vi e entrou em meu quarto sem
dizer uma palavra. Abraamo-nos; eu chorava por mais que me esforasse para
no faz-lo. Ele mal conseguia conter as lgrimas. Eu queria
que se fosse e, ao mesmo tempo, agarrava-o com fora, chorando-lhe no ombro.
- Ora, Cathy, por que as lgrimas? - indagou, enquanto eu continuava a
soluar.
Quando consegui falar, perguntei:
- Chris, voc no a ama mais, no  mesmo?
Ele hesitou, o que me fez o sangue ferver de raiva.
- Voc a ama! - exclamei. - Como consegue, depois de tudo o que ela fez a
Cory e Carrie? Chris, o que h de errado com voc que lhe permite continuar
a am-la, quando deveria odi-la tanto quanto eu?
Ele permaneceu mudo. E seu prprio silncio constituiu uma resposta.
Continuava a am-la porque precisava faz-lo para continuar me amando. Toda
vez que olhava para mim, via nossa me e a imagem dela quando jovem. Chris
era exatamente como Papai, que fora to vulnervel ao tipo de beleza que eu
possua. Contudo, era apenas uma semelhana superficial. Eu no era fraca!
No era desprovida de talentos! Eu seria capaz de imaginar mil e uma
maneiras diferentes de ganhar a vida sem precisar trancar meus quatro filhos
num quarto miservel e abandon-los aos cuidados de uma velha malvada que
desejava v-los sofrer por pecados que eles no tinham cometido!
#104
Enquanto eu ruminava meus pensamentos vingativos e fazia planos para
arruinar-lhe a vida na primeira oportunidade que  surgisse, Chris beijava-me
com ternura. Eu nem mesmo notara o fato.
- Pare com isso! - exclamei ao sentir a presso de seus lbios nos meus, -
Deixe-me em paz! Voc no me ama como quero ser amada, por ser o que sou.
Voc me ama porque meu rosto  igual ao dela! s vezes, odeio meu rosto!
Chris pareceu profundamente magoado ao recuar na direo da porta.
- Estava apenas procurando reconfort-la - declarou com voz embargada. - No
se transforme num monstro.

Meus temores de que a perna de Carrie sasse do aparelho de gesso mais curta
que a outra foram infundados. Pouco tempo depois que o gesso foi retirado,
ela recomeou a andar to bem quanto antes.
Quando o outono se aproximou, Chris, Paul e eu tivemos uma conferncia sobre
o assunto e decidimos que, afinal, a melhor soluo para o problema de
Carrie seria uma escola pblica, de onde ela voltasse para casa todos os
dias. Tudo o que ela teria a fazer era tomar o nibus escolar a trs
quarteires de casa; o mesmo nibus a traria de volta s trs da tarde.
Ento, ela ficaria com Henny na ampla e gostosa cozinha de Paul at que eu
voltasse da aula de bal.
Logo setembro chegou. Depois, passou-se novembro. E Carrie ainda no fizera
uma s amizade. Desejava desesperadamente integrar-se a um grupo, mas sempre
ficava de fora. Queria encontrar algum que a tratasse como irm, mas s
topava com desconfiana, hostilidade e ridculo. Tudo indicava que
Carrie passaria o resto da vida percorrendo os longos corredores daquela
escola primria sem encontrar uma nica amiga.
- Cathy - dizia-me ela. - Ningum gosta de mim.
- Gostaro. Mais cedo ou mais tarde, percebero o quanto voc  delicada e
maravilhosa. E voc tem a ns todos, que a amamos e admiramos. Portanto, no
se preocupe com os outros. No d importncia ao que eles pensam!
Carrie fungou, pois dava importncia - e muita!

Carrie dormia na sua cama de solteiro encostada  minha e todas as noites eu
a via ajoelhar-se junto  cama, com as mos unidas sob o queixo, e rezar de
cabea baixa.
- E, por favor, meu Deus! permita que eu torne a encontrar minha me. Minha
me de verdade. Acima de tudo, Senhor Deus, permita-me crescer um pouco
mais. No precisa tornar-meto alta como Mame; basta eu ficar quase to
alta como Cathy. Por favor, meu Deus, por favor, por favor!
Deitada na cama ouvindo aquilo, eu fitava o teto e odiava Mame - realmente
a desprezava e detestava! Como podia Carrie ainda querer uma me que fora
to cruel para ela? Teramos, Chris e eu, agido corretamente ao
ocultarmos dela a sinistra verdade sobre a maneira como nossa me "tentara
matar-nos?
#105
Sobre como ela era a causa de Carrie ser to raqutica?
Carrie atribua  pequenez toda a sua infelicidade e solido. Tinha
conscincia de possuir um rosto lindo e um cabelo sensacional, mas de que
lhe adiantava isso se o rosto e o cabelo estavam numa cabea
desproporcionalmente avantajada em relao ao corpinho magro e mido? A
beleza de
Carrie em nada contribua para angariar-lhe amizade e admirao. Muito pelo
contrrio.
- Cara de Boneca, Cabelo de Anjo. Ei, voc a, baixinha - ou ser que  an?
Por que no vai trabalhar num circo e ser a maior atrao?
E Carrie corria de volta para casa, trs quarteires inteiros desde o ponto
do nibus, amedrontada e chorosa, mais uma vez atormentada por crianas
desprovidas de sensibilidade.
- Eu no presto, Cathy! - chorava ela com o rosto enterrado em meu colo. -
Ningum gosta de mim. No gostam do meu corpo porque  pequeno demais; no
gostam de minha cabea porque  grande demais. E nem mesmo gostam do que
tenho de bonito, pois acham que est sendo desperdiado em algum to
raqutico como eu!
Eu fazia o possvel para consol-la, mas sentia-me impotente. Sabia que
Carrie observava meus menores movimentos, comparando minhas propores
fsicas com as suas. Ao faz-lo, ela percebia o quanto eu era bem
proporcionada e o quanto ela era grotesca.
Se eu lhe pudesse dar uma parte de minha estatura, certamente o faria de bom
grado. Em lugar disso, dava-lhe minhas preces. Noite aps noite eu tambm me
ajoelhava e pedia a Deus:
- Por favor, faa Carrie crescer! Por favor, meu Deus! Ela  to jovem,
magoa-se tanto, j sofreu tanta coisa! Seja bondoso. Olhe para baixo.
Veja-nos aqui, Deus! Escute nossas preces!
Uma tarde, Carrie procurou a nica pessoa capaz de lhe dar quase tudo.
Portanto, por que no lhe daria estatura?
Paul estava sentado na varanda dos fundos, bebericando vinho, mastigando
iscas de queijo e bolachas salgadas. Eu estava na aula de bal, de modo que
tomei conhecimento apenas da verso narrada por Paul.
- Carrie se aproximou de mim, Cathy, e indagou se eu no tinha uma mquina
de esticar, para torn-la mais comprida.
Suspirei, enquanto ele prosseguia:
- Eu lhe respondi que, se tivesse tal mquina, seria um processo muito
doloroso.
Eu tinha certeza de que ele respondera com amor, bondade e compreenso, sem
zombaria.
- "Tenha pacincia querida. Voc est mais alta que quando chegou a esta
casa. Com o tempo, crescer mais. Ora, vi muitas crianas mais baixas que
voc crescerem de repente quando atingiram a puberdade". Ela me encarou com
aqueles medrosos olhos azuis e percebi que ficou desapontada. Eu lhe
falhara. Compreendi isso pelo modo como ela se afastou, de ombros cados e
cabea baixa. Suas esperanas devem ter atingido o auge quando seus malvados
colegas de escola
#106
zombaram dela, sugerindo que procurasse uma "mquina de esticar".
- A medicina moderna no dispe de algum recurso para faz-la crescer? -
perguntei a Paul.
- Estou procurando - replicou ele com voz tensa. - Venderia minha alma para
conseguir que Carrie tivesse a altura que deseja. Ceder-lhe-ia parte da
minha altura, se fosse possvel.

A Sombra de Mame

Fazia um ano e meio que estvamos com o nosso "doutor". Que dias eufricos e
espantosos foram aqueles! Eu era como uma toupeira emergindo da escurido
para descobrir que os dias brilhantes eram muito diferentes do que eu
supunha que fossem.
Outrora, eu julgava, que uma vez livres de Foxworth Hall eu j quase adulta,
a vida me conduziria por um caminho largo e reto  fama, riqueza e
felicidade. Tinha talento: percebia o fato nos olhares admirados de Madame e
Georges. Madame, em especial, vigiava como uma guia as menores falhas de
tcnica e controle. E cada crtica recebida dizia-me que eu valia todos os
seus esforos no sentido de transformar-me no apenas numa bailarina
excelente, mas sensacional.
Durante as frias de vero, Chris arranjou emprego como garom num caf, das
sete da manh s sete da noite. Em agosto, tornaria a partir para a
Universidade de Duke, onde cursaria o segundo ano preparatrio para a
faculdade de medicina. Carrie gastava o tempo andando no balano, brincando
com suas bonequinhas de porcelana, embora j tivesse dez anos e devesse
estar
abandonando brincadeiras com bonecas. Eu passava cinco dias da semana e
metade dos sbados na aula de bal. Quando estava em casa, minha irmzinha
se grudava a mim como se fosse minha sombra. Quando eu saa, ela se tornava
a sombra de Henny. Necessitava de uma companheira de sua idade, mas no
conseguia encontr-la. Agora, tinha apenas as bonequinhas de porcelana com
quem confidenciar, pois j se sentia idosa demais para bancar o beb com
Chris e comigo. De repente, parou de reclamar do prprio raquitismo. Mas
seus olhos - aqueles grandes olhos azuis, muito tristes e desolados -
revelavam que ela ansiava por ser to alta quanto as meninas que via na rua.
A solido de Carrie doa-me de tal maneira que eu tornava a me lembrar de
Mame, maldizendo-a com todas as minhas foras! Esperava que ela fosse
pendurada pelos calcanhares sobre o fogo do inferno e atormentada por
demnios armados com agudos tridentes.
Com uma freqncia cada vez maior eu enviava bilhetes a Mame, no intuito de
atormentar sua vida onde quer que ela estivesse. Ela jamais se demorava num
s
#107
lugar o tempo suficiente para receber minhas cartas; ou, se as recebia,
preferia no respond-las. Aguardei que os envelopes me fossem devolvidos
com o carimbo DESTINATARIO NO ENCONTRADO, mas isto no ocorreu.
Todas as noites, eu lia cuidadosamente o jornal de Greenglenna, tentando
descobrir o que minha me fazia e onde se encontrava. s vezes, tinha
notcias.

"A Sra. Bartholomew Winslow deixou Paris com destino a Roma, a fim de
visitar o novo papa da alta costura internacional".

Recortei aquelas linhas e colei-as no meu lbum. Oh! o que eu faria quando a
encontrasse! Mais cedo ou mais tarde, ela regressaria a Greenglenna para
residir na casa de Bart Winslow, recm-reformada, redecorada e mobiliada.
Recortei tambm esta notcia e fitei prolongadamente a foto, que no lhe
fazia justia - o que era raro, pois em geral ela conseguia exibir um
sorriso
brilhante para mostrar ao mundo inteiro o quanto se sentia feliz e
satisfeita com a vida que levava.
Chris partiu para a universidade em agosto, duas semanas antes de se
reiniciarem minhas aulas no ginsio. Minha formatura seria no final de
janeiro. Impaciente para terminar logo o ginsio, eu estudava como uma
louca.

Os dias de outono se escoaram com rapidez, ao contrrio de outros outonos em
que o tempo parecia arrastar-se monotonamente enquanto eu ficava cada vez
mais velha e a juventude me era roubada. O simples fato de me manter
atualizada quanto s atividades de minha me era suficiente para ocupar-me o
tempo livre. Ento, quando realmente farejei o rastro da histria
da famlia de Bart, passei a gastar uma parte ainda maior de meu precioso
tempo.
Em Greenglenna, passei horas a fio lendo velhos livros escritos sobre as
famlias que haviam fundado a cidade. Os ancestrais de Bart Winslow tinham
chegado aos Estados Unidos na mesma poca em que os meus, no sculo XVIII;
vieram tambm da Inglaterra, estabelecendo-se na parte da Virgnia que era
atualmente a Carolina do Norte. Ergui os olhos da pgina e fitei o espao.
Seria mera coincidncia que os ancestrais de Bart e os meus fizessem parte
daquela "Colnia Perdida"? Alguns dos maridos tinham viajado de volta 
Inglaterra para buscar  suprimentos e s regressaram muito mais tarde,
encontrando a colnia abandonada, sem um nico sobrevivente para explicar o
motivo. Depois da Revoluo, os Winslow se transferiram para a Carolina do
Sul.
Que estranho! Atualmente, os Foxworth tambm estavam na Carolina do Sul.

Nem um s dia se passava sem que eu esperasse topar com Mame enquanto fazia
compras ou trafegava pelas movimentadas ruas de Greenglenna. Eu olhava para
todas as louras que avistava na rua; entrava nas lojas elegantes para
procur-la. Vendedoras pernsticas se aproximavam silenciosamente por detrs
de mim e indagavam se podiam
#108
ajudar-me em alguma coisa.  claro que
no podiam. Eu procurava minha me e esta, certamente, no estava pendurada
num cabide. Mas estava na cidade! A coluna social derame tal informao.
Qualquer dia eu a encontraria!
Um sbado ensolarado, eu me apressava em fazer um favor a Madame Marisha
quando, de repente, avistei na calada,  minha frente, um homem e uma
mulher to familiares que meu corao quase parou de bater! Eram eles!
Bastou-me o fato de v-la caminhando com tanta naturalidade ao lado dele,
evidentemente satisfeita, para que eu entrasse em pnico! Blis amarga
subiu-me  garganta. Ousei aproximar-me, de modo a ficar bem atrs deles. Se ela
virasse a cabea, certamente me avistaria - e o que faria eu, ento?
Cuspir-lhe-ia no rosto? Sim, gostaria de faz-lo. Poderia tambm passar-lhe
uma rasteira, fazendo-a cair, e observ-la perder a pose e a dignidade.
Seria gostoso. Mas nada fiz seno tremer e sentir-me doente ao escut-los
conversar.
A voz dela era doce e suave, to cultivada e aristocrtica. Maravilhei-me
ao constatar o quanto ainda se mantinha esbelta e elegante, os lindos
cabelos
louros e brilhantes levemente ondulados para trs, deixando o rosto
inteiramente  mostra. Quando ela virou a cabea para falar outra vez com o
homem a seu lado, vi-lhe o perfil. Suspirei. Oh! meu Deus! Minha me,
naquele caro costume cor-de-rosa. A linda me a quem eu tanto amara. Minha
me assassina, que ainda conseguia apoderar-se de meu corao e esprem-lo
at secar, pois outrora eu a amara tanto, confiara tanto nela... e, bem no
fundo de mim ainda existia aquela menininha, como Carrie, que ainda desejava
uma me para amar. Por que, Mame? Por que tem que gostar mais do dinheiro
que de seus prprios filhos?
Abafei um soluo que ela poderia ter escutado. Minhas emoes turbilhonavam,
descontroladas. Tive mpetos de correr at ela e berrar-lhe acusaes diante
do marido, chocando-o e deixando-a aterrorizada! Ao mesmo tempo, tive
vontade de correr para ela, abra-la chamar-lhe o nome, implorar-lhe que
voltasse a me amar como antes. Contudo, todas as minhas emoes ficaram
submersas num maremoto de dio e desejo de vingana. No a abordei, pois
ainda no me sentia preparada para faz-lo. Ainda no era rica ou famosa.
Ainda no era ningum especial e ela continuava a ser uma grande
beldade. Era uma das mulheres mais ricas da regio e, tambm, uma das mais
afortunadas.
Naquele dia, ousei arriscar-me muito, mas eles no se voltaram para
ver-me.
Minha me no era do tipo que olha para trs ou fita os transeuntes. Estava
acostumada a ser o centro de atrao dos olhares admirados. Avanava como
uma rainha por entre os plebeus, como se as nicas pessoas na rua fossem ela
e seu jovem marido.
Quando me fartei de olh-la, voltei a ateno para o marido, absorvendo seu
tipo especial de beleza viril e felina. J no usava o basto bigode escuro.
Tinha os cabelos escuros suavemente ondulados para trs, num corte moderno.
Lembrou-meum pouco Julian.
#109
As palavras trocadas por minha me e o marido no foram especialmente
reveladoras. Discutiam o restaurante onde deviam jantar e ela queria saber
se os mveis que tinham comprado naquela tarde poderiam ser melhores caso
fizessem a compra em Nova York.
- Adorei aquele aparador que escolhemos - disse ela, num tom de voz que me
levou de volta  infncia. - Lembra-me muito um que comprei pouco antes da
morte de Chris.
Oh! sim. Aquele aparador custara dois mil e quinhentos dlares e era
necessrio para dar equilbrio a um dos lados da sala. Ento, Papai morrera
no desastre e tudo que no fora pago nos foi tomado - inclusive o aparador.
Acompanhei-lhes os passos, desafiando o destino a permitir que me
avistassem. Estavam em Greenglenna, morando na casa de Bart Winslow.
Enquanto os seguia, cheia de planos de vingana, odiando minha me e
admirando seu marido, eu imaginava a maneira de faz-la sofrer mais. E o que
fiz? Acovardei-me! No fiz nada - absolutamente nada! Furiosa comigo mesma,
voltei para casa e esbravejei diante do espelho, odiando minha imagem por
ser uma duplicata dela! Maldita fosse Mame! Peguei um pesado prendedor de
papis em cima da elegante escrivaninha em estilo provincial francs que
Paul comprara para mim e atirei-o com fora contra o espelho! Tome, Mame!
Agora,
est desfeita em pedaos! Sumiu, sumiu, sumiu! Ento, comecei a chorar.
Posteriormente, um homem veio colocar outro espelho na moldura. Tola, eis o
que eu era! No fizera mais que gastar parte do dinheiro que vinha
economizando para dar um belo presente a Paul em seu quadragsimo-segundo
aniversrio.
Algum dia, eu me desforraria - de uma maneira que no seria prejudicada.
Seria mais que um simples espelho quebrado. Mais, muito mais!

Um Presente de Aniversrio

As convenes mdicas, assim como os pacientes, estragaram muitos dos meus
planos. Naquele dia especial, faltei  aula de bal a fim de voltar correndo
para casa direto do ginsio. Encontrei Henny na cozinha, trabalhando como
uma escrava para preparar o jantar de gourmet que eu planejara: todos os
pratos prediletos de Paul. Uma jambalaia crioula com camaro, carne de siri,
arroz, pimentes verdes, cebolas, alho, cogumelos e tantos outros
ingredientes que tive a impresso de que jamais acabaria de medir pores
disto
ou daquilo. Ento, era preciso refogar todos os cogumelos e outros legumes.
Um prato complicado, que eu provavelmente no tornaria a preparar.
To logo aquele foi para o forno, comecei outro bolo. O primeiro era mido e
macio, com um furo no meio. Enchi o buraco com glac e dei-o s crianas das
redondezas. Henny movimentava-se atarefadamente, sacudindo a cabea e
olhando-me com ar crtico.
#110
Eu estava terminando de confeitar o segundo bolo quando Chris entrou pela
porta dos fundos, carregando seu presente.
- Cheguei atrasado? - indagou ofegante. - S poderei ficar at s nove
horas. Preciso voltar  universidade antes da chamada noturna.
- Chegou bem a tempo - respondi afobada, ansiosa por subir para tomar banho
e me vestir. - Arrume a mesa enquanto Henny termina a salada.
Naturalmente, arrumar a mesa era algo ofensivo  sua dignidade; contudo,
para variar, ele obedeceu sem protestar.
Lavei o cabelo, enrolei-o, pintei as unhas dos ps e das mos com um esmalte
rosa prateado e poli-as esmeradamente. Maquilei-me com a habilidade
resultante de horas de prtica e longas consultas com Madame Marisha e as
maquiladoras das grandes lojas de departamentos. Quando terminei, ningum
seria capaz de adivinhar que eu tinha apenas dezessete anos. Desci a escada
sentindo-me elevada aos pncaros pela admirao que brilhava nos olhos de
meu irmo, a inveja estampada no rosto de Carrie e o largo sorriso que
dividia o rosto de Henny de uma orelha  outra.
Caprichei nos retoques finais da arrumao da mesa, ajeitando os apitos,
lnguas-de-sogra e os ridculos chapus coloridos de palhao. Chris encheu
alguns bales e pendurou-os no lustre. Ento, sentamo-nos todos, a fim de
esperar que Paul chegasse para a sua "festa de surpresa".
Quando as horas se passaram e Paul no chegou, levantei-me e fiquei andando
de um lado para outro, como fizera Mame na festa de trigsimo-sexto
aniversrio de Papai, quando ele nunca mais voltou para casa.
Afinal, Chris teve que ir embora. Em seguida, Carrie comeou a bocejar e
reclamar. Demos-lhe comida e permitimos que subisse para dormir. Agora,
Carrie dormia sozinha em seu prprio quarto, especialmente decorado em
vermelho e roxo. Ento, restamos apenas Henny e eu, assistindo  televiso,
enquanto o prato crioulo esquentava e secava no forno, a salada comeava a
murchar. A certa altura, Henny bocejou e foi deitar-se. Fiquei sozinha,
andando pela sala, preocupando-me, minha festa estragada.
s dez horas, escutei o carro de Paul entrar na alameda de acesso. Ele veio
pela porta da cozinha, carregando as malas que levara consigo para Chicago.
Cumprimentou-me distraidamente antes de notar minhas roupas elegantes.
- Ei!... exclamou, lanando um olhar desconfiado  sala de jantar e vendo a
decorao para a festa. - Por acaso consegui estragar algo que voc
planejava fazer?
Mostrou-se to despreocupado com o fato de estar atrasado trs horas que eu
seria capaz de mat-lo se no o amasse tanto. Como as pessoas que sempre
procuram ocultar seus sentimentos, ataquei-o raivosamente:
- Em primeiro lugar, por que teve que comparecer quela conveno mdica?
Devia ter adivinhado que tnhamos planos especiais para seu aniversrio!
Alm disso, telefonou para dizer-nos a que horas voltaria para casa, mas
chega agora, com trs horas de atraso!...
- Meu vo atrasou... - comeou ele a explicar.
- Trabalhei como uma escrava para preparar um bolo to gostoso como o que
#111
fazia a sua me - interrompi. - E voc no apareceu em casa!
Afastei-o bruscamente e tirei o prato do forno.
- Estou faminto - disse Paul em tom humilde, como se pedisse desculpas. - Se
voc ainda no comeu, poderamos aproveitar da melhor forma possvel o que
poderia ser uma ocasio muito festiva e feliz. Tenha piedade de mim, Cathy.
No posso controlar as condies atmosfricas.
Meneei rigidamente a cabea para mostrar ao menos uma partcula de
compreenso. Paul sorriu e acariciou-me o rosto com as costas da mo.
- Est com uma aparncia absolutamente extica - murmurou. - Portanto, trate
de desfranzir a testa e preparar as coisas. Descerei dentro de dez minutos.
Em dez minutos ele tomou banho, fez a barba e vestiu roupas limpas.  luz de
quatro velas, sentamo-nos  comprida mesa de jantar; tomei lugar  esquerda
de Paul. Eu preparara a refeio de modo a no ter necessidade de
levantar-me para servi-lo. Tudo o que era preciso fora arrumado num carrinho
de servir. Os pratos a serem servidos quentes estavam sobre aquecedores
eltricos e o champanhe gelava num balde de prata.
- O champanhe  presente de Chris - informei. Ele tomou gosto por esse tipo
de bebida.
Paul tirou a garrafa do balde de gelo e examinou o rtulo.
- Uma boa safra; deve ter custado caro. Seu irmo est adquirindo gostos de
gourmet.
Comemos devagar. Tive a impresso de que sempre que erguia a cabea meus
olhos encontravam os dele. Paul chegara em casa parecendo cansado e mal
arrumado; agora, mostrava-se completamente refeito. Estivera fora de casa
durante duas semanas longas - muito longas. Semanas mortas, que me fizeram
sentir falta da sua presena  porta aberta de meu quarto enquanto eu me
exercitava na barra, aquecendo os msculos antes do caf da manh, ao som da
maravilhosa msica que me elevava a alma s nuvens.
Terminada a refeio, corri  cozinha e deslizei de volta com um lindo bolo
de coco, decorado com pequenas velas verdes enfiadas em rosas vermelhas
feitas de glac. Em cima do bolo, eu escrevera com a maior arte que a
bisnaga de glac me permitira: Parabns, Paul.
- O que acha? - indagou Paul, depois de soprar as velas.
- A respeito de qu? - redargui , pousando cuidadosamente sobre a mesa o
bolo com vinte e seis velas - pois aquela era a idade que ele aparentava
para mim, a idade que eu queria que ele tivesse.
Sentia-me como uma adolescente atolada num mundo adulto de areia movedia.
Meu vestido curto e formal era de chiffon cor de fogo, alas finas e um
decote que deixava  mostra o profundo vale entre meus seios. Entretanto, se
minha tentativa de parecer sofisticada alcanara sucesso, por dentro eu me
sentia atordoada ao tentar desempenhar o papel de sedutora.
- Do meu bigode...  claro que voc notou. Faz meia hora que no tira os
olhos dele.
#112
-  bonito - gaguejei, ficando vermelha como meu vestido. - Fica bem em
voc.
- Ora, desde que chegou a esta casa voc vem insinuando que eu seria muito
mais bonito e atraente se usasse bigode. E agora, que me dei ao trabalho de
deix-lo crescer, voc diz que me fica bem.  uma expresso muito fraca,
Catherine.
-  porque... porque voc fica to bonito que s consigo encontrar
expresses fracas - gaguejei outra vez. - Temo que Thelma Murkel j tenha
encontrado todas as expresses fortes para elogi-lo.
- Como, diabo, sabe a respeito dela? -  quis saber Paul, apertando as
plpebras dos olhos bonitos.
Ora, ele deveria saber: mexericos. Portanto, respondi:
- Fui quele hospital onde Thelma Murkel  a enfermeira-chefe do terceiro
andar. Sentei-me perto do posto das enfermeiras e a observei durante cerca
de duas horas. Na minha opinio, ela no chega a ser bonita, mas  atraente
e pareceu-me terrivelmente autoritria. E flerta com todos os mdicos,
caso voc ainda no tenha conhecimento do fato.
Deixei-o a rir, com os olhos brilhando. Thelma Murkel era enfermeira-chefe
de um dos pavimentos do Hospital Clairmont Memorial e todos l sabiam que
estava decidida a tornar-se a segunda Sra. Paul Scott Sheffield. Entretanto,
no passava de uma enfermeira num estril uniforme branco, a quilmetros de
distncia de Paul, enquanto eu estava bem sob o nariz dele, com meu
embriagador perfume novo a lhe despertar os sentidos (como dizia o anncio:
um aroma enfeitiante, cheio de encanto e seduo, ao qual homem nenhum
consegue resistir). Que possibilidades tinha Thelma Murkel, com vinte e nove
anos de idade, contra algum como eu?
Eu j estava zonza com trs taas do champanhe importado trazido por Chris,
mal conseguindo manter-me alerta, quando Paul comeou a abrir os presentes
que Chris, Carrie e eu tnhamos comprado para ele com nossas economias. Eu
bordara para Paul uma tapearia mostrando a linda casa branca
com as rvores aparecendo acima do telhado e parte do muro lateral com
pequenas flores brilhantes. Chris riscara o desenho para mim e eu trabalhara
como escrava durante muitas horas a fim de produzir um servio perfeito.
- Que linda obra de arte! - exclamou Paul, espantado e impressionado.
No pude deixar de relembrar a av e o modo cruel pelo qual rejeitara nosso
gesto dedicado e esperanoso de angariar-lhe a amizade.
- Muito obrigado, Catberine, por considerar-me tanto. Vou pendur-la na
parede do consultrio, onde todos os clientes possam v-la.
As lgrimas transbordaram-me dos olhos, manchando a maquilagem. Tentei
enxug-las furtivamente antes que Paul percebesse que no era apenas a luz
de velas que me tornava to bonita, mas trs horas de cuidadosos
preparativos. Ele no notou as lgrimas, nem o leno que retirei do decote
do vestido. Continuava a admirar os minsculos pontos de bordado que eu
fizera com tanto esmero. Ento, deixando o presente de lado, captou-me o
olhar com seus olhos faiscantes e ergueu-se para ajudar-me.
#113
- A noite est bela demais para irmos dormir - declarou, lanando um olhar
ao relgio. - Sinto vontade de passear no jardim ao luar. J teve mpetos
dessa espcie?
Vontade? mpetos? Desejos? Eu era feita deles - grande parte dos quais por
demais adolescentes e fantasiosos para se tornarem realidade. No obstante,
atravessando ao lado de Paul a magia do jardim japons com a pequena ponte
laqueada e subindo, de mos dadas com ele, os degraus de mrmore, tive a
impresso de que penetrvamos juntos num pas de sonhos. A mgica impresso
era causada, naturalmente, pelas esttuas de mrmore em tamanho natural,
muito belas em sua fria e perfeita nudez.
A brisa fazia balanar o musgo espanhol nas rvores, obrigando Paul a
abaixar-se enquanto eu podia permanecer ereta e sorrir, pois a estatura
causava alguns problemas dos quais eu estava livre.
- Est zombando de mim, Catherine - disse Paul, exatamente como Chris
costumava brincar comigo, dividindo-me o nome em slabas lentas e distintas.
Minha Lady Ca-the-ri-ne...
Corri  frente de Paul, descendo os degraus de mrmore que levavam ao centro
do jardim, onde o Beijo, de Rodin, dominava o panorama. Tudo me parecia
azul-prateado e irreal; a lua grande e brilhando, cheia e sorridente, com
longas mechas de nuvens encobrindo-a a intervalos, dando-lhe alternadamente
um aspecto sinistro e alegre. Suspirei, pois fora exatamente assim naquela
estranha noite em que Chris e eu estivemos juntos no telhado de Foxworth
Hall, temerosos de termos que passar o resto da eternidade assando sobre o
fogo do inferno.
-  uma pena voc estar aqui comigo e no com aquele rapaz com quem costuma
danar - disse Paul, trazendo-me bruscamente de volta do passado.
- Julian? - indaguei espantada. - Est em Nova York esta semana... mas creio
que voltar na prxima.
- Oh! - disse Paul. - Ento, a prxima semana pertencer a ele e no a mim.
- Tudo isso depende...
- De qu?
- s vezes desejo a companhia dele, s vezes no. s vezes ele parece apenas
um menino e eu quero um homem. Por outro lado, s vezes ele  muito
sofisticado e me impressiona. E quando dano com ele, apaixono-me loucamente
pelo prncipe que ele representa. Fica esplndido naquelas roupas...
-  - concordou Paul. - J reparei nisso.
- Tem cabelos negros e brilhantes, enquanto voc os tem num tom mesclado de
castanho esfumaado.
- Devo supor que negro brilhante seja mais romntico que mesclado de
castanho esfumaado? - provocou Paul.
- Depende.
#114
- Catherine, voc  totalmente feminina... Pare de dar respostas
enigmticas.
- No sou enigmtica; estou apenas dizendo que amor ou romance no so
suficientes. Desejo talentos que me ajudem a viver sem ter que trancar meus
filhos numa priso para herdar uma fortuna que nada fiz para merecer. Quero
saber como ganhar nossa vida e sustento, mesmo que no tenhamos um
homem para amparar-nos.
- Catherine, Catherine - disse Paul, baixinho, tomando-me as mos nas suas
e apertando-as. - O quanto deve ter sido magoada por sua me! Fala de forma
to adulta, to empedernida. No permita que lembranas amargas lhe roubem
uma de suas maiores qualidades: seu jeito suave e amoroso. Um homem gosta de
cuidar da mulher que ama e dos filhos. Uma mulher agressiva e
dominadora  uma das mais terrveis criaturas de Deus.
Libertei-me dele, corri para o balano e sentei-me. Comecei a balanar-me,
cada vez mais rpido e mais alto, retrocedendo ao sto e aos balanos que
eu l usava nas noites longas e abafadas. Agora, estava aqui, livre no mundo
normal - mas balanando-me como uma louca, para voltar ao sto! O fato de
rever Mame e seu marido deixava-me desesperada, fazendo-me desejar de
imediato algo que precisava ser adiado para quando eu fosse mais velha.
Balancei-me to alto, com tanta violncia e abandono, que minha saia se
ergueu com o vento, tapando-me o rosto e deixando-me cega. Tonta, ca
bruscamente! Paul correu para mim, ajoelhando-se a fim de tomar-me nos
braos.
- Machucou-se? -indagou, beijando-me antes que eu pudesse responder.
No, eu no me machucara. Era bailarina e sabia cair. Paul comeou a
murmurar palavras de amor que eu tanto desejava ouvir; seus beijos se
tornaram mais vagarosos e prolongados. A expresso de seus olhos causou-me
uma embriaguez muito mais forte e gostosa do que qualquer champanhe
importado poderia provocar.
Meus lbios se entreabriram sob seu demorado beijo. Prendi a respirao
quando sua lngua tocou a minha. Os beijos de Paul tornaram-se quentes e
umidos em minhas plpebras, rosto, queixo, pescoo, ombros e colo, enquanto
suas mos procuravam e exploravam incessantemente minhas partes mais
ntimas.
- Catherine - disse ele, ofegante, afastando-se um pouco e fitando-me com os
olhos cheios de fogo. - Voc  apenas uma criana. No podemos permitir que
isto acontea. Eu jurei que nunca mais tornaria a acontecer - no com voc!
Palavras inteis, que eliminei envolvendo-lhe o pescoo com os braos.
Mergulhei os dedos em seus cabelos escuros e murmurei com voz embargada:
- Eu queria lhe dar um lindo Cadillac novo como presente de aniversrio, mas
no tive dinheiro suficiente. Portanto, resolvi dar-lhe o segundo melhor
presente: eu.
Paul gemeu baixinho.
- No posso deixar que faa isso: voc nada me deve!
#115
Ri e beijei-o. Sem a menor vergonha, beijei-o demorada e profundamente na
boca.
- Paul, quem me deve  voc! Lanou-me muitos olhares compridos, cheios de
desejo, para dizer-me agora que no me quer. Se disser tal coisa, estar
mentindo. Pensa em mim como se eu fosse uma criana, mas faz muito tempo que
cresci. No precisa amar-me, eu no me importo, pois eu o amo e isto me
basta. Sei que voc me amar como desejo ser amada, porque, mesmo que se
recuse a confessar, voc me ama e me deseja.
O luar iluminou-lhe os olhos, fazendo-os brilhar. E enquanto ele me dizia
que eu era uma tola por pensar que aquilo daria certo, sua expresso
desmentia-lhe as palavras.
No meu modo de pensar, o prprio fato de controlar-se mostrava exatamente o
quanto ele realmente me amava. Se me amasse menos, no teria hesitado em
aproveitar-se ansiosamente, h muito tempo, daquilo que eu certamente no
lhe negaria. Portanto, quando Paul fez meno de levantar-se para sair dali
e acabar com a tentao, peguei-lhe a mo e coloquei-a onde ela me causaria
maior prazer. Ele gemeu. E eu gemi ainda mais alto quando coloquei minha mo
onde causaria maior prazer a ele. Eu sabia que estava agindo sem o
mnimo sinal de recato ou vergonha. Afastei do pensamento o que pensaria Chris, o
fato de que minha av me julgaria uma prostituta desavergonhada. Oh! seria
uma felicidade, ou justamente o contrrio, o livro que Mame guardava na
mesinha de cabeceira haver-me ensinado o que fazer para dar prazer a um
homem e satisfazer meus apetites?
Cheguei a pensar que Paul me possuiria ali mesmo no gramado, sob as
estrelas, mas ele me ergueu no colo e carregou-me de volta  casa. Subiu
cuidadosamente a escada. Nenhum de ns falava, embora meus lbios lhe
cobrissem de beijos o pescoo e o rosto.  distncia, no quarto ao lado da
cozinha, a televiso de Henny ainda estava sintonizada num programa de
entrevistas.
Paul colocou-me sobre sua cama e, apenas com o olhar, comeou a fazer-me
amor. E eu mergulhei em seus olhos, afogando-me neles. As coisas perderam a
nitidez  medida que minhas emoes cresciam cada vez mais, engolfando-nos
como uma onda de maremoto. Juntamos nossas peles; a princpio, apenas nos
tocvamos, abraados, sentindo a exaltao de compartilhar o que o outro
tinha a oferecer. A cada toque dos lbios e das mos de Paul eu era
percorrida por sensaes eletrizantes, at que, afinal, fiquei desesperada
para senti-lo penetrar-me, j sem ternura, mas dominada pelo feroz ardor da
necessidade que exigia dele atingir os mesmos pncaros que eu buscava.
- Catherine! Agora! Depressa! Venha!
De que falava ele? Ali estava eu, sob seu corpo, fazendo o que me era
possvel. Vir para onde? Paul estava escorregadio de suor. Minhas pernas
erguidas envolviam-lhe a cintura e pude sentir o terrvel esforo que ele
fazia para conter-se enquanto me pedia para vir, vir, vir! Ento, gemeu e
no resistiu mais.
Jorros de lquido morno aqueceram-me as entranhas por cinco ou seis vezes,
provocando uma sensao agradvel. Ento, tudo acabou e Paul saiu de dentro
de mim. E
#116
eu no alcanara o cume de nenhuma montanha, ou ouvira sinos tocarem, ou
sentira-me explodir - como ele sentira. Estava tudo estampado em seu rosto,
agora relaxado e pacfico, vagamente marcado pela satisfao. Como era fcil
para os homens, refleti enquanto desejava mais. Chegara  beira do
foguetrio e tudo acabara. Tudo exceto as mos sonolentas de Paul que me
percorriam o corpo, explorando todas as colinas e vales antes que ele
adormecesse. Ento, sua perna pesada se apoiou na minha. Fiquei acordada,
fitando o teto com lgrimas nos olhos. Adeus, Christopher Doll - agora, voc
foi libertado!

A luz do sol entrando pela janela acordou-me cedo. Paul, apoiado num
cotovelo, observava-me com ar sonhador.
- Voc  to bela, to jovem, to desejvel. No est arrependida, est?
Espero que no deseje, agora, ter agido de forma diferente.
Aninhei-me de encontro  sua pele nua.
- Explique-me uma coisa, por favor. Por que me pediu tanto que viesse?
Ele explodiu numa gargalhada.
- Catherine, meu amor - conseguiu dizer, afinal. - Eu quase morri tentando
conter-me at que voc pudesse chegar ao orgasmo. E agora, voc fica a
deitada, com esses inocentes olhos azuis, a perguntar o que eu queria dizer!
Pensei que seus colegas bailarinos j lhe tivessem explicado tudo. No me
diga que existe um assunto a respeito do qual voc ainda no leu nos livros!
- Bem, havia um livro, que encontrei na mesinha de cabeceira de Mame... mas
limitei-me a ver as fotografias. Nunca cheguei a ler o texto, embora, Chris
o lesse, Por outro lado, Chris ia quele quarto com muito mais freqncia
que eu.
Paul pigarreou.
- Eu poderia explicar o que quis dizer com aquilo, mas demonstrar na prtica
seria bem melhor. Falando srio: voc no faz a mnima idia?
- Fao - respondi, na defensiva. - Claro que fao. Creio que devo ser
estonteada por raios, ficar rgida e perder os sentidos; depois, serei
pulverizada em tomos que flutuam no espao e tornam a reunir-se,
provocando-me arrepios e trazendo-me vagarosamente de volta  realidade, com
os olhos sonhadores vendo estrelas - como os seus.
- Por favor, Catherine, no me faa am-la demais - disse Paul muito srio,
como se tivesse medo de que isso acontecesse.
- Tentarei am-lo da maneira que voc desejar.
- Em primeiro lugar, vou fazer a barba - disse ele, afastando as cobertas e
comeando a levantar-se da cama.
Estendi os braos para pux-lo de volta.
- Gosto de voc como est agora, to moreno e perigoso.
Entreguei-me entusiasticamente a todos os desejos de Paul. Inventamos modos
delicados de ocultar nossos encontros  percepo de Henny. Nos dias de
folga de Henny, eu lavava as roupas de cama, que eram duplicatas dos lenis
sujos, que eu escondia at que
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pudessem ser lavados. Carrie era to pouco observadora que bem poderia estar
num mundo diferente do nosso. Todavia, quando Chris estava em casa tnhamos
que ser mais discretos e nem mesmo nos olhvamos, para no nos trairmos.
Agora, eu me sentia esquisita em relao a Chris, como se o houvesse trado.
Eu no tinha idia de quanto tempo perduraria o encantamento existente entre
Paul e eu. Ansiava por paixo perene, por xtase imorredouro. No obstante,
o meu eu desconfiado no imaginava que algo to belo e glorioso quanto o que
havia entre Paul e eu pudesse durar indefinidamente. Paul logo
se cansaria de mim, uma criana cuja capacidade mental jamais poderia
igualar-se  sua, e voltaria aos velhos costumes - talvez com Thelma Murkel.
Talvez Thelma Murkel o tivesse acompanhado quela conveno mdica, embora
eu tivesse sabedoria suficiente para jamais perguntar a Paul o que ele fazia
quando no estava a meu lado. Desejava dar-lhe tudo o que Julia lhe negara -
dar de bom grado, sem recriminaes quando chegasse o momento de nos
separarmos.
Mas, no momento de nossa flamejante obsesso mtua eu me sentia to grande,
to generosa, que exultava em nosso desprendido abandono. E creio que a av,
com suas arengas a respeito de malcia e pecado, tornava tudo dez vezes mais
excitante, justamente por ser to pecaminoso.
Ento, eu voltava a vacilar, desorientada, por no querer que Chris me
considerasse pecaminosa. Oh! importava-me tanto o que Chris pensava de mim!
Por favor, meu Deus! faa OChris compreender por que motivo estou agindo
assim. E eu amo Paul - de verdade!
Aps o Dia de Ao de Graas, Chris ainda teve mais alguns dias de frias.
Estvamos  mesa, com Henny por perto, quando Paul nos perguntou o que
desejvamos no Natal. Seria o nosso terceiro Natal na casa de Paul. No
final de janeiro, eu terminaria o ginsio. No me restava muito tempo, pois
minha prxima etapa seria - assim esperava eu - Nova York.
Tomei a palavra para dizer a Paul o que desejava como presente de Natal:
queria ir a Foxworth Hall. Chris esbugalhou os olhos e Carrie comeou a
chorar.
- No! - exclamou Chris, peremptrio. - No tornaremos a abrir feridas
cicatrizadas!
- Minhas feridas no cicatrizaram! - repliquei com igual veemncia. - Jamais
cicatrizaro at que seja feita justia!

Foxworth Hall, Vista de Fora

Mal as palavras me saram dos lbios e Chris gritou:
- No! Por que no trata de esquecer o passado?
#118
- Porque no sou como voc, Christopher! Voc prefere fazer de conta que
Cory no morreu por envenenamento com arsnico, mas de pneumonia, porque
isso lhe  mais cmodo e conveniente ! No obstante, foi voc quem
me convenceu de que ela envenenou Cory! Portanto, por que no podemos ir at
l e verificar se algum hospital tem o registro da morte de Cory?
- Cory pode ter morrido de pneumonia. Apresentava todos os sintomas.
Com que falta de convico ele disse aquilo, sabendo muito bem que procurava
proteg-la.
- Agora, esperem um momento - interps Paul, que se mantivera calado e s
falou quando percebeu o fogo que me brilhava nos olhos. - Se Cathy acha que
deve agir assim, por que no a contentamos, Chris? Todavia, se sua me
registrou Cory no hospital sob um nome falso, no ser fcil verificar a
verdade.
- Ela tambm mandou colocar um nome falso no tmulo de Cory - disse Chris,
lanando-me um demorado olhar carregado de raiva.
Paul refletiu sobre o assunto, pensando em voz alta num meio de podermos
encontrar um tmulo sem saber o nome que fora gravado na lpide. Eu julgava
que tinha todas as respostas. Se ela registrara Cory num hospital sob um
determinado nome, naturalmente usaria o mesmo nome para sepult-lo.
- E voc, Paul, sendo mdico, tem acesso a todos os registros dos hospitais,
no  mesmo?
- Voc quer mesmo fazer isso? - indagou-me Paul. - No h dvida de que
trar de volta muitas lembranas dolorosas e, como Chris acaba de dizer,
abrir feridas cicatrizadas.
- Minhas feridas no cicatrizaram e jamais cicatrizaro! Quero levar flores
ao tmulo de Cory .Creio que Carrie se sentir reconfortada por saber onde
ele est enterrado e, depois, poderemos visit-lo periodicamente. Chris, j
que se mostra to contrrio  idia, no  obrigado a ir!
Apesar da oposio de Chris, Paul tentou dar-me o que eu desejava. Chris
viajou conosco at Charlottesville, fazendo companhia a Carrie no banco
traseiro. Paul entrou em vrios hospitais e usou seu encanto pessoal para
convencer as enfermeiras a lhe mostrarem os registros que ele queria
examinar. Investigou durante muito tempo, enquanto eu o acompanhava e Chris
esperava no carro com Carrie. Nenhum menino de oito anos morrera de
pneumonia no final de outubro dois anos atrs! No apenas isso, mas os
cemitrios no tinham qualquer registro do sepultamento de uma criana
daquela idade na ocasio! Ainda teimosamente decidida, percorri a p todos
os cemitrios,
pensando que Mame poderia ter mentido e, afinal, mandado gravar o nome
Dollanganger na lpide. Carrie chorava, pois Cory devia estar no cu e no
sob a terra ligeiramente congelada por uma nevada recente.
Um trabalho infrutfero, um dispndio intil de tempo! No que dizia respeito
ao resto do mundo, nenhuma criana do sexo masculino, com oito anos de
idade, morrera naquela regio nos meses de outubro e novembro de 1960! Chris
insistiu para que
#119
voltssemos  casa de Paul, tentando convencerme de que eu no queria
realmente rever Foxworth Hall.
Girei nos calcanhares, furiosa, para encarar Chris.
- Quero ir l! E temos tempo para isso! Por que chegarmos at aqui e
regressarmos sem ver a casa? Pelo menos uma vez  luz do dia, por fora
- por
que no?
Foi Paul quem argumentou com Chris, dizendo-lhe que eu precisava ver a casa.
- E para falar com franqueza, Chris, eu tambm gostaria de v-la.
Pensativo e amuado junto a Carrie no banco traseiro, Chris cedeu. Carrie
chorou quando Paul arrancou com o carro em direo s ngremes estradas nas
montanhas, que Mame e seu marido deviam ter percorrido milhares de vezes.
Paul parou num posto de gasolina para pedir informaes quanto ao
caminho at Foxworth Hall. Ns poderamos orient-lo com a maior facilidade,
se soubssemos por onde passava a ferrovia e consegussemos encontrar a
parada do correio.
- Linda regio - comentou Paul enquanto dirigia o carro.
Eventualmente, chegamos  grandiosa manso isolada numa encosta.
-  aquela! - exclamei, terrivelmente excitada.
Era enorme como um hotel, com alas duplas que pareciam brotar a cada lado do
corpo principal construdo de tijolos rosados, com postigos pretos em todas
as janelas. O telhado de ardsia escura era to ngreme que chegava a
assustar - como ousramos andar l em cima? Contei as oito chamins, as
quatro sries de janelas de gua-furtada no sto.
- Veja l, Paul - disse eu, apontando as duas janelas no ltimo andar da ala
norte, onde havamos sido prisioneiros por tanto tempo, esperando
interminavelmente pela morte de nosso av.
Enquanto Paul olhava para as duas janelas, voltei a ateno para as janelas
de gua-furtada do sto e vi que um postigo avariado fora consertado. No
encontrei marcas de fuligem ou sinais de fogo. A manso no se incendiara!
Deus no enviara uma brisa errante que soprasse a chama da vela at atear
fogo a uma das flores de papel. Deus no ia punir nossa me ou a av!
De repente, Carrie soltou um berro.
- Quero Mame! - gritou ela. - Catty, Chris,era ali que eu morava com Cory!
Deixem-me entrar! Quero Mame! Por favor, deixem-me ver minha me de
verdade!
Foi assustador o modo como ela chorou e implorou. Como podia lembrar-se da
casa? Estava escuro na noite de nossa chegada, com os gmeos to sonolentos
que no poderiam ter visto nada. Na manh de nossa fuga, tnhamos sado
sorrateiramente antes do amanhecer, pela porta dos fundos. Algo
dizia a Carrie que aquela manso nos servira de priso anos atrs! Ento,
percebi. Eram as outras casas, situadas mais abaixo na mesma rua. Estvamos
no final de um cul-de-sac, numa posio bem mais elevada. Espivamos
freqentemente pelas janelas de nosso quarto trancado e vamos as belas
casas abaixo de ns. Era-nos proibido olhar #120
pelas janelas - no obstante, ousvamos faz-lo ocasionalmente.

Em que resultara nossa longa jornada? Nada. Absolutamente nada, exceto
termos mais provas de que nossa me era uma mentirosa alm de toda e
qualquer imaginao. Ruminei o assunto, dia aps dia, at mesmo quando me
sentava num dos bancos embutidos no box do chuveiro e Paul me ensaboava os
cabelos, lavando-os com esmero. Se eu os penteasse para cima ou os enrolasse
na cabea, eram to compridos que jamais conseguiria desembara-los. Paul
lavava-os da maneira que eu lhe ensinara, passando a espuma da raiz at as
pontas; quando terminava a lavagem, secava-os e escovava-os, fazendo que
cassem como um xale de seda para cobrir minha nudez, como Eva deveria ter
feito h milnios.
- Paul - indaguei com os olhos baixos -, o que estamos fazendo no  pecado,
? Lembro-me sempre da av e de suas arengas sobre o mal e o pecado. Diga-me
que o amor faz que tudo seja certo.
- Abra os olhos, Catherine - disse ele baixinho, usando um pano para limpar
as bolhas de sabonete em minhas plpebras. -  Veja o que tem diante de si:
um homem nu, como Deus o fez.
Quando olhei, Paul virou meu rosto para cima e, em seguida ergueu-me para
poder abraar-me. Estreitando-me contra si, comeou a falar - e cada uma de
suas palavras dizia-me que nosso amor era lindo e certo.
No consegui falar. Chorei silenciosamente por dentro, pois seria to
fcil terminar a vida como a ferrenha pudica que minha av desejava que eu
fosse.
Como uma criana pequena, permiti que Paul me enxugasse o corpo e escovasse
o cabelo, fazendo o que queria com seus lbios e carcias, at que as brasas
sempre acesas entre ns produzissem fogo. Ento, ele me pegou no colo e
levou para a cama.
Aps saciarmos nossa paixo, fiquei deitada nos braos dele e pensei em
tudo que fora capaz de fazer. Coisas que me chocariam quando criana. Coisas
que antes eu consideraria grosseiras, obscenas, pois ento s levava em
conta os atos e no os sentimentos de dar e receber. Como era estranho que
as pessoas nascessem to sensuais e vivessem reprimidas por tantos anos.
Lembrei-me da primeira vez que a lngua de Paul me tocara l e do choque
eletrizante que senti.
Oh! eu podia beijar Paul todinho e no sentir vergonha, pois am-lo era
melhor que sentir o aroma de rosas num dia ensolarado de vero, melhor que
danar ao som da msica mais linda, com o mais sensacional bailarino.
Assim era para mim amar Paul, quando eu tinha dezessete anos e ele quarenta
e dois.
Paul me restaurara, fazendo-me sentir completa. Eu enterrava mais fundo o
remorso que sentia por Cory.
Havia esperana para Chris, pois estava vivo.
#121
Havia esperana para Carrie, que ainda poderia crescer e encontrar o amor.
E, talvez, se tudo corresse bem - havia esperana para mim, tambm.

A Caminho do Topo

Julian no vinha de Nova York com a mesma freqncia de antes e seus pais se
queixavam disso. Quando ele aparecia, danava melhor que nunca, mas nem uma
s vez eu o vi olhar na minha direo. Desconfiava, porm, que ele me olhava
muito quando sabia que eu no poderia v-lo. Eu danava melhor, com mais
tcnica, disciplina e controle - e estudava. Oh! quanto eu estudava!
Desde o princpio, eu fora colocada no grupo profissional da Companhia de
Baile Rosencoff, mas apenas como membro do corps de ballet. Naquele Natal,
deveramos alternar a apresentao do Quebra-nozes e de Cinderela.
Numa tarde de sexta-feira, muito depois que todos os outros se retiraram,
fiquei sozinha no salo de dana e me perdi no mundo encantado da Fada
Madrinha, tentando dar ao papel uma interpretao algo diferente e nova. De
repente, Julian estava danando comigo. Era como minha sombra, fazendo tudo
que eu fazia, at mesmo as piruetas, zombando de meu desempenho.
Ento, franziu a testa e pegou uma toalha para enxugar o rosto e os cabelos.
Tirei as sapatilhas, mexi os artelhos e me encaminhei ao camarim. Ia sair
para jantar com Paul naquela noite.
- Cathy, espere! - chamou Julian. - Sei que no gosta de mim...
-  verdade.
Julian sorriu maliciosamente. Roou os lbios no meu rosto quando tentei me
afastar dele; ento, prendeu-me com os braos, espalmando as mos na parede
a fim de evitar que eu fugisse.
- Sabe de uma coisa? Acho que voc deveria danar o papel de Clara ou de
Cinderela - declarou, fazendo-me ccegas no queixo e, depois, beijando-me a
orelha. - Se for boazinha para mim, poderei providenciar para que lhe dem
os dois papis.
Esquivei-me e corri.
- Deixe disso, Julian! - esbravejei. - Exige pagamento em troca de seus
favores... e no me interesso por voc!
Dez minutos mais tarde, aps tomar banho e vestir-me, eu estava pronta para
sair do prdio quando Julian surgiu em trajes de passeio.
- Falando srio, Cathy, acho que voc deveria ser escolhida para danar
Clara ou Cinderela. Julgo que j est preparada para ir a Nova York. Marisha
tambm acha - acrescentou com um sorriso irnico, como se a opinio de sua
me no valesse tanto
#122
quanto a sua. - Sem imposies de minha parte. A menos,  claro, que voc um
dia venha a desej-las.
Agora, fiquei sem saber o que dizer e, portanto, permaneci calada. Fui
escolhida para danar ambos os papis naquelas apresentaes de final de
ano. Imaginei que as outras moas ficassem invejosas e ressentidas, mas
aplaudiram quando a escolha foi anunciada. Trabalhvamos bem, todas juntas,
e tivemos um perodo alegre, quase frentico. Ento, chegou minha estria
como Cinderela!
Julian nem mesmo bateu antes de entrar no camarim das moas para apreciar
minha fantasia de trapos rasgados.
- Pare de ficar to nervosa. O pblico  composto de pessoas como ns. Voc
no acha que eu me daria ao trabalho de vir at aqui para danar com uma
garota que no fosse sensacional, no  mesmo?
Nos bastidores, Julian pousou o brao em meus ombros, transmitindo-me
confiana, enquanto aguardvamos minha deixa para entrar no palco. Ele s
entraria muito depois. No consegui avistar Paul, Chris, Carrie ou Henny na
platia escura. Tremi ainda mais quando as gambiarras diminuram de
intensidade e a orquestra tocou a abertura. Ento, a cortina se abriu. Minha
crescente ansiedade desapareceu de um momento para outro, levando consigo
toda a
minha insegurana, quando uma espantosa lembrana cinesttica assumiu o
comando e permiti que a msica me controlasse e guiasse. Eu no era Cathy ou
Catherine - no era ningum seno Cinderela! Varri as cinzas da lareira e
observei invejosamente minhas duas detestveis meias-irms se prepararem
para o baile, convencida de que o amor e o romance jamais surgiriam em minha
vida.
Se cometi erros, se minha tcnica no foi perfeita, eu no sei dizer. Estava
apaixonada pela dana, por apresentar-me perante um grande pblico, por ser
jovem e bela - e, acima de tudo, apaixonada pela vida e por tudo que esta
podia oferecer fora de Foxworth Hall.
Rosas vermelhas, amarelas e brancas vieram-me encher os braos. Fiquei
eletrizada quando o pblico se ergueu para aplaudir-nos de p, numa grande
ovao. Trs vezes eu entreguei a Julian uma rosa de cor diferente; a cada
vez, nossos olhares se encontraram e cruzaram-se prolongadamente. Veja,
diziam-me mudamente os olhos dele, juntos criamos magia! Somos um par
perfeito!
Julian tornou a encurralar-me na recepo aps o espetculo.
- Agora, j provou o sabor do palco - disse em tom suave e persuasivo,
implorando-me com os olhos negros. - Conseguir desistir dos aplausos?
Conseguir permanecer aqui, numa cidadezinha caipira, quando Nova York est
 sua espera? Cathy, se formarmos um par seremos sensacionais! Fomos feitos
sob medida um para o outro. Dano melhor com voc que com qualquer outra
bailarina. Oh! Cathy! juntos poderamos chegar ao topo muito mis depressa.
Juro cuidar bem de voc. Cuidarei de voc e jamais permitirei
que se sinta solitria.
- No sei - repliquei miseravelmente, embora estivesse acesa por dentro. -
Primeiro, tenho que terminar o ginsio. Voc acha realmente que sou
suficientemente boa?
#123
Em Nova York, o pblico exige o mximo.
- Voc  o mximo! Confie em mim, acredite em mim. A companhia de bal de
Madame Zolta no  a maior ou melhor, mas tem o necessrio para ombrear-se
com as maiores e mais antigas - desde que consiga um par de bailarinos
fantsticos como ns!
Indaguei-lhe como era a tal Madame Zolta. De algum modo, a pergunta levou
Julian a acreditar que eu j aceitara a sua proposta e, depois de rir , ele
conseguiu beijar-me os lbios.
- Voc vai adorar Madame Zolta!  russa; a velhinha mais suave, bondosa e
delicada que voc j conheceu. Ser como sua me.
(Deus me livre!)
- Ela conhece tudo a respeito de dana.  nossa mdica e, s vezes, nossa
psicloga; na verdade, ela  tudo de que precisamos. Comparada com isto
aqui, a vida em Nova York  como a de Marte - um outro mundo, muito
melhor. Voc logo se apaixonar pela cidade. Vou lev-la a restaurantes
famosos, onde voc comer pratos que nunca provou antes. Vou apresent-la a
astros e estrelas do cinema, celebridades da TV, atores e atrizes,
escritores.
Tentei resistir  tentao, pregando os olhos em Chris, Carrie e Paul, mas
Julian manobrou de modo a bloquear-me o campo de viso. A nica pessoa que
eu conseguia ver era ele.
-  o tipo de vida para o qual voc nasceu, Cathy - prosseguiu parecendo
ansioso e sincero desta vez. - Por que estudou tanto e se submeteu a tantos
sacrifcios seno para alcanar o sucesso? Poder alcanar a fama que deseja
se permanecer aqui?
No; eu no poderia.
Contudo, Paul estava aqui. Chris e Carrie estavam aqui. Como poderia eu
abandon-los?
- Cathy, venha comigo para o mundo a que voc pertence, s luzes da ribalta,
no palco, recebendo rosas. Venha comigo, Cathy, e realize tambm o meu
sonho.
Oh! Julian estava vencendo naquela noite. Embriagada com o sucesso da
estria, mesmo querendo dizer no, meneei afirmativamente a cabea e
respondi:
- Sim... irei, mas s se voc vier buscar-me. Nunca andei de avio e, alm
disso, no saberia para onde ir quando pousasse em Nova York.
Julian tomou-me nos braos, abraando-me com ternura e beijando-me os
cabelos. Por cima de seu ombro, avistei Chris e Paul olhando em nossa
direo, ambos parecendo espantados e bastante magoados.
Terminei o ginsio em janeiro de 1963. No fui uma aluna particularmente
brilhante, como Chris, mas consegui terminar o curso.
Chris era to inteligente que provavelmente terminaria a fase preparatria
em trs anos, em vez de quatro. J  conseguira vrias bolsas de estudo para
aliviar Paul de parte dos encargos financeiros de sua educao, muito embora
Paul jamais dissesse uma s palavra quanto a reembolsarmos suas despesas -
de qualquer tipo. Estava entendido, porm, que Chris se associaria a Paul
depois de formar-se.
#124
Maravilhava-me o fato de Paul continuar a gastar dinheiro conosco sem fazer
o menor comentrio. Quando abordei o assunto, ele explicou:
- Gosto de saber que estou contribuindo para dar ao mundo um grande mdico,
que Chris certamente ser, e a superbailarina em que voc se transformar um
dia. Quanto a Carrie, espero que resolva ficar em casa comigo e casar-se com
um rapaz da regio, a fim de que eu possa v-la com freqncia.
Parecia muito triste ao dizer isso - terrivelmente triste.
- Quando eu me for, voc voltar para Thelma Murkel, no ? - perguntei com
alguma amargura, pois queria que ele se mantivesse fiel a mim, no
importando
quantos quilmetros nos separassem fisicamente.
- Talvez - disse ele.
- Voc nunca amar outra pessoa quanto me ama. Diga que no amar.
Paul sorriu.
- Claro. Como poderia eu amar algum tanto quanto a amo? Nenhuma outra
poderia entrar danando no meu corao, como voc entrou, no ?
- No zombe de mim, Paul. Basta voc dizer uma s palavra e eu no irei
embora. Ficarei com voc.
- Como posso dizer-lhe que fique quando voc tem um destino a cumprir?
Nasceu para danar, no para ser esposa de um inspido mdico do interior.
Casamento! Ele dissera "esposa"! Nunca antes mencionara casamento.
Foi mais que horrvel comunicar a Carrie minha partida. Seus berros foram
ensurdecedores e de cortar o corao.
- Voc no pode ir! - gritou, com as lgrimas rolando pelo rosto. - Prometeu
que todos ns ficaramos sempre juntos! Agora, voc e Chris vo embora e me
abandonam! Leve-me tambm! Leve-me!
Esmurrou-me com os punhos minsculos, deu-me caneladas, decidida a causar-me
dor pelo sofrimento que Chris e eu lhe infligamos - como se eu j no
estivesse sofrendo muito por ter que deix-la.
- Entenda, por favor, Carrie: eu voltarei. E Chris tambm voltar. Voc
no ser esquecida.
- Eu a odeio! - berrou ela. - Detesto voc e Chris, tambm! Espero que voc
morra em Nova York! Espero que ambos caiam mortos!
Foi Paul Quem veio salvar-me.
- Voc ainda ter a mim todos os dias. E Henny - disse ele, erguendo o
corpinho leve de Carrie no colo. - No iremos a parte nenhuma. E voc ser a
nica filha que nos restar quando Cathy se for. Vamos, enxugue as lgrimas,
sorria e sinta-se feliz por sua irm. Lembre-se de que isso foi o que ela
tanto desejou durante todos aqueles anos em que vocs viveram trancados num
quarto.
Senti dor no corao ao tentar saber se realmente desejava tanto fazer
carreira como bailarina ou se fora apenas imaginao de minha parte. Chris
lanou-me um olhar prolongado e tristonho. Depois, abaixou-se para pegar
minhas novas malas azuis. Caminhou depressa para a porta da frente,
procurando evitar que eu percebesse as
#125
lgrimas em seus olhos. Quando samos todos
da casa, Chris estava postado junto ao carro branco de Paul, os ombros
empertigados, o rosto rgido, decidido a no revelar qualquer emoo.
Henny fez questo de embarcar no carro conosco, pois no queria ser deixada
em casa para chorar sozinha. Seus eloqentes olhos Castanhos me falavam,
desejando-me boa sorte, enquanto suas mos se ocupavam com enxugar as
lgrimas do rosto de Carrie.
No aeroporto, Julian andava de um lado para outro, consultando
freqentemente o relgio. Temia que eu desistisse e no aparecesse para o
embarque. Parecia muito bonito em seu terno novo e seus olhos brilharam ao
avistar-me.
- Graas a Deus! J estava pensando que vim aqui -toa. E no faria isso
duas vezes.
Na noite anterior, eu me despedira de Paul em particular. Suas palavras
ainda me ecoavam aos ouvidos, perseguindo-me mesmo quando subi a escada do
avio.
- Sabamos ambos que no duraria muito, Catherine. Preveni-a desde o incio:
a primavera no pode casar com o outono.
Chris e Paul acompanharam-nos at a rampa, ajudando a carregar as muitas
peas de bagagem de mo que eu no quis confiar ao bagageiro do avio. Mais
uma vez, tive que abraar Paul com fora.
- Obrigado, Catherine - sussurrou ele, de modo que Chris e Julian no
pudessem escutar. - Obrigado por tudo. No olhe para trs com
arrependimento. Esquea-me. Esquea todo o passado. Concentre-se na dana e
espere at apaixonar-se por algum - e deixe que seja uma pessoa de sua
idade.
Engasgada, repliquei:
- E voc?
Ele forou um sorriso e, em seguida, uma risadinha.
- No se preocupe comigo. Tenho recordaes de uma linda bailarina e elas me
bastam.
Rompi em prantos! Lembranas! O que eram elas? Apenas algo com que nos
torturarmos - nada mais! Virei-me cegamente e vi-me envolvida pelos braos
de Chris. O meu Christopher Doll, que agora tinha um metro e oitenta de
estatura, o meu cavaleiro to galante, cavalheiresco e sensvel. Afinal,
consegui apartar-me e ele me tomou ambas as mos; fitamo-nos nos olhos. Ns
tambm compartilhamos de muita coisa; mais ainda que Paul e eu. Adeus, minha
enciclopdia ambulante, alegre e tambm severo, meu companheiro de priso e
de esperanas... No precisa chorar por mim. Chore por voc mesmo... ou
simplesmente no chore. Terminou. Aceite, Chris, como eu aceitei,
como  preciso aceitar. Voc  apenas meu irmo. Sou apenas sua irm e o
mundo est cheio de mulheres belas que o amariam mais do que eu posso, ou
poderia am-lo.
Eu sabia que ele escutava cada palavra que eu no dizia em voz alta;
continuou a fitar-me com o corao nos olhos, fazendo-me doer da cabea aos
ps.
#126
- Cathy - disse Chris em voz rouca, bastante alto para que Julian escutasse.
- No  que eu tema que voc no consiga vencer; tenho certeza de que
conseguir se no for to malditamente impulsiva! Por favor, no cometa
imprudncias de que venha a arrepender-se mais tarde. Prometa pensar antes
em todas as conseqncias, sem pular de olhos fechados numa situao
qualquer. V com calma em questes de amor e sexo. Espere at ter idade
suficiente para saber o que deseja de um homem antes de escolher um.
Tenho certeza de que meu sorriso foi amarelo e forado, pois eu j escolhera
Paul. Lancei um rpido olhar, de Paul, que parecia muito srio, a Julian,
que tinha a testa franzida e olhava para Chris com ar zangado. Depois, olhei
mais uma vez para Paul.
- Voc tambm tenha cautela em questes de sexo - repliquei para Chris em
tom brincalho, certificando-me de que todos perceberam tratar-se de um
comentrio despreocupado. Abracei-o mais uma vez. Doa-me ter que deix-lo.
- Escreva-me sempre. E venha a Nova York com Paul, Carrie e Henny sempre que
puder. Ou venha sozinho. Mas venha... promete?
Chris prometeu solenemente. Nossos lbios se tocaram rapidamente e, em
seguida, embarquei para tomar meu lugar junto  janela. Desde que era a
minha primeira viagem de avio, Julian cedera-me cortesmente o privilgio de
sentar-me  janela. Acenei como louca para minha famlia, que eu nem mesmo
enxergava pela janela do avio.
Julian, to controlado e elegante no palco, ficou sem saber o que fazer
quando precisou lidar com uma garota que lhe chorava no ombro, trmula, j
sentindo saudades de casa, desejando no partir antes mesmo que o avio
subisse quinhentos metros do solo.
- Voc me tem - disse em tom suave. - No prometi que cuidaria de voc? E o
farei, juro por Deus. Farei todo o possvel para torn-la feliz.
Sorriu para mim, beijando-me de leve.
- E, meu amor, creio que exagerei um pouco ao lhe falar sobre os encantos de
Madame Zolta, como voc logo ter ocasio de verificar.
Esbugalhei os olhos.
- Que quer dizer com isso?
Julian pigarreou e, sem o menor sinal de embarao, relatou-me seu primeiro
encontro com a outrora famosa bailarina russa.
- No desejo estragar a surpresa que lhe est reservada para quando conhecer
a grande beleza russa; portanto, deixarei o assunto de lado, a fim de que
voc verifique por si mesma. Todavia, previno-a de que Madame Zolta  uma
apalpadora. Uma bolinadora. Gosta de tocar as pessoas, apalpando os
msculos para ver como so duros e firmes. Acredita que colocou a mo
diretamente sobre a abertura de minhas calas, a fim de descobrir o tamanho
do que havia em baixo da roupa?
- No! No acredito!
Ele riu alegremente e passou o brao pelos meus ombros.
- Oh! Catherine!, que vida levaremos, voc e eu! Que paraso teremos nas
mos quando voc descobrir que tem direitos exclusivos de propriedade neste
mundo! - exclamou, puxando-me para mais perto de si e sussurrando-me ao
ouvido: - E eu ainda no lhe disse uma palavra a respeito de meus talentos
de amante...
Eu tambm ri - e o empurrei para longe de mim.
- Certamente  a pessoa mais arrogante e convencida que j conheci. E
desconfio de que tambm seja bastante impiedoso quando se trata de conseguir
o que quer.
- Acertou na mosca! - disse ele, rindo. -  ou isso tudo e mais ainda, como
voc logo descobrir. Afinal, no me mostrei implacavelmente decidido em
trazer voc para onde a quero?

Nova York, Nova York

Nevava muito quando nosso avio pousou em Nova York. O frio em minhas
narinas atordoou-me. Eu j me esquecera de invernos rigorosos como aquele. O
vento uivava ao longo das estreitas ravinas formadas pelos edifcios,
parecendo querer arrancar-me a pele do rosto. O gelo dava a impresso
de penetrar-me os pulmes, murchando-os com um aperto doloroso.
Engasguei-me, ri, olhei para Julian que pagava o motorista do txi e tirei
do bolso do casaco o cachecol de tric vermelho que Henny fizera para mim.
Julian
pegou-o e ajudou-me a enrol-lo na cabea e pescoo, de modo a abrigar parte
do rosto. Ento, surpreendi-o ao tirar do outro bolso um cachecol vermelho
que eu tricotara para ele.
- Ora, muito obrigado. Nunca imaginei que se incomodasse.
Pareceu-me muito satisfeito ao proteger as orelhas e o pescoo.
Naquele dia, o frio tornava-lhe o rosto to corado quanto os lbios; com o
cabelo negro-azulado que se encrespava logo acima do colarinho e os
brilhantes olhos negros, sua beleza fsica era o bastante para tirar o
flego de qualquer mulher.
- Muito bem - disse ele. - Componha-se e prepare-se para conhecer a
personificao do bal: minha doce, delicada, deliciosa professora de dana,
que voc positivamente adorar.
O simples fato de estar ali deixava-me nervosa, de modo que me mantive o
mais perto possvel de Julian, olhando espantada para todas as pessoas que
se atreviam a enfrentar um inverno to feroz.
A bagagem que trouxramos foi deixada numa sala de espera do enorme prdio e
a preocupao de nao me afastar de Julian nao me deu tempo para reparar em
coisa alguma at estarmos no gabinete de nossa professora de bal, Madame
Zolta Korovenskov. Sua postura e arrogncia lembraram-me imediatamente
Madame Marisha. Entretanto, esta mulher era muito mais velha - se
#128
todas aquelas rugas pudessem ser contadas como anis de um tronco de rvore
para computar-lhe a idade.
Com uma rigidez majestosa, levantou-se de trs de uma mesa de trabalho
impressionante pela largura. Friamente, com ar inteiramente profissional,
veio at ns e estudou-nos com olhos negros e pequenos como os de um rato.
O pouco cabelo que tinha estava puxado para trs rente ao couro cabeludo;
era branco e deixava totalmente  mostra o rosto seco e enrugado. Embora sua
estatura no ultrapassasse um metro e meio, ela irradiava um metro e oitenta
de autoridade. Os culos com lentes em meia-lua equilibravam-se
precariamente na extremidade de um nariz fino e espantosamente comprido.
Espiou-nos por cima das meias lentes, com as plpebras apertadas, de modo
que os olhos minsculos quase desapareciam entre os ps-de-galinha. Julian
teve a pouca sorte de merecer sua ateno inicial.
Os lbios da velha, murchos como uma passa de uva, franziram-se como uma
sacola com o cordo puxado. Observei e aguardei que um sorriso surgisse para
quebrar aquela pele semelhante a um pergaminho antigo. Imaginei que sua voz
seria spera e rouca como a de uma feiticeira.
- Ento! - disse ela a Julian com ar de quem cuspia. - Voc some quando bem
entende, volta quando quer e espera que eu lhe diga que tenho prazer em
rev-lo! Bah! Faa isso mais uma vez e pode sumir daqui! Quem 
essa pequena?
Julian exibiu um sorriso encantador  velha megera e abraou-a depressa.
- Madame Zolta Korovenskov, permita-me apresentar-lhe a Srta. Catherine
Doll, a maravilhosa bailarina de quem tanto lhe tenho falado h muitos meses
- e ela  o motivo pelo qual me ausentei sem a sua permisso.
Os olhos de verruma de velha me observaram com grande interesse.
- Tambm veio do nada? - indagou em tom spero. - Aparenta vir de outra
regio, como este demnio de cabelos pretos. Ele  muito bom bailarino, mas
no tanto quanto se julga. Posso acreditar no que diz a seu respeito?
- Creio, Madame, que precisar ver-me danar e julgar por si mesma.
- Sabe danar?
- Como disse antes, Madame, espere o julge por si mesma.
- Est vendo, Madame? - indagou Julian, entusiasmado. - Cathy tem esprito
fogoso! Devia v-la jogando as pernas ao fazer fouetts.  to rpida que a
gente nem v direito!
- Ha! - fungou a velha.
Em seguida, rodeou-me e observou meu rosto to detidamente que me senti
corar. Apalpou-me os braos, o peito, at mesmo os seios. Depois, colocou as
mos ossudas no meu pescoo e sentiu os tendes. Aquelas mos audaciosas
exploraram-me o corpo enquanto eu tinha vontade de gritar que no
era uma escrava exposta  venda no mercado da cidade. Fiquei aliviada por
ela no me tocar a virilha, como fizera a Julian. Permaneci imvel e
suportei a inspeo, sentindo-me o tempo todo quente e ruborizada. Ela
ergueu os olhos para examinar-me o rosto e exibiu um sorriso sarcstico.
#129
Quando terminou de examinar-me e avaliar-me fisicamente, fitou-me o fundo
dos olhos, a fim de absorver minha essncia. Senti que ela tentava beber-me
a juventude com os olhos, drenando-a de mim. Ento, tocou-me os
cabelos.
- Quando pretende casar-se? -indagou bruscamente.
- Talvez por volta dos trinta anos, talvez nunca - respondi, nervosa. - Mas
certamente esperarei at ficar rica e famosa, depois de tornar-me a maior
prima ballerina do mundo.
- Ah! Tem muitas iluses a seu prprio respeito. Geralmente, caras bonitas
no pertencem a grandes bailarinas. A beleza julga no precisar de talento a
alimenta-se de si prpria, de modo que morre cedo. Olhe para mim. Houve uma
poca em que fui jovem e muito bela. O que v agora?
Era hedionda! E jamais poderia ter sido bela, ou restaria algum vestgio.
Como se pressentisse minha dvida a respeito de sua afirmao, ela apontou
com arrogncia para todas as fotografias que havia nas paredes, em cima das
mesas e nas prateleiras das estantes. Todas mostravam a mesma jovem
bailarina.
- Eu - anunciou com evidente orgulho.
No pude acreditar. Eram fotos antigas, amareladas, em tons pardos, as
roupas fora de moda e, no obstante, a bailarina era bonita. A velha me
lanou um largo sorriso divertido, deu-me uma palmadinha no ombro e disse:
- Muito bem. A idade chega para todos e iguala as pessoas.
De repente, mudou de assunto:
- Com quem estudou antes de Marisha Rosencoff?
- Com a Srta. Denise Danielle.
Hesitei, temendo dizer-lhe a verdade sobre todos os anos em que eu danara
sozinha, sendo minha prpria professora.
- Ah! - suspirou ela, parecendo muito triste. - Vi Denise Danielle danar
muitas vezes: uma bailarina brilhante, mas cometeu o velho erro e se
apaixonou. Final de uma carreira promissora. Agora, ela s ensina.
Sua voz aumentava e diminua de volume, vibrando, ganhando fora e depois
perdendo-a. Tinha um sotaque estranho, dando s palavras um som tolo,
estrangeiro.
- O convencido Julian afirma que voc  uma grande bailarina, mas preciso
v-la danar antes de acreditar nele. S ento decidirei se a sua beleza  a
prpria desculpa para existir.
Suspirou outra vez e perguntou:
- Voc bebe?
- No.
- Por que tem a pele to plida? Nunca toma sol?
- Sol em demasia me queima.
- Ah!... voc e seu amante - tm medo do sol.
- Julian no  meu amante! - declarei com os dentes trincados, lanando a
Julian um olhar furioso, pois ele deveria ter dito  velha que ramos
amantes.
#130
Nem o menor elemento de nossas expresses faciais escapou  aguda percepo
daqueles olhinhos negros.
- Julian, voc me disse ou no que estava apaixonado por esta garota?
Julian corou, baixou os olhos e teve a decncia de parecer encabulado, para
variar.
- Madame, o amor  todo de minha  parte,envergonho-me de confessar. Cathy
nada sente por mim... mas sentir, mais cedo ou mais tarde.
- timo - disse a velha bruxa, meneando a cabea como um passarinho. - Voc
tem uma enorme paixo por ela e ela nada sente por voc - isso far com que
dancem maravilhosamente, de modo sensacional. Nossa receita de bilheteria
vai estourar. J posso at ver!

Naturalmente, foi esse o motivo pelo qual ela me aceitou, sabendo que Julian
tinha um desejo insatisfeito por mim e eu era dominada por um ardente anseio
de encontrar algum fora do palco. No palco, ele era tudo o que existia de
belo, romntico e sensual - o amante dos meus sonhos. Se pudssemos passar
todos os nossos dias e noites danando, teramos ateado fogo ao mundo. Na
realidade, porm, quando Julian era apenas ele mesmo, com sua lngua solta e
por vezes pornogrfica, eu fugia dele. Deitava-me todas as noites pensando
em Paul a andar sozinho pelos jardins e recusava-me a sonhar com Chris.
Em breve me abriguei num pequeno apartamento a doze quarteires da escola de
bal. Duas outras bailarinas compartilhavam comigo dos trs pequenos cmodos
e minsculo banheiro. Dois andares acima, Julian dividia com dois bailarinos
um apartamento do mesmo tamanho que o nosso. Os companheiros de Julian eram
Alexis Tarrel e Michael Michelle, ambos com vinte e poucos anos e to
decididos quanto Julian a se tornarem, cada um deles, o melhor bailarino de
sua gerao. Espantei-me ao descobrir que Madame Zolta considerava Alexis o
melhor dos trs, Michael o segundo e Julian o terceiro. E logo fiquei
sabendo do motivo pelo qual ela fazia restries a Julian: ele no lhe
respeitava a autoridade. Queria fazer tudo a seu prprio modo e por isso ela
o punia.
Minhas colegas de apartamento eram to diferentes quanto o dia da noite.
Yolanda Lange era meio inglesa, meio rabe; a estranha combinao de raas
fazia dela uma das belezas mais exticas que eu j vira, com cabelos escuros
e olhos de gazela. Era alta para uma bailarina: tinha um metro e setenta - a
mesma altura de minha me. Quando lhe vi os seios, percebi que eram
pequenas protuberncias rijas, com grandes bicos, mas ela no se
envergonhava do tamanho deles. Deliciava-se com andar despida pelo
apartamento, exibindo a nudez, e logo descobri que seus seios espelhavam-lhe
a personalidade - pequena, dura, mesquinha. Yolanda queria o que queria
quando queria e era capaz de fazer tudo para consegui-lo. Fez-me mil e uma
perguntas em menos de uma hora e nesse mesmo espao de tempo contou-me a
histria de sua vida. Seu pai era um diplomata ingls que se casara com uma
bailarina especializada na dana do ventre. Vivera em toda parte e fIZera de
tudo. Antipatizei imediatamente com Yolanda tange.
#131
April Summers era de Kansas City , no Missouri. Tinha macios cabelos
castanhos e olhos azuis esverdeados; tnhamos ambas a mesma altura - um
metro e sessenta e um centmetros e meio, era tmida e raramente erguia a
voz acima de um sussurro. Quando a loquaz e barulhenta Yolanda estava por
perto, April parecia no ter voz alguma. Yolanda gostava de barulho: o
toca-discos ou a televiso tinham que permanecer ligados o tempo todo. April
falava da famlia com amor, respeito e orgulho, ao passo que Yolanda
professava dio aos pais, que a colocavam em internatos e deixavam-na
sozinha nos feriados.
April e eu nos tornamos amigas ntimas antes do final de nosso primeiro dia
juntas. Tinha dezoito anos e era bastante bonita para contentar qualquer
homem, mas, por algum estranho motivo, os rapazes da academia de bal no
lhe davam uma migalha de ateno. Era Yolanda quem os tornava ardorosos e
ofegantes. Logo fiquei conhecendo a razo: Yolanda ia para a cama com eles.
Quanto a mim, os rapazes me viam, pediam para marcar encontros, mas Julian
deixou bem claro que eu no estava disponvel: pertencia a ele. Embora eu
negasse o fato com a maior persistncia, Julian falava com os rapazes em
carter particular, explicando-lhes que eu era antiquada e me envergonhava
de admitir que "vivamos em pecado". Costumava dizer na minha presena:
-  aquela antiga tradio das boas moas do Sul. As garotas sulinas gostam
de que os rapazes as considerem meigas, tmidas e recatadas, mas por baixo
dessa aparncia externa de frias magnlias, so taradas sexuais  todas
elas!
Claro que os rapazes acreditavam nele e no em mim. Por que haviam de
acreditar na verdade, quando a mentira era muito mais excitante?
Mesmo assim, eu estava bastante satisfeita. Adaptei-me em Nova York como se
l tivesse nascido e crescido, andando sempre s pressas como qualquer
nova-iorquino -  preciso chegar l depressa, sem desperdiar um minuto,
pois h muito que provar antes que outra pequena com um rosto bonito e mais
talento aparea para assumir o lugar. Todavia, enquanto eu estava levando
vantagem no jogo, foi uma vida selvagem e embriagadora, exaustiva e
exigente. O quanto eu me sentia agradecida a Paul pelo cheque semanal que me
enviava, pois o que ganhava na companhia de bal mal daria para pagar os
cosmticos.
Ns trs, moradoras no apartamento 416, precisvamos de pelo menos dez horas
de sono dirias. Levantvamo-nos de madrugada a fim de nos exercitarmos na
barra, em casa, antes do caf da manh. O desjejum, bem como o
almoo, tinham que ser bem leves. S durante a ltima refeio do dia, aps
um espetculo, podamos realmente satisfazer nossos apetites devoradores. Eu
tinha a impresso de estar sempre com fome, de nunca ter comido o
suficiente. Em uma nica apresentao do corps de ballet perdia de dois e
meio a trs quilos.
Julian fazia-me constante companhia, parecendo uma sombra a seguir-me cada
movimento, evitando que eu sasse com outros rapazes. Dependendo de minha
disposio de esprito ou estado de exausto, eu me irritava com tal
procedimento ou, em algumas
#132
ocasies, sentia-me grata por ter a companhia de algum que no me fosse
totalmente desconhecido.
Certo dia, em junho, Madame Zolta declarou:
- Seu nome  ridculo! Mude-o! Catherine Doll - isso  nome para uma
bailarina? Um nome inspido, sem graa - no se aplica a voc!
- Ora, espere um minuto, Madame! - protestei raivosa, abandonando minha
posio de bal. - Escolhi esse nome quando tinha sete anos e meu pai gostou
dele. Papai julgava que o nome se aplicava muito bem a mim de modo que
pretendo continuar a us-lo, seja ele inspido ou no!
Tive mpetos de lhe dizer que Madame Naverena Zolta Korovenskov tambm no
era o que eu considerava um nome lrico!
- No discuta comigo, moa: mude o nome! - disse ela, batendo com a bengala
de marfim no assoalho.
Entretanto, se eu mudasse de nome, como poderia minha me saber quando eu
chegasse ao topo da carreira? E ela precisava saber! No obstante, aquela
bruxa velha e mirrada, com suas roupas antiquadas, fitava-me com os
ferozes olhinhos negros e brandia a bengala de marfim, indicando que eu
seria obrigada a ceitar ou...! Julian observava-me com ar displicente,
sorrindo.
Concordei em mudar a grafia de meu sobrenome de Doll para Dahl.
- Assim fica melhor - disse a velha em tom azedo. - Um pouco melhor.
Madame Zolta vivia em cima de mim. Ralhava. Criticava. Reclamava quando eu
inovava e se queixava quando eu no o fazia. Declarou no gostar da maneira
como eu usava o cabelo e achou que eu tinha cabelo demais.
- Corte-o! - ordenou.
Contudo, recusei-me a cortar um s milmetro de cabelo, pois julgava que
mant-lo comprido dar-me-ia a aparncia ideal para o papel da Bela
Adormecida. Madame Zolta fungou quando eu disse isso. (Fungar era um de seus
meios prediletos de expresso). Se ela no fosse uma professora to
eficiente e
talentosa, todos ns a odiaramos. Sua prpria natureza azeda forava-nos a
dar o melhor de ns, pois desejvamos muito v-la sorrir. Madame tambm era
coregrafa, mas tnhamos um outro coregrafo que vinha supervisionar os
trabalhos quando no estava em Hollywood, na Europa ou isolado em algum
canto remoto a imaginar novos bals.
Uma tarde, depois da aula, quando ns todos aproveitvamos a folga para
fazermos brincadeiras tolas, levantei-me de um salto e comecei a danar uma
melodia popular. Madame apanhou-me em flagrante e explodiu:
- Aqui, danamos clssico! No quero danas modernas aqui dentro!
Seu rosto seco e enrugado assumiu a aparncia de uma cabea mumificada
quando ela acrescentou:
- Voc, Dahl, explique a diferena entre clssico e moderno.
Julian piscou para mim e recostou-se, apoiando-se nos cotovelos e cruzando
elegantemente os tornozelos, deleitado com o meu desconforto.
Procurei imitar a pose de minha me e comecei:
- Sucintamente, Madame, a forma moderna de bal consiste principalmente em
rastejar
#133
pelo cho e assumir determinadas posturas, enquanto o bailarino clssico
dana nas pontas dos ps, gira, faz piruetas e jamais se mostra demasiado
sedutor ou desajeitado. E a dana conta uma estria.
- Quanta razo voc tem - disse a velha num tom gelado. - Agora, volte para
sua cama, em casa, e l rasteje e assuma as posturas que quiser, caso sinta
necessidade de expressar-se de tal maneira. Nunca mais permita que eu a
pegue fazendo isso diante de meus olhos!
O moderno e o clssico podiam ser mesclados e tornados lindos. A
intransigncia da enrugada megera enraiveceu-me e eu gritei em resposta:
- Eu a detesto, Madame! Desprezo seus costumes cinzentos como ratos, que j
deveriam ter sido atirados no lixo h trinta anos! Detesto seu rosto, seu
andar, sua voz, seu sotaque! Trate de procurar outra bailarina. Vou voltar
para casa!
Corri para o camarim, deixando todos os outros alunos boquiabertos no salo.
Arranquei minhas malhas de ensaio e as roupas de baixo. Pela porta do
camarim entrou raivosamente a velha bruxa de cara sinistra, os olhos
malvados, os lbios comprimidos.
- Se for para casa, nunca mais volte aqui!
- No pretendo voltar!
- Voc vai murchar e morrer!
-  idiota por pensar assim! - repliquei sem ligar para sua idade ou
respeitar-lhe o talento. - Posso viver minha vida sem danar - e ser muito
feliz. Portanto, v para o inferno, Madame Zolta!
Como se o encanto se quebrasse, a velha megera sorriu suavemente para mim.
- Ah!... voc tem esprito! Eu j comeava a duvidar. Mande-me para o
inferno;  gostoso ouvir isso. De qualquer forma, o inferno  melhor que o
cu. Agora, Catherine, falemos srio - acrescentou num tom bondoso que eu
jamais a ouvira usar. - Voc  uma bailarina maravilhosamente talentosa
- a
melhor que possuo - mas  to impulsiva que abandona o clssico e mistura o
que lhe vem  cabea. Eu apenas tento ensin-la. Invente o quanto quiser,
mas
seja sempre clssica, elegante, bela.
Lgrimas lhe brilharam nos olhos.
- Voc  meu deleite, sabia? Acho que  a filha que nunca tive; faz-me
recuar at a poca em que era jovem e pensava que a vida no passava de uma
grande aventura romntica. Tenho tanto medo que a vida lhe roube seu olhar
de encanto, o seu espanto infantil. Agarre-se com unhas e dentes a essa
expresso e logo ter o mundo a seus ps.
Referia-se ao meu rosto do sto - aquela expresso de encantamento que
tanto enfeitiava Chris.
- Desculpe-me, Madame - disse eu com humildade. - Fui grosseira.
Errei em gritar, mas a senhora exige tanto de mim e eu estou cansada. E
tambm sinto saudades de casa.
#134
- Eu sei, eu sei - disse ela num tom carinhoso, aproximando-se para
abraar-me e embalar-me. - Ser jovem numa metrpole desconhecida  duro para
os nervos e para a confiana em si mesma. Mas lembre-se de uma coisa: eu
tinha necessidade de saber o que voc tem por dentro. Uma bailarina sem
esprito, sem fogo interior, no  bailarina.
Eu j morava em Nova York h sete meses, trabalhando, mesmo nos fins de
semana at cair na cama morta de cansao, quando Madame Zolta decidiu que eu
deveria ter uma oportunidade de danar um papel principal com Julian como
par. Madame tinha por norma alternar os bailarinos que danavam os papis
principais, de modo a no haver estrelas ou astros na companhia; embora ela
tivesse insinuado muitas vezes que me queria para danar o papel de Clara no
Quebra-Nozes, eu julgava que se tratava apenas de um engodo, que ela me
exibia diante do nariz uma bela fruta que eu jamais teria  oportunidade de
provar. Ento, tornou-se realidade. Nossa companhia de bal
competia com outras muito maiores e mais famosas; portanto, foi um absoluto
rasgo de gnio por parte de Madame Zolta convencer um produtor de televiso
de que as pessoas que no tinham recursos para comprar entradas de
bal poderiam ser alcanadas atravs da TV.
Fiz uma chamada interurbana para Paul a fim de contar-lhe a sensacional
novidade.
- Paul, vou aparecer na TV danando o Quebra-nozes. Serei Clara!
Ele riu, congratulando-me.
- Creio que isso significa que no vir para casa neste vero - comentou, um
pouco tristonho. - Carrie sente muita falta de voc, Cathy. S nos fez uma
rpida visita desde que partiu.
- Sinto muito. Quero ir, mas preciso aproveitar esta oportunidade de danar
como estrela da companhia, Paul. Faa o favor de explicar a Carrie, a fim de
que no se sinta magoada. Ela est em casa?
- No; afinal, arranjou uma amiga e foi "dormir fora". Mas telefone outra
vez amanh  noite, a cobrar, e conte-lhe pessoalmente a novidade.
- E Chris; como vai? - indaguei.
- timo, timo. S tira notas mximas e se conseguir manter-se assim ser
admitido num programa acelerado e poder terminar o quarto ano preparatrio
cursando simultaneamente o primeiro ano da faculdade de medicina.
- Ao mesmo tempo? - perguntei, maravilhada de que algum - mesmo que fosse
Chris - pudesse mostrar tanta inteligncia e progredir to depressa.
- Claro,  possvel.
- E voc, Paul? Est bem? Tem trabalhado muito, por tempo demasiado?
- Estou bem de sade e sim, tenho trabalhado tempo demais, como qualquer
mdico. E j que voc no pode vir para visitar-nos, creio que seria timo
para Carrie irmos visitar voc.
Oh! era a melhor idia de que eu tinha notcia havia muitos meses.
- Traga Chris - pedi. - Ele adorar conhecer todas as lindas bailarinas
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que lhe poderei apresentar. Quanto a voc, Paul, acho melhor no olhar para
ningum exceto para mim.
Ele produziu um rudo estranho na garganta antes de dar uma risadinha.
- No se preocupe, Catherine. No se passa um nico dia sem que eu veja seu
rosto diante de mim.
A produo para televiso do Quebra-nozes foi gravada em tape no incio de
agosto, para exibio na poca do Natal. Julian e eu sentamo-nos muito
juntos para assistirmos as gravaes antes da montagem final do programa.
Quando terminou, Julian tomou-me nos braos e, pela primeira vez, disse-me
com o tipo de sinceridade em que eu conseguia acreditar:
- Eu a amo, Cathy, Por favor, pare de me levar to na brincadeira!
Mal descansramos do Quebra-nozes, Yolly levou um tombo e torceu o
tornozelo. April estava visitando os pais. Assim, tive a oportunidade de
danar tambm A Bela Adormecida! Uma vez que Julian danara dois papis
principais no especial de TV, tanto Alexis como Michael julgavam que seria
sua vez de danar comigo. Madame Zolta franziu a testa, olhou para Julian e
depois para mim.
- Alexis, Michael, prometo-lhes os prximos papis principais, mas permitam
que Julian dance este com Catherine. Os dois juntos possuem uma rara a magia
que enfeitia o pblico. Quero ver como se saem numa produo realmente
luxuosa como A Bela Adormecida.
Oh! os pensamentos que tive deitada imvel no sof de veludo vermelho, 
espera de que meu amante chegasse para depositar em meus lbios o beijo que
me despertaria, fazendo-me reviver. A msica linda e gloriosa fazia-me
sentir mais real naquele sof do que quando era eu mesma, sem sangue
azul. Senti-me encantada, envolta numa aura de beleza, plcida e
graciosamente deitada com os braos cruzados sobre o peito, o corao
pulsando ao ritmo da msica. Na platia escura, Paul, Chris, Carrie e Henny
assistiam pela primeira vez a um espetculo de bal em Nova York. Com
efeito, eu sentia na medula dos ossos ser a mstica princesa medieval.
Avistei-o sonhadoramente por entre plpebras quase cerradas: o meu prncipe.
Danou ao redor de mim e, ento, pousou um joelho no cho para fitar-me o
rosto com imensa ternura antes de se atrever a depositar um beijo hesitante
em meus lbios cerrados. Acordei, tmida, desorientada, piscando, to
virginalmente virtuosa que ele foi obrigado a cortejar-me danando a minha
frente, convidando-me a danar tambm. E, no mais apaixonado pas de a deux,
sucumbi-lhe aos encantos; conquistador vitorioso, ele me ergueu bem alto e,
sobre a mo espalmada que to bem conhecia o ponto exato para equilibrar
perfeitamente o meu peso, fui carregada para fora do palco.
O ltimo ato chegou ao fim: os aplausos trovejaram e ecoaram pelo teatro,
enquanto a cortina subia e descia repetidamente. Julian e eu tivemos que
receber sozinhos os aplausos, enquanto o pblico exigia que a cortina
tornasse a abrir-se oito vezes! Montes de rosas vermelhas eram colocadas em
meus braos e mais flores eram jogadas no palco. Baixei os olhos e vi uma
flor que se
destacava entre as outras: um nico boto-de-ouro, preso a uma tira de papel
dobrada.
#136
Abaixei-me para peg-lo e adivinhei que era de Chris antes mesmo de ter
oportunidade de ler o bilhete. Ns ramos os quatro botes-de-ouro" de Papai
- e ali estava a flor, guardada numa geladeira para no perder o frescor at
ser jogada para mim num tributo ao que tnhamos sido.
Olhei cegamente para os rostos indistintos do pblico,  procura das pessoas
que eu amava; mas s consegui ver o sto escuro e assustadoramente imenso
com suas flores de papel - e no canto, perto da escada, Chris se postara nas
sombras, entre o sof e o grande ba, o veemente desejo estampado no rosto
enquanto me observava danar interminavelmente.
Chorei e o pblico adorou! Aplaudiram-me de p. Virei-me para entregar uma
rosa vermelha a Julian e, mais uma vez, a ovao estrondosa ecoou pelo
teatro. Ento, Julian beijou-me! Ousou beijar-me diante de milhares de
pessoas - e no foi um beijo respeitoso, mas possessivo!
- Maldito seja por isso! - sibilei furiosa, sentindo-me humilhada.
- Maldita seja voc por no me querer! - sibilou ele em resposta.
- No sou sua!
- Mas ser!

Minha famlia veio aos bastidores para afogar-me em elogios. Chris ficara
ainda mais alto, mas Carrie continuava praticamente a mesma - talvez um
pouquinho mais alta, mas no muito. Beijei o rosto redondo e firme de Henny.
S ento pude dar ateno a Paul. Nossos olhares se encontraram
prolongadamente. Ainda me amava, desejava, precisava de mim? Paul no
respondera minha ltima carta. Magoando-me com facilidade, eu escrevera
apenas a Carrie, para falar dos prximos espetculos e s ento Paul
telefonara informando que traria minha famlia a Nova York.
Aps o espetculo, houve a recepo que nos ofereciam os ricos
patrocinadores cultivados por Madame Zolta.
- Usem as roupas de bal - instrura Madame. - Os aficcionados ficaro
eletrizados ao verem os bailarinos de perto, com as roupas que usaram no
palco. No se esqueam de retirar a maquilagem de palco e usar o que
costumam aplicar todos os dias para ficarem sensacionais. No deixem o
pblico perceber por um s instante que vocs no so belos e encantadores!
Havia msica e Chris me tomou nos braos para uma valsa, a dana que eu lhe
ensinara havia tantos anos.
- Voc continua a danar assim? - reprovei.
Ele exibiu um sorriso modesto.
- Nada posso fazer se voc ficou com todo o talento para danar e eu fiquei
com toda a inteligncia da famlia.
- Comentrios desse tipo talvez me levem a pensar que voc no tem crebro.
Ele tornou a rir e puxou-me para mais perto de si.
- Alm disso, no preciso danar e fazer pose para conquistar as garotas.
Veja s a sua amiguinha Yolanda.  bem bonita e no tirou os olhos de mim a
noite inteira.
#137
- Ela olha para todos os rapazes bonitos. Portanto, no se sinta to
lisonjeado. Se voc quiser, Yolanda lhe far companhia na cama esta noite. E
amanh dormir com outro.
- Voc tambm  como ela? - retrucou ele, apertando as plpebras.
Sorri maliciosamente para Chris, pensando com meus botes que eu no era
igual a Yolanda, mas igual a Mame: suave, fria, sabendo lidar com os homens
- pelo menos, eu estava aprendendo. A fim de provar isto, pisquei para Paul,
desejando verificar se ele viria interromper nossa valsa. Paul ergueu-se de
imediato, atravessando graciosamente a pista de danas para tirar-me dos
braos de Chris. Os lbios de meu irmo se apertaram e ele foi direto de mim
para Yolanda. Em poucos minutos, sumiram do salo.
- Depois de danar com Julian, voc deve achar que tenho ps de chumbo -
disse Paul, que danava melhor que Chris.
Mesmo quando a msica mudou para um ritmo mais rpido, com uma marcao
afro-cubana, Paul acompanhou-a com facilidade, surpreendendo-me ao
mostrar-se capaz de abandonar sua dignidade e sacudir-se com o mesmo
abandono de um rapaz de ginsio.
- Voc  maravilhoso, Paul!
Ele riu, respondendo que eu o fazia sentir-se jovem outra vez. Era to
divertido v-lo assim, relaxado, que exagerei um pouco em minha dana.
Carrie e Henny pareciam cansadas e deslocadas.
- Estou com sono - queixou-se Carrie, esfregando os olhos. - No podemos ir
dormir agora?
Era meia-noite quando deixamos Carrie e Henny no hotel. Depois, Paul e eu
sentamo-nos num tranqilo caf italiano e nos fitamos. Ele ainda usava
bigode - no aparado, de almofadinha, mas um espesso escovo acima dos
lbios sensuais. Ganhara alguns quilos, mas isso no lhe diminua a boa
aparncia e atrao pessoal. Estendeu as mos sobre a mesa para pegar as
minhas
e lev-las ao rosto at poder ro-las na pele. Enquanto o fazia, seus olhos
interrogavam-me com veemncia, levando-me a perguntar:
- Encontrou outra pessoa, Paul?
- E voc?
- Perguntei primeiro.
- No estou procurando ningum.
Foi uma resposta que me acelerou o corao, pois estvamos separados h
muito tempo e eu o amava muito. Ele pagou a conta, segurou meu casaco para
mim e, depois, eu segurei o dele. Nossos olhares se encontraram e samos
quase correndo do restaurante para o hotel mais prximo, onde ele nos
registrou como Sr. e Sra. Paul Sheffield. Num quarto pintado de vermelho
escuro, Paul despiu-me com sedutora lentido e fiquei pronta antes mesmo que
ele se
ajoelhasse para beijar-me o corpo todo. Ento, ele me abraou com fora,
acariciando-me, adorando-me, beijando-me, causando-me prazer, at que
voltamos a unir-nos num s corpo e alma.
Quando nos exaurimos, Paul traou com o dedo o contorno de meus lbios,
olhando-me com grande ternura.
#138
- Catherine, agi com seriedade quando escrevi aquilo no registro do hotel -
declarou, beijando-me suavemente.
Esbugalhei os olhos, incrdula.
- No zombe de mim, Paul.
- No estou zombando, Catherine. Quase morri de saudades desde que voc
partiu. Compreendi que fui um tolo ao negar a ns dois a oportunidade        de
encontrarmos a felicidade. A vida  curta demais para admitir tantas
dvidas. Agora, voc est encontrando o sucesso em Nova York; desejo
compartilhar tudo com voc. No quero agir s escondidas de Chris, no quero
ser
obrigado a preocupar-me com as mexeriqueiras do interior. Quero estar
com        voc, desejo-a para sempre, quero que seja minha esposa.
- Oh! Paul! - exclamei, abraando-lhe o pescoo. - Eu o amarei para sempre -
juro!
Meus olhos se encheram de lgrimas com o alvio de ele, afinal, ter-me pedido
em casamento.
- Serei para voc a melhor esposa que um homem j teve!
Falava com sinceridade.
No dormimos naquela noite. Permanecemos acordados, planejando como
viveramos depois de casados. Eu permaneceria na companhia de bal e
daramos um jeito de conciliar tudo. A nica sombra que toldava nossa
alegria era Chris. Como contaramos a ele? Resolvemos esperar at o Natal, quando
eu iria a Clairmont. At ento, eu manteria minha felicidade em segredo,
ocultando-a do mundo, de modo que ningum desconfiasse de que eu iria
tornar-me em breve a Sra. Paul Scott Sheffield.

Uma Oportunidade para Lutar

Aquele foi o outono de minha felicidade, de meu estrondoso sucesso, de meu
amor por Paul. Eu julgava ter o destino inteiramente sob controle;
desafiava-o a deter-me, pois estava livre e seguindo firme o meu rumo. Agora,
quase no topo. Nada mais tinha a temer - absolutamente nada. Mal podia
esperar para berrar aos quatro ventos a notcia de meu noivado com Paul.
Entretanto, protegia furtivamente meu segredo. Nada revelei a ningum, nem
mesmo a Julian ou a Madame Zolta, pois havia muito em jogo e eu precisava
aguardar a hora exata, certificando-me de que tudo continuaria a correr como
eu desejava. No momento, eu ainda precisava de Julian para meu par, tanto
quanto ele precisava de mim. Por outro lado, precisava contar com a total
confiana de Madame Zolta. Se descobrisse que eu tencionava casar-me - algo
que ela certamente no aprovava - Madame talvez no me desse todos os papis
principais, talvez considerando-me um caso perdido com o qual no valia a pena gastar seu
tempo. Alm
#139
disso, eu ainda precisava ficar famosa -
precisava mostrar a Mame o quanto eu era melhor que ela.
Agora, que Julian e eu j amos ficando conhecidos da crtica e do pblico,
Madame Zolta passou a pagar-nos melhores salrios. Um sbado de manh,
Julian correu para agarrar-me, terrivelmente excitado, girando-me at meus
ps descreverem um crculo no ar.
- Adivinhe uma coisa, Cathy! A velha bruxa me disse que eu poderia comprar
seu Cadillac a prestao! O carro s tem dois anos e meio de uso, Cathy! -
Julian assumiu um ar sonhador. - Naturalmente, sempre esperei que meu
primeiro Cadillac fosse zero quilmetro, mas quando uma deterrninada
professora de bal morre de medo de que um de seus bailarinos possa
ingressar noutra companhia de danas e levar consigo a melhor bailarina do
grupo, como pode negar-se a ceder seu prprio Cadillac?
- Chantagem! - exclamei.
Julian riu, tomou-me a mo e corremos para ver o carro estacionado em frente
ao prdio de apartamentos onde morvamos. Prendi a respirao: o carro
parecia to novo!
- Oh! Julian, adorei! Seria impossvel chantage-la se ela no quisesse
entregar a voc uma de suas mascotes prediletas. Ela sabe que voc mimar o
carro e nunca o vender.
- Oh! Cathy! - os olhos de Julian brilhavam com lgrimas que eu nunca vira
neles. - Ser que no entende por que eu a amo tanto? Somos iguais - por que
no consegue me amar s um pouquinho?
Num gesto orgulhoso, abriu a porta para conceder-me o raro privilgio de ser
a primeira garota a andar em seu Cadillac novo.
Dali em diante, tivemos um dia selvagem e louco. Atravessamos o Central Park
e percorremos todo o trajeto atravs do Harlem at a Ponte George
Washington, de onde voltamos. Chovia, mas no me importei. O interior do
carro era aquecido e acolhedor.
- Ento, Julian recomeou:
- Cathy... voc nunca vai me amar, vai?
Era uma pergunta que ele me fazia ao menos uma ou duas vezes por dia sob uma
ou outra forma. Tive vontade de contar-lhe a respeito de meu noivado com
Paul, a fim de terminar de uma vez por todas com aquelas perguntas. Mas
guardei fielmente meu segredo.
-  por ser virgem, no ? Prometo ser muito cuidadoso e delicado, Cathy...
d me uma oportunidade, por favor!
- Por Deus, Julian! S consegue ter isso na cabea?
- Sim! - rosnou ele. - Pode ter certeza de que sim! E j estou cansado desse
joguinho que voc vem fazendo comigo! - disse ele, entrando com o carro num
intenso fluxo de trfego. - Voc  uma tentadora -  flerta comigo enquanto
danamos e depois chuta-me o saco!
- Leve-me para casa, Julian! Este tipo de conversa me causa nojo!
Est bem! Pode apostar que vou lev-la para casa! - esbravejou, enquanto eu
me encolhia contra a porta direita, que Julian trancara.
#140
Lanando-me um olhar feroz e contrariado, pisou fundo no acelerador!
Percorremos velozmente as ruas estreitas e escorregadias de chuva e, a
freqentes intervalos, Julian olhava para mim a fim de dar-me a perceber o
prazer que lhe causava a aterradora viagem! Riu alto, violento, e freou to
depressa que fui atirada para diante, batendo com a testa no pra-brisas! Em
seguida, Julian arrancou-me a bolsa do colo, debruou-se para estrancar a
minha porta e empurrou-me para a chuva torrencial!
- V para o inferno, Catherine Dahl! - berrou enquanto permaneci imvel sob
a chuva, negando-me a implorar. Os bolsos do meu casaco estavam vazios. Eu
no tinha dinheiro. - Deu o seu primeiro e ltimo passeio em meu carro!
Espero que conhea o caminho de volta para casa!
Fez-me continncia, com um sorriso maldoso.
- V para casa como puder, santa puritana - se conseguir!
Partiu com o carro, deixando-me sob a chuva numa esquina do Brooklin, onde
eu nunca estivera antes. Eu no tinha um centavo. Nem mesmo poderia
telefonar, ou tomar o metr. A chuva caa com fora. Meu casaco leve estava
ensopado. Eu sabia estar num bairro perigoso, onde tudo poderia
acontecer... e Julian me deixara ali - ele, que prometera cuidar bem de mim!
Comecei a andar, sem ter idia de onde ficavam norte ou sul, leste ou oeste.
Quando avistei um txi que passava vazio, fiz-lhe sinal. Debrucei-me
nervosamente no banco para observar o taxmetro marcar os quilmetros - e os
dlares. Maldito seja, Julian, por me deixar to longe! Finalmente, chegamos
ao prdio de apartamentos - ao preo de quinze dlares!
- Quer dizer que no tem dinheiro? - explodiu o motorista. - Vou levar voc
direto para a delegacia!
Discutimos por longo tempo, enquanto eu tentava explicar que ele no poderia
receber o dinheiro se no me deixasse saltar para peg-lo em casa. Enquanto
isso, o taxmetro continuava a funcionar. Afinal, o motorista concordou:
- Est certo, garota. Mas  melhor voc voltar em cinco minutos, do
contrrio...!
Uma raposa perseguida por uma matilha de cem ces no teria corrido mais que
eu. O elevador demorou-se uma eternidade, rangendo durante todo o trajeto.
Sempre que entrava naquela pea de museu, eu tinha medo de ficar presa entre
dois andares. Por fim, a porta do elevador se abriu e sa correndo
pelo corredor para esmurrar nossa porta, rezando para que April ou Yolanda
l estivessem para abrir. O louco Julian tomara-me a bolsa com a chave
dentro!
- Calma! - berrou Yolanda. - J vou abrir. Quem ?
- Cathy! Deixe-me entrar depressa! O motorista est esperando com o
taxmetro ligado!
- Se pensa que vai me dar uma facada, pode esquecer! - replicou ela, abrindo
a porta. Usava apenas calcinhas de nylon e trazia o cabelo recm-lavado
enrolado numa #141
toalha vermelha. - Voc parece algo devolvido pelo mar - comentou
animadoramente.
Eu nunca dava muita importncia a Yolanda. Empurrei-a para o lado e corri ao
local onde escondia o dinheiro que economizava. Ento. desanimei. A chavinha
de minha pequena arca do tesouro estava na bolsa que ficara em poder de
Julian - caso este no a tivesse jogado fora.
- Por favor, Yolly, empreste-me quinze dlares para a corrida e um para
gorjeta.
Yolanda fitou-me astuciosamente enquanto retirava a toalha vermelha e
comeava a escovar os cabelos.
- O que tem voc para dar em troca de pequenos favores como este?
- Dar-lhe-ei o que voc quiser. Empreste-me o dinheiro.
- Est bem... mas no se esquea de cumprir a promessa - disse ela,
retirando lentamente uma nota de vinte dlares de uma carteira bem recheada.
- D cinco pratas de gorjeta ao motorista; isso servir para acalm-lo. E
fica me devendo o que eu quizer... certo?
Concordei e tornei a sair correndo.
To logo segurou os vinte dlares, o motorista comeou a sorrir, levando os
dedos  pala do bon num gesto amistoso.
- At  vista, garota.
Desejei que ele casse morto!
Sentia tanto frio, que a primeira coisa que fiz ao voltar para casa foi
encher a banheira de gua quente, tendo antes o cuidado de lavar a orla de
espuma suja deixada pelo banho de Yolly.
Meus cabelos ainda estavam midos quando me vesti com a inteno de procurar
Julian e exigir a devoluo de minha bolsa. Mas Yolly barrou-me a passagem.
- Vamos, Cathy... quero que cumpra sua parte do trato. Far o que eu quiser,
no  mesmo?
- Certo - respondi, repugnada. - O que deseja?
Ela sorriu, recostando-se provocadoramente numa parede.
- Seu irmo... quero que voc o convide para passar conosco o prximo fim de
semana.
- No seja ridcula! Chris est na universidade. No pode vir aqui quando
lhe der na cabea.
- Trate de traz-lo aqui de qualquer maneira. Diga que est doente, que
necessita desesperadamente dele, mas traga-o aqui! Ento, poder ficar com
os vinte dlares!
Parei para encar-la com hostilidade.
- No! Tenho dinheiro para pagar-lhe o emprstimo... No permitirei que
Chris se envolva com garotas da sua espcie!
Ainda usando apenas as calcinhas de nylon, ela aplicou batom nos lbios sem
usar um espelho.
- Cathy, meu amor, seu querido e precioso irmo j est envolvido com
garotas da minha espcie.
#142
- No acredito! Voc no  o tipo dele!
- Nooo - ronronou ela como uma gata, apertando as plpebras para
observar-me terminar de vestir-me. - Pois deixe que eu lhe diga uma coisa,
carinha de boneca: no existe um sujeito neste mundo que no caia pelo meu
tipo. Incluindo o seu querido irmo e o seu amante Julian!
-  mentira! - gritei. - Chris no tocaria em voc com uma vara de trs
metros! Quanto a Julian, pouco me importa que durma com dez prostitutas como
voc!
De repente, o rosto de Yolly ficou muito rubro; ela ficou rgida e, em
seguida, avanou contra mim com as mos erguidas e os dedos transformados em
garras com longas unhas vermelhas!
- Puta! - rosnou. - No se atreva a me chamar de prostituta! No recebo
pagamento em troca do que dou porque quero - e seu irmo gosta do que eu
dou! Pergunte a ele quantas vezes...
- Cale-se! - berrei, impedindo que ela terminasse. - No acredito numa s
palavra do que voc diz! Chris  esperto demais para fazer outra coisa
exceto usar voc para satisfazer-lhe as necessidades fsicas... Tirando
isso, voc no passaria de lixo para ele!
Yolly me agarrou e eu a esmurrei com fora suficiente para atir-la ao cho.
- Voc no passa de uma vagabunda mesquinha e barata. Yolanda Lange! -
gritei furiosa. -No serve nem como capacho para meu irmo limpar os
sapatos! Vai para a cama com todos os bailarinos da companhia! No me
importa o que voc faa... trate apenas de deixar-me em paz! E deixe meu
irmo em paz!
O nariz de Yolly sangrava... Oh! eu no sabia que batera com tanta fora...
seu nariz j comeava a inchar, tambm. Levantou-se rapidamente, mas, por
algum motivo, recuou para longe de mim.
- Ningum fala assim comigo sem receber troco... Vai arrepender-se, vai
lamentar este dia, Catherine Dahl. Pegarei seu irmo. E ainda mais: tomarei
Julian de voc, tambm! E quando ele for meu, voc descobrir que sem ele
no  nada! No passa de uma bailarina caipira que Madame Zolta poria no
olho da rua se Julian no insistisse em conserv-la porque  tarado por
virgens!
Tudo que ela gritou bem poderia ser verdade. Talvez tivesse razo e sem
Julian eu nada fosse de especial. Senti-me enjoada e a odiei - odiei-a por
macular Chris e a imagem que eu fazia dele. Comecei a guardar minhas roupas
nas malas, resolvida a regressar a Clairmont antes de viver mais uma hora
perto de Yolanda!
- V em frente! - sibilou ela com os dentes trincados. - Fuja, garotinha
pudica!... Como  idiota! No sou uma prostituta! Simplesmente, no sou uma
provocadora como voc - e, entre as duas, eu escolheria a minha espcie!
Sem dar importncia ao que ela dizia, terminei de arrumar minhas coisas e
fechei as correias de minhas trs malas, passando um cinto pelas alas a fim
de poder arrast-las para o corredor. Levei sob o brao uma
#143
sacola de couro macio, cheia at a boca. Parei junto  porta a fim de olhar
para Yolanda, que se estendera na cama como uma grande gata.
- Voc me causa realmente muito medo, Yolanda. Estou to amedrontada que
chego a ter vontade de rir. J encarei gente maior e melhor que voc - e
continuo viva... portanto, no se atreva a chegar novamente perto de mim, ou
ser voc quem se arrepender deste dia!
Pouco depois de fechar a porta com fora, cheguei ao andar onde morava
Julian. Arrastando minhas malas atadas umas s outras, esmurrei a porta do
apartamento de Julian com ambos os punhos!
- Julian! - chamei. - Se estiver a, abra a porta e devolva minha bolsa!
Abra essa porta ou nunca mais danar comigo!
Ele abriu bem depressa, usando apenas uma toalha de banho enrolada nos
quadris estreitos. Antes que eu me desse conta do que acontecia, puxou-me
para dentro do quarto e atirou-me sobre a cama. Olhei freneticamente em
volta, esperando ver Alexis ou Michael, mas, para minha infelicidade, Julian
estava sozinho no apartamento.
- Claro! - bradou ele. - Pode levar de volta sua maldita bolsa - depois que
responder a algumas perguntas!
Dei um salto, levantando-me da cama, mas Julian tornou a empurrar-me para
trs e, desta feita, ajoelhou-se sobre mim, cavalgando meu corpo e
impedindo-me de escapar!
- Solte-me, animal! - berrei.        Andei seis quarteires na chuva e quase morri
gelada... Agora, quer me deixar levantar e devolver minha bolsa?
- Por que no consegue me amar? - redarguiu ele, segurando-me com ambas as
mos quando tentei libertar-me. - Por estar apaixonada por outro? Quem 
ele? Aquele mdico grandalho que acolheu vocs, no ?
Sacudi a cabea, com um medo terrvel de Julian. No podia contar a verdade.
E Julian parecia quase enlouquecido de cimes. O cabelo ainda molhado do
banho que ele acabara de tomar respingava gua sobre mim.
- Cathy, j aturei de voc tudo o que  possvel! Conhecemo-nos h quase
trs anos e no consegui qualquer progresso com voc. No posso estar errado
- portanto, tem que ser voc! Quem  o outro?
- Ningum! - menti. - E voc no serve para mim! A nica coisa de que gosto
em voc, Julian Marquet,  sua maneira de danar!
O sangue lhe subiu ao rosto.
- Julga, que sou cego e - estpido, no ? - perguntou, to furioso que
parecia prestes a explodir. - Mas no sou cego, nem estpido, e percebi o
modo como voc olha para aquele mdico - e Deus me perdoe se no a vi olhar
da mesma forma para seu irmo! Portanto, no me venha bancar a moralista
imaculada, Catherine Dahl, pois nunca em minha vida vi um irmo e uma irm
to fascinados um pelo outro!
Esbofeteei-o! Ele revidou, com o dobro da fora! Tentei lutar contra ele,
mas Julian parecia uma enguia ao arrastar-me para o cho, onde eu temia que
ele em breve me rasgasse as roupas e me estuprasse - mas no o fez.
#144
Limitou-se a prender-me sob seu corpo e respirar com fora at recobrar
parte
do controle sobre suas emoes tumultuadas. S ento ele falou.
- Voc  minha, Catherine, quer saiba ou no... pertence a mim! E se algum
homem se interpuser entre ns, eu o matarei - e matarei voc tambm!
Portanto, trate de lembrar-se bem disto antes de olhar para qualquer outro
homem que no seja eu!
Em seguida, entregou-me a bolsa e mandou-me contar o dinheiro para verificar
que ele no me roubara um centavo. Eu tinha quarenta e dois dlares e
sessenta e oito centavos - e tudo estava na bolsa.
Levantei-me com as pernas trmulas - quando Julian me permitiu - e, tremendo
da cabea aos ps, recuei para a porta, abri-a e sa para o corredor,
agarrando a bolsa. S ento atrevi-me a dizer o que pensava:
- Existem instituies especiais para loucos como voc, Julian! No pode
dizer a quem devo amar, nem obrigar-me a am-lo. Se voc tivesse a inteno
definida de tornar-se repugnante para mim, no poderia ter imaginado um meio
melhor que este. Agora, no consigo nem mesmo gostar de voc: e quanto a
danarmos juntos novamente, trate de esquecer!
Bati-lhe a porta na cara e afastei-me depressa.
Todavia, quando cheguei ao elevador, ele tornou a abrir a porta,
pronunciando pragas to terrveis que no posso repeti-las aqui. Concluiu
dizendo:
- Maldita seja, Catherine!... eu j disse isto antes e vou dizer
novamente... e voc pedir a Deus para estar-no inferno antes de ver-se
livre de mim!

Depois daquela cena terrvel com Yolanda e, em seguida, com Julian, procurei
Madame Zolta e lhe disse que simplesmente no poderia continuar morando no
mesmo apartamento que uma garota decidida a destruir-me a carreira.
- Ela tem medo de voc, Catherine; nada mais que isso. Yolanda era a
superstar de minha pequena companhia de bal antes de voc chegar. Agora,
sente-se ameaada. Faa as pazes com ela... Seja boazinha; v procur-la e
dizer-lhe que se arrepende do que houve.
- No, Madame. No gosto dela e recuso-me a morar no mesmo apartamento.
Portanto, se a senhora no me der mais dinheiro, terei que procurar outra
companhia e ver se consigo um salrio melhor; se no conseguir, terei
que voltar para Clairmont.
Ela gemeu, ocultou a cabea mumificada nas mos esquelticas e gemeu ainda
mais. Oh! como os russos expressam grandiosamente as emoes!
- Est certo. Voc faz chantagem comigo e eu aceito. Dar-lhe-ei um pequeno
aumento de salrio e lhe indicarei onde encontrar um apartamento barato -
mas no ser to bom quanto o que voc ocupava.
Ah! Aquilo era bom?
Mas Madame tinha razo. O nico apartamento que consegui encontrar
caberia, inteiro, no menor quarto da casa de Paul. Mas era s meu... o
primeiro lugar que eu tinha exclusivamente para mim, e passei alguns dias
dominada pelo entusiasmo de
#145
arrum-lo da melhor maneira possvel. Ento, comecei realmente a dormir mal,
acordando a freqentes intervalos para escutar os
sons produzidos pelo velho prdio. Tinha saudades de Paul. Sentia falta de
Chris. Escutava o vento soprar e no dispunha de algum numa cama ao lado da
minha para reconfortar-me com palavras carinhosas e faiscantes olhos azuis.
Tinha diante de mim os olhos azuis de Chris quando me levantei da cama e me
sentei  mesa da pequena cozinha para escrever um bilhete  "Sra. Winslow".
Eu lhe enviara a primeira crtica entusistica publicada pelos jornais de
Nova York, com uma foto sensacional de Julian e eu danando A Bela
Adormecida. No fim da carta, acrescentara:

"Agora, no tardar, Sra. Winslow. Lembre-se todas as noites, antes de
adormecer. Lembre-se de que ainda estou viva em algum lugar - pensando em
voc e fazendo planos."

Colocara a carta na caixa do correio em plena noite, antes de ter uma
oportunidade para reconsiderar e rasg-la. Voltei para casa correndo,
joguei-me na cama e solucei. Oh! Deus! eu jamais me libertaria! Nunca! E, a
despeito de todas as minhas lgrimas, tornei a acordar durante a noite,
imaginando um modo de mago-la de tal modo que ela nunca mais voltasse a ser
a mesma.
Aproveite enquanto pode, Mame, pois no tardar!

Comprei seis exemplares de cada jornal que fazia referncia a mim.
Infelizmente, na maioria das vezes meu nome estava ligado ao de Julian.
Enviei cpias das crticas a Paul e Chris. As outras, eu guardava para mim -
ou para Mame. Imaginei sua expresso ao abrir a carta, embora temesse que
ela
apenas jogasse tudo no lixo, depois de rasgar o envelope fechado, sem ler o
contedo. Em ocasio nenhuma chamei-a de Me ou de Mame, mantendo sempre as
saudaes frias e formais. Chegaria o dia em que nos encontrariamos cara a
cara; ento, eu a chamaria de Mame, vendo-a empalidecer e, depois,
estremecer.

Certa manh, fui acordada por algum batendo  porta.
- Cathy! Deixe-me entrar! Tenho novidades sensacionais!
Era a voz de Julian.
- V embora! - repliquei, sonolenta, levantando-me e vestindo um roupo
antes de tropear na direo da porta para faz-lo parar de bater. - Pare
com isso! - gritei. - No o perdoei! Nunca perdoarei! Trate de se afastar da
minha vida!
- Deixe-me entrar, ou arrombo a porta! - berrou ele.
Abri os trincos e entreabri a porta. Julian entrou como um furaco,
erguendo-me nos braos e plantando-me na boca um beijo prolongado e quente
enquanto eu ainda bocejava.
#146
- Madame Zolta... ontem, depois que voc saiu, ela anunciou a novidade!
Vamos fazer uma tourne em Londres! Duas semanas em Londres! Nunca estive
l, Cathy. E Madame est encantada por terem tomado conhecimento de nossa
existncia - em Londres!
-  mesmo? - perguntei, contaminando-me com seu entusiasmo.
Ento, cambaleei para a cozinha... Caf... precisava tomar caf antes
de poder raciocinar direito.
- Meu Deus! Fica sempre to desorientada de manh cedo? - indagou ele,
acompanhando-me  cozinha, onde montou s avessas numa cadeira, apoiando os
cotovelos no encosto para observar-me todos os movimentos. -
Acorde, Cathy! Perdoe-me, beije-me, volte a ser minha amiga. Odeie-me o
quanto quiser amanh, mas, hoje, trate de me amar - pois nasci hoje. Voc
tambm. Cathy, vamos chegar ao topo! Sei que vamos! A companhia de bal
de Madame Zolta nunca foi notada antes de formarmos um par! O sucesso no 
dela -  nosso!
Julian merecia ser condecorado por tanta modstia.
- J tomou caf da manh? - indaguei, esperando que sim.
Restavam-me apenas duas fatias de toucinho e eu queria ambas para mim.
- Claro que sim; mastiguei algo antes de vir para c. Mas posso comer de
novo.
Naturalmente - ele podia comer de novo! Sempre era capaz de comer mais
alguma coisa.
Ento, dei-me conta: Londres! Nossa companhia ia a Londres! Girei nos
calcanhares, chorando.
- Julian, voc disse... estava falando srio? Vamos para l - todos ns?
Ele se ergueu de um salto.
- Sim, todos ns!  uma grande chance, nossa oportunidade de chegar ao topo!
Faremos o mundo tomar conhecimento de ns! E voc e eu seremos os astros!
Juntos, somos os melhores - voc sabe to bem quanto eu!
Dividi com Julian minha refeio matinal e escutei-o recitar uma rapsdia
sobre a longa e fantstica carreira que tnhamos pela frente. Ficaramos
ricos e, quando fssemos mais velhos, lanaramos razes, teramos filhos e
abriramos uma academia de bal - eu gostaria disso, no? Detestei
estragar-lhe os planos, mas fui obrigada a dizer:
- Julian, eu no o amo; portanto, jamais poderemos casar-nos. Iremos a
Londres, danaremos juntos e darei o melhor de mim mesma - mas tenciono
casar-me com outro. J estou noiva. H muito tempo.
Seu prolongado e violento olhar de descrena e puro dio desferiu-me uma
srie de bofetadas imaginrias no rosto.
-  mentira! - gritou ele.
Sacudi a cabea, negando.
- Maldita seja por me enganar! - esbravejou Julian, girando nos
calcanhares e saindo do meu apartamento.
#147
Eu jamais o enganara, exceto quando danvamos juntos e cabia-me fingir um
papel... Isto era tudo o que existia entre ns.

Sonhos de Inverno

Eu passaria o Natal em casa. Os desagradveis incidentes com Julian ficariam
esquecidos na alegre expectativa de encontrar-me com Paul e dar-lhe as boas
novas. Graas a Deus, eu tinha Paul para me proteger e ouvir-me as
confidncias. E no permitiria que Julian estragasse o prazer daquele Natal,
pois, desta vez, Paul e eu tnhamos concordado em anunciar publicamente
nosso noivado e, agora, a nica pessoa que poderia arruinar-me a felicidade
era
Chris.

s duas da manh, Paul e Chris foram buscar-me no aeroporto. Fazia um frio
de doer, mesmo na Carolina do Sul. Chris alcanou-me primeiro para me
abraar com fora e tentar beijar-me nos lbios, mas virei o rosto e o beijo
me acertou a bochecha.
- Salve a bailarina conquistadora! - exclamou meu irmo, abraando-me com
fora e olhando-me com grande orgulho. - Oh! Cathy, voc est to linda!
Cada vez que a vejo, meu corao chega a doer!
O meu corao tambm doa por v-lo ainda mais bonito que Papai. Virei-me
depressa noutra direo. Livrei-me dos braos de meu irmo e corri para
Paul, que nos observava a alguma distncia. Estendeu a mo para pegar as
minhas. Muito cuidado, advertiu-me seu demorado olhar, no devemos permitir
que a novidade escape antes da hora.
Foi o melhor Natal que passamos, do princpio ao fim - ou quase at o fim.
Carrie crescera um centmetro e meio e deu-me gosto v-la sentada no cho da
sala na manh de Natal, os grandes olhos azuis brilhando de felicidade
enquanto ela no parava de exclamar a respeito do vestido de veludo vermelho
que eu lhe comprara, encontrando-o finalmente, aps horas a fio percorrendo
quase todas as lojas de Nova York. Quando experimentou o vestido,
Carrie ficou parecendo uma pequena e radiante princesa. Tentei imaginar
Cory, tambm sentado de pernas cruzadas no cho, examinando seus presentes.
Era-me impossvel afastar a lembrana dele em qualquer ocasio feliz. Oh!
quantas vezes eu avistava nas ruas de Nova York um menino de cachos louros
e olhos azuis e saa correndo no seu  encalo, esperando que, por algum
milagre, fosse Cory! - mas nunca era. Nunca.
Chris colocou-me nas mos uma pequena caixa, dentro da qual estava um
pequeno relicrio de ouro com formato de corao, tendo no centro da tampa
um brilhante verdadeiro - pequeno, mas genuno.
#148
- Comprado com o dinheiro ganho com o meu SUor - anunciou ele, prendendo-me
o cordo de ouro ao pescoo. - Servir mesas rende boas gorjetas quando a
gente trabalha bem e sempre sorrindo.
Ento, num gesto furtivo, escorregou-me na mo um bilhete dobrado. Uma hora
depois, na primeira oportunidade, li o bilhete que me fez chorar:

" minha Lady Catherine,
"Dou-lhe ouro com um brilhante que voc quase no v,
"Mas seria grande como um -castelo se expressasse o que sinto por voc.
"Dou-lhe ouro porque  perene
"E tambm dou-lhe amor eterno como o mar.
                                "Apenas seu irmo,
Chris"

Eu ainda no lera aquele bilhete quando Paul me entregara seu presente,
embrulhado em papel metlico dourado e amarrado com um enorme lao de cetim
vermelho. Minhas mos trmulas lutaram para abrir as vrias camadas de
tecido, enquanto Paul observava em grande expectativa. Um casaco de raposa
prateada!
- O tipo de agasalho que voc realmente necessita para os invernos de Nova
York - disse Paul, os olhos brilhando com todo o carinho e amor que ele
sentia por mim.
-  demais! - protestei, engasgada. - Mas adorei - simplesmente adorei!
Ele sorriu; era to fcil faz-lo feliz.
-  essencial que se recorde de mim toda vez que o usar, pois tambm ficar
agasalhada naquele clima frio e mido de Londres.
Repliquei que se tratava do casaco mais bonito que eu j vira, embora me
sentisse nervosa. A pele me trazia a lembrana de Mame e de seu armrio
abarrotado de agasalhos de pele, que ela ganhara apenas porque tivera a
inominvel crueldade de manter-nos trancados para poder herdar uma grande
fortuna, agasalhos de pele, jias e tudo o mais que o dinheiro podia
comprar.
Chris virou vivamente a cabea, a fim de captar-me no rosto algo que deve
ter revelado meu amor por Paul. A testa de meu irmo se franziu
tempestuosamente antes que ele lanasse um rpido olhara Paul. Ento,
levantou-se e saiu da sala. Em algum lugar l em cima uma porta bateu com
violncia.
Paul simulou no perceber.
- Veja ali no canto, Catherine - um presente para todos ns aproveitarmos.
Olhei para o enorme aparelho de TV. Carrie ergueu-se de um salto e foi
lig-lo.
- Ele o comprou s para podermos ver voc danar o Quebra-nozes em cores,
Cathy. Agora, nem permite que eu chegue perto do aparelho.
#149
- S porque  difcil lig-lo corretamente - desculpou-se Paul. Durante
o resto do Dia de Natal, mal avistei Chris, exceto s refeies. Ele usava o
suter azul-brilhante que eu lhe tricotara - e servira como uma luva -
trazendo por baixo a camisa e a gravata que eu tambm lhe dera. Contudo,
nenhum dos presentes dados a ele por mim podia comparar-se ao pequeno
relicrio ouro e brilhante, com o pequeno poema que me fizera sangrar o
corao.
Detestei o fato de Chris continuar gostando tanto de mim e, no obstante -
quando pensei melhor - detestaria ainda mais se ele no gostasse.
Naquela noite, acomodamo-nos confortavelmente diante da nova televiso em
cores. Enrosquei-me no cho, junto  perna de Paul, que ocupava uma
poltrona. Carrie sentou-se perto de mim. Chris escolheu um lugar afastado,
mergulhando num sombrio estado de esprito que o levava ainda mais longe que
os poucos passos que nos separavam fisicamente. Portanto, eu no me sentia
to feliz quanto desejava ao ver os crditos do programa aparecerem na tela
colorida. Um tape gravado em agosto, s agora seria visto em centenas de
cidades atravs do pas. Como ficavam bonitos os cenrios na TV em cores; na
realidade, no me tinham parecido to etreos. Olhei para mim mesma no papel
de Clara. Tinha realmente aquela aparncia? Esquecendo-me de tudo,
recostei-me na perna de Paul e senti-lhe os dedos acariciarem-me os cabelos.
A partir de ento, perdi a noo de onde estava - vi-me no palco, com Julian
transformado de um feio quebra-nozes num lindo prncipe.
Quando o programa terminou, voltei  realidade e meu primeiro pensamento foi
minha me. Deus, permita que ela esteja em casa esta noite e tenha visto.
Permita que ela saiba o que tentou matar! Permita que
sofra, chore, tenha remorsos... por favor! por favor!
O que posso dizer, Cathy? - comentou Paul, espantado. - Nenhuma bailarina
poderia danar essa pea melhor que voce. E Julian tambm esteve soberbo.
- Sim - disse Chris friamente, levantando-se para vir pegar Carrie no
colo. - Foram ambos sensacionais - mas, certamente, nao foi o espetculo
infantil que me lembro de ter visto quando era criana. Vocs dois
apresentaram um romance. Francamente, Cathy, acho melhor voc desligar
aquele cara - depressa!
Com essas palavras, meu irmo saiu da sala e subiu para colocar Carrie na
cama.
- Creio que seu irmo est desconfiado - comentou Paul tranqilamente. - No
apenas a respeito de Julian, mas de mim tambm. Tratou-me o dia inteiro como
a um rival, No ficar satisfeito ao escutar nossa novidade.
Como tanta gente, preferi adiar o que era desagradvel e sugeri que s
contssemos a Chris no dia seguinte. Ento, quando me aninhei no colo de
Paul, abraamo-nos e trocamos todos os beijos apaixonados que vnhamos
guardando at aquele momento. Eu chegava a doer de saudades dele. Aps
apagarmos todas as luzes da casa, subimos furtivamente ao segundo andar e,
com o zelo gerado pela privao, fizemos amor na cama dele. Depois dormimos
e tornamos a acordar mais tarde, para repetirmos a dose. Ao amanhecer, dei
um ltimo beijo em Paul e
#150
vesti um roupo a fim de esgueirar-me at meu quarto. Para minha total
surpresa, mal sa do quarto de Paul, Chris abriu a porta do seu e veio para
o corredor! Estacou bruscamente, olhando-me com espanto e mgoa, enquanto eu
recuava, encolhida, to envergonhada que tinha vontade de chorar! Nenhum de
ns dois disse uma s palavra. Chris foi o primeiro a desviar os olhos e
quebrar aquele choque de olhares gelados que
nos imobilizava tambm os membros. Correu na direo da escada mas, a meio
caminho, parou para voltar-se e dirigir-me um olhar carregado de ultraje e
repulsa. Eu quis morrer! Fui espiar Carrie, que dormia profundamente,
abraada ao seu novo vestido de veludo vermelho. Depois, estendi-me em minha
cama tentando imaginar o que deveria dizer a Chris para consertar novamente
as coisas entre ns. Por que sentia, em meu corao, que o estava traindo?
Por qu?

O dia seguinte ao Natal foi dedicado a trocar os presentes de que no
havamos gostado, as roupas que no nos serviam. Temi aproximar-me de Chris,
que estava no jardim aparando ferozmente as roseiras com um alicate de
podar. Mesmo assim, obriguei-me a procur-lo.
- Chris, preciso conversar com voc e explicar certas coisas.
Ele explodiu:
- Paul no tinha o direito de dar-lhe um casaco de pele! Um presente assim
faz voc parecer uma amante sustentada por ele! Cathy, devolva-lhe o casaco!
E, acima de tudo, pare de fazer o que anda fazendo com Paul!
Em primeiro lugar, tomei-lhe das mos o alicate de podar, antes que ele
estragasse as lindas rosas de Paul.
- Chris, no  to errado como voc imagina. Compreenda... Paul e eu... bem,
pretendemos casar-nos na primavera. Ns nos amamos; portanto, nada existe de
errado no que fazemos. No  um namoro que ser esquecido amanh;
necessitamos mutuamente um do outro.
Aproximei-me mais quando ele me deu as costas para esconder a expresso do
rosto.
- Assim tambm  melhor para voc e eu - acrescentei baixinho.
Passei-lhe os braos pela cintura, girando-o a fim de ver-lhe o rosto. Chris
parecia atordoado, como um homem saudvel que  informado repentinamente de
ser portador de uma doena incurvel - e perde bruscamente toda a esperana.
- Ele  velho demais para voc!
- Eu o amo.
- Ento, voc o ama. E quanto  sua carreira? Pretende jogar fora todos
aqueles anos de sonhos e de trabalho? Vai quebrar sua promessa? Lembre-se de
que juramos um ao outro perseguirmos nossos objetivos e no permitirmos que
aqueles anos perdidos interferissem.
- Paul e eu discutimos o assunto. Ele compreende. Julga que pode conciliar
tudo...
- Ele julga? O que sabe um mdico a respeito da vida de uma bailarina? Voc
#151
jamais estar com ele. Ele permanecer aqui, enquanto voc andar s Deus
sabe por onde, com homens da sua prpria idade. Voc nada deve a Paul,
Cathy! Nada! Ns lhe pagaremos de volta cada centavo que ele gastou
conosco. Dar-lhe-emos o respeito que ele merece, e todo o amor - mas voc
no lhe deve sua vida!
- No devo? - indaguei num sussurro, doendo por dentro por causa de Chris. -
Pois acho que devo a ele minha vida. Voc sabe como eu me sentia quando aqui
cheguei: julgava que ningum merecia afeio ou confiana. Esperava que o
mundo nos reservasse o pior - e isso teria ocorrido se no fosse Paul. E eu
no o amo apenas pelo que ele fez por ns. Amo-o por causa de
quem e o que ele . Chris, voc no o v da mesma maneira que eu.
Chris virou-se bruscamente, arrancando-me o alicate das mos.
- E quanto a Julian? Vai casar-se com Paul e danar com Julian? Sabe que
Julian  louco por voc. Est escrito nele, em cada um de seus gestos, em
sua maneira de olh-la, no modo dele toc-la.
Recuei, chocada. Chris no falava apenas de Julian.
- Sinto muito se isto lhe estragou o feriado, mas voc tambm arranjar
outra - repliquei. - Gosta de Paul; sei que gosta. Depois de refletir melhor
sobre o assunto, compreender que ele e eu servimos um para o outro, a
despeito da diferena de idades, a despeito de tudo.
Afastei-me, deixando Chris no jardim com o alicate de podar.
Paul levou-me de carro a Greenglenna enquanto Carrie ficava em casa
divertindo-se com o novo aparelho de TV em cores e todos os seus novos
brinquedos e roupas. Paul tagarelou alegremente a respeito da festa que
planejara oferecer a todos ns naquela noite, em seu restaurante predileto.
- Gostaria de ser egosta e deixar Chris e Carrie em casa, mas quero que
estejam presentes quando eu lhe colocar no dedo o anel de noivado.
Fixei os olhos no panorama de inverno que passava l fora, as rvores
desfolhadas, o capim escurecido, as casas bonitas com decoraes natalinas e
luzes acesas aps o escurecer. Agora eu fazia parte do espetculo; deixara
de ser uma espectadora trancada a distncia. No obstante, sentia-me to
dilacerada e infeliz.
- Cathy, est sentada ao lado do homem mais feliz do mundo!
E eu deixara no jardim da casa dele um homem que se sentia to infeliz
quanto eu.

Eu tinha na bolsa um anel que comprara para Carrie em Nova York: um pequeno
rubi para um dedo muito minsculo e, apesar disso, largo demais para todos
os dedos dela com exceo dos polegares. Quando eu me encontrava no melhor
departamento de joalheria da melhor loja da cidade, discutindo com o
vendedor um meio de diminuir o tamanho do anel sem estragar a cravao do
rubi, escutei repentinamente uma voz conhecida! Uma voz doce, grave,
cultivada. Como em cmera lenta, virei cautelosamente a cabea.
Mame! Em p bem junto a mim! Se ela estivesse sozinha, talvez percebesse
minha presena, mas encontrava-se to distrada em conversar com uma
acompanhante vestida de




#152
maneira to elegante quanto ela. Eu mudara
consideravelmente desde que minha me me vira pela ltima vez; mesmo assim, se
ela me olhasse certamente teria que saber quem eu era. As duas falavam da festa  qual tinham comparecido na noite anterior.
   - Francamente, Corrine, Elsa leva o tema festivo a um extremo ultrajante - todo aquele vermelho!
   Festas! Era tudo que ela fazia: ir a festas! Meu corao comeou a bater
em ritmo de galope. Minha animao se desfez, esvaziada pela decepo. Uma
festa - eu deveria ter previsto! Ela jamais ficava em casa para assistir 
televiso! No me vira! Oh.! como fiquei furiosa! Virei-me para obrig-la a ver-me!
   Um pequeno espelho vertical no mostrurio de vidro refletia-lhe o perfil, mostrando-me o quanto ela ainda era bela. Parecia um pouco mais velha, mas, no obstante, 
linda. Os cabelos louros penteados para trs davam nfase  perfeio do nariz pequeno e bem delineado, os carnudos lbios vermelhos, os
clios longos e naturalmente escuros, realados pela maquilagem. Os olhos faiscavam como ouro e brilhantes verdadeiros... e ela falava:
     - Ser que poderia mostrar-me algo exatamente apropriado para uma jovem bonita? - indagou  vendedora. - Algo de bom-gosto, sem muita fantasia nem grande demais, 
que uma jovem possa guardar com orgulho pelo
resto da vida?
   Quem? A que jovem ela precisava dar presentes? Cheia de cimes vi-a escolher um lindo relicrio de ouro muito semelhante ao que Chris me dera! Trezentos dlares! 
Agora, nossa querida me esbanjava dinheiro com
presentes para uma jovem que no era sua filha, esquecendo-se de ns! Pensaria em
ns, tentando adivinhar como conseguamos viver? Como conseguiria dormir  noite, quando o mundo era to frio, feio e cruel para crianas abandonadas  prpria sorte?
     Ao que pude perceber, minha me era completamente desprovida de remorsos ou sentimentos de culpa. Talvez milhes de dlares pudessem ter tal resultado, pregando 
um sorriso de satisfao em seu rosto, a despeito do que havia por baixo da mscara. Tive mpetos de falar e ver a pose desmoronar! Queria que aqueles sorrisos cassem 
como casca velha de um tronco,
revelando-a  amiga como ela realmente era: um monstro desalmado! Uma assassina!
Uma fraude! Mas fiquei calada.
   - Cathy - disse Paul, aproximando-se por detrs de mim e pousando as mos nos meus ombros. - J devolvi tudo. E voc, Est pronta para irmos, agora?
   Desejei desesperadamente que minha me me visse em companhia de Paul, um homem que nada ficava a dever, em beleza, ao seu querido "Bart". Tive vontade de gritar: 
Est vendo? Tambm sou capaz de atrair homens inteligentes, bondosos, educados e bonitos! Olhei depressa para mame, a fim de verificar se ela escutara Paul dizer-me 
o nome, na esperana de deleitar-me com sua atordoada surpresa, seu remorso e vergonha. Entretanto, ela se afastara ao longo do balco e, se ouviu o nome Cathy, 
nem virou a cabea.
     Por um motivo com o qual no atinei, solucei.
#153
   - Voc est bem, querida? - indagou Paul, vendo-me no rosto algo que lhe causou espanto e preocupao. - No est mudando de idia a nosso respeito, est?
   - No! Claro que no! - neguei de imediato.
     Contudo, estava mudando de idia a respeito de mim. Por que no fizera alguma coisa? Por que, desta feita, no esticara O p para faz-la tropear? Ento, poderia 
v-la esparramar-se no cho, perdendo a pose - talvez. Mame era bem capaz de cair graciosamente e fazer que todos os homens na
loja corressem para ajud-la - at mesmo Paul.

     Estava me vestindo para a grande festa no The Plantation House quando Chris entrou no meu quarto e mandou Carrie retirar-se.
   - V assistir  TV - ordenou ele em tom mais spero do que eu jamais o ouvira usar com ela. - Quero conversar com sua irm.
   Carrie lanou-nos um olhar esquisito antes de sair depressa do quarto.
     To logo Carrie fechou a porta atrs de si, Chris avanou para mim, segurando-me os ombros. Sacudiu-me com violncia.
     - Vai continuar esta farsa? Voc no O ama! Voc ainda me ama! Tenho certeza! Cathy, por favor, no faa isso comigo! Sei que tenta libertar-me casando-se com 
Paul, mas isso no  motivo suficiente para casar-se com um homem.
     Baixou a cabea, largou-me os ombros e pareceu terrivelmente envergonhado. Falou to baixo que fui obrigada a aguar os ouvidos para escutar-lhe as palavras.
   - Sei que  errado o que sinto por voc. Sei que deveria tentar encontrar outra pessoa, como voc vem fazendo... mas no consigo deixar de am-la e desej-la. 
Vivo pensando nisso, dia e noite. Sonho com voc durante a noite; quero acordar e v-la no quarto comigo. Quero ir para a cama e saber
que voc l estar, bem perto, onde poderei v-la, toc-la.
     No pde conter um soluo antes de continuar:
   - No consigo pensar em voc com outro homem! Que diabo, Cathy, eu a quero para mim! De qualquer modo, voc no pretende ter filhos - portanto, por que no pode 
ser eu?
   Eu me afastara quando ele me largou os ombros. Quando parou de falar, corri para abra-lo e ele se agarrou a mim como se eu fosse a nica mulher capaz de impedir 
que se afogasse. E se eu fizesse o que ele queria,
afogar-nos-amos ambos!
   - Oh! Chris, o que posso dizer? Mame e Papai cometeram um erro ao se casarem - e ns tivemos que pagar por esse erro. No podemos correr o risco de repeti-lo!
   - Podemos, sim! - exclamou ele com fervor. - No precisamos manter um relacionamento sexual! Podemos apenas viver juntos, estarmos juntos, sermos apenas irmo 
e irm, com Carrie, tambm. Por favor, por favor, eu lhe suplico: no se case com Paul! 
   - Cale a boca! - berrei. - Deixe-me em paz!
#154
    Agredi-o, ento, desejando mago-lo da mesma forma como cada uma de suas palavras me magoara.
    - Chris, voc me faz sentir to culpada, to envergonhada! Fiz o possvel por voc quando ramos prisioneiros. Talvez nos voltssemos um para o outro, mas s 
porque no existia mais ningum! Se existisse, voc
nunca teria me desejado e eu nunca lhe teria lanado um segundo olhar! Voc  apenas um irmo para mim, Chris, e fao questo de mant-lo em seu devido lugar... 
que no  na minha cama!
    Ento, ele me tomou nos braos e no pude deixar de agarrar-me a ele, apertando o rosto contra seu corao latejante. Chris tinha dificuldade para conter as 
lgrimas. Eu queria que ele esquecesse... mas cada segundo que ele me apertava contra si fazia crescer-lhe as esperanas - e ele ficou excitado! Ele, que julgava 
podermos viver juntos platonicamente!
    - Largue-me, Chris. Mesmo que me ame pelo resto da vida, nunca mais me fale no assunto, pois nunca mais quero ouvir falar dele! Amo Paul e nada que voc disser 
me impedir de casar-me com ele!
   - Est mentindo para si mesma - disse ele, engasgado, segurando-me ainda com mais fora. - Percebo que voc me observa antes de desviar os olhos. Voc me deseja 
e deseja Paul. Quer tudo e todos! No estrague a vida
de Paul, pois ele j sofreu bastante!  velho demais para voc - e a idade faz
diferena! Ele estar velho e sexualmente esgotado quando voc atingir o auge! Ora, at mesmo Julian seria melhor que ele!
   - Voc  um grande imbecil, se acredita nisso!
   - Ento, sou imbecil! Sempre fui, no  mesmo? Quando lhe dei meu amor e depositei em voc minha confiana, cometi o maior erro de minha vida, no foi? A seu 
modo,  to desalmada quanto nossa me! Deseja todo
homem que a atrai, sem ligar para as consequncias... mas eu permitiria que
voc tivesse quem bem entendesse, desde que sempre voltasse para mim!
   - Christopher, sente cimes porque encontrei antes de voc outra pessoa para amar! E no fique a me fitando com esses gelados olhos azuis, pois j teve seus 
casos de amor! Sei que dormiu com Yolanda Lange e s Deus sabe com quantas outras. O que disse a elas? Disse-lhes tambm que as amava?
Bem, eu no o amo agora! Amo Paul e voc nada pode fazer para impedir nosso casamento!
   Chris ficou imvel, plido e trmulo. Ento, disse num Sussurro rouco:
   - Posso, sim. Posso contar a ele o que fizemos... Ento, ele no desejaria voc.
   - Voc no lhe contaria.  honrado demais para isso. Ademais, ele j sabe.
   Encaramo-nos por longo tempo... ento, ele saiu correndo do quarto, batendo a porta com tanta fora que abriu uma fenda no reboco do teto.

   Apenas Carrie fez companhia a Paul e a mim no The Plantation House.
   -  uma pena .que Chris no esteja passando bem. Espero que no esteja gripado... H uma epidemia na cidade.
   No respondi coisa alguma, limitando-me a ficar sentada escutando Carrie tagarelar 
#155
incessantemente sobre o quanto gostava do Natal e a maneira que este fazia as coisas comuns ficarem to bonitas.
   Paul enfiou-me no dedo um anel com um brilhante de dois quilates, enquanto o fogo crepitava na lareira e a msica suave enchia o ambiente. Fiz o possvel para 
tornar a situao agradvel, rindo, sorrindo, trocando prolongados olhares romnticos quando tomvamos champanhe, brindando a ns
mesmos e ao nosso longo e feliz futuro juntos. Dancei com Paul sob os gigantescos lustres de cristal, mantendo-me de olhos fechados e imaginando Chris sozinho em 
casa, enfurnado em seu quarto e odiando-me.
   - Seremos to felizes, Paul- murmurei, nas pontas dos ps em minhas sandlias prateadas de salto alto.
   Sim, aquela seria a nossa vida juntos. Calma. Doce. Fcil. Exatamente como a gostosa valsa antiga que danvamos. Porque quando se ama de verdade no existem 
problemas que o amor no seja capaz de sobrepujar.
     Eu... e minhas idias.

Primeiro de Abril: Dia dos Tolos

     Esforo. Dedicao. Desejo. Determinao. Os quatro mandamentos do mundo do bal, que tnhamos que seguir  risca. Se Madame Zolta fora dura conosco antes do 
Natal, gora submeteu-nos a um esquema to pesado de
treinamento que s fazamos trabalhar. Ela fazia palestras sobre a perfeio do The Royal Ballet, estritamente clssico - mas ns deveramos fazer tudo ao nosso 
jeito americano mpar: clssico, mas inovativo e mais bonito.
   Julian foi absolutamente impiedoso, demonaco. Comecei realmente a desprez-lo! Estvamos ambos encharcados de suor, com os cabelos escorridos. Minha malha grudava-se 
 pele. Julian usava apenas uma sunga. Berrou
como se eu fosse surda:
   - Desta vez, faa direito, diabo! Quer passar a noite inteira ensaiando?
   - Pare de gritar comigo, Julian! Posso escut-lo perfeitamente!
   - Ento, faa direito! Primeiro d trs passos e depois jogue o p para o alto; ento, pule para eu segur-la e, pelo amor de Deus, desta vez deite-se imediatamente 
para trs! No fique empertigada e rija - no instante em que eu a segurar, caia para trs e amolea o corpo... se  capaz de fazer algo certo ou gracioso hoje!
   Esse era o meu problema. Eu j no confiava em Julian. Temia que ele
procurasse machucar-me intencionalmente.
   - Julian, grita comigo como se eu fIZesse tudo errado deliberadamente!
    -  essa a impresso que tenho! Se voc quisesse mesmo fazer tudo certo, conseguiria. S precisa dar trs passos, erguer o p e saltar; quando eu a segurar, 
#156
voc se deixa cair para trs. Agora, vejamos se  capaz de acertar ao menos uma vez, aps cinqenta tentativas!
   - Acha que isto me agrada? Veja minhas axilas! - exclamei, erguendo os braos para exibi-las. - Est vendo como ficaram arranhadas onde voc me esfolou a pele? 
E amanh estarei cheia de manchas roxas onde voc me agarrou com fora!
   - Ento, faa certo!
   Julian esbravejava no s com a voz, mas tambm com os olhos negros. Tive um medo terrvel de que ele estivesse apenas aguardando uma boa oportunidade para deixar-me 
cair de propsito - para vingar-se. Contudo, levantei-me e tentamos mais uma vez. E novamente fracassei, no me deixando cair para trs por no confiar nele. Desta 
feita ele me atirou ao cho, onde fiquei
ofegante, sem flego, imaginando por que diabo teimava em repetir a seqncia.
   - Est sem flego? - indagou em tom sarcstico, erguendo-se como uma torre acima de mim, os ps descalos bem afastados, as pernas formando um tringulo issceles 
sobre as minhas. O peito nu brilhava de transpirao que gotejava em cima de mim.
    - Eu fao todo o trabalho duro e voc fica a, deitada, parecendo exausta. O que lhe aconteceu na roa? Gastou todas as energias trepando com o mdico?
    - Cale-se! Estou cansada de doze horas a fio de ensaios! S isso!
    - Se est cansada, eu estou dez vezes mais. Portanto, levante-se e vamos repetir. E, desta vez, faa direito - diabo!
    - No fale assim comigo! Arranje outro par! Fez-me tomar um tombo proposital e meu joelho passou trs dias doendo; portanto, como posso correr para me atirar 
em seus braos? Voc  bastante mesquinho para aleijar-me pelo resto da vida!
    - Mesmo que a odiasse, no a deixaria cair. E no a odeio, Cathy. Pelo menos, ainda no.
    Aps ensaiar interminavelmente ao som do piano, contando, marcando o ritmo, repetindo a mesma srie de passos, finalmente acertei e at mesmo Julian foi capaz 
de sorrir e dar-me parabns. Ento, chegou o ensaio geral e a apresentao de Romeu e Julieta.
    Os cenrios espetaculares e as roupas sensacionais extraram de ns o mximo quando combinados com uma orquestra completa. Agora, eu podia dar ao papel de Julieta 
todas as nuances que a tornariam uma pessoa real e no um cabo de vassoura, como parecia Yolanda naquela noite, ao fazer seus
plis com olhos vidrados e fora de foco. Madame Zolta aproximou-se para estudar-lhe atentamente o rosto e cheirar-lhe o hlito.
    - Por Deus!... voc andou fumando maconha! Nenhuma bailarina minha pisa o palco dopada e logra o pblico - volte para casa e v para a cama! Catherine, prepare-se 
para danar como Julieta!
    Yolanda passou por mim cambaleando e tentou desferir-me um violento pontap ao sibilar:
#157
    - Por que voc tinha que voltar?! Por que no ficou na roa, que  o seu lugar?!
    No pensei em Yolanda e suas ameaas ao postar-me na pequena sacada e fitar sonhadoramente o rosto plido de Julian que se erguia para mim. Parecia to lindo 
 luz azulada, usando malhas brancas, os cabelos escuros brilhando, os olhos negros faiscando como as jias de imitao de seu traje medieval. Parecia o meu amante 
do sto, que sempre me escapava e nunca me permitia
chegar bastante perto para distinguir-lhe as feies.
    Aplausos estrondosos quando o pano baixou. E, por detrs da cortina,
arquejando sem flego, Julian pulou para abraar-me.
    - Fomos sensacionais esta noite! Como consegue frustrar-se tanto at o incio do espetculo?
    A cortina se ergueu para nossos agradecimentos - e Julian beijou-me os
lbios.
    - Bravo! - gritava o pblico, pois aquele era o tipo de drama e paixo que todos os amantes do bal adoram.
    Era a nossa noite - a melhor que j tivramos. Embriagada pelo sucesso, passei rapidamente por entre fotgrafos e caadores de autgrafos, correndo para meu 
camarim, pois haveria uma grande festa logo em seguida; uma comemorao antes da partida de nossa companhia para Londres. Apliquei depressa o creme de limpeza para 
retirar a maquilagem e depois troquei o traje do ltimo ato por um vestido curto e formal de cor azul. Madame Zolta bateu  minha porta e anunciou:
    - Catherine, uma senhora aqui diz que veio de sua terra apenas para ver voc danar. Vamos, abra a porta e adiaremos o incio da festa at voc chegar.
   Uma mulher alta e atraente entrou no camarim. Olhos e cabelos escuros, roupas caras que lhe realavam a silhueta. Por algum estranho motivo, tive a impresso 
de j conhec-la, ou de que ela me lembrava algum. Examinou-me da cabea aos ps e s ento correu os olhos pelo minsculo camarim
abarrotado de sacolas plsticas contendo todas as roupas de bal que eu levaria comigo para Londres, cada sacola etiquetada com meu nome e o nome do bal para o 
qual fora desenhada a roupa. Esperei impaciente que ela dissesse logo ao que vinha e fosse embora, a fim de vestir meu casaco.
   - Creio que no a conheo - comecei, no intuito de apress-la.
   Ela exibiu um sorriso retorcido e, sem ser convidada, sentou-se e cruzou as pernas bem torneadas, sacudindo ritmadamente um p calado numa sandlia preta de 
salto alto.
   - Claro que no me conhece, minha cara criana... mas eu conheo muito a seu respeito.
   Algo em seu tom suave e adocicado demais serviu-me de advertncia e coloquei-me em guarda, preparando-me para o que ela viera dizer - que s podia ser ruim, pois 
percebi o olhar maldoso que se escondia sob a falsa
expresso suave.
   - Voc  muito bonita. talvez at mesmo bela.
#158
   - Obrigada.
   - Dana excepcionalmente bem; foi uma surpresa para mim, embora,  claro, que precisa danar muito bem para fazer parte desta companhia que, segundo fui informada, 
vem-se tornando importante.
   - Obrigada, mais uma vez - disse eu, refletindo que ela jamais chegaria ao assunto.
    Demorou-se a retomar a palavra, mantendo-me nervosa, em suspenso. Peguei meu casaco, procurando indicar-lhe que pretendia sair logo.
    - Belo casaco de pele - comentou ela. - Suponho que seja presente de meu irmo. Ouvi dizer que ele anda jogando dinheiro fora como um marinheiro embriagado, 
dando tudo o que possui a trs joos-ningum que chegaram
num nibus e tomaram-lhe conta da vida.
    Riu em tom baixo e sarcstico, como sabem rir as mulheres cultas.
    - Agora, vendo voc, compreendo o motivo, embora j tivesse ouvido outras pessoas dizerem que voc era bastante bonita para fazer qualquer homem de tolo. Ainda 
assim, nunca imaginei que uma criana como voc pudesse parecer to voluptuosa, sensual e magra ao mesmo tempo.  realmente uma
mescla peculiar, Srta. Dahl. Toda cheia de inocncia e sofisticao, tambm. Tal mistura deve ser fortemente intoxicante para um homem do tipo de meu irmo - disse 
ela, com uma risadinha divertida. - No existe coisa alguma como a combinao de juventude, cabelos louros compridos, rosto bonito e
seios bem formados para trazer  tona o animal que vive no ntimo dos melhores homens - suspirou, como se tivesse pena de mim. - Sim, eis o problema de ser jovem 
e bonita: os homens revelam o seu lado pior. Paul j se comportou antes como um asno, voc sabe. No  a primeira companheira de
brincadeiras que ele arranja, embora ele jamais tenha dado a alguma delas um casaco de peles ou um anel de brilhante, como se realmente pudesse casar-se com voc.
    Ento, aquela era a irm de Paul, Amanda - a esquisita irm que lhe tricotava suteres e as enviava pelo correio, mas recusava-se a falar com ele na rua.
    Amanda se ps de p e comeou a andar em volta de mim: uma gata caando, prestes a saltar sobre a presa. Usava um perfume oriental, almiscarado, forte, e devia 
julgar-me uma presa tmida ao avanar contra mim.
    - Uma pele to imaculada, to firme, parece porcelana - comentou, estendendo a mo pronta para tocar-me o rosto. - No ter pele to bonita ou tanto cabelo quando 
tiver cerca de trinta e cinco anos; e a essa altura ele j se ter cansado de voc h muito tempo. Paul gosta de mulheres jovens, muito jovens. E tambm bonitas, 
inteligentes, talentosas. Sou forada a admitir que tem bom gosto, embora no tenha bom senso. Compreenda - exibiu mais uma vez aquele detestvel sorriso -, realmente 
pouco me importa o que ele faa, desde que se mantenha nos limites da decncia e no reflita na minha vida.
    - Saia daqui - consegui dizer. - No conhece seu irmo.  honrado, generoso; de forma alguma prejudicaria a sua vida.
#159
    Ela sorriu com pena de mim.
    - Minha cara criana, no entende que voc est arruinando a carreira dele? Ser bastante tola para pensar que o caso passou despercebido? Numa cidade do tamanho 
de Clairmont, todo o mundo sabe de tudo. Embora
a Henny no possa falar , os vizinhos tm olhos e ouvidos. Mexericos,  tudo o
que ouo, mexericos: Paul jogando todo seu dinheiro fora com delinqentes juvenis que se aproveitam de sua generosidade, e logo estar falido, sem clientes!
    Ela esquentava os motores e eu temia que, a qualquer momnto, golpeasse meu rosto com as longas unhas vermelhas.
    - Saia daqui! - ordenei furiosa. - Sei tudo a seu respeito, Amanda, pois os mexericos tambm me chegaram aos ouvidos! Seu problema  que Paul lhe deve o resto 
da vida dele porque voc trabalhou para ajud-lo a custear os estudos de medicina. Mas eu fiz a escriturao das contas dele e sei que
lhe pagou tudo de volta, com mais dez por cento de juros - portanto, nada deve a voc! No passa de uma mentirosa que tenta diminu-lo aos meus olhos pois no conseguir! 
Eu o amo, ele me ama, e nada que voc possa dizer impedir nosso casamento!
    Ela tornou a rir, um som duro e impiedoso. Ento, seu rosto assumiu uma expresso implacvel, decidida.
    - No se atreva a me mandar fazer alguma coisa! Irei embora quando quiser - depois de lhe dizer o que preciso! Vim de avio a Nova York para ver o mais recente 
amor de meu irmo, sua boneca bailarina... e pode crer que no ser a ltima mulher dele. Ora, Julia costumava dizer-me que ele...
    Interrompi acaloradamente:
    - Saia! No ouse dizer mais uma s palavra a respeito dele! Sei tudo sobre Julia. Paul me contou. Se ela o empurrou para outras mulheres, eu no o censuro. Ela 
nunca foi uma esposa de verdade; era uma governanta, uma cozinheira - no uma esposa!
    Ela riu alegremente. Meu Deus, como gostava de rir! Gostava da situao, de encontrar algum bastante competitiva para reagir, de modo que ela pudesse usar as 
garras.
    - Menina boba!  a mesma coisa que dizem todos os homens casados  sua mais recente conquista. Julia foi uma das mulheres mais queridas, delicadas, bondosas 
e maravilhosas que j existiram. Fazia tudo para agrad-lo. Sua nica falha foi no lhe conseguir dar todo o sexo que ele desejava, ou o tipo
de sexo que ele queria e exigia; a sim, de certo modo, ele foi obrigado a procurar outras - como voc. Admito que a maioria dos homens casados tm casos extraconjugais, 
mas no fazem o que ele fez!
     Agora, eu detestava a bruxa vingativa - realmente a odiava.
    - O que fez ele de to terrvel? Julia afogou-lhe o filho de trs anos - nada neste mundo me levaria a matar uma criana! No necessito tanto de vingana!
    - Concordo - disse ela, reassumindo o tom suave. - O que Julia fez foi uma loucura. Scotty era um menino to belo e inteligente - mas Paul impeliu-a a fazer 
#160
aquilo. Compreendo o raciocnio de Julia. Scotty era a coisa que Paul mais amava. Quando se procura destruir emocionalmente uma pessoa, elimina-se aquilo que ela 
mais ama.
   Oh! Que horror!
   - Ele sofre, no  mesmo? - indagou ela, saboreando a ocasio, os olhos negros e bonitos brilhando de satisfao. - Ele se tortura, se culpa, deseja ter o filho 
de volta; ento, voc aparece e ele lhe pe um filho no ventre. No pense que a cidade inteira no tem conhecimento de seu aborto! Ns sabemos! Sabemos tudo!
   -  mentira! - berrei. - No foi um aborto! Tive um D & C porque minhas menstruaes no eram regulares!
   - Consta dos registros do hospital - replicou ela, segura de si. - Voc abortou um embrio com duas cabeas e trs pernas: gmeos que no se separaram adequadamente. 
Pobrezinha! No sabe que um D & C  um processo de aborto?
   Submergi em turbilhes de gua escura, afogando-me, afogando-me... Com duas cabeas? Trs pernas? Oh! Deus!... o beb-monstro que eu tanto temia! Mas Paul ainda 
nem me tocara, na poca; no fora Paul.
   - No chore - consolou ela.
     Dei um arranco, afastando-me da mo grande que faiscava de brilhantes.
   - Todos os homens so animais e creio que ele nem lhe contou a verdade. Contudo, no entende que no pode casar com ele? Estou fazendo isto para o seu prprio 
bem. Voc  bonita, jovem, talentosa, e viver em pecado
com um homem casado  puro desperdcio. Salve-se enquanto  possvel.
   As lgrimas toldavam-me a viso. Esfreguei os olhos como uma criana,
sentindo-me uma criana num mundo adulto e louco ao fitar aquele rosto liso e tranqilo.
   - Paul no  casado.  vivo. Julia est morta. Suicidou-se no dia em que matou Scotty.
   Ela acariciou-me o ombro com ar maternal.
   - No, minha criana. Julia no est morta. Vive numa instituio para doentes mentais onde Paul a internou depois que ela afogou Scotty. Louca ou no, continua 
a ser esposa legal de meu irmo.
   Enfiou-me na mo inerte vrios instantneos - fotos de uma mulher magra, de aspecto digno de piedade, deitada numa cama de hospital, cujo rosto aparecia sempre 
de perfil. Uma mulher arrasada pelo sofrimento. Os olhos muito abertos fixavam o espao, inexpressivamente,e os cabelos escuros
espalhavam-se como cordas sobre o travesseiro. No obstante, eu vira muitas
fotografias de Julia para no reconhec-la, por mais mudada que estivesse.
   - A propsito - disse a irm de Paul, deixando-me as fotografias. - Gostei do espetculo. Voc  uma bailarina maravilhosa. E aquele rapaz,  sensacional. Pegue-o. 
Est evidentemente apaixonado por voc.
   Ento, saiu do camarim, deixando-me perdida num mar de sonhos desfeitos e afogando-me no desespero. Como conseguiria eu aprender a nadar num oceano de falsidade?
#161
   Julian acompanhou-me  grande festa oferecida em nossa homenagem. Hordas de pessoas nos rodeavam, felicitando-nos, tecendo-nos elogios rasgados. Nada significavam 
para mim. Eu s conseguia pensar que Paul me mentira, me enganara, tomara-me sabendo que era casado - mentiras odiosas mentiras!
   Nunca Julian se mostrara to atencioso e delicado comigo. Colou-se a mim para danar uma daquelas melodias lentas e antigas; apertou-me tanto que pude sentir 
cada msculo rijo dele, seu corpo e sua masculinidade se comprimia com fora contra mim.
   - Eu a amo, Cathy - sussurrou-me ao ouvido. - Desejo-a tanto que no consigo dormir de noite. Se voc no aceitar depressa, ficarei louco. 
   Enterrou o rosto em meu cabelo penteado para cima.
   - Nunca tive uma garota novinha em folha como voc. Por favor, Cathy, por favor, me ame, me ame...
   Seu rosto danou  minha frente. Parecia um sonho, perfeito como um Deus, mas, ainda assim... ainda assim...
   - Julian, e se eu lhe disser que no sou novinha em folha?
   - Mas ! Sei que !
   - Como pode saber? - disse eu, rindo como se embriagada. - H algo escrito em meu rosto que afirme que ainda sou virgem?
   - Sim - disse ele, convicto. - Seus olhos. Eles me dizem que voc ainda no sabe o que  ser amada.
   - Julian, temo que voc no saiba muita coisa.
   - Voc me subestima, Cathy. Trata-me como um menino pequeno num minuto e, no outro, como um lobo faminto que pretende devor-la. Permita-me fazer-lhe amor e ento 
compreender que jamais foi tocada antes por um homem.
   Eu ri.
   - Est bem - mas apenas por uma noite.
     - Se voc me tiver por uma noite, nunca mais me deixar sair de perto - advertiu ele, os olhos negros brilhando e soltando centelhas.
   - Julian... eu no o amo.
   - Amar, depois desta noite.
   - Oh! Julian - repliquei com um prolongado bocejo. - Estou cansada e meio embriagada... V embora. Deixe-me em paz.
   - De jeito nenhum, menina. Voc disse sim e exigirei o cumprimento da promessa. Esta noite, serei eu. Esta noite e todas as noites pelo resto da sua vida... ou 
da minha.

   Numa chuvosa manh de sbado, com todas as nossas bagagens j empilhadas nos txis que levariam a companhia at o aeroporto, Julian e eu estivemos na pretoria 
com nossos melhores amigos dando apoio moral, e o juiz de paz pronunciou as palavras que nos tornaram marido e mulher "at que a morte os separe". Ao chegar minha 
vez de fazer os votos conjugais, hesitei, com vontade de fugir dali e voltar correndo para Paul. Este ficaria arrasado ao tomar conhecimento. E #162
havia tambm Chris. Mas meu irmo preferiria ver-me casada Com Julian e no Com Paul; fora o que ele me dissera.
   Julian abraou-me com fora, os olhos negros suaves e brilhantes de amor e orgulho. Eu no podia fugir. Podia apenas dizer o que esperavam de mim e, ento, vi-me 
casada com o nico homem que eu jurara jamais permitir tocar-me intimamente. No apenas Julian se mostrava feliz e orgulhoso; o mesmo fazia Madame Zolta, que sorria 
abertamente, dando-nos sua bno,
beijando-nos e derramando lgrimas  maternais.
   - Agiu certo, Catherine. Sero to felizes juntos, um casal to lindo... mas lembrem-se de nao fazerem bebs!
   - Meu bem, querida, amor da minha vida, no fique to triste - segredou-me Julian quando o avio sobrevoava o Atlntico -  o nosso dia de alegria! Juro que jamais 
se arrepender. Serei Um marido fantstico. Nunca amarei outra pessoa seno voc.
    Encostei a cabea no seu ombro e chorei como uma criana! Chorei por tudo que deveria ter tido no dia de meu casamento. Onde estava o canto dos pssaros e o 
repicar dos sinos? Onde estava a grama verdejante e o amor que eu deveria sentir? Onde estava minha me, a causa de tudo o que acontecera
de errado? Onde? Ela chorava ao pensar em ns ou, mais provavelmente, limitava-se a rasgar meus bilhetes com os recortes de jornal? Sim, seria bem ao seu tipo: nunca 
assumir as patifarias que fizera. Com que facilidade partira para uma viagem de segunda lua-de-mel, deixando-nos aos cuidados de uma av impiedosa, e voltara toda 
sorridente e feliz, contando-nos o quanto se divertira! Enquanto ns, trancados num quarto, framos brutalizados e mal
nutridos, ela nem mesmo olhava para Carrie e Cory, que no cresciam por falta de cuidados. Nunca notou as olheiras que encovavam os olhos dos gmeos, nunca reparou 
como eram magros e raquticos os seus membros. Nunca notava nada que no queria ver.
     A chuva continuava a cair  incessantemente, prognosticando o que
encontraramos pela frente. A fria e violenta torrente de gua gelada provocou a
formao de gelo nas asas do avio que me levava cada vez mais longe de todas as pessoas que eu amava. Aquele gelo comeou a formar-se tambm em meu corao. E naquela 
noite eu teria que dormir com um homem de quem nem gostava quando ele no estava no palco, vestindo uma fantasia e representando o papel de prncipe.
    Entretanto, para fazer justia a Julian, na cama ele era tudo o que se gabava de ser. Esqueci-me de quem ele era e fingi que fosse outra pessoa quando seus beijos 
me percorriam o corpo, sem deixar um centmetro quadrado inexplorado, no beijado ou no acariciado. Antes que ele terminasse, eu o
desejava. Sentia-me mais que disposta a permitir que me possusse... e tentei
apagar a idia persistente de que acabava de cometer o maior erro da minha vida.
    E j cometera muitos erros...

#163
Labirinto de Mentiras

    Antes que nossos organismos se adaptassem  diferena de fusos horrios, comeamos a ensaiar sob as vistas do The Royal Ballet, que comparava nosso estilo com 
o deles. Madame Zolta j nos dissera que o estilo deles era estritamente clssico, mas que ns deveramos fazer tudo  nossa maneira, no nos deixando intimidar.
    - Faam como sempre, mantenham a pureza da dana, mas dem a ela sua prpria interpretao. Julian, Catherine, como recm-casados, todas as atenes estaro 
voltadas para vocs - portanto, tornem cada cena a mais romntica possvel. Vocs dois juntos tocam-me o corao e fazem-me
chorar... se continuarem dessa forma, entraro para a histria do Bal.
    Sorriu e as lgrimas inundaram as profundas rugas em torno de seus olhos midos.
    - Vamos todos provar que os Estados Unidos tambm so capazes de produzir o melhor!
    Interrompeu-se, dando-nos as costas para impedir que lhe vssemos o rosto.
    - Amo tanto vocs todos... - soluou. - Agora, vo embora... deixem-me sozinha... e faam-me orgulhosa de vocs!
    Estvamos decididos a dar o melhor de ns, a fim de tornar Madame Zolta famosa outra vez, no como bailarina, mas como professora. Ensaivamos at cairmos exauridos 
na cama.
    O The Royal Opera House, em Covent Gardens, compartilhava o espao com a companhia do Royal Ballet e, quando vimos o teatro pela primeira vez, prendi a respirao 
e apertei com fora a mo de Julian. O auditrio em vermelho e dourado acomodava mais de duas mil pessoas. Sua faiscante srie de balces que se elevava at uma 
alta cpula tendo no centro o desenho de um sol atordoou-me com seu esplendor de estilo antigo. Logo verificamos que as coxias e os bastidores eram muito menos opulentos, 
sem quaisquer encantos
em seus camarins apertados e um labirinto de minsculos escritrios e oficinas. O pior: no havia um estdio para ensaios! Por mais que me esforasse para ver algo 
admirvel nos encanamentos e instalaes de calefao da Inglaterra, fracassei totalmente. O frio era perene, exceto durante o esforo da
dana. Eu detestava o parco suprimento de gua quente nos banheiros, que me obrigava a tomar banho o mais depressa possvel para no morrer enregelada.
    E durante todo o tempo, Julian mantinha-se grudado a mim. Privacidade era algo de que ele jamais ouvira falar e pelo que no tinha o menor respeito. Mesmo quando 
eu estava no banheiro ele tinha que se fazer presente, de modo que eu corria para trancar #164
a porta e deixava-o batendo pelo lado de
fora.
    - Deixe-me entrar! Sei o que est fazendo! Por que tanto segredo?
    No apenas isso, mas ele queria infiltrar-se em minha mente e conhecer
todo o meu passado, meus pensamentos, tudo o que eu fizera.
    - Ento, seus pais morreram num desastre de automvel. O que aconteceu depois? - indagava, apertando-me num abrao de ferro.
    Por que desejava escutar tudo outra vez? Engoli em seco. A essa altura, eu j inventara uma estria plausvel a respeito da lei exigir que fssemos internados 
num orfanato, de modo que Chris, Carrie e eu fomos forados a fugir.
    - Sabe, tnhamos economizado algum dinheiro dos aniversrios, Natais, etc. Tomamos um nibus que deveria levar-nos  Flrida, mas Carrie adoeceu e comeou a 
vomitar. Ento, uma enorme preta gorducha apareceu para conduzir-nos at seu filho mdico. Creio que ele teve pena de ns.
Acolheu-nos... e acho que isto foi tudo.
    - Isto foi tudo - repetiu ele lentamente. - H muito mais coisa que
voc no me conta! Embora eu j possa adivinhar o resto. Ele viu uma fruta
apetitosa numa garota jovem e bonita; por isso mostrou-se to malditamente generoso. Cathy, at que ponto vocs tiveram intimidades?
    - Eu o amava e pretendia casar-me com ele.
    - Mas no se casou, hem? - insistiu Julian. - Por que, afinal, me disse
"sim"?
    Tato e sutileza nunca estiveram entre as minhas virtudes. Enraiveci-me porque ele me obrigava a dar explicaes quando eu no queri tocar no assunto.
    - Voc me perseguia o tempo todo! - respondi furiosa. - Fez-me acreditar que eu poderia aprender a am-lo - mas no creio que possa! Cometemos um erro, Julian! 
Um erro horrvel!
    - Jamais repita uma coisa dessas, ouviu?
    Julian soluou como se eu lhe tivesse causado um ferimento horrvel; lembrei-me de Chris. Eu no poderia passar o resto da vida magoando todas as pessoas que 
me conhecessem. Assim, minha raiva sumiu e permiti que Julian me tomasse nos braos. Baixou a cabea para beijar-me o pescoo.
    - Eu a amo tanto, Cathy. Mais do que j desejei amar qualquer mulher. Nunca ningum me amou pelo que sou. Agradeo-lhe por tentar amar-me, embora diga que no 
me ama.
    Doeu-me escutar o temor em sua voz. Parecia um menino pequeno implorando que o impossvel acontecesse. E talvez eu lhe estivesse fazendo uma injustia. Virei-me 
e abracei-o pelo pescoo.
    - Eu quero amar voc, Jule. Casei-me com voc, estou comprometida e tentarei ser a melhor esposa que me for possvel. Mas no me pressione! No me faa exigncias; 
deixe simplesmente que o amor venha chegando  medida que eu for conhecendo melhor voc.  praticamente um desconhecido para mim, embora j nos conheamos h trs 
anos.
#165
    Ele fez uma careta de dor, como se o amor fosse, na verdade, impossvel
caso eu chegasse a conhec-lo bem. Duvidava tanto de si mesmo! Oh! Deus! o que fizera eu? Que tipo de pessoa era eu, capaz de abandonar um homem sincero, honrado 
e honesto, e correr para jogar-me nos braos de algum que eu suspeitava ser um brutamontes?
    Mame tinha uma propenso para agir impulsivamente e arrepender-se quando j era tarde demais. No fundo, eu no era como ela - no podia ser! Eu possua talentos 
demais para ser como algum que no possua nenhum... nenhum talento exceto fazer com que cada homem se apaixonasse por ela - e
isso no era talento ou inteligncia! No, eu queria ser como Chris... e senti-me perdida mais uma vez, presa como sempre  areia movedia preparada por ela! Tudo 
era culpa dela - at mesmo meu casamento com Julian!
    - Cathy, voc ter que aprender a ignorar muitas falhas - disse Julian. - No me coloque num pedestal; no espere  perfeio. Tenho p de barro, como voc j 
sabe; se tentar transformar-me no Prncipe Encantado que voc deseja... fracassar. Voc tambm colocou aquele seu mdico num pedestal; acho que voc talvez seja 
o tipo de mulher que coloca todos os homens que
ama numa posio to elevada que eles acabam desmoronando l de cima. Procure apenas amar-me e no d importncia s minhas caractersticas que no lhe agradam.
    Eu no possua o dom de ignorar as falhas alheias. Ao contrrio de Chris, sempre percebera as falhas de Mame. Sempre virara as moedas mais brilhantes, procurando 
a face azinhavrada. Gozado. A falha de Paul sempre me parecera culpa de Julia, at Amanda vir-me contar aquela estria pavorosa. Mais uma razo para odiar Mame: 
fazer-me duvidar de meu instinto!
    Muito depois que Julian voltou  calma, permaneci sentada em frente s janelas, observando minha imagem nos compridos rastros de gelo que marcavam as vidraas. 
O clima apenas me indicava o que viria pela frente. A primavera ficara para trs, nos jardins de Paul... E eu era culpada de tudo. No precisava ter acreditado em 
Amanda. Deus me livre se, no final, eu fosse igual a Mame, tanto por dentro quanto por fora!
    Nossas semanas em Londres foram movimentadas, excitantes, cansativas - mas eu temia a hora de regressarmos a Nova York. Durante quanto tempo eu poderia adiar 
o momento de dar a notcia a Paul? No indefinidamente. Mais cedo ou mais tarde, ele teria que saber.

     Pouco depois do primeiro dia da primavera, viajamos de avio at Clairmont e pegamos um txi at  casa de Paul. Era o local de nossa libertao e, aparentemente, 
nada mudara. S eu, pois vinha a fim de devastar a vida de um homem que no merecia ser magoado outra vez.
     Olhei para os arbustos meticulosamente aparados em cones e esferas, as glicnias que floriam, as azalias que se espalhavam por toda parte num festival de cores 
vivas, as grandes magnlias prestes a florir - e sobre todas as folhagens, pendia o musgo espanhol cinzento, criando nesgas de renda viva que davam ao ambiente um 
ar de nvoa e cerrao. Suspirei. Ainda no vira algo
#166
mais belo, romntico e tristonhamente mstico que um velho carvalho coberto
por musgo espanhol - o parasita que terminaria matando o hospedeiro,
como um amor que se apagasse at sufocar.
     Eu pretendia levar Julian ao interior da casa, para, juntos, darmos a notcia a Paul - mas no pude.
     - Importa-se de esperar na varanda enquanto converso com Paul? - indaguei.
    Por algum motivo, Julian simplesmente anuiu com a cabea. Julguei que ele fosse discutir. Concordando, para variar, acomodou-se na cadeira de balano de vime 
pintada de branco na qual encontrramos Paul cochilando naquela tarde de domingo, aps saltarmos do nibus. Naquela poca, Paul tinha quarenta anos; agora, estava 
com quarenta e trs.
    Um tanto trmula, avancei para abrir a porta principal com minha chave. Poderia ter telefonado antes, ou enviado um telegrama. Contudo, tinha necessidade de 
ver-lhe o rosto, observar-lhe os olhos, tentar ler-lhe os pensamentos. Precisava saber se realmente lhe ferira o corao ou apenas magoara-lhe o ego e o orgulho.
    Ningum me escutou abrir a porta. Ningum ouviu-me os passos no assoalho do vestbulo. Paul estava esparramado em sua poltrona predileta, diante do aparelho 
de TV em cores e da lareira. Cochilava. Suas pernas compridas apoiavam-se no banquinho, os ps descalos, os tornozelos cruzados. Carrie sentara-se de pernas cruzadas 
no cho, ao lado da poltrona, sempre necessitada de estar perto de algum que a amasse. Estava profundamente absorta em
brincar com suas bonequinhas de porcelana. Usava um suter branco com punhos e gola vermelhos e, sobre ele, seu bluso vermelho de veludo piqu. Parecia uma linda 
bonequinha.
    Meus olhos voltaram mais uma vez a Paul. Dormitando levemente, ele trazia no rosto a expresso de quem aguardava ansiosamente. At mesmo seus ps cruzavam-se 
e descruzavam-se repetidamente, enquanto os dedos das mos se distendiam e tornavam a contrair-se em punhos cerrados. A cabea, jogada para trs a fim de descansar 
no espaldar alto da poltrona, tambm se
movimentava de um lado para outro... sonhando, presumi - talvez comigo. Ento, virou o rosto na minha direo. Mesmo dormindo, pressentira minha presena?
    As plpebras se abriram com extrema lentido. Ele bocejou, erguendo a mo para tapar os lbios... ento, fitou-me estonteado. Como se eu no passasse de uma 
apario.
    - Catherine? - murmurou. -  voc?
    Carrie escutou a pergunta, levantou-se de um salto e correu para mim. No parava de repetir meu nome quando a tomei nos braos, erguendo-a bem no alto. Cobri-lhe 
o rostinho de beijos e abracei-a com tanta fora que ela protestou:
    - Ai! Assim, me machuca!
    Parecia to bonita, fresca e bem alimentada.
    - Oh! Cathy, por que ficou tanto tempo longe de casa? Espervamos
#167
todos os dias e voc nunca chegava! Comeamos a fazer planos para o casamento, mas quando voc no escreveu o Dr. Paul achou melhor esperarmos. Por que s nos enviou 
cartes postais? No teve tempo para escrever cartas compridas? Chris disse que voc deveria estar muito ocupada.
    Livrou-se de meus braos e voltou a sentar-se junto  poltrona de Paul,
fitando-me com ar de censura. 
    - Cathy... esqueceu-se de ns, no foi? S quer saber de danar. E no precisa da famlia quando est danando.
    - Sim, preciso de minha famlia, Carrie - respondi distraidamente, com o olhar fixo em Paul, tentando adivinhar o que ele pensava.
    Paul ergueu-se e caminhou para mim, o olhar preso ao meu. Abraamo-nos e beijamo-nos, enquanto Carrie permanecia calada no cho, como se estudasse a maneira 
pela qual uma mulher deve agir com o homem que ama. Os
lbios de Paul apenas roaram os meus. No obstante, seu toque provocou-me arrepios que Julian era incapaz de causar.
    - Voc parece diferente - disse-me ele naquele seu jeito vagaroso e suave. - Perdeu peso. E parece cansada. Por que no telefonou ou telegrafou para avisar que 
estava a caminho de casa? Eu iria busc-la no aeroporto.
    - Voc tambm parece mais magro - repliquei num sussurro rouco.
    A perda de peso caa-lhe melhor que em mim. O bigode parecia mais escuro e espesso. Toquei-o de modo hesitante, carinhoso, sabendo que j no me pertencia - 
o bigode que ele deixara crescer s para me agradar.
    - Sofri quando parou de me escrever todos os dias. O que houve? O horrio ficou apertado demais?
    - Mais ou menos isso.  cansativo ter que danar todos os dias e, ao mesmo tempo, procurar conhecer o mximo de lugares possvel... Fiquei to ocupada que nunca 
me sobrava tempo suficiente.
    - Fiz uma assinatura da Variety.
    - Oh!... foi tudo o que consegui dizer, rezando para que a revista no tivesse mencionado meu casamento com Julian.
    - Arvorei-me em seu servio particular de recortar notcias, embora Chris tambm esteja compilando um lbum de recortes a seu respeito. Sempre que ele est em 
casa, comparamos nossos recortes; se um de ns dois tem algo que o outro ainda no possui, mandamos tirar fotocpias.
    Interrompeu-se, como se intrigado por minha fisionomia, expresso, ou algo semelhante.
    - As crticas so sensacionais, Catherine. Por que parece to... to...
indiferente?
    - Estou cansada - como voc mesmo disse - baixei a cabea, sem saber o que dizer ou como enfrentar-lhe o olhar. - E como esto vocs?
    - Catherine, o que h? Parece to esquisita.
    Carrie me olhava com ateno... como se Paul lhe houvesse expressado os pensamentos. Corri os olhos pela espaosa sala cheia dos belos objetos colecionados por 
Paul. O sol atravessava as persianas de marfim e incidia sobre as miniaturas no alto tagre com prateleiras de vidro, tendo ao fundo um
#168
espelho negro com veios de ouro, iluminado de cima a baixo. Como era fcil esconder-me olhando em volta, fazendo de conta que tudo estava bem, quando, na verdade, 
tudo estava errado.
    - Catherine, fale comigo! - exclamou Paul. - H algo errado!
    Sentei-me, os joelhos fracos, um n na garganta. Por que eu jamais conseguia fazer algo certo? Como fora ele capaz de mentir, iludindo-me, quando sabia que eu 
estava farta de mentiras e falsidades? E, no obstante, como podia parecer ainda to digno de confiana?
    - Quando Chris estar em casa?
    - Na sexta-feira, para os festejos da Pscoa.
    Paul lanou-me um olhar prolongado e pensativo, julgando o fato estranho, pois geralmente Chris e eu mantnhamos constante contato. Naquele momento, Henny entrou 
para cumprimentar-me com um grande abrao e um
beijo... e no pude mais adiar... embora encontrasse um meio de faz-lo.
    - Paul, eu trouxe Julian para casa comigo... Est na varanda, esperando. Voc se importa?
    Ele me olhou de forma muito esquisita e depois meneou a cabea. 
    - Claro que no. Mande-o entrar.
    Ento, voltou-se para Henny:
    - Ponha mais dois lugares  mesa.
    Julian entrou e, segundo minhas instrues, no disse uma s palavra que revelasse nosso casamento. Havamos ambos retirado as alianas, guardando-as nos bolsos. 
Foi a mais estranha e silenciosa das refeies; at mesmo quando Julian e eu distribumos os presentes, a atmosfera se tornou mais tensa. Carrie limitou-se a fitar 
a pulseira de rubis e ametistas, embora Henny sorrisse largamente ao colocar no brao a pulseira de ouro macio.
    - Muito obrigado pela bela miniatura de bailarina, Cathy - disse Paul, depositando cuidadosamente meu presente sobre a mesa mais prxima. - Julian, poderia dar-nos, 
a Catherine e a mim, um minuto de licena? Gostaria de conversar com ela em particular.
    Pronunciou essas palavras no tom de um mdico que requisita uma conversa em particular com o membro da famlia  responsvel por um paciente em estado crtico. 
Julian anuiu com a cabea e sorriu para Carrie, que lhe devolveu um olhar raivoso.
    - Vou recolher-me - declarou ela com ar de desafio. - Boa-noite, Sr. Marquet. No sei por que razo precisou ajudar Cathy a comprar-me esta pulseira, mas, de 
todo modo, muito obrigada.
    Julian foi deixado na sala, assistindo  televiso, enquanto Paul e eu saamos para passear nos magnficos jardins. As rvores frutferas j floresciam e as 
rosas de vrias cores que subiam pelas trelias brancas apresentavam um belo espetculo.
    - O que h de errado, Catherine? - indagou Paul. - Voc volta para minha casa em companhia de outro homem, de modo que talvez nem seja necessrio explicar. Sou 
capaz de adivinhar.
    Baixei depressa a mo para pegar a dele.
#169
    - Pare! No diga nada!
    Com voz entrecortada, muito vagarosa, comecei a relatar a visita de sua irm. Declarei que, agora, tinha conhecimento de que Julia continuava viva e, embora 
eu pudesse compreender as motivaes de Paul, ele deveria ter-me contado a verdade.
    - Por que me induziu a acreditar que ela estivesse morta, Paul? Julgou-me to infantil a ponto de no conseguir suportar a notcia? Se me tivesse contado, eu 
compreenderia. Eu o amava - jamais tenha a menor dvida quanto a isso! No me entreguei a voc por achar que lhe devia alguma coisa.
Entreguei-me porque desejei dar-me, porque necessitava desesperadamente de voc. Jamais pensei em casamento e estava muito feliz com o relacionamento que tnhamos. 
Seria sua amante pelo resto da vida - mas voc devia ter-me contado a respeito de Julia! Deveria conhecer-me o bastante para saber que sou impulsiva, que ajo sem 
pensar quando sou magoada... e fiquei terrivelmente magoada naquela noite em que Amanda veio contar-me que sua esposa ainda estava viva!
     Mentiras! - bradei. - Oh! como detesto os mentirosos! Voc, dentre todas as pessoas no mundo, mentiu para mim! Excetuando Chris, no havia ningum em quem eu 
confiasse mais que em voc!
    Ele estacou, como eu. As esttuas nuas de mrmore nos cercavam, parecendo zombar de ns. Riam do amor que fracassara. Agora, estvamos como elas: imveis e frios.
    - Amanda - disse Paul, pronunciando o nome como se tivesse na boca algo amargo, que merecia ser cuspido longe. - Amanda e suas meias-verdades. Voc me pergunta 
por que... Ento, por que no perguntou isso antes de... partir para Londres? Por que no me deu uma oportunidade de defender-me?
    - Como  possvel defender mentira? - repliquei maldosamente, desejando mago-lo tanto quanto fora magoada naquela noite, no momento em que Amanda se retirara 
do teatro.
    Paul se afastou, encostou-se ao tronco de um velho carvalho e tirou do bolso um mao de cigarros.
    Tragou fundo, exalando lentamente a fumaa. Esta veio na minha direo, envolvendo-me a cabea, o pescoo, o corpo e afugentando o aroma das rosas.
    - Lembre-se de quando chegou aqui - comeou Paul, sem apressar-se... - Sentia-se muito amargurada pela perda de Cory, sem falarmos no que sentia a respeito de 
sua me. Como poderia eu relatar-lhe minha srdida histria,  quando voc j passara por tanto sofrimento? Como poderia eu prever que nos tornaramos amantes? A 
mim, voc parecia apenas uma bela criana
assustada, embora me tenha tocado profundamente. Sempre me tocou de modo muito profundo. Como me toca agora, a parada com esse olhar acusador. No obstante, tem 
razo: eu devia ter-lhe contado.
    Exalou um pesado suspiro.
#170
    - Eu lhe contei a respeito do dia em que Scotty completou trs anos e Julia o levou at o rio, segurando-o sob a gua at mat-lo por afogamento. Mas no lhe 
contei que ela continuou viva... Toda uma equipe mdica
trabalhou nela durante horas a fio, procurando tir-la da coma, mas no foi
possvel.
    - Coma? - murmurei. - Ela continua viva... e ainda em coma?
    Ele sorriu com grande amargura e, depois, ergueu os olhos para a lua, que tambm parecia sorrir sarcasticamente. Ento, voltou a cabea e encarou-me.
    - Sim, Julia permaneceu viva, o corao batendo. Antes de voc e seus irmos chegarem  minha casa, eu ia visit-la diariamente numa instituio particular. 
Sentava-me ao lado de sua cama, segurando-lhe a mo, forando-me a olhar para o rosto abatido e o corpo esqueltico... Era o melhor meio de atormentar-me e tentar 
lavar-me do remorso que sentia. A cada dia, vi-lhe os cabelos ficarem mais ralos - as fronhas, cobertas, tudo enfim, cheio de cabelos, enquanto Julia definhava diante 
de meus olhos. Estava ligada a tubos que lhe auxiliavam a respirao, alm de um tubo que a alimentava intravenosamente pelo brao. Suas ondas cerebrais eram nulas, 
mas o corao continuava a pulsar. Mentalmente, estava morta; fisicamente, vivia. Se algum dia sasse da coma, nunca mais conseguiria falar, movimentar-se ou mesmo 
pensar.
Tornara-se uma morta-viva aos vinte e seis anos de idade, a partir do dia em que
levara meu filho ao rio para afog-lo em gua rasa. Era-me difcil acreditar que
uma mulher que amasse tanto o filho fosse capaz de afog-lo sentindo-o debater-se para sobreviver... e, no obstante, ela o fez apenas para vingar-se de mim.
    Parou de falar, bateu a cinza do cigarro e tornou a olhar para mim.
    - Julia me lembra sua me: ambas so capazes de tudo, desde que se sintam justificadas.
    Suspirei, Paul suspirou, as flores tambm suspiraram. Creio que as esttuas de mrmore nos imitaram igualmente os suspiros, apesar de serem incapazes de compreender 
a condio humana.
    - Quando viu Julia pela ltima vez, Paul? Ela no tem a mnima possibilidade de recobrar-se totalmente?
    Comecei a chorar.
    Paul tomou-me nos braos, beijando.me o alto da cabea.
    - No chore por ela, minha bela Catherine. Tudo acabou para Julia, agora, afinal, ela descansou. Morreu menos de um ms depois que nos tornamos amantes. Simplesmente 
partiu, tranqila. Lembro-me de que, na ocasio, voc me olhava como se pressentisse algo errado comigo. No foi por am-la menos que me senti obrigado a retrair-me 
e analisar-me. Foi uma mescla
dolorosa de remorso e tristeza por algum to doce e linda como Julia, a minha
namorada de infncia, ter que abandonar esta vida sem experimentar ao menos uma vez todas as coisas belas e maravilhosas que ela nos tem a oferecer.
    Tomou-me o rosto entre as mos e enxugou-me as lgrimas com beijos cheios de ternura.
#171
    - Agora, sorria e diga-me as palavras que lhe vejo nos olhos: diga-me que me ama. Quando trouxe Julian consigo para casa, julguei que tudo acabara entre ns, 
mas agora posso perceber que jamais acabar. Voc me deu o que tem de melhor dentro de si e sei que mesmo quando estiver a milhares de
quilmetros, danando com homens mais bonitos e mais jovens que eu... ser fiel a mim como eu serei a voc. Faremos tudo dar certo porque duas pessoas que se amam 
sinceramente sempre podem superar todos os obstculos, quaisquer que estes sejam
    Oh!... como poderia eu contar-lhe agora?
    - Julia morreu? - indaguei com voz trmula, profundamente chocada, odiando Amanda e a mim mesma. - Amanda mentiu... Ela sabia que Julia morrera e, ainda assim, 
foi a Nova York contar-me uma mentira? Oh! Paul,
- que tipo de mulher ela ?
    Ele me abraou com tanta fora que as costelas me doeram, mas, a despeito da dor, mantive-me agarrada a ele, pois sabia que aquela era a ltima vez que poderia 
faz-lo. Beijei-o com violncia e paixo, sabendo que jamais tornaria a sentir-lhe os lbios nos meus. Ele riu, cheio de jbilo, sentindo todo o amor e paixo que 
eu nutria por ele. Ento, numa voz mais despreocupada e
feliz, explicou:
    - Minha irm sabia quando Julia morreu, pois compareceu ao enterro, embora se recusasse a falar comigo na ocasio. Agora, por favor, pare de chorar. Deixe-me 
enxugar-lhe as lgrimas.
    Usou o leno para secar meu rosto e os cantos dos olhos. Depois, entregou-o a mim para assoar o nariz.
    Agi como criana, a criana impulsiva e impaciente que Chris me advertira que no fosse - e tra Paul, que confiava em mim.
    - Ainda no consigo compreender Amanda - lamuriei-me dolorosamente, continuando a adiar o momento da verdade que me sentia incapaz de enfrentar.
    Paul abraou-me, acariciando-me as costas e os cabelos, enquanto eu o
enlaava pela cintura, fitando-lhe o rosto.
    - Querida Catherine, por que est com aparncia to esquisita e age de modo to estranho? - indagou ele com a voz de volta ao normal. - Nada que minha irm diga 
pode impedir-nos de gozar os prazeres que a vida nos oferece. Amanda deseja expulsar-me de Clairmont. Quer apoderar-se desta casa, a
fim de d-la ao filho. Portanto, faz o possvel para arruinar-me a reputao.
Desenvolve grande atividade social e enche os ouvidos das amigas com calnias a meu respeito. E se existiram mulheres antes de Julia afogar meu filho, isto foi lio 
suficiente para me fazer mudar de procedimento. No existiu mulher nenhuma at voc! At mesmo ouvi boatos a respeito de Amanda ter espalhado pela cidade que engravidei 
voc e que a D & C foi, na verdade um aborto. Como est vendo, aquela mulher vingativa  capaz de tudo!
    Agora, era tarde - tarde demais. Paul tornou a me pedir que parasse de chorar.
    - Amanda - disse eu, com esforo, prestes a perder o controle. -
#172
Ela afirmou que uma D & C era o mesmo que um aborto. Declarou que voc guardara o embrio e que este possua duas cabeas. Vi aquilo num vidro, em seu consultrio. 
Como pde guardar tal coisa, Paul? Por que no a enterrou? Um beb monstruoso! No  justo... no ... por qu?
    Paul gemeu, passando a mo nos olhos para negar depressa tudo aquilo.
    - Eu seria capaz de mat-la por lhe dizer isso!  mentira, Catherine!  mentira!
    -  mesmo mentira? Bem sabe que o feto poderia ser meu. Em nome de Deus! Chris no sabe... ele no mentiu para mim, no ?
    Paul pareceu frentico ao negar tudo e tentou abraar-me outra vez, mas recuei de um salto e estendi os braos para mant-lo a distncia.
    - Existe em seu consultrio um vidro contendo um feto desse tipo! Eu vi! Oh! Paul, como foi capaz? Voc, dentre todas as pessoas, guardar uma coisa como aquela!
    - No! - protestou ele, de imediato. - Deram-me aquilo h muitos anos, quando eu cursava a faculdade de medicina... uma espcie de pilhria... Os acadmicos 
de medicina esto sempre fazendo brincadeiras que as pessoas normais considerariam macabras. Digo-lhe a verdade, Catherine: voc no abortou!
    Ento, calou-se bruscamente. Meus pensamentos rodavam num tumulto. Eu me trara!
    Comecei a chorar. Chris, Chris, era um beb, um monstro, como temamos!
    - No! - repetiu Paul vrias vezes. - No era seu e, mesmo que fosse, no faria a menor diferena para mim. Sei que voc e Chris se amam de um modo muito especial. 
Sempre soube, e compreendo.
    - Uma vez - murmurei por entre soluos. - Apenas uma vez, numa noite terrvel.
    - Sinto muito que tenha sido terrvel.
    Ento, olhei para o rosto de Paul, maravilhando-me de que ele pudesse
encarar-me com tanta ternura e respeito, mesmo conhecendo a verdade toda.
    - Paul -murmurei, trmula e tmida. - Foi um pecado imperdovel?
    - No... eu diria que foi um compreensvel ato de amor.
    Abraou-me, beijou-me, acariciou-me as costas e comeou a falar dos planos para nosso casamento.
    - ... Chris levar voc ao altar e Carrie ser a dama de honra. Chris se
mostrou muito hesitante, recusando-se a encarar-me quando discuti o assunto com ele. Declarou que no a julgava bastante  amadurecida para enfrentar um casamento 
complicado como ser o nosso. Sei que no ser fcil para voc, nem para mim. Voc viajar pelo mundo, danando com homens jovens e bonitos; contudo, espero ansiosamente 
por uma oportunidade para
acompanh-la numa dessas viagens. Ser inspirador e excitante ver-me como marido de
uma prima ballerina. Por falar nisso, eu poderia at mesmo ser o mdico da companhia de bal. Sem dvida, os bailarinos necessitam ocasionalmente dos servios profissionais 
de um mdico, no  mesmo?
#172
    Senti-me morta por dentro.
    - Paul - comecei, atordoada. - No posso me casar com voc.
    Ento, bastante fora do contexto, prossegui:
    - Sabe, no foi estupidez de mame esconder nossas certides de nascimento no forro daquelas maletas? Ela no fez o servio direito e os forros se rasgaram permitindo 
que eu encontrasse os documentos. Sem a certido de nascimento, eu no poderia requisitar um passaporte; sem ela, tambm no conseguiria provar que tinha idade suficiente 
para solicitar uma licena de
casamento. Compreenda: poucos dias antes de partirmos para Londres, fizemos os exames de sangue exigidos por lei, Julian e eu; a cerimnia do casamento foi muito 
simples, com a presena de Madame Zolta e outros membros da companhia. At mesmo quando pronunciei os votos conjugais, jurando
fidelidade a Julian, eu estava pensando em voc... em voc e em Chris... detestando-me e sabendo que estava agindo errado.
    Paul no disse uma palavra. Recuou como se tivesse levado um golpe na cabea e depois cambaleou at deixar-se cair num banco de mrmore. Por algum tempo, limitou-se 
a ficar sentado imvel. Ento, apoiou a cabea nas mos, escondendo o rosto.
    Fiquei em p enquanto ele permanecia sentado. Paul perdeu-se em algum lugar de sua prpria mente, enquanto eu aguardava que ele voltasse a si e comeasse a brigar 
comigo. Todavia, quando falou, sua voz foi macia como um sussurro:
    - Venha sentar-se perto de mim por algum tempo. Segure minha mo. D-me tempo para entender que est tudo acabado entre ns.
    Fiz-lhe a vontade. Segurei-lhe a mo e ambos fitamos o cu estrelado, onde tambm havia nesgas de nuvens negras.
    - Nunca mais ouvirei seu tipo de msica sem me lembrar de voc...
    - Perdoe-me, Paul! Quem me dera ter dado ouvidos ao meu instinto, que me dizia que Amanda mentia. Mas a msica tambm tocava no lugar onde eu me encontrava; 
voc estava to distante e Julian to perto de mim, implorando, dizendo-me que me amava e que precisava de mim. Ento, convenci-me de que voc no gostava realmente 
de mim. No suporto viver sem algum que me ame.
    - Sinto-me muito feliz por saber que Julian a ama - disse Paul.
    Ento, levantou-se depressa e partiu em direo  casa, em passos to longos e rpidos que eu jamais conseguiria acompanh-lo, mesmo que corresse atrs dele.
     - No diga mais uma s palavra! Deixe-me em paz, Catherine! No me acompanhe! Voc agiu corretamente - nunca tenha a menor dvida a respeito! Fui um velho tolo, 
metendo-me a brincar com uma jovem - e no precisa dizer-me que eu deveria ter mais juzo: j sei disso, muito bem!

#174
Amores Demais para Perder

    Surda e petrificada como uma das esttuas de mrmore de Paul, sentei-me na varanda e fitei o cu noturno que se tornava tempestuoso com nuvens negras. Julian 
saiu da casa para sentar-se a meu lado. Em seus braos, comecei a chorar baixinho.
    - Por qu? - indagou ele. - Voc me ama um pouquinho, no ama? O seu doutor no pode estar realmente magoado; tratou-me de modo muito bondoso e disse-me que 
viesse aqui para reconfort-la.
    Naquele momento, Henny apareceu na varanda e, com sua mmica rpida como o raio, revelou que seu filho-doutor estava arrumando as malas para uma viagem e eu 
deveria ficar na casa.
    - O que lhe diz ela? - quis saber Julian, aborrecido. - Diabo!  como
ouvir algum falar um idioma desconhecido. Sinto-me to ignorado!
    - Fique aqui e espere! - ordenei.
    Ento, levantei-me de um pulo e corri para dentro de casa, galgando a escada como se voasse. Entrei no quarto de Paul, onde este jogava roupas numa mala aberta 
em cima da cama.
    - Escute! - gritei, angustiada. - No tem motivo para partir! Esta casa  sua! Eu irei embora. Levarei Carrie comigo, de modo que voc nunca mais precisar ver 
minha cara!
    Paul virou-se para lanar-me um olhar prolongado e cheio de amargura, enquanto continuava a enfiar as camisas na mala.
    - Cathy, voc me tirou a esposa que eu sonhava ter um dia e agora est querendo levar minha filha. Carrie  como se fosse do meu prprio sangue. Alm disso, 
nunca se adaptar a seu tipo de vida. Deixe-a ficar comigo e Henny. Voltarei antes de vocs partirem... E acho melhor saberem que o pai de Julian est muito, muito 
doente.
    - Georges est doente?
    - Sim. Talvez vocs no saibam que ele sofre h muitos anos de uma molstia renal e se encontra num aparelho de dilise h vrios meses. No creio que tenha 
muito tempo de vida. No  meu cliente, mas procuro visit-lo sempre que possvel, mais ou menos para saber notcias de Julian e voc. Agora, Cathy, faa o favor 
de retirar-se e no me obrigue a dizer coisas das quais
talvez eu me arrependa.
    Deitei-me de bruos em minha cama e chorei com o rosto no travesseiro at que Henny entrou no quarto.
    Mos escuras, fortes e maternais deram-me palmadinhas nas costas. Os midos olhos castanhos de Henny diziam o que sua lngua no conseguia falar. Falou-me por 
meio de gestos e, afinal, tirou do bolso do avental um recorte do jornal local. A notcia de meu casamento com Julian!
#175
    - Henny! - lamuriei-me. - O que vou fazer? Estou casada com Julian e no posso pedir o divrcio; ele depende de mim, creia-me!
    Henny sacudiu os ombros largos, indicando que as pessoas eram to complexas para ela quanto para mim. Ento, movimentou rapidamente as mos:
    - Irm mais velha sempre criou dificuldades. Um homem j sofre; no adianta fazer dois sofrerem Doutor homem bom, forte, sobreviver  decepo. Mas jovem danarino 
talvez no sobreviva. Enxugue as lgrimas, no chore mais. Mostre belo sorriso e desa para pegar a mo do novo marido. Tudo
correr bem Voc ver.
    Segui as instrues de Henny e juntei-me a Julian na sala de estar, onde lhe disse que seu pai estava doente e prestes a morrer. Seu rosto plido ficou ainda 
mais branco. Mordeu nervosamente o lbio inferior.
    -  mesmo to grave assim?
    Eu sempre tivera a impresso de que Julian no ligava muito para o pai, de modo que me surpreendi com sua reao. Naquele momento, Paul entrou na sala com as 
malas e se ofereceu para levar-nos ao hospital.
    - E no se esqueam: minha casa tem muitos quartos e no h o menor motivo para que vocs dois cheguem a pensar em ir para um hotel. Fiquem pelo tempo que quiserem. 
Voltarei dentro de alguns dias.
    Tirou o carro da garagem a fim de que Julian e eu pudssemos embarcar
no banco dianteiro. Quase no falamos at que Paul nos deixou  porta do hospital. Tristonha, hesitei nos degraus, observando o carro de Paul afastar-se.

    Haviam instalado Georges num quarto particular e Madame Marisha lhe fazia companhia. Quando vi Georges na cama, prendi a respirao! Oh! ficar assim! Estava 
to magro que j parecia morto. O rosto tinha uma palidez acinzentada e todos os ossos se mostravam salientes, parecendo picos escarpados sob a pele fina. Madame 
Marisha estava encolhida ao lado do marido, fitando-lhe o rosto descarnado, implorando com os olhos, ordenando-lhe que continuasse vivo!
    - Meu amor, meu amor, meu amor - repetia, como se acalentasse um beb. - No v, no me deixe sozinha. Ainda temos tanto para fazer, para experimentar... Nosso 
filho tem que ser famoso antes de voc morrer...
Agente firme, meu amor, agente firme...
    S ento Madame Marisha ergueu os olhos e nos avistou. Com a mesma autoridade de sempre, repreendeu:
    - Muito bem, Julian, at que enfim voc veio! Depois de todos os telegramas que lhe mandei! O que fez deles? Rasgou-os e continuou a danar,
como se nada alm disso tenha importncia?
    Empalideci, muito espantada, e olhei de Julian para Madame.
    - Minha querida me - replicou Julian friamente. - Estvamos cumprindo um contrato de temporada, como voc bem sabe. Tnhamos assumido compromissos e, portanto, 
minha esposa e eu tratamos de honr-los.
#176
    - Seu bruto desalmado! - rosnou ela, fazendo um gesto para que Julian se aproximasse. - Agora, diga algo bom e carinhoso para aquele homem na cama - sibilou 
ela num Sussurro. - Seno, juro por Deus, farei com que deseje nunca ter nascido!
    Julian encontrou grande dificuldade para fazer o esforo de aproximar-se da cama - tanto, na verdade, que fui obrigada a empurr-lo enquanto Madame Marisha soluava 
num punhado de lenos de papel cor-de-rosa.
    - Ol, Papai - foi tudo que Julian conseguiu dizer, acrescentando: - Sinto muito que esteja to doente.
    Voltou depressa para junto de mim, abraando-me com fora; senti-o tremer da cabea aos ps.
    - Veja, meu amor, meu querido, minha vida - tornou a acalentar madame Marisha, debruando-se outra vez sobre o marido e alisando-lhe os cabelos negros lisos 
e midos. - Abra seus queridos olhos e veja quem viajou de avio milhares de quilmetros para estar a seu lado. O seu Julian e a esposa. Viajaram imediatamente de 
Londres quando foram informados de que voc estava doente. Abra os olhos, meu corao, para v-lo outra vez, para v-los juntos, um belo casal de noivos... por favor, 
meu amor, abra os olhos, veja-os...
    Sobre a cama, a caricatura plida e esqueltica de um homem entreabriu os olhos escuros, que se movimentaram devagar, procurando focalizar-se em ns. Estvamos 
junto aos ps da cama, mas ele pareceu no nos enxergar. Madame Marisha levantou-se a fim de empurrar-nos para mais perto do marido e depois segurou Julian, impedindo-o 
de recuar. Georges abriu um pouco mais os olhos e mostrou um leve sorriso.
   -  Ah! Julian - suspirou. - Obrigado porvir. Tenho tanto a lhe dizer... coisas que deveria ter dito antes...
     Perdeu o flego momentaneamente e gaguejou:
   - Eu deveria...
   Ento, interrompeu-se. Aguardei que continuasse - e fiquei aguardando. Vi seus olhos se abrirem totalmente, esgazeando-se e tornando-se vidrados. Sua cabea ficou 
totalmente imvel. Madame Marisha gritou! Um mdico e uma enfermeira chegaram correndo e nos foraram a sair do quarto. Ento,
cuidaram de Georges.
   Formamos um pequeno grupo digno de pena no corredor em frente ao quarto de Georges. Pouco tempo depois, o mdico grisalho saiu para dizer que sentia muito, mas 
haviam feito todo o possvel. Tudo terminara.
    -  melhor assim - acrescentou. - A morte pode ser uma boa amiga para os que sofrem muito. Espanto-me de que ele tenha suportado tanto tempo...
    Olhei fixamente para Julian. Podamos ter regressado antes. Mas Julian assumiu um ar inexpressivo e se recusou a falar.
    - Ele era seu pai! - berrou Madame marisha, com as lgrimas correndo pelo rosto. - Sofreu durante duas semanas, esperando ver voc antes de se deixar morrer 
e escapar do inferno da vida!
#177
    Julian girou nos calcanhares, o rosto plido avermelhado de fria, e replicou:
    - Madame Me, diga apenas o que meu pai me deu! Para ele, eu era simplesmente a sua continuao! Tudo o que ele foi para mim no passou de um professor de bal! 
Ensaie, dance - era tudo o que ele me dizia! Jamais
conversou sobre o que eu desejava alm do bal; pouco ligava ao que eu desejasse ou necessitasse fora do bal! Eu queria que ele me amasse pelo que eu era; desejava 
que visse em mim um filho, no um bailarino! Eu o amava; queria que ele percebesse e que dissesse que retribua meu amor... mas ele nunca o fez! Por mais que eu 
tentasse danar com perfeio, ele jamais me elogiou,
pois nunca fui capaz de apresentar-me como ele o fazia quando tinha minha idade! Eis o que eu era para ele: algum que calasse suas sapatilhas e desse continuao 
 sua fama! Mas, a despeito de vocs dois, tenho meu prprio nome, devidamente legalizado: Julian Marquet - e no Georges Rosencoff!
Portanto, o nome dele no sobreviver para roubar-me a fama que conseguirei sozinho!
    Naquela noite, tomei Julian nos braos, compreendendo-o como nunca o entendera antes. Quando ele deixou de resistir e comeou a chorar, chorei com ele por um 
pai que ele declarava desprezar mas, no fundo, amava. E, lembrando-me de Georges, refleti o quanto era triste que tivesse tentado, tarde demais, dizer ao filho o 
que j lhe devia ter dito havia muitos anos.
    Assim, regressamos de uma lua-de-mel durante a qual conseguramos uma certa dose de fama e publicidade, alm de muitas e muitas horas de trabalho rduo, para 
comparecermos ao funeral de um pai que jamais tomaria conhecimento das realizaes do filho. Toda a glria de Londres
parecia-lhe agora envolta numa nvoa fnebre.
    Madame Marisha estendeu os braos para mim quando a cerimnia se encerrou  beira do tmulo. Tomou-me nos braos magros como outrora devia ter abraado Julian. 
Ficamos enlaadas numa espcie de transe hipntico,
ambas chorando.
    - Seja boa para meu filho, Catherine - pediu-me ela, soluando e fungando. - Tenha pacincia com ele quando se portar como um selvagem. Julian no teve uma vida 
fcil, pois grande parte do que diz  verdade. Sempre se sentiu colocado em competio com o pai e nunca conseguiu sobrepujar a
capacidade deste. Agora, vou dizer-lhe uma coisa: o meu Julian nutre por voc um amor quase sagrado. Julga que voc foi a melhor coisa que lhe aconteceu na vida 
e, para ele, voc no tem defeitos. Se tiver, esconda-os. Num espao de apenas poucos meses, apaixonou-se e desapaixonou-se uma centena de vezes. Voc o frustrou 
durante anos. Portanto, agora que ele  seu marido,
d-lhe generosamente todo o amor que lhe foi negado, pois no sou uma mulher expansiva. Sempre desejei ser, mas, de algum modo, nunca consegui humilhar-me e ser 
a primeira a toc-lo. Toque-o com freqncia, Catherine. Segure-lhe a mo quando ele fizer meno de afastar-se e emburrar-se. Compreenda por que motivo ele  instvel 
e ame-o trs vezes mais por causa disso. Dessa
forma, extrair dele o que possui de melhor, pois Julian tem qualidades admirveis. Tem #178
que ter, pois  filho de Georges.
    Beijou-me, despediu-se e fez-me prometer visit-la muitas vezes em companhia de Julian.
    - Arranjem um cantinho para mim em suas vidas - pediu-me com um ar tristonho que lhe alongava o rosto e ensombrecia os olhos.
    Entretanto, quando prometi e virei o rosto, Julian nos observava com um olhar duro.

    Chris voltou para casa nos feriados da Pscoa e cumprimentou Julian sem entusiasmo. Percebi que Julian o observava com olhos semicerrados, cheios de suspeita.
    To logo Chris e eu ficamos a ss, meu irmo berrou:
    - Voc se casou com ele? Por que no pde esperar? Como pde ter tanta intuio quando estvamos presos e ser to idiota agora, que estamos em liberdade? Eu 
estava errado em no querer que se casasse com Paul apenas porque ele  muito mais velho que voc! E confesso que sentia cimes, no
querendo que voc se casasse com ningum. Sonhava que voc e eu... Bem, voc sabe o que eu sonhava. Mas se tinha que haver uma escolha entre Paul e Julian, que fosse 
Paul! Foi ele quem nos acolheu, deu-nos alimentos e roupas;  ele quem nos d tudo o que podemos desejar neste mundo. No gosto de
Julian. Ele a destruir.
    Hesitou, virando-se de costas para esconder o rosto. Tinha vinte e um anos e comeava a assumir a fora viril de um homem adulto. Nele eu via muito de nosso 
pai - e tambm de nossa me. E, quando queria, eu era capaz de torcer as coisas em meu proveito, de modo que pensei que, sob certos
aspectos, Chris era mais semelhante a Mame que a Papai. Comecei a dizer isto, mas tambm perdi o rumo e me calei, pois no poderia dizer tal coisa a meu irmo. 
Este nada tinha de semelhante  nossa me!
     Chris era forte... ela era fraca. Chris era nobre; ela no possua o mnimo senso de honradez.
    - Chris... no dificulte as coisas para mim. Sejamos amigos novamente. Julian  esquentado e arrogante, e mais uma poro de coisas que irritam a gente  primeira 
vista. No fundo, porm, no passa de um menino.
    - Mas voc no o ama - replicou Chris, sem me encarar.
    Julian e eu partiramos dentro de poucas horas. Convidei Carrie a vir morar conosco em Nova York, mas ela perdera a confiana em mim. Eu a trara muitas vezes 
e ela deixou isto bem claro:
    - Cathy, volte para Nova York, onde neva o tempo todo, os assaltantes atacam as pessoas no parque e os assassinos pegam suas vtimas no metr - mas deixe-me 
aqui! Antes, eu queria ficar sempre perto de voc - agora, pouco me importo com isso! Voc partiu e se casou com aquele tal Julian de
olhos negros, quando poderia tornar-se esposa do Dr. Paul e ser minha me de
verdade! Eu me casarei com ele! Se julga que ele no me aceitar porque sou muito pequena, est muito enganada. Voc acha que ele  velho demais para mim, mas eu 
nunca conseguirei arranjar algum para casar-se comigo, de modo que ele ficar com pena e me #179
aceitar como esposa. Teremos seis filhos.
Espere e ver!
    - Carrie...
    - Cale a boca! No gosto de voc, agora! V embora! Fique longe daqui! Dance at morrer! Chris e eu no queremos voc! Ningum aqui quer voc!
    Aquelas palavras, pronunciadas aos berros, me feriram! A minha Carrie,
gritando-me que fosse embora, quando eu fora como uma me para ela durante a maior parte de sua vida. Ento, virei-me para olhar Chris, que se postara junto s roseiras, 
os ombros cados, tendo nos olhos Oh! aqueles olhos to azuis... a expresso que sempre me acompanharia. Nunca, jamais seu amor me libertaria para amar sem reservas 
outro homem - pelo menos, enquanto ele continuasse a amar-me.

    Uma hora antes de termos que partir para o aeroporto, o carro de Paul entrou pela alameda de acesso  casa. Ele sorriu para mim como sempre costumava fazer, 
como se nada houvesse mudado entre ns. Contou a Julian algo a respeito de um congresso mdico que o mantivera afastado de casa,
acrescentando que se sentia profundamente entristecido com a notcia da morte de
Georges. Apertou a mo de Chris e deu-lhe calorosas palmadas nas costas, da
maneira como os homens costumam demonstrar afeio mtua. Cumprimentou Henny, beijou Carrie, dando-lhe uma caixa de balas, e s ento olhou para mim.
    - Ol, Cathy.
    Aquilo me disse muita coisa. Eu j no era Catherine, uma mulher a quem ele era capaz de amar de igual para igual; retroagira  posio de uma filha.
    - Cathy, vocs no podem levar Carrie para Nova York. O lugar dela  aqui, comigo e Henny, de modo que possa rever periodicamente o irmo. Alm disso, eu no 
gostaria que ela trocasse de escola.
    - Eu no abandonaria vocs por nada deste mundo - declarou Carrie fielmente.
    Julian subiu para terminar de arrumar suas bagagens e atrevi-me a seguir Paul at o jardim, a despeito do olhar proibitivo de Chris. Paul, ainda usando o terno 
elegante, apoiara um joelho na terra para arrancar
algumas ervas daninhas que algum esquecera de limpar. Levantou-se depressa ao escutar meus passos e limpou as calas. Ento, fitou o espao, como se a ltima coisa 
que desejasse neste mundo fosse olhar para mim.
    - Paul... hoje seria o dia de nosso casamento.
    -  mesmo! Esqueci-me.
    - No se esqueceu - repliquei, aproximando-me dele. - O primeiro dia da primavera, um novo incio, foi o que voc disse. Sinto muito ter estragado tudo. Fui 
uma idiota por acreditar em Amanda. Fui duas vezes idiota por no haver esperado para conversar com voc antes de me casar com Julian.
#180
    - No falemos mais no assunto. Tudo acabou, em definitivo - disse ele com um pesado suspiro, avanando voluntariamente para tomar-me nos braos. - Cathy, parti 
para ficar sozinho. Quando voc perdeu a f em mim, voltou-se impulsivamente, mas com sinceridade, para o homem que a ama h
alguns anos. Qualquer pateta que no seja cego seria capaz de perceber o fato. E, se  capaz de ser franca consigo mesma, admita que est apaixonada por Julian durante 
quase o mesmo tempo que ele a ama. Acredito que voc tenha guardado seu amor por ele numa prateleira por pensar que me devia...
    - Pare com isso! Amo voc e no ele. Sempre amarei voc! 
    - Est totalmente confusa, Cathy... Voc me quer, mas quer Julian; deseja segurana, mas tambm deseja aventura. Julga que pode ter tudo, mas est enganada. 
H muito tempo eu lhe disse que a primavera no combina com o outono. fizemos e dissemos um bocado de coisas para convencer-nos de que a diferena de idade entre 
ns nada significa; mas ela 
importante. E no se trata apenas da diferena de idade, mas tambm do espao que nos separaria. Voc estaria danando em alguma parte do mundo enquanto eu
permaneceria aqui, enraizado e ocupado. Ficaramos juntos apenas algumas semanas por ano. Em primeiro lugar sou mdico, depois marido. Mais cedo ou mais tarde voc 
descobriria o fato e, eventualmente, voltar-se-ia para Julian.
    Sorriu e beijou com ternura as lgrimas que eu j derramara. Em seguida, disse-me que o destino sempre distribui as cartas certas.
    - E ainda nos veremos. No nos perdemos um do outro para sempre. Alm disso, ainda tenho a lembrana de como tudo foi maravilhosamente doce e excitante entre 
ns.
    - Voc no me ama! - gritei acusadoramente. - Nunca me amou, ou no estaria aceitando a situao com tanta calma!
    Ele riu baixinho e acalentou-me nos braos, como um pai.
    - Querida Catherine, minha bailarina de sangue quente, que homem no a amaria? Como pde aprender tanto a respeito do amor trancada num sto mido e escuro?
   - Nos livros - respondi.
     Mas as lies que aprendera no vinham dos livros.
   Paul enfiou os dedos em meus cabelos, mantendo os lbios prximos aos meus.
    - Jamais me esquecerei do melhor presente de aniversrio, que j recebi
- disse ele, com o hlito quente em meu rosto.
     Fez uma pausa.
   - Agora, eis como ser daqui por diante - declarou em tom firme. - Voc e Julian regressaro a Nova York, onde voc ser para ele a melhor esposa possvel. Ambos 
faro das tripas corao para incendiarem o mundo com sua dana. E voc tem que decidir nunca mais olhar para trs com arrependimento. Esquea-se de mim.
     - E voc? ... O que ser de voc?
     Ele ergueu a mo e alisou o bigode.
#181
    - Ficaria espantada se soubesse o que este bigode fez em favor do meu sex appeal.  Nunca mais o rasparei.
    Rimos. Um riso verdadeiro, sem fingimento. Ento, tirei do dedo o anel de brilhante de dois quilates e tentei devolv-lo a Paul.
    - No! Absolutamente. Quero que fique com o anel. Guarde-o para empenh-lo quando ou se vier a precisar de um pouco de dinheiro extra.

    Julian e eu voltamos a Nova York e procuramos durante semanas at encontrarmos o apartamento adequado e, acolhedor. Julian queria algo muito mais elegante, mas, 
somando o que ganhvamos, nao nos atrevemos a morar no apartamento de cobertura que Julian julgava apropriado para ns.
    - Mesmo assim, mais cedo ou mais tarde ainda havemos de morar numa cobertura perto do Central Park, com um terrao cheio de plantas verdadeiras.
    - No temos tempo de sobra para cuidar de plantas e flores verdadeiras - repliquei, j tendo gasto muito tempo e esforo para manter flores e plantas vivas e 
saudveis. - E quando formos visitar Carrie, sempre poderemos aproveitar os jardins de Paul.
    - No gosto daquele seu mdico.
    - Ele no  meu mdico! - protestei, com uma sensao esquisita, atemorizando-me sem motivo. - Por que no gosta de Paul? Todo mundo gosta muito dele.
    - Sim, eu sei - respondeu ele secamente, parando com o garfo entre o prato e os lbios e fixando-me um olhar solene. -  exatamente esse o problema, minha querida 
esposa: acho que voc gosta demais dele, at mesmo agora. E tem mais: tambm no morro de amores por seu irmo. Sua irm  legal.
Pode convid.la para visitar-nos de vez em quando. Mas no se esquea - nem por um segundo - que agora eu ocupo o primeiro lugar em sua vida. Nem Chris, nem Carrie, 
nem muito menos - aquele mdico de quem voc foi noiva. No sou cego ou estpido, Caty. Eu j o vi olhar para voc e, embora no saiba at que ponto de intimidade 
chegaram, acho melhor voc esquecer o passado!
    Invadida pelo pnico, baixei a cabea. Meus irmos eram como prolongamentos de mim mesma! Eu necessitava deles como parte ativa de minha vida e no apenas na 
periferia. O que fizera eu? Tive a espantosa premonio
de que Julian seria meu amantssimo guardio, meu carcereiro, com o qual eu
ficaria aprisionada como estivera naquele quarto trancado de Foxworth Hall! S que desta feita eu teria liberdade para locomover-me at onde sua corrente invisvel 
permitisse.
    - Eu a amo como um louco - declarou Julian, terminando a refeio. - Voc  a melhor coisa que j me aconteceu. Quero t-la a meu lado o tempo todo, nunca fora 
de meu campo de viso. Preciso de voc para me manter na linha. s vezes bebo demais e, ento, fico malvado - muito malvado,
Cathy. Quero voc para tornar-me o que julga que sou no palco; no desejo mago-la.
#182
    Naquele momento, ele me tocou, pois compreendi que fora terrivelmente ferido, como eu tambm fora, e se desapontara tanto com o pai, da mesma forma que minha 
me me decepcionara. E Julian precisava de mim. Talvez Paul tivesse razo. O destino se utilizara de Amanda para distribuir as cartas certas, de modo que Julian 
e eu fssemos ganhadores e no perdedores.
Juventude clama por juventude e Julian era jovem, bonito, um bailarino talentoso - e encantador, quando resolvia s-lo. Eu sabia que ele possua uma faceta cruel, 
obscura. J tivera oportunidade de experimentar parte dela... mas era capaz de dom-lo. No permitiria que ele fosse meu soberano e juiz, meu superior ou amo. Dividiramos 
tudo pela metade, compartilhando em termos de
igualdade. E, eventualmente, numa radiante manh ensolarada, eu acordaria para deparar com seu rosto mal barbeado e descobriria que o amava. Compreenderia que o 
amava mais do que j amara antes qualquer outra pessoa.

#183
TERCEIRA PARTE

#185
Sonhos Realizados

    Enquanto Julian e eu trabalhvamos como escravos para chegar ao topo do mundo do bal, Chris brilhava na escola preparatria e, no quarto ano, ingressou num 
programa acelerado para estudantes de medicina, completando o quarto ano da escola preparatria e, simultaneamente, cursando o primeiro ano da faculdade de medicina.
    Veio de avio a Nova York, explicar-me tudo enquanto passevamos de mos dadas pelo Central Park. Era primavera e as aves gorjeavam, coletando alegremente os 
gravetos de que necessitavam para a construo de seus ninhos.
    - Chris, Julian desconhece sua presena na cidade e prefiro que continue a ignor-la. Tem um cime terrvel de Paul e de voc tambm. Ficaria insultado se eu 
no o convidasse para jantar?
    - Claro que ficaria - replicou Chris, teimoso. - Vim de longe visitar minha
irm e  o que pretendo fazer. E no furtivamente, s escondidas. Voc pode
dizer a Julian que vim visitar Yolanda. Alm disso, tenciono ficar na cidade apenas o fim de semana.
    Julian tinha uma obsesso possessiva em relao a mim, como um filho nico que necessitasse de mimos constantes; eu no me importava, exceto quando ele tentava 
manter-me afastada de minha famlia.
    - Est certo. No momento, Julian est ensaiando e pensa que estou em casa, cuidando das coisas antes de juntar-me a ele esta tarde. Mas trate de manter-se distante 
de Yolanda, Chris, pois ela s lhe poder causar encrencas. Tudo o que ela faz com um homem  novidade para a companhia no dia
seguinte.
    Meu irmo fitou-me de modo estranho.
    - Cathy, estou pouco ligando para Yolanda. Ela  apenas minha desculpa para ver voc; sei que seu marido me detesta.
    - Eu no chamaria exatamente de "detestar"...
    - Est bem. Chame de cimes. Mas seja l como for, ele no vai me afastar de voc - #186
replicou Chris, assumindo um tom muito srio. - Cathy, sempre que voc e Julian parecem estar prestes a conquistar fama e sucesso, acontece alguma coisa que os impede 
de serem os astros que merecem. O que
?
    Sacudi os ombros. No sabia o que era. Na minha opinio, Julian e eu ramos to dedicados  dana quanto quaisquer outros bailarinos, talvez ainda mais que estes. 
No obstante, Chris tinha razo: apresentvamos um desempenho sensacional, colocando os crticos em polvorosa e, depois, decaamos.
Talvez Madame Zolta quisesse transformar-nos em superastros, a fim de no abandonarmos seu grupo e nos juntarmos a outra companhia de bal.
    - Como vai Paul? - indaguei ao nos sentarmos num banco manchado de sol e sombra.
    Chris pegara a minha mo, apertando-a com fora.
    - Paul  Paul... nunca muda. Carrie o adora e  adorada por ele. Paul me trata como um irmo mais moo de quem se orgulhasse muito. E na verdade, Cathy, no 
acredito que conseguisse prosseguir to depressa sem o auxlio e orientao que ele me deu.
    - Ele ainda no encontrou outra pessoa para amar? - indaguei em voz tensa, pois no acreditava totalmente nas cartas que Paul me escrevia para dizer que no 
gostava de mulher nenhuma.
    - Cathy-  disse Chris, pegando-me o queixo com ternura e obrigando-me a encar-lo. - Como poderia Paul encontrar algum igual a voc?
    A expresso de seu olhar quase me fez chorar. O passado jamais me libertaria?

    Mal Julian avistou Chris e os dois comearam a discutir.
    - No quero voc dormindo sob meu teto! - esbravejou Julian. - No gosto de voc; jamais gostei e jamais gostarei! Portanto, trate de cair fora daqui e esquecer 
que tem uma irm!
    Chris saiu para hospedar-se num hotel e encontramo-nos s escondidas - uma ou duas vezes antes que ele regressasse  faculdade. Desanimada, voltei para assistir 
 aula com Julian e, depois ensaiar  tarde e apresentar o espetculo  noite. s vezes, tnhamos os papis principais, outras vezes
danvamos papis secundrios e, em certas ocasies, como punio por algum comentrio sarcstico de Julian sobre Madame Zolta, danvamos como parte do corps de 
ballet. Chris passou trs anos sem voltar a Nova York.

    Quando Carrie completou quinze anos, veio passar conosco seu primeiro vero em Nova York. Hesitante e parecendo amedrontada pela longa viagem de avio que fizera 
sozinha, caminhou devagar por entre a multido buliosa e barulhenta que lotava o terminal do aeroporto. Julian foi o primeiro a avist-la. Soltando um grito, correu 
para tom-la nos braos.
    - Ol, minha linda cunhada! -  cumprimentou, fazendo questo de beijar-lhe o rosto. - Ora, como cresceu e ficou  parecida com Cathy! Daqui a pouco, ser
#187
impossvel notar a diferena - portanto, tome cuidado! Tem certeza de que no quer ser bailarina?
    Carrie sentiu-se feliz e segura pelo prazer que Julian mostrava em rev-la e reagiu depressa, abraando-o pelo pescoo. Durante os trs anos que Julian e eu 
estvamos casados, Carrie aprendera a gostar de meu marido pelo que este aparentava ser.
    - No se atreva a me chamar de Fadinnha! - replicou ela, rindo.
    Era uma piada que costumvamos repetir, pois Julian afirmava que Carrie tinha o tamanho exato para fazer no palco o papel de uma fada e no se cansava de repetir 
que ainda no era tarde demais para ela tornar-se uma grande bailarina. Se qualquer outra pessoa chegasse a fazer tal insinuao,
Carrie ficaria profundamente ofendida; partindo de Julian, porm, era um elogio
de algum que ela tanto admirava, dando-lhe a capacidade de transformar-se numa fada atravs de simples movimentos com os membros. Carrie entendia que Julian aplicava 
o termo "fadinha" como lisonja e no como aluso a seu tamanho diminutivo.
    Ento chegou minha vez de abraar Carrie. Eu a amava tanto que fiquei sufocada pela sensao como se estreitasse nos braos uma criana sada de minhas prprias 
entranhas. Entretanto, jamais houve uma ocasio em que eu fitasse Carrie sem sentir saudades de Cory, que deveria estar ao
lado dela.
    Se Cory ainda estivesse vivo, teria crescido apenas o suficiente para chegar a um metro e trinta e cinco de estatura? Carrie e eu rimos, choramos, trocamos novidades, 
at que ela me segredou, fora do alcance dos ouvidos de Julian:
    - Ja no uso suti de treinamento; ganhei um de verdade!
    - Eu sei - sussurrei em resposta. - A primeira coisa que notei foi seu busto.
    -  mesmo? - perguntou Carrie, parecendo deleitada. - Conseguiu ver meus seios? No pensei que aparecessem tanto.
    - Ora, claro que aparecem - afirmou Julian, que no deveria ter chegado to sorrateiramente para escutar aquela troca de confidncias entre duas irms. -  a 
primeira coisa que meus olhos procuram depois de fitarem um rosto fabuloso. Voc sabe que possui um rosto fabuloso, Carrie? Acho at que sou capaz de largar minha 
mulher para me casar com voc.
    Aquele comentrio no me bateu bem nos ouvidos. Havamos discutido muitas vezes porque Julian gostava demais de meninas pequenas. Contudo, eu estava decidida 
a no permitir que coisa alguma estragasse as frias de Carrie em Nova York, na primeira vez que ela viera sozinha. Julian e eu tnhamos elaborado uma espcie de 
escala de modo a podermos mostrar tudo a Carrie.
Pelo menos, havia um membro de minha famlia que Julian aceitava.

    Os meses pareceram voar, e, afinal, a primavera pela qual tanto espervamos chegou.
    Julian e eu estvamos em Barcelona, gozando as primeiras frias de verdade que tnhamos desde nosso casamento. Cinco anos e trs meses de vida conjugal - e ainda
#188
existiam ocasies em que Julian me parecia um desconhecido. Madame Zolta sugerira as frias, julgando uma boa idia visitarmos a
Espanha a fim de estudar o estilo de dana chamado flamenco. Usando um carro alugado, viajamos de cidade em cidade, adorando o lindo panorama. Gostvamos de cear 
bem tarde e passar sestas sonolentas deitados no litoral rochoso da Cte d'Azur - mas, sobretudo, adoramos a msica e a dana
espanholas.
    Madame Zolta elaborara um roteiro de nossa viagem pela Espanha, relacionando todas as aldeias que cobravam preos irrisrios. Era avarenta e fazia questo de 
ensinar todos os seus truques aos membros da companhia de bal. Se ocupssemos um dos pequenos bangals prximos ao prdio principal do hotel e cozinhssemos em 
casa, o preo seria ainda menor. Portanto, era l
que Julian e eu nos encontrvamos no dia em que chegou o convite para a formatura de Chris. O envelope atravessara a Espanha atrs de ns, alcanando-nos em Barcelona.
    Meu corao deu um salto quando avistei o grosso envelope cor de creme, sabendo o que ele continha - afinal! - a participao do sucesso de Chris: sua formatura 
em medicina. Era como se eu, pessoalmente, tivesse conseguido a proeza de completar a escola preparatria e a faculdade de medicina em apenas sete anos!
    Utilizei cuidadosamente um abridor de cartas, a fim de poder guardar aquilo em meu lbum de lembranas e sonhos - alguns dos quais j se tornavam realidade. 
Dentro do envelope estavam no s a participao formal do evento, Como tambm um bilhete escrito por Chris COm evidente modstia:

     "Sinto-me embaraado por informar que fui o primeiro classificado numa turma de duzentos acadmicos de medicina. No se atreva a arranjar desculpas para no 
comparecer. Tem que estar presente para aquecer-me com seu entusiasmo, assim como eu me aquecerei Com as radiaes de sua admirao. Simplesmente no posso receber 
meu diploma de mdico se voc no estiver aqui para assistir. E pode dizer isto a Julian quando ele tentar impedi-la de vir."

    O mais aborrecido em tudo aquilo era que Julian e eu tnhamos assinado, algum tempo antes, um contrato para gravar em tape uma produo de Gisele para a TV. 
Estava marcado para junho, mas queriam nossa presena agora, em maio. Tnhamos absoluta certeza de que a divulgao pela televiso faria de ns os astros que tanto 
ansivamos por tornar-nos.
    Pareceu-me a ocasio ideal para dar a notcia a Julian. Voltramos ao nosso bangal aps visitarmos velhos castelos. Aps a refeio noturna, sentamo-nos na 
varanda bebericando um vinho tinto que Julian adorava, mas que me causava dores de cabea. S ento me atrevi a abordar timidamente o assunto de voltarmos aos Estados 
Unidos a tempo para a formatura de Chris, em maio.
#189
    - Na verdade, teremos tempo para comparecer  cerimnia e voltarmos com bastante sobra para iniciarmos os ensaios de Gisele.
    - Ora, deixe disso, Cathy! - replicou Julian, impaciente. -  um papel difcil para voc. Estar cansada e precisar de tempo para repousar.
    Protestei. Duas semanas era tempo suficiente... e um tape de TV no levava muito tempo. 
    - Por favor, querido, vamos. Eu ficaria doente se no visse meu irmo receber o diploma de mdico. Voc tambm ficaria, se seu irmo estivesse atingindo uma 
meta aps esforar-se por tantos anos.
    - Que diabo! No! - explodiu ele, semicerrando os olhos negros que me lanavam centelhas. - J estou farto de tanto escutar Chris isto, Chris aquilo! E se no 
 o nome de Chris que me martela aos ouvidos,  Paul isto, Paul aquilo! Voc no vai!
    Implorei-lhe que fosse razovel:
    - Chris  meu nico irmo; a formatura  to importante para mim quanto para ele! Voc  incapaz de entender o quanto isso significa no s para ele, mas para 
mim tambm! Talvez pense que ele e eu levamos uma vida de luxo comparada com a sua, mas pode ter certeza de que no foi um
piquenique para ns!
    - Voc nunca me fala do passado! - foi a resposta brusca. - Parece exatamente que nasceu no dia em que encontrou o seu precioso Dr. Paul! Agora, Cathy, voc 
 minha esposa e seu lugar  ao meu lado! O seu Paul tem Carrie e ambos estaro l de modo que seu irmo ser aplaudido quando
receber aquele maldito diploma!
    - Voc no pode me dizer o que devo ou no fazer! Sou sua esposa, no sua escrava!
    - No quero mais falar no assunto - disse Julian, levantando-se e pegando-me pelo brao. - Venha, vamos dormir. Estou cansado.
    Sem dizer uma palavra, permiti que ele me puxasse at o quarto, onde comecei a despir-me. Todavia, Julian se aproximou para ajudar-me e, desta maneira, fui informada 
de que seria uma noite de amor - ou melhor, de
sexo.
    Empurrei-lhe as mos para longe de mim. Franzindo a testa, ele tornou a coloc-las em meus ombros e se debruou para mordiscar-me o pescoo; acariciou-me os 
seios e fez meno de abrir-me o suti. Dei-lhe tapas nas mos e gritei:
    - No!
    Mas Julian insistiu em tirar-me o suti. Depois, com a mesma facilidade com que trocaria de mscaras, desfez-se da raiva e assumiu um ar romntico e sonhador.
    Houve uma poca em que Julian parecera ser o eptome de tudo quanto era sofisticado, mundano, elegante, mas em comparao com o que se tornara aps a morte do 
pai no passava de um matuto desajeitado. Havia ocasies em que eu realmente o detestava. E esta era uma delas.
#190
    - Eu vou, Julian! Pode vir comigo ou ir encontrar-me em Nova York quando eu voltar da cerimnia de formatura. Ou pode ficar aqui, emburrado e sozinho. De qualquer 
maneira - eu vou! Prefiro que venha comigo e
participe do regozijo da famlia, pois nunca participou de nada - e me mantm afastada para que eu tambm no participe. Mas, desta vez, no me pode impedir!  importante 
demais!
    Julian escutou calado, com um sorriso que me provocou arrepios na espinha. Oh! o quanto ele era capaz de parecer maldoso!
    - Escute bem uma coisa, minha amada esposa: quando se casou comigo, tornei-me seu senhor e soberano - portanto, ficar ao meu lado at que eu a mande embora. 
E ainda no estou disposto a faz-lo. No me deixar sozinho na Espanha quando no sei falar espanhol. Talvez voc consiga aprender
idiomas atravs de discos, mas sou incapaz disso.
    - No me ameace, Julian - repliquei friamente, embora recuasse e me sentisse invadir por um pnico latejante. - Excetuando eu, no tem quem ligue para voc a 
no ser, talvez, sua me. E, como no quer saber dela, quem lhe resta?
    Ele estendeu a mo para esbofetear-me ambos os lados do rosto. Fechei os olhos, resignada a aceitar tudo o que ele me fizesse, desde que pudesse ir  formatura 
de Chris. Permiti que Julian me despisse e fizesse tudo o que desejava, embora ele me agarrasse as ndegas com tanta fora a ponto de machuc-las. Quando me decidia 
a isso, eu era capaz de sair de mim mesma e transformar-me em mera espectadora. O que ele me fez foi espantoso, mas no importou realmente, pois no tomei parte 
no ato, o que s acontecia quando a dor era muito forte - como ocorria ocasionalmente.
    - No tente escapulir s escondidas - advertiu julian com voz abafada, pois beijava-me o corpo todo, brincando comigo como um gato faz com o rato quando no 
sente fome. - D-me sua palavra de honra de que ficar comigo e no comparecer  formatura de seu querido e amado irmo. Fique com o marido que precisa de voc, 
que a adora, que no consegue viver sem a sua presena.
    Zombava de mim, pois sua necessidade era a de uma criana que precisa da me. Eis o que eu me tornara para ele: sua me em tudo - exceto no sexo. Tinha que escolher 
seus ternos, camisas, meias e gravatas; opinar sobre as roupas que usava no palco, suas malhas de ensaio. No obstante, recusava-se terminantemente a permitir que 
eu cuidasse da economia domstica.
    - No farei um juramento to injusto. Chris veio ver voc danar e no h dvida de que voc adorou exibir-se para ele. Agora, d-lhe uma oportunidade; ele merece, 
pois trabalhou duro para conseguir o diploma.
    Ento, libertei-me dos braos de Julian e fui vestir uma camisola de renda preta que ele gostava que eu usasse. Eu detestava roupas intimas e camisolas negras; 
lembravam-me prostitutas... e minha prpria me, que tinha mania de lingerie preta.
#191
    - Pare de ficar ajoelhado, Julian. Parece ridculo. Nada pode fazer contra mim se eu resolver ir. Equimoses apareceriam e alm disso, est to acostumado a meu 
peso e equilbrio que nem mesmo seria capaz de levantar adequadamente outra bailarina.
    Ele avanou raivosamente para mim.
    - Est zangada porque no atingimos o topo da profisso, no  mesmo? Culpa-me porque nossos compromissos foram cancelados. E agora, Madame Zolta concedeu-nos 
frias para que eu possa me acalmar e voltar
refrescado, completamente refeito por passar algum tempo brincando  vontade com minha esposa. Cathy, no sei como me divertir exceto danando; no me interesso 
por livros ou museus, como voc. Alm disso, existem maneiras de ferir e humilhar sem deixar equimoses - exceto no ego. Voc j devia saber muito bem, a esta altura.
    Cometi a tolice de sorrir, quando devia ter juzo bastante para no desafi-lo num momento em que no se sentia confiante em si mesmo.
    - Qual  o problema, Jule? A pausa para atividade sexual no bastou para saciar sua nsia de perverses? Por que no sai para procurar uma colegial? Pois recuso-me 
a cooperar com voc.
    Nunca antes eu lhe jogara no rosto ter conhecimento de suas farras com menininhas; A princpio, logo que descobrira a verdade, eu ficara magoada, mas agora compreendia 
que ele usava aquelas meninas como guardanapos de papel, para serem jogados fora quando sujos; ento Julian voltava para mim,
dizendo-me que me amava, que necessitava de mim, que eu era a nica.
    Ele avanou devagar, com os movimentos felinos que indicavam que se comportaria impiedosamente. Contudo, mantive-me de cabea erguida, sabendo que poderia fugir 
por meio de desligar-me mentalmente e que ele no se podia dar ao luxo de espancar-me e deixar marcas. Julian parou a um passo de distncia. Escutei o bater do despertador 
da mesinha de cabeceira.
    - Cathy, se sabe o que  melhor para voc, far exatamente o que eu mandar.
    Naquela noite, Julian foi cruel, malvado e vingativo; forou-me a coisas que s devem ser feitas com amor. Desafiou-me a morder a isca. E desta vez eu no teria 
apenas um olho inchado, mas talvez os dois - ou ainda pior.
    - Direi a todo mundo que voc est doente. seu perodo menstrual provoca-lhe clicas to fortes que voc nem consegue danar. E no poder fugir s escondidas 
de mim, ou mesmo dar um telefonema, porque eu a
amarrarei  cama e esconderei seu passaporte.
    Sorriu e esbofeteou-me de leve.
    - Agora, queridinha, o que far desta vez?

    Sorridente, tendo voltado ao normal, Julian caminhou inteiramente despido at a mesa do caf da manh, deixou-se cair numa cadeira e esticou as belas pernas 
bem torneadas, indagando com naturalidade:
    - Que temos para o caf?
#192
    Estendeu os braos para que eu pudesse aproximar-me e beijar-lhe os lbios, o que fiz obedientemente. Sorri, afastei a mecha de cabelos negros que lhe caa sobre 
a testa, servi-lhe caf e respondi:
    - Bom-dia querido. Para voc, o mesmo caf de sempre: presunto com ovos fritos. Para mim, um omelete de queijo.
    - Desculpe-me, Cathy - murmurou ele. - Por que sempre tenta ressaltar o meu lado ruim? S uso aquelas garotas a fim de poupar voc.
    - Se elas no se importam, eu tambm no me incomodo... mas nunca mais me obrigue a fazer o que fez ontem  noite. Sou perita em odiar, Julian. Tanto quanto 
voc  perito em obrigar. E sou uma expert em alimentar sonhos de vingana!
    Coloquei-lhe no prato dois ovos e duas fatias de presunto frito. Nem torradas, nem manteiga. Comemos em silncio. Sentado no lado oposto da mesa forrada com 
uma toalha quadriculada de vermelho e branco, recm-barbeado, limpo, cheirando a sabonete e loo de barba, Julian,  sua maneira
extica, moreno e despreocupado, era o homem mais bonito que eu j vira.
    - Cathy, hoje voc ainda no disse que me ama.
    - Eu o amo, Julian.
    Uma hora aps o caf da manh, eu procurava loucamente por todas as partes do quarto o meu passaporte, enquanto Julian dormia na cama, para onde eu o arrastara 
da cozinha depois que ele adormecera sob o efeito de todos os sedativos que eu lhe colocara no caf.
    Ele no era to bom em questo de esconder quanto eu era em achar. Encontrei o passaporte sob o tapete azul embaixo da cama. Enfiei rapidamente roupas nas malas. 
Depois de arrumar as bagagens e vestir-me para sair, debrucei-me sobre Julian e dei-lhe um beijo de despedida. Ele respirava de maneira profunda e regular, com um 
leve sorriso; talvez as drogas lhe  proporcionassem sonhos agradveis. Embora eu o tivesse drogado, hesitei, imaginando se teria agido corretamente. Ento, sacudindo 
os ombros para livrar-me da indeciso,
encaminhei-me  garagem. Sim, eu fizera o que precisava. Se Julian estivesse acordado naquele momento, passaria o dia inteiro colado a mim, com meu passaporte no 
bolso. Eu lhe deixara um bilhete explicando aonde ia.

    Paul e Carrie receberam-me no aeroporto, na Carolina do Norte. Eu no via Paul h trs anos. Desci a rampa com os olhos pregados nos dele. Com o rosto erguido 
para mim, era obrigado a franzir a testa contra o sol s minhas costas.
    - Alegro-me por voc ter vindo - declarou. -  uma pena Julian no poder acompanh-la.
    - Ele tambm teve muita pena disso - repliquei, encarando-o. 
    Paul era o tipo de homem que melhora com a idade. O bigode que eu o convencera a deixar crescer continuava firme e duas covinhas apareciam quando ele sorria.
    - Est procurando cabelos brancos? - brincou ele quando o fitei prolongadamente demais e, talvez, com demasiada admirao. - Se encontrar algum, mostre-me e 
mandarei o #193
barbeiro retoc-los. Ainda no me considero
pronto para ficar grisalio. Gosto de seu penteado; torna-a ainda mais bela. Todavia, est magra demais. O remdio de que precisa  bastante comida preparada por 
Henny. Sabe, ela est na cidade, na cozinha de um pequeno motel preparando aqueles pezinhos caseiros que seu irmo tanto adora.  o presente de Henny por ele se 
tornar mais um "filho-doutor".
    - Chris recebeu meu telegrama? Sabe que estou chegando?
    - Ora, claro que sim! Estava louco de nervosismo, temendo a cada instante que Julian a impedisse de afastar-se dele e sabendo que Julian no viria. Francamente, 
Cathy, se voc no viesse creio que Chris se recusaria a receber o diploma.
    Sentar-me junto a Paul, com Henny ao lado dele e Carrie perto de mim, para ver o meu Chris percorrer o corredor central e galgar os degraus da plataforma a fim 
de receber o diploma e, em seguida, fazer o discurso como orador da turma, trouxe-me lgrimas aos olhos e encheu-me o corao de felicidade. Meu irmo comportou-se 
de forma to linda que cheguei a chorar. Paul,
Henny e Carrie tambm derramaram lgrimas. Nem mesmo meu sucesso no palco poderia comparar-se ao orgulho que me invadia naquele momento. E Julian tambm deveria 
estar presente, fazendo parte de minha famlia e no teimando em apresentar uma resistncia perene.
    Lembrei-me tambm de nossa me, que deveria ali estar para ver tudo aquilo. Eu sabia que ela se encontrava em Londres, pois continuava a acompanhar-lhe a movimentao 
pelo mundo. Esperando; sempre esperando rev-la. O que faria eu quando isso acontecesse? Tremeria de medo e permitiria mais uma vez, que ela escapasse? De uma coisa 
eu tinha certeza: ela seria informada de que seu filho mais velho estava formado em medicina - pois eu tomaria a providncia de comunicar-lhe, da mesma forma que 
a mantinha ao corrente do que Julian e eu fazamos.
    Naturalmente, a essa altura eu j conhecia o motivo pelo qual minha me estava sempre viajando de um lugar para outro: tinha medo de que eu a alcanasse! Ela 
estava na Espanha quando Julian e eu l chegamos. A notcia de nossa chegada fora publicada em vrios jornais e, pouco depois, peguei um jornal espanhol e vi o belo 
rosto da Sra. Bartholomew Winslow, partindo para
Londres o mais depressa que lhe era possvel.
    Obrigando-me a afastar o pensamento dela, olhei em volta para os milhares de parentes de alunos que lotavam o imenso auditrio. Quando tornei a fitar o palco, 
avistei Chris l em cima, pronto para subir  tribuna. No sei como conseguiu localizar-me na platia, mas o fato  que o fez. Nossos olhares se encontraram e fixaram. 
Por sobre todas as cabeas que nos separavam,
unimo-nos numa comunho silenciosa, compartilhando de um jbilo indescritvel! Havamos conseguido! Ambos! Alcanramos nossos objetivos, tornando-nos o que tnhamos 
decidido ser desde crianas. Todos aqueles anos e meses perdidos nenhuma importncia teriam - se Cory no morresse, se nossa me no nos atraioasse, se Carrie atingisse 
uma estatura normal. E assim teria ocorrido se mame tivesse encontrado uma outra soluo... Talvez eu ainda no fosse #194
uma prima ballerina - mas algum dia ainda seria, da mesma forma que Chris seria o melhor mdico do mundo.
    Observando Chris, acreditei que partilhvamos os mesmos pensamentos. Vi-o manejar um basto de beisebol, aos dez anos de idade, para rebater a bola por cima 
da cerca e, em seguida, correr como um louco para tocar todas as bases no menor tempo possvel, embora a rebatida lhe permitisse completar o ponto caminhando despreocupadamente. 
Mas no era de seu feitio fazer as coisas parecerem fceis. Vi-o pedalando a bicicleta metros  minha frente e depois diminuir propositalmente para que eu pudesse 
alcan-lo, a fim de
chegarmos juntos em casa. Vi-o no quarto trancado, sua cama a um metro da minha, lanando-me um sorriso encorajador. Vi-o novamente nas sombras do sto, quase escondido 
naquele espao imenso, parecendo to confuso e perdido ao virar as costas  me que amava... e voltara-se para min. Havamos participado indiretamente de tantos 
romances, deitados nos velhos colches
manchados no sto, enquanto a chuva fustigava as vidraas e nos separava
do resto da humanidade. Seria essa a causa? Era esse o motivo pelo qual Chris no conseguia ver nenhuma garota seno eu? Como era triste para ele - e para mim!

    A Universidade ofereceu um lauto banquete de comemorao e, em nossa mesa, Carrie tagarelava sem parar, mas Chris e eu s conseguamos fitar-nos em silncio, 
cada qual procurando as palavras adequadas.
    - O Dr. Paul mudou-se para um novo edifcio de consultrios, Cathy - informou Carrie, quase sem flego. - Eu detestaria t-lo to longe de casa mas serei sua 
secretria! Terei uma mquina de escrever eltrica, novinha em folha, toda pintada de vermelho! O Dr. Paul julgava que uma mquina de escrever roxa, pintada por 
encomenda, poderia parecer extravagante no consultrio,
embora eu fosse de opinio contrria. De todo modo contentei-me com a segunda opo: vermelho. E ningum jamais ser uma  secretria to eficiente quanto eu! Atenderei 
o telefone, marcarei as consultas, manterei os arquivos em dia, cuidarei da contabilidade - e ele almoar comigo todos os dias!
    Lanou a Paul um radiante sorriso de satisfao. Aparentemente, Paul dera-lhe a segurana necessria para recuperar a exuberante autoconfiana que ela perdera. 
Infelizmente, porm, s mais tarde descobri que se tratava de uma fachada falsa que Carrie apresentava ao Dr. Paul, Chris e a mim; quando ficava sozinha, a coisa 
era muito diferente.
    Ento Chris franziu a testa e indagou por que razo Julian no viera comigo.
    - Ele queria vir, Chris, realmente - menti. - Mas tem compromissos que o tornam to ocupado a ponto de no dispor de tempo. Pediu-me que apresentasse a voc 
suas congratulaes. Trabalhamos num esquema de
tempo muito rgido. Na verdade, s poderei ficar aqui dois dias. Vamos fazer um especial de Giselle para a TV no prximo ms.
    Mais tarde, tornamos a comemorar num excelente restaurante de hotel. Foi nossa oportunidade de dar a Chris os presentes que tnhamos para ele.
#195
Desde pequenos, tnhamos o costume de sacudir os presentes antes de abri-los. Mas a grande caixa que Paul deu a Chris era pesada demais para ser sacudida.
    - Livros! - adivinhou Chris, acertadamente.
    Seis enormes e grossos livros de referncia para mdicos, representando uma coleo completa que devia ter custado a Paul uma fortuna.
    - No consegui carregar mais que - seis - explicou Paul. - O resto da coleo ser enviado para voc a domiclio.
    Olhei para Paul, compreendendo que seu domiclio era o nico lar verdadeiro que possuramos.
    Chris reservou propositalmente meu presente para ltimo lugar, na expectativa de que fosse o melhor e dessa forma - como fazamos desde crianas - prolongava 
o prazer de receb-lo. Era um presente muito grande e pesado para ser sacudido. Alm disso, como tive o cuidado de advertir, tambm era frgil. Entretanto, Chris 
limitou-se a rir, pois sempre tentvamos enganar um ao outro.
    - No... So mais livros - disse ele. - Nenhuma outra coisa poderia pesar tanto.
    Deu-me um sorriso engraado, sonhador, que o fez parecer novamente um menino.
    - Concedo-lhe apenas um palpite, Christopher Doll, e darei uma deixa. Dentro dessa caixa est a coisa que voc declarou mais desejar neste mundo - e que nosso 
pai prometeu dar-lhe no dia em que voc tivesse sua maletinha preta de mdico.
    Por que usara aquele tom suave, que fez Paul olhar para mim com os olhos apertados e depois virar-se para ver o sangue que subiu para ruborizar o rosto de meu 
irmo? Jamais mudaramos e esqueceramos? Sempre haveramos de sentir to profundamente? Chris manipulou as fitas do embrulho,
tomando cuidado para no rasgar o papel bonito. Suas mos tremiam ao retirar da caixa acolchoada um estojo de mogno francs com fecho, chave e ala de bronze polido. 
Chris lanou-me um olhar torturado e seus lbios tremeram: parecia no acreditar que eu me lembrara, aps todos aqueles anos.
    - Oh! diabo, Cathy... - murmurou, sufocado de emoo. - Nunca esperei possuir um destes. Voc no devia ter gastado tanto... certamente, foi uma fortuna... e 
no devia!
    - Mas fiz questo, Chris. E no   original, mas apenas uma cpia de um Microscpio de Coluna Lateral John Cuff. Entretanto, o homem da loja disse que  uma 
duplicata exata do original e uma pea de colecionador, apesar de tudo. E funciona, tambm.
    Chris estremeceu ao manipular os slidos acessrios de bronze e marfim, as lentes e o livro encadernado em couro intitulado "Microscpios Antigos - 1675-1840."
    Declarei com voz sumida:
    - Caso decida divertir-se nas horas vagas, poder fazer suas prprias pesquisas sobre germes e vrus..
    - Que belo brinquedo voc me deu - disse Chris com voz spera.
#196
    S agora as duas lgrimas nos cantos de seus olhos comearam a escorrer pelo rosto.
    - Lembrou-se do dia em que Papai prometeu dar-me um microscpio igual a este quando eu me formasse em medicina - acrescentou.
    - Como poderia esquecer? Aquele pequeno catlogo foi a nica coisa que voc levou, alm das roupas, quando fomos para Foxworth Hall. E, Paul, toda vez que Chris 
matava uma mosca, ou aranha, suspirava por um microscpio John Cuff. Certa vez, declarou que desejava ser o encarregado dos camundongos do sto e descobrir sozinho 
por que razo os camundongos morrem cedo.
    - Os camundongos morrem cedo? - indagou Paul, falando srio: - Como sabe que morrem quando jovens? Capturava os recm-nascidos
para mat-los?
    Chris e eu trocamos um olhar. Sim, vivramos num mundo diferente quando crianas, mantidos numa priso, de modo que podamos observar os camundongos que vinham 
roubar e roer nossos alimentos - em especial, um camundongo chamado Mickey.

    Agora, eu tinha que regressar a Nova York e enfrentar a fria de Julian. Antes, porm, precisava de um pouco de tempo a ss com meu irmo. Paul levou Henny e 
Carrie a um cinema enquanto Chris e eu passeamos pelo
Campus da universidade.
    - Est vendo aquela janela no segundo andar, a quinta contando da esquina do prdio? Era o quarto que eu dividia com Hank. Tnhamos um grupo de estudo formado 
por oito alunos e nos mantivemos juntos durante todo o curso da escola preparatria e da faculdade. Estudvamos juntos e, quando saamos com garotas, amos juntos 
tambm.
    - Oh! - suspirei. - Voc saa muito?
    - S nos fins de semana. O programa de estudos era pesado demais para mantermos atividades sociais durante a semana. Nada foi fcil, Cathy. Tanta coisa para 
aprender: fsica, biologia, anatomia, qumica, e mais uma lista interminvel de matrias.
    - No est respondendo  minha pergunta. Com quem voc saa? Existia, ou existe, algum especial?
    Chris pegou minha mo e puxou-me para mais perto de si.
    - Bem, devo comear a enumerar uma por uma, pelo nome? Assim, levaria vrias horas. Se houvesse algum especial bastaria dizer o nome dela - e no posso fazer 
isso. Eu gostava delas todas... mas no gostava de
nenhuma a ponto de am-la, se  isso que deseja saber.
    - Sim, era exatamente aquilo que eu desejava saber.
    - Tenho certeza de que no levou uma vida de celibato, embora no se tenha apaixonado...
    - Isso no  da sua conta - replicou ele em tom despreocupado.
    - Creio que . Eu teria paz se soubesse que voc ama uma garota.
#197
    - Eu amo uma garota - respondeu Chris. - Conheci-a durante a vida inteira. Quando vou dormir,  noite, sonho com ela danando acima de minha cama, chamando-me 
o nome, beijando-me o rosto, gritando quando tem
pesadelos. Ento, acordo para tirar-lhe piche dos cabelos. s vezes, acordo sentindo o corpo inteiro doer, como o dela tambm di... e sonho que beijo as marcas 
deixadas pelo aoite. Sonho tambm com uma certa noite em que samos para o frio telhado de ardsia e fitamos o cu; ento, ela disse que a lua era o olho de Deus, 
observando-nos e condenando-nos pelo que ramos. Portanto, Cathy, eis a garota que me persegue e governa, que me enche de frustraes e obscurece as horas que passo 
com outras pequenas que so incapazes de se igualar aos padres que ela estabeleceu. E, por Deus, espero que agora voc esteja satisfeita.
    Virei-me, movimentando-me como num sonho. E, naquele sonho, abracei-o e fitei-lhe o rosto - aquele rosto que tambm me perseguia.
    - No me ame, Chris. Esquea-se de mim. Faa como eu fiz: acolha a primeira pessoa que bater  sua porta e deixe-a entrar.
    Ele sorriu com ironia, afastando-me rapidamente de si.
    - Eu fiz exatamente como voc, Catherine Doll: deixei entrar a primeira que me bateu  porta - e agora no consigo fazer que saia. Entretanto,  problema meu 
- no seu.
    - No mereo estar l dentro. Nao sou santa, nem um anjo... voc bem deveria saber.
    - Santa, anjo, filha do Demnio, boa ou m, voc me pregou  parede e me etiquetou como seu at o dia de minha morte. E se voc morrer antes de mim, no demorarei 
muito a acompanh-la.

Sombras se Acumulam

    Tanto Paul como Chris, sem mencionar Carrie, convenceram-me a ir com eles a Clairmont e passar alguns dias com a famlia. L chegando, cercada de todo acolhimento 
e conforto, encantei-me novamente com a casa e os jardins. Disse com meus botes que assim teria sido minha vda se eu me casasse com Paul. Uma vida doce e fcil. 
Sem problemas. Ento, quando me permitia imaginar como estaria passando Julian, lembrava-me de todas as maneiras
mesquinhas e irritantes que ele usava para aborrecer-me, abrindo as cartas enviadas por Paul ou Chris, como se procurasse provas que me incriminassem. Sem a menor 
dvida, ao regressar da Espanha deixara propositalmente minhas plantas morrerem, como meio de castigar-me.
      Deve haver algo esquisito em mim, refletia eu na varanda que se abria para os magnficos jardins de Paul. No era to bela, to inesquecvel ou to indispensvel 
#198
para qualquer homem. Permaneci onde estava, permitindo que Chris se aproximasse e passasse os braos por meus ombros. Recostei a cabea em meu irmo e suspirei, 
olhando a lua. A mesma e velha lua que antes testemunhara nossa vergonha ali estava para presenciar ainda mais. No fiz nada; juro que no fiz. Simplesmente deixei 
que ele ficasse com o brao passado pelos meus ombros. Talvez tenha feito movimento para ajustar meus contornos aos dele quando me abraou com fora.
    - Cathy, Cathy... - gemeu Chris, com os lbios em meus cabelos. - s vezes a vida simplesmente no tem qualquer significado sem voc. Eu rasgaria o diploma e 
iria para uma ilha no Pacfico, se voc me  acompanhasse...
    - E deixaria Carrie?
    - Poderamos lev-la conosco.
    Julguei que ele estivesse brincando de desejar, como fazamos quando crianas. Prosseguiu:
    - Eu compraria um veleiro para fretar aos turistas e, caso se cortassem, eu teria a prtica necessria para pensar-lhes os ferimentos.
     Em seguida, beijou-me com o ardor de um homem enlouquecido pela recusa. Eu no queria corresponder, mas no consegui evitar. Chris prendeu a respirao, tentando 
conduzir-me a seu quarto.
    - Pare! - gritei. - S o quero como irmo! Deixe-me em paz! V procurar outra pequena!
    Aturdido, parecendo magoado, ele recuou.
    - Cathy, que tipo de mulher  voc, afinal? Correspondeu aos meus beijos... excitou-se de todos os modos possveis... e agora tira o corpo fora, bancando a virtuosa!
    - Odeie-me, ento!
    - Cathy, eu jamais conseguiria odi-la - replicou Chris com um sorriso amargo. - s vezes, quero odi-la; s vezes, chego a pensar que voc  igual  nossa me 
- mas tente matar meu amor depois que ele comeou!
    Entrou em seu quarto e bateu a porta com fora, deixando-me muda a olhar para a porta fechada.
    No! Eu no era igual a Mame - no era! S correspondera aos seus carinhos porque ainda procurava minha identidade perdida. Julian queria roubar-me o reflexo 
e torn-lo seu. Julian desejava tirar-me a fora e aproveitar-se dela; queria que eu tomasse todas as decises, a fim de no ser culpado
quando cometamos algum erro. Eu continuava tentando provar meu prprio valor, para que, no final, conseguisse negar a acusao feita pela av. Veja, Av, no sou 
m ou filha do Demnio! Do contrrio, ele no me amaria
tanto! Eu ainda era a camundonga de sto, egosta, faminta, exigente, que precisava estar sempre provando ter valor suficiente para viver ao sol.
    Certo dia, pensei no assunto quando me encontrava na varanda dos fundos e Carrie plantava mudinhas que criara desde as sementes, tendo a seu lado os minsculos 
potes com os brotos de petnia. Chris veio do interior da casa e me jogou o jornal vespertino.
#199
    - Traz um artigo que talvez lhe interesse - disse com ar indiferente. - Cheguei a pensar em no mostr-lo a voc, mas mudei de idia.

"O casal de bailarinos Julian Marquet e Catherine Dahl, nossas celebridades locais, aparentemente separou-se. Pela primeira vez, Julian Marquet se apresentar com 
outra bailarina que no sua esposa, danando Giselle num grande especial de TV. Correm rumores de que a Srta. Dahl est doente e h quem diga que a famosa dupla 
do bal est prestes a
     desfazer-se".

    O artigo ia mais alm, informando que Yolanda Lange deveria substituir-me! Aquela era a nossa grande oportunidade - dentre muitas outras - de atingirmos o estrelato 
com que sonhvamos e Julian colocava Yolanda em meu lugar! Maldito! Jamais cresceria? Estragava todas as oportunidades que nos
apareciam. No poderia erguer Yolanda com facilidade - no com sua espinha machucada.
    Chris lanou-me um prolongado olhar esquisito antes de indagar:
    - O que pretende fazer a respeito?
    Berrei em resposta:
    - Nada!
    Meu irmo ficou calado por um momento. Ento:
    - Cathy, ele no queria que voc comparecesse  minha formatura, no  mesmo? E foi por isso que colocou Yolanda no seu lugar. Eu a preveni no sentido de no 
permitir que ele fosse seu empresrio. Madame Zolta a trataria com mais justia.
    Levantei-me para caminhar de um lado para outro na varanda. Nosso contrato original com Madame Zolta expirara dois anos antes e tudo que lhe devamos atualmente 
eram doze apresentaes por ano. No resto do tempo, Julian e eu ramos freelancers e podamos danar com a companhia de bal
que bem entendssemos.
    Que Julian ficasse com Yolanda. Que fizesse papel de tolo. Do fundo do corao, eu esperava que ele a deixasse cair no palco! Que continuasse a usar garotinhas 
colegiais em suas orgias sexuais... No me importava. Ento corri para dentro de casa, subi ao meu quarto, enterrei o rosto no travesseiro e chorei como uma criana.
    Tudo se tornava ainda pior pelo fato de eu ter feito uma consulta secreta ao ginecologista na tarde anterior. A ausncia de dois perodos menstruais nada significavam 
para uma mulher do meu tipo, cujas regras eram to irregulares. Talvez no estivesse grvida; poderia ser apenas mais um alarme falso... e, caso no fosse, eu rezava 
para ter foras que me permitissem fazer um aborto! No precisava de um filho em minha vida. Sabia que se tivesse um beb este se tornaria o centro do mundo e, mais 
uma vez, o amor estragaria uma bailarina que poderia ter sido a melhor dentre todas.
    Com msica de bal na cabea, dirigi o carro de Chris para visitar Madame Marisha num dia quente de primavera, em que o mundo inteiro parecia sonolento e preguioso, 
com #200
exceo das crianas idiotas que recebiam
instrues de uma mulherzinha de voz esganiada, vestida de preto, como sempre.
    Sentei-me nas sombras junto  parede dos fundos de um amplo auditrio e observei a grande turma de alunos danando. Dava medo pensar que dentro em breve aquelas 
meninas cresceriam para substituir as estrelas do presente. Ento, eu tambm me transformaria em mais uma Madame Marisha e os anos
passariam a correr como segundos, at que eu me tornasse uma Madame Zolta e toda a minha beleza ficasse preservada apenas em velhas fotos desbotadas.
    - Catherine! - exclamou alegremente Madame Marisha ao avistar-me. Encaminhou-se para mim, rpida e graciosa.
    - Por que se esconde nas sombras? - indagou. - Como  bom rever seu lindo rosto. E no pense que eu no sei por que motivo parece to triste!  uma grande idiota 
por deixar Julian! Ele  um menino grande; voc bem sabe que no pode ser deixado sozinho, pois faz coisas que o magoam e quando isso acontece, ele magoa voc tambm! 
Por que permitiu que ele tomasse as rdeas dos negcios? Por que deixa que ele queime todo o dinheiro de vocs antes mesmo de receb-lo? Vou.lhe dizer uma coisa: 
em seu lugar, eu nunca - nunca! - deixaria que ele colocasse outra bailarina no meu papel de
Giselle!
     Oh! Deus, como Julian era boquirroto!
    - No se preocupe comigo, Madame - repliquei com muita calma. - Se meu marido j no me quer como par, tenho certeza de que outros me desejaro.
    Ela fez uma carranca, avanando para mim. Agarrou-me com as mos ossudas e sacudiu-me como se quisesse despertar-me. De perto, percebi que envelhecera terrivelmente 
aps a morte de Georges. Os cabelos negros estavam agora quase brancos, com algumas mechas escuras. Ento, ela rosnou, mostrando dentes mais alvos que antes, perfeitos 
como nunca tinham sido.
    - Vai permitir que meu filho a faa de tola? Vai deix-lo colocar outra bailarina em seu lugar? Eu julgava que voc tivesse mais fibra! Agora, trate de voltar 
depressa para Nova York e expulse essa tal Yolanda da vida dele! O casamento  sagrado e os votos conjugais so feitos para serem cumpridos!
    Em seguida, suavizou-se e acrescentou:
    - Agora, venha, Catherine.
    Conduziu-me a seu pequeno e abarrotado escritrio.
    - Agora, conte-me a respeito dessa tolice que est acontecendo entre voc e seu marido!
    - Na verdade, no  da sua conta!
    Madame Marisha puxou uma cadeira de espaldar reto, colocando-a de modo a poder cavalg-la. Apoiando os braos no espaldar, golpeou-me com seu olhar penetrante.
    - Toda e qualquer coisa relacionada com meu filho  da minha conta! - replicou com rispidez. - Agora, trate de ficar caladinha a na cadeira, enquanto lhe contarei 
algo que no sabe a respeito de meu marido.
    Sua voz assumiu um tom mais bondoso:
#201
    - Eu era mais velha que Georges quando nos casamos, mas mesmo assim, atrevi-me a adiar o nascimento de um filho at acreditar que o melhor de minha carreira 
j ficara para trs. Ento, fiquei grvida. Georges jamais quis um filho que o prendesse a algum lugar e impedisse seu progresso. Portanto,
desde o incio, Julian significou dois golpes contra Georges.
     - Digo a mim mesma que no obrigamos nosso filho a ser bailarino, mas sempre o mantivemos conosco, de modo que o bal se tornou parte do seu mundo: a parte 
mais importante - disse ela suspirando fundamente e passando a mo magra pela testa franzida de preocupao. - Fomos rgidos com ele, isto eu admito. Esforamo-nos 
ao mximo para fazer dele o que era perfeito sob nosso ponto de vista; todavia, quanto mais tentvamos, mais ele procurava ser tudo o que no desejvamos que fosse. 
Tentamos ensinar-lhe dico perfeita e ele reagiu, zombando de ns com a pior espcie de linguagem baixa, que Georges costumava chamar de "linguagem de sarjeta". 
Sabe, -
continuou, com expresso tristonha e sonhadora - s depois que meu marido estava morto e enterrado dei-me conta de que nunca dirigi a palavra a nosso filho exceto 
para proibi-lo de fazer alguma coisa ou para melhorar sua tcnica de dana. Nunca me passou pela cabea que Georges pudesse sentir cimes do filho, percebendo que 
este era melhor bailarino que ele e alcanaria maior fama. No foi fcil para mim transformar-me numa simples professora de bal e para Georges ser apenas um instrutor. 
Passamos muitas noites abraados na cama, ansiosos pelos aplausos, pela adulao... Uma nsia que s poderia ser saciada ao escutarmos os aplausos para nosso filho.
    Fez outra pausa e virou a cabea, como um passarinho, para observar-me melhor e verificar se eu lhe prestava toda a ateno. Oh! sim, eu lhe dava toda a minha 
ateno, pois ela me contava tanta coisa que eu precisava saber. 
    - Julian tentava magoar Georges e este se magoava porque Julian no dava importncia  reputao do pai. Um dia, chegou at mesmo a cham-lo de bailarino de 
segunda classe. Georges passou mais de um ms sem falar com o filho! Depois disso, nunca mais voltaram s boas. Pai e filho afastaram-se cada vez mais um do outro... 
at um belo dia de Natal, quando outro prodgio apareceu em nossas vidas, oferecendo-se. Voc! Julian viera de Nova York visitar-nos, s porque eu lhe implorara 
que tentasse fazer as pazes com o pai...
Ento, Julian viu voc!
     - Temos a responsabilidade de transmitir s geraes mais jovens nossas habilidades tcnicas, de modo que ainda me senti um pouco apreensiva ao aceitar voc 
- principalmente por pensar que magoaria meu filho. No sei por que motivo tive essa impresso, mas pareceu-me bvio desde o incio que voc amava aquele mdico 
mais idoso. Ento, percebi que voc possua algo muito raro: uma paixo pela dana como dificilmente encontramos. A seu prprio
modo, voc era igual a Julian; juntos, foram to sensacionais que mal pude acreditar em meus prprios olhos. Meu filho tambm sentiu a existncia desse elo entre 
vocs dois. Depois que voc fixou nele esses grandes olhos azuis, cheios de suavidade e admirao, Julian veio dizer-me que era uma gatinha sensual, que se deixaria 
dominar facilmente por seus encantos e logo cairia nos braos dele. Julian e eu sempre
#202
mantivemos um relacionamento estreito e ele me confessava coisas que outros rapazes manteriam em segredo.
   Parou mais uma vez, fitou-me dos ps  cabea e prosseguiu, quase sem flego:
   - Voc chegou, admirou-o, amou-o quando danava com ele; entretanto, quando no estavam danando, voc era indiferente. Quanto mais decidida voc estava a vencer, 
mais determinado ele estava a possu-la. Considerei-a inteligente, fazendo um jogo de mulher astuciosa, quando, na verdade, no
passava de uma criana! E agora, voc... voc o abandonou num pas estrangeiro, cujo idioma ele no sabe falar, quando j deveria saber que ele tem fraquezas - muitas 
delas - e que no suporta ficar sozinho!
    Levantou-se de um salto, como um gato de rua arrepiado, postando-se diante de mim:
    - Sem Julian para dar-lhe inspirao e realar-lhe o talento, onde estaria voc? Sem ele, por acaso voc estaria em Nova York, danando numa companhia de bal 
que depressa se vem transformando numa das principais do pas? No! Voc estaria aqui, criando os filhos daquele mdico. S Deus sabe que motivo a levou a aceitar 
o casamento com Julian e como consegue no o
amar! A mim, ele diz que voc no o ama, que nunca o amou! Portanto, ministra-lhe drogas e foge. Abandona-o. Vai assistir ao irmo receber o diploma de mdico quando 
sabe muito bem que seu lugar  ao lado do marido,
fazendo-o feliz e cuidando de suas necessidades!
    - Sim! Sim! - berrou com voz esganiada. - Ele me telefonou da Espanha e me contou tudo! Agora, julga que odeia voc! Agora, quer esquec-la! E quando o conseguir, 
no lhe restar o corao para mant-lo vivo! Pois h anos ele deu seu corao - a voc!
    Ergui-me vagarosamente, com as pernas fracas e trmulas. Passei a mo pela testa dolorida e contive as lgrimas cansadas. De repente, a verdade me atingiu como 
um raio: eu amava Julian! Agora, percebia o quanto ramos semelhantes: ele com seu dio pelo pai que o renegara como filho; eu, com meu
dio por minha me, que me obrigava a cometer loucuras, tais como enviar-lhe
cartas odientas e cartes de Natal estinados a entristecer-lhe a vida e a no permitir que tivesse um s minuto de paz e tranqilidade. Julian competindo com o pai, 
sem entender que vencera e era o melhor... e eu competindo com minha me - mas ainda precisando comprovar meu valor.
    - Madame, vou dizer-lhe algo que Julian talvez no saiba e que eu realmente no sabia at hoje: amo seu filho. Talvez sempre o tenha amado; apenas no conseguia 
aceitar o fato.
    Ela sacudiu a cabea e depois disparou as palavras como se as slabas fossem balas de revlver:
    - Se o ama, por que o abandonou? Responda-me isso! Abandonou-o porque descobriu que ele tem um fraco por garotinhas? Idiota! Todos os homens tm um fraco por 
mulheres jovens - mas, ainda assim, continuam a amar as esposas! Se voc permitir que o desejo de Julian por carne jovem a afaste dele, est louca! Bata-lhe na #203
cara, chute-lhe o traseiro, diga-lhe para
afastar-se das garotinhas ou voc pedir o divrcio! Diga tudo isso e ele ser como voc quer. Todavia, se ficar calada, agindo como se no ligasse, estar dizendo 
claramente que no o ama, no o quer, no precisa dele!
    - No sou me dele, nem padre, nem Deus - repliquei fatigada, farta da paixo e veemncia de Madame Marisha. Recuei em direo  porta, procurando ir embora. 
- No sei se conseguirei manter Julian afastado das garotinhas, mas estou disposta a voltar e tentar. Prometo agir melhor. Prometo ser
mais compreensiva e demonstrar que o amo tanto, mas no me conformo com a idia de que ele faa amor com outra pessoa seno comigo.
    Madame Marisha aproximou-se para abraar-me. Disse em tom consolador:
    - Pobre criana, se fui dura com voc,  para seu prprio bem. Voc precisa evitar que meu filho se destrua. Quando conseguir salv-lo, salvar-se- tambm, pois 
menti ao dizer que sem Julian voc nada seria. Ele no seria nada sem voc! Julian tem uma tendncia  autodestruio; eu sempre
soube. Acha que no  suficientemente bom para continuar vivendo porque seu pai jamais conseguiu convenc-lo do contrrio. E eu tambm tive culpa, como Georges, 
Julian esperou anos a fio que o pai o encarasse como filho, digno de ser amado pelo que era como pessoa. Aguardou por tempo igualmente longo que Georges lhe dissesse: 
"Sim, voc ser melhor bailarino que eu; orgulho-me
do que voc  como artista e como pessoa". Mas Georges se manteve em silncio. Agora, volte e diga a Julian que Georges o amava. A mim, ele o disse muitas vezes. 
Diga tambm a Julian que o pai se orgulhava dele. Diga-lhe, Catherine. Volte e convena-o do quanto voc o ama e necessita dele. Diga-lhe que se arrepende de t-lo 
deixado sozinho. V depressa, antes que ele cometa algo terrvel contra si mesmo!

     Chegou a hora de despedir-me mais uma vez de Carrie, Paul e Henny. S que desta vez no precisei dizer adeus a Chris, pois este fincou p:
     - Nada disso! Irei com voc! No permitirei que volte para aquele louco. S sairei de l quando voc tiver feito as pazes com ele e eu tiver certeza de que 
tudo est bem.
    Carrie chorou, como sempre. Paul se manteve afastado, deixando apenas que seus olhos me dissessem que eu poderia voltar a ocupar um lugar em seu corao.
    Olhei para baixo quando o avio comeou a subir e avistei Paul segurando a minscula mo de Carrie; esta ergueu a cabea para olhar o avio e continuou a acenar 
at no conseguirmos mais enxerg-la. Ajeitei-me numa posio confortvel, apoiei a cabea no ombro de Chris e disse-lhe que me acordasse
quando chegssemos a Nova York.
    - Voc  mesmo uma tima companheira de viagem - resmungou ele. Mas logo encostou o rosto em meu cabelo e comeou a cochilar.
    - Chris - indaguei sonolenta. - Lembra-se daquele livro a respeito de Raymond e Lily, em que estavam sempre  procura do lugar mgico onde havia grama roxa, 
no qual #204
poderiam satisfazer todos os seus desejos? No seria maravilhoso olharmos para baixo e avistarmos grama roxa?
    - Sim - respondeu ele, to sonolento quanto eu. - Tambm estou procurando.
    O avio pousou no aeroporto de La Guardia por volta de trs horas de um dia quente e abafado. O sol brincava de esconder entre as nuvens carregadas de chuva 
que se acumulavam no cu. Estvamos ambos cansados.
     - A esta hora, Julian deve estar ensaiando no teatro. Aproveitaro os ensaios para um filme promocional de espetculo. Teremos que ensaiar muitas vezes; nunca 
danamos antes neste teatro e  importante termos a noo exata do espao disponvel.
    Chris carregava minhas duas malas pesadas, enquanto eu levava a sua, muito mais leve. Ri, achando graa no seu jeito, satisfeita de t-lo perto de mim, embora 
soubesse que Julian ficaria furioso.
    - Agora, mantenha-se  distncia... e nem mesmo permita que ele o veja, caso as coisas corram bem. Na verdade, Chris, tenho certeza de que ele ficar feliz por 
rever-me. No  perigoso.
    - Claro - replicou Chris num tom sombrio.
    Entramos na platia escura. O palco estava brilhantemente iluminado, as cmeras de TV em posio, prontas para focalizar o aquecimento dos bailarinos. O diretor, 
o produtor e alguns outros homens ocupavam poltronas na primeira fila.
    O calor do dia era contrabalanado pela frieza do imenso espao. Chris abriu uma de minhas malas e colocou-me um suter sobre os ombros depois que nos sentamos 
perto do corredor, na metade posterior da platia. Num gesto automtico, ergui ambas as pernas e estiquei-as sobre as costas da poltrona logo  minha frente. Embora 
eu tremesse de frio, os componentes do corps de ballet transpiravam sob o forte calor dos refletores, apesar de ainda no haverem ligado a iluminao total. Procurei 
por Julian, mas no o avistei.
     Bastou-me pensar em Julian para que este surgisse das coxias, atravessando o palco numa srie de jets rodopiantes. Oh! estava maravilhoso na justa malha branca, 
com agasalhos de l vermelha nas pernas.
    - Puxa! - exclamou-me Chris ao ouvido. - s vezes me esqueo do quanto ele  sensacional no palco. No  de espantar que todos os crticos de bal julguem que 
ele ser o astro desta dcada quando aprender um pouco de disciplina. Que seja muito em breve... e refiro-me a voc tambm, Cathy.
    Sorri, pois eu tambm precisava de disciplina.
    - Sim -concordei. - Eu tambm,  claro.
     Mal Julian terminou sua apresentao em solo e Yolanda Lange veio piruetando das coxias, usando uma malha vermelha. Estava mais linda que nunca! Danava extraordinariamente 
bem para uma moa to alta. Ou melhor, danava bem at que Julian se apresentava para danar com ela. Ento,
tudo dava errado. Julian estendia as mos para pegar-lhe a cintura e segurava-lhe as ndegas; a precisava mudar rapidamente a posio das mos. Yolanda escorregava 
e quase caa; Julian tinha que ajustar novamente a pegada para salv-la do tombo. #205
Um bailarino que deixasse uma bailarina cair, em breve ficaria sem par. Tornaram a repetir a mesma seqncia: um salto, Julian erguia Yolanda e esta se deixava tombar 
no alto. Desta vez, o resultado foi igualmente
desajeitado, fazendo Yolanda parecer desgraciosa e Julian inbil.
    Mesmo eu, sentada quase no fundo da platia, pude escutar as imprecaes de Yolanda.
    - Maldito! - berrou ela. - Faz-me parecer desajeitada... se me deixar cair, providenciarei para que nunca mais torne a pisar num palco!
    - Corta! - berrou o diretor, pondo-se de p e olhando, impaciente, de um para o outro.
    O corps de ballet movimentava-se encabuladamente, resmungando e lanando olhares irritados ao par no centro do palco, que fazia todo mundo perder tanto tempo. 
Obviamente, pelo aspecto suado e olhares raivosos de todos eles, aquilo j vinha ocorrendo h algum tempo, sempre com maus resultados.
    - Marquet! - chamou o diretor, famoso por sua impacincia com artistas que exibiam duas ou mais fornadas de uma mesma cena. Que diabo h de errado com o seu 
ritmo? Pensei que voc tinha afirmado j conhecer este
bal. No me lembro de uma s coisa que voc tenha feito corretamente nos ltimos trs dias!
    - Eu! - esbravejou Julian! No sou eu...  ela! Sempre salta antes da hora!
    - Est bem - disse o diretor, sarcstico. -  sempre culpa dela nunca
sua!
    Tentou controlar a impacincia, sabendo que Julian sairia logo do palco se sofresse muitas crticas.
    - Quando sua esposa ficar em estado de voltar ao palco?
    Foi a vez de Yolanda berrar:
    - Ei, esperem um minuto! Fizeram-me vir de Los Angeles e agora parece que me pretendem substituir por Catherine! No admitirei tal coisa! Agora, fao parte daquele 
contrato! MovereI uma ao judicial!
    Srta. Lange - disse o diretor, procurando acalm-la. -  apenas a
cobertura da Srta. Dahl. Enquanto isso, vamos tentar mais uma vez. Marquet, preste ateno a sua deixa. Lange, apronte-se... Deus permita que desta vez saia algo 
digno de exibir a um pblico que tem o direito de esperar um desempenho melhor por parte de profissionais!
    Sorri ao saber que Yolanda era apenas minha cobertura; at ento, julgara que fora definitivamente excluda do elenco.
    Perversamente, diverti-me observando Julian fazer papel de palhao e arrastar consigo Yolanda. No obstante, quando os bailarinos gemeram no palco eu tambm 
gemi, sentindo-me to exausta quanto eles. A despeito de mim mesma, comecei a ter pena de Julian, que se esforava diligentemente para
equilibrar Yolanda. A qualquer momento o diretor suspenderia o ensaio para dez minutos de descanso e, ento, eu entraria em ao.
#206
    L na frente, na primeira fila, Madame Zolta virou repentinamente o pescoo sulcado de rugas para olhar na minha direo. Os olhos negros me viram sentada, tensa, 
observando a cena como uma guia.
    - Ei, voc, Catherine! - chamou ela com grande entusiasmo.
     Gesticulando, indicou: "Venha! Sente-se perto de mim!"
    - Com licena, um minuto, Chris - sussurrei - Preciso ir at l e salvar
Julian antes que ele estrague ambas as nossas carreiras. Tudo estar bem. Ele nada poder fazer diante de uma platia, no  mesmo?
    Quando me sentei ao lado de Madame Zolta, ela sibilou:
    - Ento, voc no estava to doente, afinal! Graas a Deus por este pequeno favor! L est seu marido, arruinando-me a reputao junto com a sua e com a dele. 
Eu deveria ter suficiente juzo para no permitir que ele danasse apenas com voc. Agora,  incapaz de danar com qualquer outra bailarina!
    - Madame - indaguei -, quem providenciou para que Yolanda fosse minha substituta?
    - Seu marido, meu amor - replicou ela cruelmente. - Voc foi uma idiota quando permitiu que ele assumisse o controle. Julian  impossvel!  um furaco, um demnio, 
no sabe ser razovel! Logo ficar louco, se no tornar a ver seu rosto. Ou melhor: logo ns ficaremos loucos. Agora, v
correndo vestir uma malha de dana e salve-me da extino total!
    Foi apenas questo de segundos vestir uma malha de ensaio e, to logo terminei de enrolar e prender bem os cabelos, calcei as sapatilhas. Aqueci-me rapidamente 
na barra existente no camarim, fazendo plis e ronds de jambes para bombear o sangue nos membros. Em breve estava pronta, pois no se passara um s dia sem que eu 
fizesse vrias horas de exerccios.
    Hesitei nas coxias escuras. Refleti que estava preparada para quase tudo quando Julian me avistasse... Que faria ele? Enquanto eu observava Julian fazer um solo 
no palco, senti-me repentinamente empurrada com fora por detrs!
    - Voc foi substituda - sibilou-me ao ouvido Yolanda Lange. - Portanto, caia fora - e fique por l! Teve sua oportunidade e a jogou fora: agora, Julian  meu! 
Ouviu bem? meu! J dormi em sua cama, utilizei-me de seus cosmticos e usei suas jias - tomei seu lugar em tudo!
    Eu desejava ignor-la e no acreditar em nada do que ela dizia. Quando veio a deixa para a entrada em cena de Giselle, Yolanda tentou deter-me. Foi quando me 
voltei sobre ela como uma selvagem, empurrando-a com tanta fora que ela caiu: Empalideceu de dor, enquanto eu me coloquei en pointe e
deslizei para o palco, fazendo um perfeito "colar de prolas"... Cada passo minsculo podia ser medido e teria a mesma distncia. Eu era a tmida jovem alde que 
se apaixonava doce e verdadeiramente por Loys. Os outros no palco prenderam a respirao ao me reconhecerem. O alvio brilhou nos olhos
negros de Julian - mas apenas por breve instante.
    - Ol - disse ele com grande frieza, quando me aproximei batendo as plpebras para encant-lo ainda mais. - Por que voltou? Seus mdicos a expulsaram de l? 
J #207
enjoaram de voc?
    - Voc  um bruto maldoso e sem considerao, Julian! Substituir-me por Yolanda quando sabe que eu a detesto!
    De costas para os espectadores, ele exibiu um sorriso malvolo, sem parar de acompanhar o ritmo da msica.
    - Sim, sei que voc a detesta; por isso a escolhi.
    Franziu os belos lbios vermelhos at ficarem feios.
    - Escute bem uma coisa, boneca bailarina: ningum me abandona, especialmente minha esposa, e volta pensando que ainda pode ocupar um lugar em minha vida. Meu 
amor, meu corao querido, agora eu no a quero mais! No preciso mais de voc. E voc pode ir bancar a puta para o homem que quiser! Cai fora da minha vida!
    - No est dizendo a verdade - repliquei, enquanto ambos fazamos
uma seqncia perfeita e ningum mandou cortar a tomada.
    Como poderiam cortar a cena, se fizemos tudo com tanta perfeio?
    - Voc no me ama - disse Julian com amargura. - Nunca me amou. Por mais que eu fizesse ou dissesse, nunca me amou. Agora, j no faz diferena para mim! Dei-lhe 
o melhor de que fui capaz, mas no bastou. Portanto, minha amada Catherine... dou-lhe isto!
    Com aquelas repentinas palavras, Julian interrompeu a seqncia do bal, pulou muito alto e desceu com toda fora, diretamente sobre meus ps. Todo o seu peso 
se abateu como um bate-estaca sobre meus artelhos!
    Soltei uma exclamao de dor. Ento, Julian girou nos calcanhares e debruou-se para acariciar-me o queixo.
    - Agora, amor, voc ver quem danar Giselle comigo. Certamente no ser voc, bem?
    - Intervalo! -berrou o diretor, tarde demais para salvar-me.
     Julian agarrou-me os ombros e sacudiu-me como uma boneca de trapos. Estonteada, tentei focaliz-lo, esperando tudo dele. Ento, de repente, ele fez um rodopio 
e me abandonou no centro do palco, sozinha, apoiando-me nos ps que doam tanto a ponto de eu ter vontade de berrar. Ao invs disso,
deixei-me cair no palco, olhando para os ps que inchavam rapidamente.
    Chris correu do auditrio escuro para socorrer-me.
    - Maldito seja ele por fazer isto! - vociferou meu irmo, ajoelhando-se para descalar-me as sapatilhas e examinar os ps.
     Com extremo cuidado, tentou mover-me os dedos, mas gritei ao sentir a dor terrvel. Ento, Chris me pegou no colo com facilidade e estreitou-me contra o peito.
    - Ficar boa, Cathy. Cuidarei para que seus dedos soldem corretamente. Temo que alguns artelhos de cada p estejam fraturados. Voc vai precisar de um ortopedista.
    - Leve Catherine para o nosso ortopedista - ordenou Madame Zolta, que avanara para observar meus ps inchados e roxos.
#208
    Olhou de perto para Chris, pois vira-o apenas algumas vezes anteriormente.
    - Voc  o irmo de Catherine, causador de toda essa encrenca? - quis saber ela. - Leve-a depressa para o mdico. Temos seguro contra acidentes. Mas aquele marido 
imbecil... basta! Est despedido!

O Dcimo Terceiro Bailarino

    Ambos os meus ps foram radiografados, revelando trs artelhos fraturados no p esquerdo e o dedo mnimo fraturado no direito. Graas a Deus, os dedos maiores 
foram poupados, do contrrio talvez eu nunca mais voltasse a danar! Uma hora mais tarde, Chris carregou-me para fora da sala do
ortopedista, com um aparelho de gesso ainda fresco no p, chegando-me at o joelho,
enquanto o dedinho quebrado estava apenas protegido com esparadrapo e deixado para soldar-se sem o gesso. Cada um dos artelhos no aparelho de gesso se encontrava 
seguramente aninhado em seu prprio compartimento acolchoado e devidamente imobilizado, deixado  mostra para que todos pudessem admirar as belas variaes de preto, 
azul e roxo que ostentavam. Em meus
pensamentos, as ltimas palavras agridoce do mdico eram insuficientes para animar as perspectivas futuras:
    - Voc poder ou no voltar a danar; tudo depende.
     Mas no disse do que dependia.
     Portanto, perguntei a Chris.
   - Claro que voltar a danar - replicou ele, confiante. - s vezes, os mdicos preferem ser exageradamente pessimistas, para que o cliente o julgue o maior quando 
tudo d certo - graas  sua percia incomum.
    Desajeitadamente, tentou amparar-me enquanto usava a chave para abrir a porta do apartamento onde eu morava com Julian. Depois, tornou a pegar-me cuidadosamente 
no colo, entrou no apartamento e fechou a porta
com um empurro do calcanhar. Tentou ajeitar-me da maneira mais confortvel possvel num dos macios sofs. Mantive os olhos fechados com fora, procurando suprimir 
a dor que sentia a cada movimento.
     Chris ergueu-me ternamente ambas as pernas, a fim de colocar sobre elas almofadas que as manteriam elevadas e reduziriam a inchao. Outra grande e macia almofada 
foi-me colocada sob os ombros e a cabea... E Chris no pronunciou uma palavra... nem uma s palavra...
    J que ele se mostrava to calado, abri os olhos para examinar-lhe a expresso do rosto. Meu irmo tentava mostrar-se profissional, distante - mas no conseguia. 
Revelava-se chocado cada vez que seus olhos passavam de um objeto para outro. Atemorizada, olhei em volta. Esbugalhei os olhos, boquiaberta. Nossa sala! Que desastre! 
oh! Deus, que coisa horrvel!
#209
    Nosso apartamento estava destrudo! Cada quadro que Julian e eu tnhamos escolhido com tanto esmero fora arrancado da parede, rasgado da moldura, atirado no 
cho. At mesmo as duas aquarelas que Chris pintara
especialmente para mim: retratos meus em trajes de bal. Todos os valiosos adornos de loua e cristal estavam quebrados na lareira. Os abajures espalhados  pelo 
cho, as cpulas rasgadas em tiras, as armaes de arame retorcidas. Almofadas bordadas por mim durante as maantes viagens de um lugar para
outro em nossas excurses estavam cortadas, destrudas! As plantas caseiras tinham sido arrancadas dos vasos e deixadas  morte com as razes expostas. Um par de 
jarras que Paul nos dera como presente de casamento tambm tivera o mesmo fim. Tudo que era bom e caro, muito querido - objetos que Julian e eu planejvamos guardar 
pelo resto da vida e deixar para nossos filhos - tudo destruido alm de qualquer possibilidade de restaurao!
    - Vndalos - disse Chris em voz baixa. - Simplesmente vndalos.
    Sorriu, beijou-me a testa e apertou-me a mo quando as lgrimas me saltaram aos olhos.
    - Tenha calma - aconselhou, afastando-se para examinar os outros cmodos, enquanto eu me derreei sobre as almofadas, soluando e fungando.
    Oh! como Julian devia odiar-me, para fazer tal coisa!
    Chris voltou pouco depois, com o rosto muito composto, usando aquela mesma expresso de "olho de furaco" que eu lhe vira poucas vezes na fisionomia.
    - Cathy - comeou ele, sentando-se cautelosamente na beirada do sof e estendendo a mo para pegar a minha. - No sei o que pensar. Todas as suas roupas e sapatos 
foram estragados. Suas jias esto espalhadas pelo cho do quarto, os colares arrebentados, os anis esmagados, as pulseiras deformadas. Parece que algum resolveu 
destruir deliberadamente tudo que era seu, deixando intactas as coisas de Julian.
    Lanou-me um olhar confuso e preocupado; tive a impresso de que as lgrimas que eu procurava conter passaram para seus olhos. E foi com os olhos azuis marejados 
de lgrimas que ele estendeu a mo espalmada para
mostrar-me o aro de um anel de noivado outrora extico: o presente de Paul. O aro de platina estava transformado num oval disforme. O engaste fora quebrado para 
soltar o lmpido e perfeito brilhante de dois quilates.
    Haviam-me injetado sedativos, de modo a diminuir a dor nos artelhos fraturados. Sentia-me zonza, desorientada e um tanto indiferente. Algum dentro de mim gritava 
incessantemente - o dio estava prximo, mais uma vez -, o vento uivava. Fechando os olhos, vi-me cercada de montanhas
encobertas de nvoa azul que tapavam o sol - como no sto.
    - Julian - murmurei com voz sumida. - Deve ter sido ele. Voltou para c e desabafou a raiva em meus pertences. Veja os objetos que ficaram inteiros: so coisas 
que ele escolheu sozinho.
    - Maldito seja ele!- exclamou Chris. - Quantas vezes desabafou a raiva sobre voc? Quantos olhos inchados? Eu vi um... mas quantos foram? 
    - No fique assim, por favor - pedi em voz sonolenta e preguiosa.
#210
Ele nunca me bateu sem chorar depois, declarando-se arrependido.
    Sim... "Sinto muito, minha querida, meu nico amor. .. no sei o que me leva a agir assim quando a amo tanto!"
    - Cathy - disse Chris, hesitante, guardando no bolso o aro de platina. - Voc est bem? Parece prestes a desmaiar. Vou arrumar a cama e voc poder descansar 
no quarto. Logo adormecer e esquecer tudo isto; quando acordar, eu a levarei embora daqui. No se lamente pelas roupas e coisas que ele lhe deu, pois eu lhe darei 
mais e melhores. Quanto ao anel que foi presente
de Paul, passarei uma revista no quarto at encontrar o brilhante.
    Chris procurou, mas no encontrou o brilhante. E quando adormeci, ele deve ter-me carregado para a cama, na qual colocara lenis limpos. Quando acordei, estava 
coberta por um lenol e uma manta fina. Chris, sentado na beira da cama, estudava-me o rosto. Olhei para as janelas e percebi que j anoitecia. A qualquer momento, 
Julian voltaria para casa e encontraria Chris
comigo - ia ser o diabo!
    - Chris, voc me tirou as roupas e vestiu esta camisola? - perguntei, quase indiferente, ao ver a manga azul de uma das minhas camisolas prediletas.
    - Sim. Julguei que seria mais confortvel que aquele terninho com a
cala descosturada at acima do joelho. E sou mdico, lembra-se? Estou acostumado a ver de tudo. Alm disso, fiz questo de no olhar.
    A escurido do crepsculo invadia o quarto, tornando as sombras suaves e arroxeadas. Ainda zonza, vi Chris como outrora, quando o ambiente no sto assumia aquele 
aspecto sombrio, amedrontador, e ficvamos sozinhos  espera de algum horror que estivesse por acontecer. Chris sempre fora capaz de reconfortar-me quando nada mais 
poderia faz-lo. Estava sempre presente
quando eu necessitava dele, dizendo e fazendo o que era mais adequado.
    - Lembra-se do dia em que Mame recebeu aquela carta da av, dizendo que poderamos ficar em sua casa? Na ocasio, julgamos que um futuro maravilhoso nos esperava; 
mais tarde, pensvamos que toda a alegria ficara no passado. Nunca, jamais, no presente.
    - Sim - disse ele, baixinho. - Lembro-me. Acreditamos que seramos ricos como Midas e que tudo em que tocssemos se transformaria em ouro. Apenas seramos mais 
controlados e teramos o cuidado de manter em carne e osso as pessoas que amvamos. Naquela poca, ramos pequenos, tolos e
confiantes demais.
    - Tolos? No acho que fssemos tolos, mas apenas normais. Voc atingiu sua meta e  mdico. Eu, porm, ainda no sou uma prima ballerina - acrescentei com amargura.
    - Cathy, no se menospreze. Ainda ser uma prima ballerina! - afirmou Chris calorosamente. - J seria, h muito tempo, se Julian controlasse os ataques de nervos 
que atemorizam todos os gerentes de companhia de bal e evitam que vocs tenham melhores contratos. Na verdade, voc est presa a uma companhia de bal sem importncia 
porque se recusa a abandonar Julian.
    Suspirei, desejando que meu irmo no tivesse dito aquelas palavras. Era bem
#211
verdade que os ferozes ataques de nervos de Julian afastaram de ns mais de uma oferta para fazermos parte de companhias de bal muito famosas.
    - Voc precisa ir embora, Chris. No quero que Julian chegue e o encontre aqui. Ele no me quer perto de voc. E no posso abandon-lo.  sua maneira, Julian 
me ama e necessita de mim. Sem minha presena para
control-lo, seria dez vezes mais violento. Alm disso, eu o amo. Se ele me bateu
algumas vezes, foi apenas para fazer-me entender isso. E agora eu entendo.
    - Entende? - exclamou Chris. - Voc no est entendendo! Est permitindo que a pena que sente de Julian lhe roube todo o bom senso! Olhe em volta, Cathy! S 
um louco seria capaz de fazer isso! No vou deix-la
enfrentar sozinha um louco! Ficarei aqui para proteg-la. Diga-me o que poder fazer sozinha se ele resolver castig-la novamente por t-lo abandonado na Espanha! 
Pode levantar-se e correr? No! E no vou deix-la aqui desprotegida, quando ele pode chegar em casa bbado, ou drogado...
    - Ele no toma txicos! - protestei, defendendo o que havia de bom em Julian e - no sei por que motivo - desejando esquecer tudo o que ele tinha de ruim.
    - Ele pulou em seus ps quando sabe que voc precisa deles para danar. Portanto, no me venha dizer que est lidando com um homem mentalmente so. Quando voc 
foi trocar de roupa no camarim, escutei algum
comentar que Julian ficou muito diferente desde que comeou a andar com Yolanda. Todos desconfiam que ele est usando txicos e s por isso mencionei o assunto.
    Fez uma pausa antes de acrescentar:
    - Alm disso, sei por experincia prpria que Yolanda toma tudo que estiver ao seu alcance.
    Eu estava sonolenta, dolorida e preocupada com Julian, que quela hora j deveria estar em casa. Alm disso, havia um beb cujo destino eu precisava decidir.
    - Ento fique, Chris. Mas, quando Julian chegar, fique  distncia e deixe as palavras por minha conta, est bem?
    Ele assentiu com a cabea e comecei a adormecer outra vez, como se a nica realidade fosse a cama e o sono de que eu tanto necessitava. Preguiosamente, sem 
prestar ateno, tentei virar-me de lado e as pernas escorregaram das almofadas, fazendo-me soltar um grito de dor.
    - Cathy... no se mova -disse Chris, apressando-se a endireitar as almofadas e ajeitar-me as pernas sobre elas. - Deixe-me deitar a seu lado e abra-la, enquanto 
ele no chega. Prometo no dormir e, to logo ele abrir a porta, levantarei e no me meterei na conversa.
    Sorriu para animar-me. Meneei a cabea em afirmativa e aninhei-me nos braos clidos e fortes que me envolveram. Tentei mais uma vez encontrar alvio no sono.
    Como num sonho, senti lbios suaves se moverem sobre meu rosto, beijando-me os cabelos, as plpebras, a face e, finalmente, a boca.
    - Eu a amo muito. Oh! meu Deus, eu a amo tanto! - escutei-o dizer.
#212
     Desorientada, julguei por um instante que se tratasse de Julian, de volta  nossa casa, pedindo desculpas por humilhar-me e machucar-me... pois costumava agir 
assim, causando-me dor e depois desculpando-se, fazendo-me amor com um abandono selvagem. Portanto, virei-me um pouco para o lado e
correspondi-lhe os beijos, abraando-o e enfiando os dedos entre seus cabelos fortes e escuros... S ento percebi. Os cabelos no eram fortes e crespos, mas sedosos 
e finos, como os meus.
    - Chris! - exclamei. - Pare!
    Mas ele perdera o controle, cobrindo de beijos ardentes meu rosto, pescoo e o busto que desnudara-se.
    - No me mande parar - murmurou ele, acariciando-me. - A vida inteira s tive frustraes. Tento amar outras, mas  sempre voc... voc, que nunca poderei possuir! 
Cathy... largue Julian! Venha embora comigo!
Iremos para algum lugar distante, onde ningum nos conhea, e viveremos juntos
como marido e mulher. No teremos filhos... cuidarei disso. Podemos adotar crianas. Voc sabe que seremos bons pais... sabe que nos amamos - que nos amaremos para 
sempre! Nada poder alterar isso! Fuja de mim e case-se com uma dzia de outros homens, mas ter sempre o corao nos olhos quando me fitar...  a mim que voc quer 
- como eu a quero!
    Deixando-se levar pelos prprios argumentos, recusava-se a escutar meus dbeis protestos.
    - Cathy... s abra-la, t-la outra vez! Agora. saberei dar-lhe o prazer que no consegui proporcionar antes... por favor, se algum dia me amou... abandone 
Julian antes que ele nos destrua!
    Sacudi a cabea, tentando focalizar a ateno no que ele dizia e fazia. Seus cabelos louros estavam-me abaixo do queixo e ele passava o nariz nos bicos de meus 
seios; embora no visse minha expresso de recusa, escutou-me a voz.
    - Christopher, estou esperando um filho de Julian. Consultei um ginecologista quando estive em Clairmont; por esse motivo, demorei-me l mais do que pretendia. 
Julian e eu vamos ter um filho.
    Pela maneira como ele recuou, parecia que eu o esbofeteara. Interrompeu o doce xtase de beijar partes secretas que me excitavam. Sentou-se na beira da cama, 
curvando-se e escondendo o rosto nas mos. Ento, comeou a chorar.
    - Voc sempre me derrota, Cathy! Primeiro, Paul; depois, Julian... agora, um beb.
    De repente, ergueu o rosto para encarar-me.
    - Venha comigo e deixe-me ser o pai da criana! Julian no merece! Mesmo que jamais me permita toc-la, deixe-me viver o bastante perto de voc para v-la e 
escutar-lhe a voz todos os dias. s vezes, desejo que tudo voltasse a ser como antes... apenas voc e eu, e nossos gmeos.
    O silncio, que ambos conhecamos bem, envolveu-nos, encerrando-nos em nosso mundo secreto particular, onde havia o pecado e moravam os maus pensamentos. E ns 
pagaramos se algum dia... Mas no! No haveria "se algum dia"...
#213
    -Chris, vou ter um filho com Julian - declarei com uma firme deciso que me surpreendeu. - Quero o filho de Julian - porque o amo, Chris e fracassei com ele 
sob muitos aspectos. Falhei porque voc e Paul
encheram-me os olhos e o pensamento, no permitindo que eu apreciasse o que poderia
encontrar em Julian. Deveria ter sido melhor esposa; ento, ele no teria necessidade daquelas garotinhas. Eu sempre amarei voc - mas  um amor sem perspectivas 
e, portanto, desisto dele. Desista tambm! Esquea o passado de uma Catherine Doll que j no existe.
    - Voc perdoa Julian ter-lhe fraturado os artelhos? - indagou Chris, espantado.
    - Julian sempre me implorava para dizer que o amava e eu nunca disse. Mantive-me sob um guarda-sol enganador, a fim de afastar as dvidas sombrias de minha mente, 
recusando-me a ver tudo o que Julian tinha de bom e belo fora do bal. Portanto, Chris, liberte-me. Mesmo que eu nunca mais volte a danar, terei o filho de Julian... 
e este seguir sozinho o caminho da fama.
    Chris saiu, batendo a porta, e me deixou sozinha. Logo adormeci e comecei a sonhar com Bart Winslow, o segundo marido de minha me. Danvamos uma valsa no imenso 
salo de bailes de Foxworth Hall e, l em cima, perto da balaustrada do balco, duas crianas se escondiam no interior da macia cmoda com o fundo de tela de arame. 
A rvore de Natal no canto do salo parecia atingir o cu e centenas de pessoas danavam conosco - mas
eram pessoas de celofane transparente, sem a beleza saudvel de carne e osso que Bart e eu possuamos. De repente, Bart parou de danar, pegou-me no colo para subir 
a larga escadaria e depositou-me na suntuosa cama com formato de cisne. Meu lindo vestido de veludo verde com adornos de gaze verde-claro dissolveu-se ao toque de 
suas mos ardentes - e o poderoso membro masculino que me penetrou e se movimentou em minhas entranhas fez-me gritar e berrar. Cada grito agudo soava exatamente 
como um toque do telefone.
    Acordei sobressaltada... Por que um telefone que toca na calada da noite tem sempre um som to ameaador? Sonolenta, estendi a mo para atender.
    - Al?
    - Sra. Julian Marquet?
    Despertei um pouco mais, esfregando os olhos. 
    - Sim. Sou eu.
    A mulher disse o nome de um hospital no outro lado da cidade.
    - Poderia vir o mais rpido possvel, Sra. Marquet? Veja se consegue algum que lhe d uma carona. Seu marido sofreu um acidente de automvel e ainda est na 
sala de cirurgia. Traga consigo seus documentos de seguro, carteira de identidade e quaisquer dados mdicos disponveis... Sra.
Marquet?... Ainda est no aparelho?
    No. Eu no estava no aparelho. Encontrava-me de volta a Gladstone, na Pensilvnia, e tinha onze anos de idade. Dois patrulheiros rodovirios estavam com o carro 
da polcia estacionado  nossa porta... e interromperam rapidamente uma #214
festa de aniversrio para informar-nos de que Papai estava morto. Sofrera um acidente na Rodovia Greenfield.
    - Chris! Chris! - berrei, aterrorizada pela possibilidade de meu irmo ter-se ido.
    - Estou aqui. Sabia que voc precisaria de mim.

    Naquela hora obscura e solitria que precede o amanhecer, Chris e eu chegamos ao hospital. Sentamo-nos em uma das estries salas de espera para aguardar noticias 
e sabermos se Julian sobreviveria ao acidente e  cirurgia. Afinal, por volta de meio-dia, aps horas a fio na sala de recuperao, Julian foi trazido para baixo.
     Tinham no colocado no que chamavam de "cama de fraturas" - um aparelho que parecia um instrumento de tortura, que erguia sua perna direita engessada da ponta 
do p at o quadril. O brao esquerdo fraturado, tambm
engessado, estava colocado numa posio peculiar. O rosto plido apresentava
cortes e equimoses. Os lbios, normalmente to cheios e vermelhos, pareciam to plidos quanto o rosto. Mas tudo isto era nada em comparao com a cabea de Julian! 
Estremeci ao v-la! Fora raspada em vrios lugares e trazia as marcas dos furos feitos para a introduo de instrumentos metlicos
destinados  manipulao do crnio! Uma coleira de couro forrada com l envolvialhe o pescoo. Fratura de vrtebras do pescoo! Alm de uma fratura na perna e uma 
fratura exposta no antebrao, sem falar nos ferimentos internos que o haviam mantido na mesa de operaes durante trs horas!
     Exclamei:
   - Ele vai viver?
   - Seu estado  crtico, Sra. Marquet - responderam com a maior calma. - Se ele tem outros parentes, sugerimos que sejam avisados.
   Chris telefonou para Madame Marisha, pois eu temia que Julian morresse a qualquer momento e no queria perder a nica oportunidade de dizer que o amava. E se 
isso acontecesse, eu me sentiria amaldioada e perseguida pelo remorso pelo resto da vida.

    Os dias se passaram. Julian recobrava a 
conscincia e tornava a perd-la. Olhava-me com olhos sem brilho, fora de foco. Falava, mas sua voz era to pastosa, arrastada e ininteligvel que eu no conseguia 
entend-lo. Desculpei-lhe todos os pequenos pecados - e os grandes tambm, como costuma acontecer quando a morte est to perto. Aluguei um quarto ao lado do dele, 
no
hospital, onde podia cochilar a intervalos. Todavia, no tive uma s noite completa de descanso. Precisava estar ao lado de Julian quando ele voltasse a si, onde 
poderia ver-me e reconhecer-me, a fim de implorar-lhe que lutasse para viver e, sobretudo, dizer-lhe todas as palavras que lhe negara de modo to avarento.
    - Julian - sussurrava-lhe, rouca de tanto repetir a frase. - No morra, por favor!
#215
     Nossos colegas de bal e muscos vinham em grupos ao hospital, oferecerem o consolo possvel. O quarto de Julian estava cheio de flores enviadas por centenas 
de admiradores. Madame Marisha veio da Carolina do Sul e rondava o quarto usando um horrvel vestido negro. Fitava sem a menor expresso de
tristeza o rosto inconsciente de seu nico filho.
    -  melhor ele morrer agora - declarava, aparentemente insensvel -  melhor do que voltar a si e verificar que ficou aleijado para o resto da vida.
    Ento, seu olhar assumia uma expresso de pena e incredulidade - e ela chorava. Ela, que se gabava de nunca chorar ou demonstrar tristeza, chorava em meus braos.
    - Diga-me outra vez que ele voltar a danar... Oh! no minta - ele tem que voltar a danar!
    Passaram-se cinco dias tenebrosos antes que Julian conseguisse focalizar suficientemente os olhos para enxergar. Incapaz de virar a cabea, voltou para mim os 
olhos negros.
    - Ol.
    - Ol, sonhador. Pensei que nunca mais acordaria - respondi. 
    Ele exibiu um leve sorriso irnico.
    - Voc no teria tamanha sorte, Cathy querida - disse ele, baixando os olhos para a perna sob trao. - Preferia morrer a estar assim.
    Levantei-me e fui at a cama ortopdica feita com duas largas faixas de lona presas a duas fortes barras, tendo por baixo um colcho que podia ser baixado e 
erguido para permitir a colocao de uma comadre sob Julian sem lhe alterar a posio do corpo. A cama era dura e nao permitia movimento do
doente. No obstante, estendi-me  cautelosamente ao lado de Julian e enfiei-lhe os dedos nos cabelos em desalinho - ou melhor, no que restava deles. Com a mo livre, 
acariciei-lhe o peito.
    - Jule, voc no est paralisado. A medula no foi rompida, esmagada ou mesmo afetada. Encontra-se apenas em estado de choque, por assim dizer.
     Julian tinha um brao so, que poderia estender para abraar-me. Todavia, permaneceu estendido ao longo do corpo.
    - Est mentindo - disse com amargura. - No sinto absolutamente nada da cintura para baixo. Nem sua mo em meu peito. Portanto, caia fora daqui! Voc no me 
ama! Esperou at pensar que estou morrendo para vir
com essas frases melosas! No quero nem preciso de sua piedade... portanto caia fora daqui e no volte!
    Sa da cama e peguei minha bolsa. Chorei, da mesma forma como ele estava chorando com o olhar fixo no teto.
    - Maldito seja por destruir nosso apartamento! - vociferei quando consegui falar. - Rasgou minhas roupas!
    Andei de um lado para outro, furiosa, sentindo mpetos de esbofetear aquele rosto j ferido e inchado.
    - Maldito seja por quebrar todas as nossas lindas coisas! Sabia com que esmero escolhemos todos os objetos, que nos custaram uma fortuna! Sabe que desejamos 
deix-los como herana para nossos filhos! Agora, nada nos resta para deixarmos para ningum!
#216
    Ele sorriu, satisfeito.
    - Sim, no resta nada para ningum.
    Bocejou, dispensando-me, mas eu no estava disposta a ser dispensada.
    - Graas a Deus, no temos filhos - disse Julian. - Nem teremos. Voc pode requerer o divrcio. Case-se com algum filho da puta e faa-o infeliz tambm.
    - Julian - disse eu, sentindo todo o peso da tristeza. - Eu o fiz infeliz?
    Ele piscou, como se no quisesse responder, mas insisti at for-lo a
dizer:
    - No totalmente infeliz... Tivemos alguns bons momentos.
    - S alguns?
    - Bem... talvez mais que apenas alguns. Mas no precisa continuar ao meu lado s para cuidar de um invlido. Caia fora enquanto pode. Eu no presto, voc sabe. 
Tenho sido infiel repetidas vezes.
    - Se tornar a s-lo, arranco-lhe o corao!
    - V embora, Cathy. Estou cansado - disse com voz aparentemente sonolenta por causa de todos os sedativos que lhe ministravam. - De todo modo, filhos no servem 
para gente como ns.
    - Gente como ns?
    - Sim, gente como ns.
    - Em que somos diferentes dos outros?
    O riso de Julian foi a um s tempo zombeteiro, sonolento e amargo.
    - No somos reais. No pertencemos  raa humana.
    - O que somos, ento?
    - Bonecos que danam, nada mais. Idiotas que danam, tm medo de serem gente de verdade e viverem no mundo real. Por isso, preferimos a fantasia. Voc no sabia?
    - No, eu no sabia. Sempre pensei que fossemos pessoas de verdade.
    - No fui eu quem estragou suas coisas; foi Yolanda. Mas eu assisti.
    Senti-me doente, temendo que ele falasse a verdade. Seria eu apenas uma boneca que danava? Incapaz de viver no mundo real fora do teatro? Era possvel que fosse 
to inepta quanto mame para enfrentar a realidade?
    - Julian... eu o amo, palavra de honra. Pensava amar outra pessoa, pois me parecia pouco natural pular de repente de um amor para outro. Quando eu era criana, 
acreditava que o amor s acontece uma vez na vida de cada pessoa e depois de se amar algum era impossvel amar-se outra pessoa. Mas estava enganada.
    - Saia e deixe-me em paz. No quero ouvir o que voc tem a dizer - no agora. Na verdade, agora pouco me importa.
    As lgrimas me corriam pelo rosto, pingando em Julian. Este fechou os olhos, recusando-se a ver ou escutar. Debrucei-me para beijar-lhe os lbios, que se mantiveram 
duros, contrados, sem reao. Em seguida, ele praticamente cuspiu as palavras:
#217
    - Pare! Voc me enoja!
    - Eu o amo, Julian - solucei. - E sinto muito s ter compreendido e dito isto tarde demais. Por favor, no permita que seja tarde demais. Estou esperando um 
filho seu, o dcimo quarto de uma longa linhagem de
bailarinos... e vale muito a pena viver por esse filho, mesmo que voc no me ame
mais. No feche os olhos, fingindo no escutar, porque vai ser pai - queira ou
no queira!
    Rolou os olhos negros e brilhantes para mim e percebi por que motivo brilhavam: estavam cheios de lgrimas. Se eram lgrimas de alto comiserao ou frustrao, 
eu no sabia. Mas a voz de Julian se tornou mais branda e assumiu um leve tom amoroso.
    - Aconselho-a a livrar-se desse beb, Cathy. O nmero quatorze no d mais sorte que o treze.

    No quarto ao lado, Chris passou a noite inteira abraado a mim.
    Acordei bem cedo na manh seguinte. Yolanda fora atirada para fora do carro no acidente e seria enterrada naquela manh. Libertei-me cuidadosamente dos braos 
de Chris e ajeitei-lhe a cabea adormecida numa posio mais confortvel antes de esgueirar-me para dar uma espiadela no quarto de Julian. Uma enfermeira ficava 
de planto a seu lado a noite inteira. Estava profundamente adormecida ao lado da cama ortopdica. Parei junto  porta e observei
Julian  difusa luz esverdeada do abajur coberto com uma toalha verde. Dormia profundamente. O tubo intravenoso em seu brao passava por baixo do lenol at chegar 
 veia. No sei por que razo, olhei para o frasco pendente, contendo um lquido levemente amarelado que mais parecia gua que qualquer outra substncia. O nvel 
do lquido baixava depressa. Voltei para
sacudir Chris e acord-lo.
    - Chris - disse-lhe eu, enquanto ele tentava orientar-se. - O soro no deve pingar devagar na veia de Julian? Est passando muito depressa... Rpido demais, 
na mInha opinio.
    Mal terminei de falar e Chris j pulara da cama e corria para o quarto de Julian. Ao entrar, acendeu a luz do teto e depois acordou a enfermeira.
    - Maldita! Como pde adormecer? Est aqui para cuidar do doente! 
    Enquanto falava, Chris puxou os lenis e l estava o aparelho de gesso no brao de Julian, com uma abertura para a agulha chegar  veia. A agulha ainda estava 
inserida na veia e presa com esparadrapo na posio adequada... mas o tubo fora cortado!
    - Oh! Deus! - suspirou Chris. - Uma bolha de ar deve ter chegado ao corao...
    Aturdida, fitei a tesoura frouxamente segura pela relaxada mo direita de Julian.
    - Ele prprio cortou o tubo - murmurei. - Ele prprio... e agora est morto, morto...
    - Onde ele conseguiu a tesoura? - perguntou rispidamente Chris  enfermeira, que comeava a tremer.
#218
     Era a tesourinha que ela usava para cortar a linha do bordado.
   - Deve ter cado do meu bolso - disse ela com voz sumida. - Juro que no me lembro de a ter perdido... Ou talvez ele a tenha apanhado quando me debrucei sobre 
a cama...
    - Est certo - atalhei, indiferente. - Se no fosse dessa maneira, ele arranjaria outra. Eu devia ter previsto e prevenido. A vida nada valia para ele se no 
pudesse voltar a danar. Nada.

    Julian foi sepultado ao lado do pai. Aps certificar-me junto a Madame Marisha de que ela aprovaria o nome, mandei gravar na lpide: "Julian Marquet Rosencoff, 
amado esposo de Catherine e dcimo terceiro de uma longa linhagem de astros russos do bal". Talvez fosse um epitfio ostensivo e revelasse meu fracasso em am-lo 
o suficiente enquanto viveu, mas senti-me
obrigada a fazer o que ele queria - ou o que eu julgava que ele queria.
    Chris, Paul, Carrie e eu paramos tambm diante do tmulo de Georges e curvei a cabea para demonstrar meu respeito para com o pai de Julian. O mesmo respeito 
que eu tambm deveria ter dado a Julian.
    Cemitrios, com suas esttuas de santos e anjos de mrmore, todos sorrindo docemente, to piedosos e to sbrios - como eu os odiava! Condescendiam conosco, 
que vivamos; ns, de frgil carne e osso, que nos podamos enlutar e chorar, enquanto eles ali permaneceriam durante sculos, sorrindo
piedosamente para todos.
    E l estava eu, de volta exatamente ao ponto inicial.

    - Catherine - disse Paul, quando estvamos todos sentados na comprida limusine preta. - Seu quarto est exatamente como antes, todo seu. Venha para casa e more 
comigo e Carrie at seu beb nascer. Chris tambm estar l, como interno no Hospital Clairmont.
    Olhei para Chris, sentado no banquinho escamotevel, sabendo que ele tivera uma oferta para ocupar uma posio muito melhor num hospital deveras importante e 
preferira trabalhar como interno num pequeno e
insignificante hospital do interior.
    - Duke fica to longe, Cathy - disse ele, evitando-me o olhar. - J era ruim viajar tanto quando estava cursando a escola preparatria e a universidade... portanto, 
caso no se importe, permita-me ficar num lugar mais prximo, de modo a poder estar presente no dia em que meu sobrinho, ou
sobrinha, vier ao mundo.
    Madame Marisha mexeu-se to bruscamente que quase bateu com a cabea no teto do carro.
     - Est esperando um filho de Julian? - exclamou. - Por que no me contou antes? Que maravilha! 
     Ficou radiante; a tristeza desapareceu como se Madame tivesse despido um manto escuro.
     - Agora, Julian no est morto, pois ter um filho que ser exatamente como ele!
#219
      - Talvez seja uma menina, Madame - disse Paul suavemente, estendendo a mo para pegar a minha. - Sei que a senhora est louca por um menino como seu filho, 
mas eu gostaria de uma garotinha como Cathy e Carrie... Todavia, se for um menino no farei objees.
    - Objees? - exclamou Madame Marisha. - Deus, em sua infinita sabedoria e bondade, mandar para Catherine uma cpia exata de Julian! Ser bailarino e alcanar 
a fama que esperava em breve pelo filho do meu
Georges!

     meia-noite, eu estava sozinha na varanda dos fundos, balanando-me na cadeira predileta de Paul. Minha cabea pululava de pensamentos para o futuro. Lembranas 
do passado causavam conflitos e quase me afogavam. As tbuas do assoalho rangiam de leve; eram velhas e tinham conhecido
sofrimentos como os meus. Compreendiam-me. A lua e as estrelas brilhavam no cu e at mesmo alguns vagalumes piscavam na escurido do jardim.
    A porta s minhas costas se abriu e fechou quase silenciosamente. No olhei para verificar quem era, pois j sabia. Ele se sentou na cadeira ao lado da minha 
e passou a balanar-se no mesmo ritmo que eu.
    - Cathy - disse baixinho -, detesto v-la a sentada, com essa expresso to perdida e desanimada. No pense que todas as boas coisas de sua vida j passaram 
e nada lhe resta agora. Ainda  muito jovem, muito bela; depois que seu beb nascer, poder recuperar depressa a forma e danar at sentir que chegou a hora de abandonar 
o palco e ser professora de bal.
    No virei a cabea. Voltar a danar? Como poderia eu danar, quando Julian estava enterrado? Tudo que eu tinha era o beb. Transformaria aquela criana no centro 
de minha vida, ensinando-o a danar. Menino ou menina, alcanaria a fama que deveria ser de Julian e, minha. Tudo que Mame no nos dera eu derramaria sobre meu 
filho, que jamais seria negligenciado. Quando precisasse de mim, eu estaria a seu lado. Quando chamasse por sua me, no seria obrigado a contentar-se com uma irm 
mais velha. No... Eu seria como Mame fora quando Papai estava vivo. Era isso que mais magoava: o fato de Mame ter-se transformado de uma mulher amorosa e boa 
no que era atualmente - um monstro. Nunca, jamais eu trataria meu filho como ela nos tratara!
    - Boa noite, Paul - respondi, levantando-me para entrar em casa. - No se demore muito aqui fora. Precisa levantar-se cedo e parecia cansado na hora do jantar.
    - Catherine...?
    - Agora no. Mais tarde. Preciso de tempo.
    Subi lentamente a escada, pensando na criana em meu tero. Precisava cuidar-me e no comer certas coisas; tinha que tomar muito leite e vitaminas. E ter pensamentos 
positivos... no vingativos. A partir de agora, eu ouviria msica de bal todos os dias. Dentro de mim, meu filho escutaria e mesmo antes de nascer sua alma seria 
doutrinada no sentido da dana. Sorri,
pensando nos belos trajes de bailarina que compraria para minha filhinha. Sorri ainda
#220
mais ao pensar num menino como o pai, com rebeldes cabelos negros. Chamar-se-ia Julian Janus Marquet. Janus para significar que conseguia ver em ambos os sentidos 
-  frente e atrs.
    Passei por Chris, que se preparava para descer a escada. Ele me tocou. Estremeci, sabendo o que meu irmo desejava. Ele no precisava pronunciar as palavras: 
eu j as conhecia pela frente e por detrs, por dentro e por fora, de cabea para baixo e na posio normal. Eu as conhecia... to bem quanto conhecia Chris.
    Embora eu procurasse com a maior diligncia pensar apenas na criana inocente que crescia dentro de mim, meus pensamentos insistiam em dirigir-se a Mame, enchendo-me 
de dio e de planos involuntrios de vingana. Pois, de algum modo, ela tambm causara a morte de Julian. Se nunca tivssemos sido prisioneiros e precisado fugir, 
eu jamais teria amado Chris ou Paul
talvez Julian e eu nos tivssemos conhecido inevitavelmente em Nova York. Ento, eu poderia am-lo como precisava e queria ser amado. Eu poderia ter chegado s suas 
mos "virgem e pura, novinha em folha".
     E perguntava-me repetidamente se isto teria feito alguma diferena... Sim! Sim! Convenci-me de que teria feito toda a diferena.

Interldio Para Trs

     medida que a criana se desenvolvia dentro de mim, comecei a reencontrar a identidade que perdera, pois o bal sempre mantivera minha verdadeira personalidade 
num estado embrionrio envolvido pelo desejo de danar e alcanar o sucesso. Agora, eu estava com os ps firmes no cho, a fantasia da vida encantadora do palco 
relegada a segundo plano. No que eu ocasionalmente deixasse de ansiar pelo palco e pelos aplausos. Oh! tive meus momentos de nostalgia, mas possua um meio infalvel 
para elimin-los: pensava em Mame e no mal que ela nos causara. Mais outra morte em sua ficha, Mame!

     "Cara Sra. Winslow,
     "Continua a fugir de mim? Ainda no sabe que jamais conseguir ir bastante depressa ou suficientemente longe para escapar? Algum dia eu a alcanarei e voltaremos 
a encontrar-nos. Talvez desta feita a senhora sofra como me fez sofrer e, espero, trs vezes mais que isso.
     "Meu marido acaba de morrer num acidente de automvel, exatamente como morreu seu marido h tantos anos. Estou esperando um filho dele, mas no tomarei medidas 
to desesperadas como a senhora
fez. Darei um jeito de sustent-lo - mesmo que sejam trigmeos... ou qudruplos!"
#221
    Enderecei a carta  casa dela em Greenglenna, mas pouco depois os jornais informaram que se encontrava no Japo. Japo! Puxa, como ela viajava!
     Aos poucos transformava-me numa mulher que no conhecera antes. Os espelhos mostravam que j no era esbelta e gil - o que me aterrorizava. Vi os seios ficarem 
mais cheios e arredondados, enquanto a barriga crescia. Detestava movimentar-me desgraciosamente, mas minhas mos adoravam
acariciar o volume feito pelo beb.
    Um dia, dei-me conta de que tinha mais sorte que a maioria das vivas, pois havia dois homens que necessitavam de mim. Homens que, por meios sutis, deixavam 
bem claro estarem prontos a ocupar o lugar de Julian. E tinha Carrie, a pequenina Carrie que me considerava um modelo pelo qual poderia pautar sua prpria vida. 
Querida, pequena e doce Carrie, agora com dezesseis anos, nunca sara com rapazes, tivera namorado ou fora a um baile. E bem poderia faz-lo, se decidisse esquecer 
sua pequenez fsica. Chris convencia os amigos a sarem com sua irm mais moa, que definhava por falta de
romance. Carrie queixou-se comigo:
    - Chris no precisa arranjar encontros para voc! Aquele rapaz da escola preparatria no quer sair comigo; vem apenas para poder ficar perto de voc.
    Ri, declarando que aquilo era ridculo. Ningum me desejaria naquelas condies: grvida, viva e velha demais para um estudante. 
    Carrie escutou-me, mas permaneceu emburrada perto da janela.
    - Desde que voc voltou, o Dr. Paul j no sai comigo para o cinema ou para jantar, como antigamente. Eu fazia de conta que ele no era meu tutor, mas meu namorado 
e isso me alegrava, porque todas as mulheres olham para ele, Cathy. O Dr. Paul  bonito, apesar de velho.
    Suspirei, pois, para mim, Paul jamais seria velho. Parecia maravilhosamente jovem para sua idade: quarenta e oito anos. Tomei Carrie nos braos e consolei-a, 
dizendo que o amor estava  sua espera logo ao dobrar a esquina.
    - Ser jovem tambm, Carrie, quase da sua idade. Depois que a vir e souber como voc realmente , no precisar ser coagido, pois estar mais que disposto a 
am-la.
    Calada, ela se ergueu e foi para seu quarto, sem se deixar convencer por meus argumentos.
    Madame Marisha vinha freqentemente verificar minhas condies e enchia-me de conselhos autoritrios:
    - Trate de continuar seus exerccios; toque msica de bal para ensinar o filho de Julian a amar o que  belo antes mesmo de nascer; dentro de voc ele saber 
que a dana o espera aqui fora.
    Olhou para meus ps, que finalmente estavam curados.
    - Como sente os dedos, agora?
    - Muito bem - respondi indiferente, embora me doessem quando chovia.
#222
    Henny estava sempre atenta para cuidar de mim como uma mucama quando Carrie se ausentava. Envelhecia com uma rapidez espantosa. Preocupava-me com ela. Embora 
Henny se esforasse para fazer a rgida dieta recomendada por ambos os seus "filhos-doutores", comia o que tinha vontade, sem dar importncia a calorias ou colesterol.

    Os longos dias de luto passaram mais depressa porque eu esperava o filho de Julian, uma parte dele que eu poderia guardar comigo. Logo chegou o Natal e eu estava 
to grande com a gravidez que achei melhor no aparecer em pblico. Contudo, Chris, apoiado por Paul, insistiu que seria boa terapia sair para as compras natalinas.
    Comprei um medalho antigo de ouro para enviar  Madame Zolta e anexei ao presente duas pequenas fotos de Julian e eu em nossos trajes de Romeu e Julieta.
    Pouco depois do Natal, recebi seu bilhete de agradecimento:

            "Querida Catherine, meu amor,
     "O seu presente foi o melhor de todos. Choro seu belo marido. Choro principalmente por voc, caso decida no mais danar s porque espera um filho! H muito 
tempo j seria uma prima ballerina se seu marido demonstrasse menos arrogncia e mais respeito pelas pessoas
investidas de autoridade. Mantenha-se em forma, exercite-se, traga seu beb consigo e todos ns moraremos juntos em minha casa at voc encontrar outro danseur para 
amar. A vida nos oferece muitas oportunidades, no apenas uma. Volte."

    O bilhete de Madame Zolta colocou-me no rosto um sorriso tristonho e sonhador. Ela ainda falava em amor...
     - Por que sorri assim? - quis saber Paul, deixando de lado a revista mdica  qual devia estar dedicando apenas parte de seu interesse.
    Desajeitadamente, debrucei-me para entregar-lhe o bilhete. Ele leu e depois estendeu os braos para mim, convidando-me a aninhar-me em seu colo e proteger-me 
em seu abrao. Aceitei pressurosamente o convite, pois estava sedenta de afeio, A vida sem um homem parecia nada significar para mim.
    - Poderia prosseguir em sua carreira - disse mansamente. - Muito embora eu pea a Deus que voc no volte a Nova York e me abandone outra vez.
    Comecei:
    - Era uma vez um casal de lindos pais louros que tiveram quatro filhos que jamais deveriam ter nascido. E os adoravam de modo quase irracional. Ento, certo 
dia o pai morreu e a me se transformou, esquecendo-se por completo do amor, afeto e ateno que as quatro crianas necessitavam to desesperadamente. Portanto, 
agora que outro belo marido morreu, no permitirei que meu filho se sinta negligenciado, rfo, desnecessrio ou indesejvel. Quando meu filho chorar, estarei a 
seu lado. L estarei sempre, a fim de faz-lo sentir-se seguro e #223
muito querido. Lerei e cantarei para ele, que nunca se sentir abandonado ou trado - como Chris se sentiu trado pela pessoa que mais amava neste mundo.
    - Ele? Parece que voc conhece tambm esse tipo de sofrimento - disse Paul, cujos olhos brilhantes mostravam tristeza. - Vai ser me e pai para essa criana? 
Pretende fechar a porta a qualquer homem que porventura desejar compartilhar de sua vida? Catherine, espero que no seja uma dessas
mulheres que se deixam azedar porque a vida nem sempre lhe faz todas as vontades.
    Movi a cabea para encar-lo nos olhos. - Voc ainda me ama, no  mesmo?
    - No  mesmo?
    - Isso no  resposta.
    - No creio que seja necessrio responder. Pensei que voc soubesse. Pensei tambm, pelo jeito como voc me olha, que um dia voltaria para mim. Eu a amo, Catherine... 
Amei-a desde o primeiro dia em que subiu os degraus de minha varanda. Amo seu jeito de sorrir, de falar, de nadar... isto , at de ficar grvida e passar a curvar-se 
para trs, com as mos nas costas. Di tanto?
    - Oh! - respondi, desgostosa. - Por que parou de dizer todas aquelas coisas lindas para perguntar se minhas costas me incomodam? Naturalmente que incomodam. 
No estou acostumada a carregar nove quilos extras na barriga... Prossiga o que estava dizendo antes de lembrar-se de que  mdico.
    Ele baixou vagarosamente a cabea para roar os lbios nos meus, bem de leve, antes de deixar-se dominar pela paixo e beijar-me com ardor. Meus braos lhe envolveram 
o pescoo e retribu apaixonadamente o beijo.
    A porta da frente se abriu e logo se fechou com estrondo. Afastei-me depressa de Paul e tentei levantar-me antes que Chris chegasse  sala - mas no fui bastante 
rpida. Meu irmo entrou, usando um sobretudo por cima do uniforme branco de interno. Trazia um saco com um litro de sorvete que eu declarara ter vontade de comer 
quando estvamos jantando.
    - Pensei que voc estivesse de planto esta noite - comentei depressa demais, para ocultar o embarao e surpresa que me dominavam.
    Chris praticamente jogou-me o sorvete nos braos, encarando-me com frieza.
    - Estou de planto, mas  uma noite tranqila no hospital, de modo que pensei em tirar alguns minutos de folga para trazer o sorvete que voc tanto desejava.
    Lanou um rpido olhar de esguelha a Paul.
    - Sinto muito haver chegado numa hora imprpria. Prossigam o que estavam fazendo.
    Girou nos calcanhares e saiu da sala. A porta da frente bateu com estrondo pela segunda vez.
    - Cathy - disse Paul, que se levantara para pegar o sorvete de minhas mos. - Precisamos fazer algo quanto a Chris. O que ele deseja  impossvel. J tentei 
discutir o assunto, mas recusa-se a escutar. Tapa os ouvidos e se afasta. Voc tem que faz-lo compreender que est arruinando a prpria vida ao no permitir que 
outra mulher o conquiste.
#224
    Foi  cozinha e voltou poucos minutos depois com duas taas de sorvete que eu j no queria mais.
    Paul tinha razo. Era preciso tomar uma providncia quanto a Chris. Mas que providncia? Eu no podia mago-lo; tambm no podia magoar Paul. Era como se eu 
assistisse a uma batalha, desejando que ambos os lados vencessem.
    - Catherine - disse Paul em voz baixa, como se observasse minha reao. - Voc nada me deve. Lembre-se disso, se no me ama. D um basta em Chris; faa-o entender 
que precisa esquec-la e tratar de procurar outra pessoa. Qualquer pessoa, menos voc...
    - Para mim,  muito difcil dizer isso a ele - declarei com voz sumida, envergonhada de admitir que no desejava que Chris encontrasse outra pessoa.
     Queria-o sempre comigo - s a confiana que sua presena me dava - nada mais. Tentava equilibrar meu tempo entre Chris e Paul, dando o bastante a cada um deles, 
mas no demais. Vi o cime crescer entre os dois e senti que a culpa no era minha - s de Mame! Como tudo de errado em minha vida era
culpa dela.

    Senti a primeira contrao numa noite fria de fevereiro. Prendi a respirao por causa da dor aguda. Tinha conhecimento de que doeria, mas nunca imaginei que 
doesse tanto! Olhei para o relgio: duas da manh do dia de S. Valentino - o Dia dos Namorados. Oh! que maravilha! Meu beb nasceria no que teria sido o dia de nosso 
sexto aniversrio de casamento! Exclamei, como se ele pudesse escutar-me:
    - Julian, voc est prestes a ser pai!
    Levantei-me, vestindo-me o mais depressa possvel antes de atravessar o corredor e bater  porta do quarto de Paul. Ele resmungou algo  guisa de pergunta. E 
eu repliquei:
    - Paul, acabo de sentir a primeira contrao.
    - Graas a Deus! - exclamou ele, no outro lado da porta fechada, despertando imediatamente. - J est pronta para irmos?
    - Naturalmente. Faz um ms que estou pronta.
    - Vou telefonar para seu mdico e depois alertar Chris. Sente-se e tenha calma!
    - Posso entrar?
    Ele abriu a porta, despido da cintura para cima.
    -  Voc  a parturiente mais calma que j vi - comentou, ajudando-me a sentar.
    Em seguida, pressou-se a usar o barbeador eltrico sem se mirar no espelho e correu para vestir uma camisa e pegar uma gravata.
    - Teve outras contraes?
    Comecei a dizer que no, quando senti a segunda dor. Dobrei-me para a frente.
    - Quinze minutos depois da outra - murmurei, engasgada de dor.
#225
     Paul parecia plido ao vestir o palet e depois vir ajudar-me.
   - Muito bem. Primeiro, vou coloc-la no carro; depois, pegarei a mala. Fique calma, no se preocupe. Essa criana ter trs mdicos dedicando o mximo de ateno...
    - Para se atrapalharem - conclu.
    - Para que voc conte com a melhor assistncia profissional possvel - corrigiu ele, gritando em seguida na direo da cozinha: - Henny, vou levar Catherine 
para o hospital! Avise Carrie quando ela acordar. Depois telefone para Madame Marisha e coloque no telefone aquela gravao que preparamos para ela.
    Pensramos em tudo. Quando Paul tornou a abrir a porta da frente, depois de me deixar no carro, escutei a gravao tocando para Madame Marisha. Minha prpria 
voz, gravada duas semanas antes, dizia: "Madame, seu neto est chegando".
    Pareceu-me uma eternidade at avistar o hospital. Sob o toldo que protegia a entrada de emergncia, um interno solitrio andava nervosamente de um lado para 
outro - Chris.
    - Graas a Deus vocs chegaram! - exclamou. - Eu j estava imaginando todo tipo de calamidades.
    Ajudou-me a sair do carro enquanto algum chegava correndo com uma cadeira de rodas e, sem quaisquer das preliminares a que tinham de sujeitar-se as outras pacientes, 
logo me vi acomodada na cama - sentindo mais uma contrao.
    Meu filho nasceu trs horas depois. Chris e Paul l estavam, ambos com lgrimas nos olhos, mas foi Chris quem pegou meu menino, sujo e ensangentado, ainda com 
o cordo umbilical. Colocou-o sobre minha barriga e segurou-o ali enquanto outro mdico lhe prestava os devidos cuidados.
    - Cathy... consegue v-lo?
    -  lindo!- sussurrei encantada, vendo o cabelo escuro e ondulado, o perfeito corpinho vermelho.
    Com uma raiva feroz to semelhante  do pai, o menino sacudia os minsculos punhos e as pernas finas, berrando contra todas as indignidades a que o sujeitavam 
- e toda a luz pareceu brilhar-lhe subitamente nos olhos, colocando-o no centro do palco, por assim dizer.
    - Seu nome  Julian Janus Marquet, mas eu o chamarei de Jory.
     Tanto Chris como Paul escutaram meu sussurro. Eu me sentia to fatigada e sonolenta...
    - Por que vai cham-lo de Jory? - quis saber Paul.
    No tive foras para responder, mas Chris, que entendeu meu raciocnio, explicou:
    - Se ele fosse louro, teria o nome de Cory. Sendo moreno, o "J" ser por Julian e o resto por Cory.
    Nossos olhares se encontraram e eu sorri. Como era maravilhoso ser compreendida e nunca precisar explicar!

#227
QUARTA PARTE

#228
Meu Doce Pequeno Prncipe

    Se algum dia uma criana nasceu num palcio cheio de pessoas que a idolatravam, certamente foi o meu Jory, com seus anelados cabelos negros, pele clara e macia, 
olhos azuis escuros. Era uma cpia perfeita de Julian e pude dedicar-lhe todo o afeto que fui incapaz de dar a seu pai.
    Desde o incio, Jory deu a impresso de saber que eu era sua me. Parecia conhecer-me a voz, o toque e at mesmo o som dos passos. No obstante, demonstrava 
um amor quase to grande  Carrie, que todas as noites voltava s pressas do consultrio de Paul para tom-lo nos braos e brincar com ele durante horas a fio.
    - Devemos procurar nossa prpria casa - disse Chris, que desejava estabelecer-se firmemente como pai de Jory, o que no era possvel em casa de Paul.
    Eu no sabia o que responder a isso. Gostava da grande casa de Paul, de estar com ele e Henny. Queria que Jory tivesse as alamedas dos jardins, pelas quais eu 
podia empurrar-lhe o carrinho e onde ele estaria rodeado de beleza. E de forma nenhuma Chris poderia dar-lhe tanto. Meu irmo no tinha
conhecimento de meus dbitos astronmicos.
    Paul instalara no andar superior um quarto de criana, completamente remodelado e equipado com um bero, um cercado para Jory brincar, um carrinho de criana 
e dzias de bichinhos macios com os quais meu filho podia brincar  vontade sem risco de machucar-se. Havia ocasies em que tanto
Chris como Paul chegavam em casa trazendo brinquedos iguais. Entreolhavam-se e ambos exibiam um sorriso forado, a fim de esconder o embarao. Ento eu era obrigada 
a intervir, exclamando:
    - Dois homens com a mesma idia!
    E um dos brinquedos tinha que ser devolvido. Todavia, tive o cuidado de jamais permitir que um deles soubesse qual presente eu devolvera.
    Carrie completou o ginsio em junho do ano em que completou dezessete anos. No quis continuar os estudos; estava perfeitamente satisfeita com o trabalho de 
#230
secretria particular de Paul. Seus pequenos dedos pareciam voar sobre o teclado da mquina de escrever; ela tomava ditados com notvel rapidez e preciso - mas 
continuava desejando que algum a amasse a despeito
de seu tamanho franzino.
    V-la infeliz deixava-me mais uma vez - furiosa com minha me! Comecei a refletir sobre o que faria to logo surgisse a oportunidade. Agora eu estava livre, 
sem um marido para tolher-me. Livre para faz-la pagar - como Carrie estava pagando!
    Diariamente, minha irm via Paul e Chris batalharem por minha ateno, ambos desejando-me, cada um comeando a encarar o outro com inimizade. Eu precisava resolver 
definitivamente um problema que deveria estar solucionado h muito tempo. Se ao menos Julian no se tivesse interposto, eu
seria agora esposa de Paul, e Jory seu filho. Ainda assim... eu amava Jory por
ele mesmo e, pensando melhor, sentia-me satisfeita por ter possudo Julian durante algum tempo. J no era uma doce virgem inocente - dois homens haviam-me ensinado 
bem. Eu j tinha o conhecimento necessrio para cuidar de mim mesma quando chegasse o momento de roubar de minha me seu segundo
marido. Portar-me-ia como ela se portava com Papai. Lanaria a Bart Winslow rpidos olhares tmidos e, alternadamente, prolongados olhares significativos. Estenderia 
a mo para acariciar-lhe o rosto... E meu maior trunfo era parecer-me tanto com ela e, todavia, ser muito mais jovem! Como poderia ele resistir? Eu engordaria alguns 
quilos, para tomar formas mais arredondadas - como ela.
    Chegou o Natal e Jory, com menos de um ano de idade, ficou sentado entre seus presentes, confuso e de olhos arregalados, sem saber o que fazer ou que brinquedo 
pegar em primeiro lugar. Trs mquinas fotogrficas disparavam simultaneamente, mas a mquina de filmar estava com Paul e no com Chris, Carrie ou comigo.
    Carrie tomou meu filho nos braos, embalando-o para dormir na noite de Natal, cantando baixinho uma cantiga de ninar.
    No contive as lgrimas ao v-la, to parecida com uma criana e, contudo, ansiosa por ter um filho s para si. Chris aproximou-se por detrs e abraou-me pela 
cintura. Recostei-me nele.
    - Eu devia correr para pegar a mquina - sussurrou ele. - Os dois ficam to lindos juntos, mas no quero quebrar o encanto. Carrie  muito parecida com voc, 
Cathy, exeto no tamanho.
    Uma palavrinha: "exceto". Apenas uma palavrinha impedia que Carrie se sentisse realmente feliz.
    Soaram passos na escada. Rapidamente, livrei-me dos braos de Chris e fui arrumar meu filho no bero. Senti a presena de Paul junto  porta, agora que Chris 
se retirara para seu quarto.
    - Cathy - disse Carrie num sussurro, a fim de no acordar Jory. - Acha que algum dia terei um filho?
    - Sim, claro que ter.
    - Eu no acredito - disse ela.
#231
    Ento, retirou-se devagar, deixando-me a observar sua sada.
    Paul entrou no quarto, deu um beijo de boa-noite em Jory e depois virou-se como se pretendesse abraar-me.
    - No - protestei em voz sumida. - No enquanto Chris estiver em casa.
    Paul meneou rigidamente a cabea e deu-me boa-noite. Fui para a cama e fiquei acordada at quase amanhecer, tentando encontrar um meio para solucionar o dilema 
em que me encontrava.
    Jory parecia muito satisfeito com sua situao; no era mimado, no fazia manha; no chorava ou fazia exigncias  desnecessrias. Simplesmente aceitava. Era 
capaz de levar minutos seguidos olhando de um de ns para o outro, como se nos avaliasse e examinasse nosso relacionamento com ele. Tinha a pacincia de Chris, a 
tranqilidade e introspeco de Cory, e s
ocasionalmente revelava a impetuosidade e petulncia do pai - e da me. Contudo, nada em Jory me fazia lembrar Carrie; ele sorria muito mais que ela. No obstante, 
quando Carrie passeava pelos jardins de Paul com Jory no colo, apontava as diferenas entre esta e aquela planta, dando explicaes
incessantes e obrigando Jory a imitar a fala muito antes do que ele teria feito
normalmente.
    - Veja esta folha de carvalho - disse Carrie certo dia, quando Jory j aprendera a andar e as brisas primaveris movimentavam o ar. - A folha de cada rvore tem 
sua prpria forma, textura e odor. Todas as flores se abrem facilmente para permitir a entrada das abelhas, exceto a rosa. Entretanto, as
margaridas no possuem o aroma gostoso das rosas, de modo que as abelhas passam direto por elas e procuram as rosas, que so to avarentas com seu nctar e mantm-se 
orgulhosamente eretas em longos talos.
    Apontou para uma rosa e lanou-me um rpido olhar de esguelha. Em seguida, mostrou a Jory as margaridas e os amores perfeitos.
    - Ora, se eu fosse uma abelha, pode apostar que eu iria direto s violetas e aos amores-perfeitos, tambm, embora no sejam to altos.
    Ergueu a cabea para encarar-me e disse numa voz estranha, tensa e sumida:
    - Voc  como uma rosa, Cathy. Todas as abelhas vo direto a voc e nem me enxergam aqui embaixo. Por favor, no se case novamente antes de eu ter uma oportunidade. 
Por favor, no esteja por perto se algum dia um homem olhar para mim... No sorria para ele, por favor...

    Oh! como o tempo voa quando se tem um beb para encher todas as horas! Todos ns fotografvamos como loucos: o primeiro sorriso de Jory, seu primeiro dente, 
seu primeiro engatinhar de mim at Chris e, depois, at Paul e Carrie.
    Paul iniciou sua corte a mim, que duraria dois anos - os mesmos dois anos que Chris trabalhou como interno no Hospital Clairmont. No podiam magoar-se mutuamente 
quando cada um gostava do outro e o respeitava. Nem mesmo conseguiam falar na barreira que os separava, exceto por meu
intermdio.
#232
    -  esta cidade - disse Chris. - Creio que Carrie dar-se ia muito melhor em outro lugar. Ns todos, juntos.
    A obscuridade do crepsculo comeava a invadir os jardins; era nossa hora preferida de percorr-los. Paul sara para fazer a ronda dos doentes em trs hospitais 
e Carrie brincava com Jory antes de lev-lo para a cama. Henny batia as panelas na cozinha, para mostrar-nos que ainda estava acordada - e ocupada.
    Chris completara o perodo obrigatrio de dois anos como interno e passara a ser mdico-residente, o que lhe tomaria mais trs anos. Quando me revelou que estava 
pensando em ir para outro hospital - muito mais famoso - para completar o perodo de treinamento, fiquei chocada. Chris ia
abandonar-me!
    - Sinto muito, Cathy, mas a Clnica Mayo me aceitou como residente, o que  uma grande honra. Ficarei l por nove meses e depois voltarei para completar o perodo 
de residncia aqui em Clairmont. Por que voc e Jory no me acompanham? - seus olhos brilhavam intensamente ao fazer a sugesto.
- Carrie poder ficar para fazer companhia a Paul.
    - Chris! Voc no pode fazer isso!
    - Pretende permanecer aqui depois que eu partir? - indagou ele, amargurado.
    - Se a companhia de seguros de Julian me pagasse, eu teria o suficiente para comprar minha prpria casa e instalar uma escola de bal. Contudo continuam a insistir 
que a morte dele foi suicdio. Sei que a aplice tem uma clusula de suicdio com carncia de dois anos. Pagamos os prmios desde o dia de
nosso casamento; portanto, a clusula j caducara quando ele morreu. Apesar disso, recusam-se a pagar.
    - O que voc precisa  de um bom advogado.
    Meu corao deu um salto.
    - Sim  o que preciso, Chris. V sem mim para a Clnica Mayo. Eu ficarei bem e prometo-lhe no me casar at que voc volte e me d sua aprovao. Trate de arranjar 
uma namorada. Afinal, no sou a nica mulher que se parece com nossa me.
   Chris ficou furioso.
   - Por que diabo coloca as coisas nesses termos?  voc, no ela!  tudo o que voc tem de diferente dela que me faz necessitar de voc e am-la!
    - Chris, quero um homem com quem eu possa ir para a cama, que me abrace quando eu sentir medo, que me beije e faa-me sentir que no sou m ou indigna - declarei, 
interrompendo-me um momento quando as lgrimas comearam a correr. - Eu desejava mostrar a Mame o que sou capaz de realizar e ser a melhor prima ballerina do mundo, 
mas agora que Julian se foi, s tenho vontade de chorar quando ouo msica de bal. Sinto tanta falta dele, Chris!
    Apoiei a cabea no peito de meu irmo e solucei.
    - Eu poderia t-lo tratado melhor... ento, ele no agrediria por raiva. Julian precisava de mim e eu fracassei. Voc no precisa de mim, pois  mais forte que 
ele. #233
Paul tambm no precisa de mim, do contrrio insistiria em casar-se comigo imediatamente...
    - Poderamos morar juntos e... e...
    As palavras lhe faltaram e ele ficou muito vermelho. Eu conclu seu argumento:
    - No! Ser que no entende que no dar certo?
    - No, creio que no daria certo para voc - replicou ele, empertigando-se. - Mas sou um idiota; sempre fui um idiota. desejando o impossvel. Sou at mesmo 
bastante idiota para desejar ver-nos trancados novamente, como antes - quando eu era o nico homem disponvel para voc!
    - No est falando srio!
    Chris me abraou com fora.
    - No estou? Deus me perdoe, mas falo srio! Naquela poca, voc me pertencia e, a seu modo peculiar, nossa vida juntos tornou-me melhor do que eu realmente 
era... E voc me fez desej-la, Cathy. Poderia ter-me feito odi-la, mas ao contrrio, fez-me am-la.
    Sacudi a cabea, negando; eu fizera apenas o que me vinha naturalmente em resultado de observar o procedimento de minha me com os homens. Fitei Chris, tremendo 
quando ele me largou. Tropecei ao virar-me para correr de volta  casa. E deparei com Paul! Espantada, invadida por um sentimento de culpa, cambaleei ao v-lo dar 
uma brusca meia-volta e caminhar na direo
oposta. Oh! Paul estivera observando e escutando tudo! Girei nos calcanhares e corri de volta at onde Chris apoiava a cabea no tronco do mais velho carvalho do 
parque.
    - Veja o que fez! - exclamei. - Esquea-me, Chris! No sou a nica mulher neste mundo!
    Ele parecia um cego ao virar a cabea e replicar:
    - Para mim, voc  a nica mulher no mundo.

    Outubro chegou e, com ele, a poca de Chris partir. V-lo arrumar as malas, saber que se ia, despedir-me como se no me importasse quanto tempo ele levaria para 
voltar - tudo aquilo me deixou doente. Mas obriguei-me a sorrir.
    Chorei no roseiral. Agora, seria mais fcil. Eu no mais teria que manter Paul a distncia a fim de no magoar Chris. J no precisava pesar cuidadosamente cada 
um de meus sorrisos e equilibr-lo com o que exibira ao outro. Agora, meu caminho estava limpo, aberto e reto at Paul, mas algo se
interps em meu campo visual: minha me, desembarcando do avio acompanhada
pelo marido. Estava de volta a Greenglenna! Recortei a fotografia e a notcia do jornal, colocando-as em meu lbum. Talvez, se Mame permanecesse longe, eu tivesse 
casado com Paul imediatamente. Na realidade, porm, fiz algo completamente fora de meus planos.
#234
     Madame Marisha "ia levando" e precisava de uma assistente. Assim, tratei de convenc-la de que eu era a pessoa indicada para cuidar da escola de bal - at 
quando... bem, nunca se podia dizer com certeza.
    - No pretendo morrer - replicou ela com rispidez. Ento, meneou a cabea com evidente relutncia, os olhos negros cheios de desconfiana. - Sim, suponho que 
voc me considera velha, embora eu nunca pense nisso. Todavia, no procure assumir o controle e mandar em mim. Ainda sou a
patroa e assim continuarei a ser at ir para a cova!
    Em meados de novembro, compreendi que era impossvel trabalhar para Madame Marisha, que tinha idias fixas a respeito de tudo, enquanto eu possua algumas idias 
prprias. Contudo, precisava de dinheiro, de uma casa s para mim. Ainda no estava pronta para casar-me com Paul e isto certamente aconteceria se eu continuasse 
l. Eu j passara muitos anos imaginando esquemas e fazendo planos. Era tempo de entrar em ao. O primeiro peo a mover
seria o Dr. Advogado. No daria certo se eu permanecesse na casa de Paul e, embora este protestasse e alegasse que se tratava de uma despesa desnecessria, expliquei-lhe 
que eu precisava de uma oportunidade para ser independente e ter uma casa prpria onde pudesse descobrir o que realmente desejava. Paul olhou-me intrigado e, depois, 
assumiu uma expresso mais perspicaz.
    - Muito bem, Catherine; faa como quiser. Acabar fazendo, de qualquer maneira.
    -  apenas porque Chris insistiu para que eu no me casasse novamente antes de Carrie ter uma oportunidade. E Chris tem objees a que eu more aqui com voc... 
quando ele est noutra cidade...
    Interrompi-me, embaraada. Oh! que mentira!
    - Compreendo - replicou Paul com um sorriso irnico. - Desde o dia em que Julian morreu, ficou bem claro que estou competindo com seu irmo pela sua afeio. 
Tentei conversar com Chris a respeito, mas ele se recusa a escutar. Tento conversar com voc a respeito, mas tambm se recusa a escutar.
Portanto, v morar em sua prpria casa, seja independente, encontre-se a si mesma. E quando se sentir bastante adulta para agir como um adulto, volte para mim.

Jogada de Abertura

    To logo me instalei num pequeno chal alugado a meia distncia entre Clairmont e Greenglenna, sentei-me para minutar uma carta de chantagem  Mame. Eu estava 
muito endividada, tinha um filho e, alm disso, tambm precisava cuidar de Carrie. As enormes contas feitas por Julian nas lojas de Nova York ainda estavam por pagar; 
havia tambm suas contas de hospital e as despesas #235
do funeral, sem falar nas minhas contas de hospital referentes ao parto de Jory. Os cartes de crdito no resolviam o problema. Nem por um segundo passou-me pela 
cabea aceitar mais dinheiro de Paul. Este j fizera mais que o suficiente. Eu precisava provar que era melhor que Mame, mais
capaz, mais inteligente e esperta... Contudo, o que fiz seno escrever-lhe uma
carta - exatamente como ela fizera  sua me quando Papai morreu? Por que no lhe pedir um msero milho de dlares? Por que no? Ela nos devia! O dinheiro tambm 
era nosso! Com ele, eu poderia saldar todas as minhas
dvidas, liquidar nosso dbito para com Paul e fazer algo para tornar Carrie mais feliz. E se de certo modo eu me sentia envergonhada de fazer o mesmo que ela fizera, 
raciocinei que a culpa era dela! Mame merecia! Jory no passaria necessidades quando ela possua tanta coisa!
     Afinal, aps muitas tentativas fracassadas, redigi o que me pareceu uma
carta perfeita de extorso:

            "Cara Sra. Winslow":
     "Era uma vez, em Gladstone, na Pensilvnia, um omem e uma mulher que tinham quatro filhos a quem todos chamavam de "bonecas de Dresden". Agora, uma das bonecas 
jaz num tmulo solitrio e outra delas no atingiu o tamanho normal que teria caso lhe tivessem
proporcionado sol, ar livre e o amor que a me lhe devia demonstrar quando ela mais necessitava".

     "Agora, a boneca bailarina tem um filho pequeno e est sem dinheiro. Sei, Sra. Winslow, que no tem muita compaixo por filhos que poderiam causar uma sombra 
em seus dias ensolarados, de modo que
irei diretamente ao assunto. A boneca bailarina exige o pagamento de um milho de dlares - se a senhora pretende continuar a possuir algo dos seus milhes... ou 
bilhes. Poder enviar a mencionada quantia  caixa postal discriminada em anexo. E esteja certa, Sra. Winslow, de que se o dinheiro no for devidamente remetido, 
os ouvidos do Sr. Bartholomew Winslow, Bacharel em Direito, escutaro fatos horrveis que a
senhora, tenho certeza, prefere que ele jamais venha a conhecer".
     "Cordialmente, a boneca bailarina
     Catherine Dollanganger Marquet".

    Todos os dias, eu aguardava que o cheque chegasse pelo correio. Todos os dias, ficava desapontada. Escrevi outra carta, depois outra, e ainda outra. A cada sete 
dias, com a raiva aumentando no peito, eu enviava uma nova carta. O que significava um msero milho para quem possua tantos? Eu no estava pedindo muito. De toda 
forma, parte daquele dinheiro nos pertencia.
    Ento, depois de passarem meses infrutferos, deixando para trs o Natal e o Ano Novo, decidi que j aguardara o suficiente. Minha me pretendia ignorar-me. 
Portanto, procurei um nmero na lista telefnica de Greenglenna e, num piscar de #236
olhos, marquei hora para uma entrevista com Bartholomew Winslow, Advogado.
    Estvamos em fevereiro e Jory tinha trs anos. Passaria a tarde com Henny e Carrie enquanto eu, em minhas melhores roupas e com o cabelo penteado de modo deveras 
atraente, entrava no luxuoso escritrio para falar com
o segundo marido de minha me. Afinal, vi-o de perto -e, desta feita, ele tinha os olhos bem abertos. Levantou-se devagar, exibindo uma expresso bestificada - como 
se j me tivesse visto antes e no conseguisse recordar onde. Meus pensamentos recuaram at a noite em que eu penetrara s escondidas nos luxuosos aposentos de Mame 
em Foxworth Hall e deparara com Bart Winslow adormecido na poltrona. Na poca, ele usava um grande bigode escuro e eu me atrevera a beij-lo enquanto ele dormia. 
Acreditando que
estava profundamente adormecido... quando isto no era verdade! Bart me vira e julgara-me parte de um sonho. Por causa de um beijo roubado, do qual Chris
tomara conhecimento posteriormente, as repercusses tinham-nos empurrado - meu irmo e eu - por um caminho que decidramos jamais tomar. Agora, pagvamos o preo 
disso - e por culpa dela Chris e eu estvamos separados, tentando renegar o que ela comeara. Eu no podia aceitar Paul como marido at obrig-la a pagar - e no 
apenas em dinheiro.
    Ento, o msculo e belo marido de minha me sorriu para mim e, pela primeira vez, senti a fora de seu carisma. Um brilho de reconhecimento surgiu-lhe nos olhos 
castanhos escuros.
    - Quero morrer cego se no for a Srta. Catherine Dahl, a linda bailarina que sempre me tira o flego, antes mesmo de comear a danar! Sinto-me encantado porque 
precisa de um advogado e me escolheu, embora seja
incapaz de imaginar o motivo de sua presena.
    - Viu-me danar? - indaguei, aturdida ao ouvir aquilo.
    Se ele me vira danar, Mame tambm vira! Oh! e eu nunca soube! Nunca soube! Fiquei eufrica, fui murchando,  entristecendo-me, at sentir-me confusa. Em algum 
lugar bem no fundo de mim, a despeito de toda a camada externa de dio, eu ainda sentia um pouco do amor que sentira por ela
quando era jovem e confiante. 
    - Minha esposa  fantica por bal - acrescentou ele. - Na verdade, eu no gostava muito quando ela comeou a me levar quase  fora a cada uma de suas apresentaes. 
Mas logo aprendi a apreciar, em especial quando voc e seu marido danavam os papis principais. Com efeito, minha esposa parecia no dar a mnima importncia ao 
bal seno quando voc e seu marido se apresentavam. Cheguei a temer que ela estivesse apaixonada por seu marido,
que se parece um pouco comigo.
    Tomou-me a mo e levou-a aos lbios, lanando-me um olhar e sorrindo com o encanto natural de um homem que sabe o que : um conquistador acostumado a fazer marcas 
na coronha do revlver.
    -  ainda mais bela fora do palco. Contudo, o que faz nesta regio?
    - Moro aqui.
#237
    Ele puxou uma cadeira para mim, colocando-a to perto que pde ver minhas pernas quando as cruzei. Sentou-se na beirada da mesa de trabalho e ofereceu-me um 
cigarro, que recusei. Ele acendeu um para si e indagou:
    - Est de frias? Ou visitando sua sogra?
    Percebi que nada sabia a respeito da morte de Julian.
    - Sr. Winslow, meu marido morreu em conseqncia de ferimentos sofridos num acidente de automvel h mais de trs anos. O senhor no sabia?
    Ele pareceu chocado e um pouco embaraado.
    - No, eu no sabia. Sinto muito. Por favor, aceite minhas tardias condolncias.
    Suspirou e apagou o cigarro quase inteiro.
    - Vocs dois eram sensacionais no palco.  uma pena. Vi minha esposa chorar de emoo ao v-los danar juntos. Ficava realmente impressionada.
    - Sim! Sou capaz de apostar que ficava impressionada. Esquivei-me de outras perguntas e fui direto ao objetivo de minha visita, entregando-lhe a aplice
de seguros de Julian.
    - Julian fez o seguro logo que nos casamos e agora a companhia se recusa a pagar porque julga que ele cortou o tubo do soro atravs do qual recebia alimentao 
intravenosa. Todavia, como o senhor pode ver, a clusula de suicdio perde o efeito aps dois anos.
    Ele se sentou para ler meticulosamente a aplice e depois encarou-me outra vez.
    - Verei o que  possvel fazer. Tem necessidade imediata do dinheiro?
    - Quem no tem necessidade de dinheiro, Sr. Winslow, a menos que seja milionrio? - repliquei sorrindo, tombando a cabea de lado  moda de minha me. - Tenho 
centenas de contas a pagar e Um filho pequeno para
sustentar.
    Ele indagou a idade de meu filho e eu respondi. Bart Winslow parecia intrigado e confuso por vrios motivos enquanto eu o observava com olhos sonolentos e semicerrados, 
a cabea jogada ligeiramente para trs e para um lado, uma atitude que minha me adotava ao olhar para um homem. Agora, Bart era muito mais bonito. O rosto maduro 
era comprido e magro, os ossos
muito salientes, mas de uma notvel beleza viril, masculina.
    Algo nele sugeria uma sensualidade exagerada. E no era de espantar que minha me no me tivesse enviado um cheque. Provavelmente, todas as minhas cartas de 
chantagem ainda a seguiam de um lugar para outro, sem alcan-la.
    Bart Winslow fez mais uma dzia de perguntas e declarou que veria o que era possvel fazer por mim.
    - Sou um bom advogado quando minha esposa me permite ficar na cidade e trabalhar.
    - Sua esposa  muito rica, no ?
    A indagao pareceu aborrec-lo.
    - Suponho que se pode dizer que sim - respondeu com ar abespinhado, deixando bem claro que no gostava de falar no assunto.
#238
    Levantei-me para sair.
    - Aposto que sua esposa o leva como um poodle de estimao com uma coleira incrustada de pedras preciosas, Sr. Winslow. As mulheres ricas so assim: nada sabem 
a respeito de ter que trabalhar para ganhar a vida. E duvido que o senhor saiba.
    - Ora, por Deus! - exclamou ele, erguendo-se da mesa num salto e postando-se com os ps afastados um do outro. - Por que veio aqui se acha isso? Procure outro 
advogado, Srta. Dahl. No quero uma cliente que me insulta e no tem o menor respeito pela minha capacidade profissional.
    - No, Sr. Winslow: quero o senhor. Desejo que o senhor prove conhecer a profisso tanto quanto alega. Talvez, sob certo aspecto, consiga tambm provar algo 
a si mesmo: o fato de que, afinal, no  apenas um brinquedo dispendioso comprado por uma mulher rica.
    - Srta. Dahl, possui o rosto de um anjo e a lngua de uma prostituta! Farei com que a companhia pague o seguro de vida de seu marido. Intim-los-ei a comparecer 
ao tribunal e ameaarei process-los. Aposto dez contra um como pagaro num prazo de dez dias.
    - timo - repliquei. - Faa o favor de avisar-me, pois pretendo mudar-me to logo receba o dinheiro.
    - Para onde? - indagou ele, dando um passo  frente para pegar-me o brao.
    Ri, encarando-o e usando os artifcios que uma mulher possui para provocar o interesse dos homens.
    - Dar-lhe-ei o endereo quando escolher o lugar, para a eventualidade de que deseje entrar em contato comigo.

    Dez dias mais tarde, fiel  sua palavra, Bartholomew Winslow compareceu  escola de bal para entregar-me um cheque de cem mil dlares.
    - E seus honorrios? - perguntei, dispensando com um aceno de mo os rapazes e moas que corriam para rodear-me.
    Eu usava uma malha justa de ensaiar e Bart Winslow no conseguia tirar os olhos de mim.
    - Jantar s oito, na prxima tera-feira. Use um vestido azul para combinar com seus olhos e, ento, discutiremos meus honorrios - respondeu, dando meia-volta 
para sair sem esperar minha resposta.
    Depois que ele se foi, virei-me e fitei os alunos que faziam exerccios de aquecimento e, de algum modo, senti-me observando a cena do alto, menosprezando-me 
e apiedando-me daqueles inocentes que tanto me admiravam. Senti-me triste por mim e por eles.
    - Quem  aquele homem que lhe trouxe um cheque? - quis saber Madame Marisha quando a aula terminou.
    - Um advogado que contratei para obrigar a companhia a pagar o seguro de vida de Julian. E ela pagou.
    - Ah!... - disse ela, deixando-se cair na velha poltrona giratria. - Agora, que tem dinheiro e pode pagar as dvidas... creio que deixar de trabalhar para 
mim e #239
ir para algum outro lugar, no  mesmo?
    - Ainda no tenho certeza do que farei, mas sou forada a admitir que a senhora e eu no nos damos muito bem no trabalho, no , Madame?
    - Voc tem muitas idias que no me agradam. Julga que sabe mais que eu! Acha que agora, que trabalhou aqui alguns meses, pode ir embora e fundar sua prpria 
escola!-  sorriu maldosamente quando me sobressaltei de surpresa e confirmei a verdade da qual ela apenas desconfiava. - Ento... julga
que tambm sou estpida! Pode procurar a vida inteira, mas no encontrar algum mais esperta que eu. Leio seus pensamentos, Catherine. No gosta de mim - jamais 
gostou, nem gostar... no obstante, veio trabalhar para mim a fim de aprender sobre o negcio. No estou certa mais uma vez? Pois no me
importa. Escolas de bal surgem e desaparecem, mas a Escola de Bal Rosencoff continuar a existir para sempre! Antes, eu pensava que a deixaria para Julian ao morrer, 
mas quem morreu foi ele; depois, resolvi que a deixaria para voc - mas no o farei se levar seu filho embora e no permitir que eu o ensine a danar!
    - Madame, a escolha  sua, mas levarei Jory comigo.
    - Por qu? Julga-se capaz de ensin-lo to bem quanto eu? 
    - No sei ao certo, mas acho que posso. Meu filho talvez prefira no ser bailarino - prossegui, ignorando-lhe o olhar duro e penetrante. - Se algum dia ele se 
decidir a danar, creio que serei uma professora capacitada - tanto quanto qualquer outra.
    - Se ele se decidir a danar! - trovejou ela, como um canho. - Que outra escolha pode ter o filho de Julian seno danar? Est em seu sangue, em seu crebro 
- e, acima de tudo, em seu corao! Se ele no danar, morrer!
    Levantei-me para sair. Minha inteno era ser bondosa com ela, permitindo que tomasse parte na vida de Jory... mas a maldade em seus olhos duros me fez mudar 
de idia. Madame Marisha tomaria meu filho e faria dele o que fizera de Julian: algum que jamais poderia ser feliz e realizar-se, pois a vida que lhe ofereciam 
s permitia uma nica escolha.
    - Eu no poderia dizer isto hoje, Madame, mas a senhora me obriga. Fez com que Julian acreditasse que, caso no pudesse danar, a vida nada significava e no 
oferecia alternativa. Ele ficaria curado da fratura no pescoo e dos ferimentos internos, mas a senhora declarou que ele jamais voltaria a danar - e Julian escutou, 
pois no estava dormindo. Portanto, preferiu a morte! O prprio fato de conseguir movimentar o brao o suficiente para roubar a tesoura da bolsa da enfermeira  
prova de que ele estava em recuperao; contudo, s conseguia ver diante de si um deserto desolado, onde o bal no existia! Bem, Madame... a senhora no far isso 
ao meu filho! Jory ter oportunidade de escolher sozinho o tipo de vida que desejar - e peo a Deus que no seja o bal!
    - Idiota! - exclamou ela, cuspindo as slabas. Levantou-se bruscamente para andar de um lado a outro diante da velha escrivaninha. - No existe nada melhor que 
a adulao dos fs, o barulho ensurdecedor dos aplausos, a sensao das rosas nos braos! E #240
voc logo descobrir isto por si mesma!
Pretende levar o neto de meu marido para longe e escond-lo do palco? Jory ser bailarino e antes de morrer hei de v-lo no palco, fazendo o que tem que fazer... 
ou, ento, ele tambm morrer!
    Tomou flego e prosseguiu  desdenhosamente, franzindo os lbios numa
expresso de zombaria:
    - Quer bancar a "mamezinha", ou talvez a "esposa ideal" para aquele mdico bonito, hem? E dar-lhe outro filho, hem? Bem, se isso  tudo que deseja da vida... 
v para o inferno, Catherine!
    Interrompeu-se e comeou a chorar. Os soluos pareciam vir-lhe do mago da alma. Quando tornou a falar, tinha a voz spera e rouca, em vez de alta e aguda como 
antes:
    - Sim... v em frente... case-se com aquele mdico pelo qual sempre teve uma queda, desde quando me foi trazida como uma menina sonhadora e de fisionomia infantil 
- e arrune a vida dele, tambm!
    - Arruinar a vida dele, tambm? - repeti, aturdida.
    Ela deu meia-volta.
    - Existe algo que a ri por dentro, Catherine! Algo que lhe devora as entranhas. Algo to amargo que lhe ferve no olhar e a obriga a trincar os dentes! Conheo 
bem o seu tipo. Arruna todos os que entram em sua vida e Deus tenha piedade do prximo homem que a amar tanto quanto meu filho a amou!
    Inesperadamente, um manto invisvel e enigmtico desceu sobre mim, envolvendo-me na pose fria e distante de minha me. Nunca antes eu me sentira to intocvel.
    - Muito obrigada por esclarecer-me, Madame. Adeus e felicidades. Nunca mais me ver - ou a Jory.
    Virei-me e sa. Para sempre.

    Na noite de tera-feira, Bart Winslow bateu  porta de meu chal. Estava trajado com apuro e eu usava um vestido azul. Ele sorriu, satisfeito por eu ter atendido 
a sua sugesto. Levou-me a um restaurante chins, onde comemos com pauzinhos e toda a decorao era em preto e vermelho.
    - Voc  a mulher mais linda que j vi, com exceo de minha esposa - disse ele, enquanto eu lia meu bilhetinho da sorte: "Precavenha-se contra atitudes impulsivas".
    - A maioria dos homens no mencionam as esposas quando saem com outra mulher...
    Ele interrompeu:
    - No sou um homem comum. Estou apenas fazendo-a saber que no  a mulher mais linda que conheci.
    Sorri docemente, observando-lhe atentamente os olhos. Percebi que o irritava, encantava e, sobretudo, intrigava. Quando danamos, descobri tambm que o excitava.
#240
    - De que vale a beleza sem inteligncia? - indaguei, danando nas pontas dos ps para roar os lbios em sua orelha. - De que vale a beleza quando se est envelhecendo, 
engordando e j no se constitui um desafio?
    - Voc  a mulher mais estranha que j encontrei!-  exclamou ele, com os olhos escuros faiscando. - Como ousa insinuar que minha esposa  burra, velha e gorda? 
Pois fique sabendo que parece muito jovem para a idade que tem!
    - Voc tambm - repliquei com um risinho de mofa. Ele ficou rubro. - No se preocupe, porm, Sr. Advogado... no pretendo competir com ela; no quero um poodle 
de estimao.
    - No o ter, minha senhora - retrucou ele friamente. - Pelo menos, no em mim. Mudar-me-ei daqui em breve, para abrir um escritrio na Virgnia. A me de minha 
mulher no est bem de sade e necessita de companhia e assistncia. To logo acertar as contas comigo, a senhora poder despedir-se
de um homem que, obviamente, traz  tona o que a senhora tem de pior.
    - Ainda no mencionou seus honorrios.
    - Ainda no decidi a respeito.

    Agora, eu j sabia para onde me mudaria: de volta  Virgnia, a fim de morar em algum lugar prximo a Foxworth Hall.
    Ento, eu poderia iniciar minha verdadeira vingana.
    - Cathy! - lamentou-se Carrie, chorosa, muito perturbada porque deixaramos Paul e Henny. - No quero ir embora! Amo o Dr. Paul e Henny! V para onde quiser, 
mas deixe-me aqui! No percebe que o Dr. Paul no deseja
que nos mudemos daqui? No se importa de mago-lo? Voc o magoa sempre! Eu no pretendo fazer o mesmo!
    - Gosto muito do Dr. Paul, Carrie, e no quero mago-lo. Entretanto, existem certas coisas que devo fazer - e imediatamente. Alm disso Carrie seu lugar  comigo 
e Jory. Paul precisa de uma oportunidade para arranjar uma esposa sem tantos dependentes. No entende que o estamos atrapalhando?
    Ela recuou, fitando-me raivosamente.
    - Cathy, ele quer voc como esposa!
    - H muito, muito tempo no me diz isso.
    - Porque voc est to decidida a mudar-se e fazer outras coisas. Ele me disse que deseja que voc faa o que quiser. Ele a ama muito. Se eu fosse ele, obrigaria 
voc a ficar, pouco me importando se quisesse ou no! 
    Ento, comeou a soluar, correu para longe de mim e fechou a porta de seu quarto com violncia.
    Procurei Paul e lhe disse para onde ia e por que razo. Sua expresso alegre se tornou triste e o olhar brilhante ficou vago.
    - Sim, durante todo o tempo tive o pressentimento de que voc julgaria necessrio voltar para l e defrontar-se pessoalmente com sua me. Vi-a elaborar planos 
e esperei que me convidasse a acompanh-la.
    -  uma coisa que preciso resolver sozinha - repliquei, tomando-lhe ambas as #242
mos nas minhas. - Compreenda, por favor, que eu ainda o amo e sempre o amarei.
    - Compreendo - afirmou ele. - Desejo-lhe boa sorte, Catherine, e muita felicidade. Que todos os seus dias sejam lindos e alegres; que voc consiga tudo que almeja 
- quer eu esteja ou no includo em seus planos para o futuro. Quando e se precisar de mim, estarei pronto, esperando para fazer o que me for possvel. A cada minuto, 
eu a amarei e sentirei sua falta... Lembre-se
apenas disso: quando me quiser, estarei  disposio.
    Eu no o merecia. Era bom demais para gente da minha laia.
    No quis que Carrie ou Chris soubessem para que regio da Virgnia eu pretendia ir. Chris escrevia-me uma ou duas vezes por semana e eu respondia todas as suas 
cartas - mas no mencionei o assunto... Ele tomaria
conhecimento quando visse o novo endereo.

   Foi no ms de maio. No dia seguinte ao aniversrio de Carrie, festejado sem a presena de Chris. Partimos em meu carro, Carrie, Jory e eu, aps passarmos pela 
casa de Paul a fim de nos despedirmos. Paul fez um ltimo aceno e quando olhei pelo retrovisor vi-o tirar o leno do bolso e enxugar os cantos dos olhos.
     Henny nos observava. Tive a impresso de ler em seus expressivos olhos castanhos: "Idiota! Vai embora, abandonando um homem bom!" 
     Nada constituiu prova mais cabal de minha idiotice que o dia ensolarado em que parti de volta s montanhas da Virgnia com minha irm menor e meu filho a meu 
lado, no banco dianteiro do carro. Contudo, eu precisava agir assim - compelida por minha prpria natureza a procurar vingana no local
onde estivramos encarcerados.

O Canto de Sereia das Montanhas

    No ltimo instante, decidi que no podia arriscar-me a ver Bart Winslow por um s momento, de modo que deixei numa caixa do correio um envelope contendo um cheque 
de duzentos dlares, considerando a quantia suficiente - mesmo que no fosse.
    Com Carrie sentada a meu lado e Jory em seu colo, segui diretamente para as Montanhas Blue Ridge. Agora que estvamos a caminho, Carrie ficou muito excitada, 
os grandes olhos azuis muito abertos, comentando tudo que vamos.
    - Oh! adoro viajar! -  declarou alegremente.
    Quando Jory adormeceu, ela arrumou cuidadosamente uma cama para ele no banco traseiro e sentou-se ao lado, a fim de evitar que o menino rolasse e casse do banco.
#243
    - Ele  to lindo, Cathy. Terei ao menos seis filhos, talvez mais. Quero que alguns se paream com Jory, outros com voc e Chris, e um ou dois com o Dr. Paul.
    - Eu a amo, Carrie, e tenho pena de voc: deseja ter uma dzia de filhos, no apenas seis.
    - No se preocupe - replicou ela, ajeitando-se para tirar tambm um cochilo. - Ningum vai querer casar comigo, de modo que no terei filhos para amar, com exceo 
dos seus.
    - No  verdade. Tenho o palpite que, aps nos instalarmos em nossa nova residncia, a Srta. Carrie Dollanganger Sheffield vai arranjar um namorado. Sou at 
capaz de apostar cinco dlares... topa?
    Carrie sorriu e no aceitou a aposta.
     medida que avanvamos para noroeste, a noite comeou a cair e Carrie ficou muito calada. Olhava pela janela e depois me fitava, os grandes olhos azuis cheios 
de temor.
    - Cathy, estamos voltando para l?
    - No; no exatamente.
    Foi tudo o que eu disse antes de encontrarmos um hotel onde passarmos a noite.
    Logo de manh cedo, uma corretora com quem eu entrara em contato previamente, veio buscar-nos em seu carro para examinarmos as
"propriedades  venda". Era grandalhona e masculinizada, s falando em negcios.
    - Vocs precisam de algo compacto, funcional e no muito dispendioso. Nesta zona, todas as casas custam muito caro. Contudo, existem alguns chals menores, que 
os ricos costumavam usar como casas de hspedes ou de empregados. Uma delas  deveras bonita, com um lindo jardim.
    A primeira casa que nos mostrou foi um chal de cinco cmodos e fiquei imediatamente encantada. Creio que Carrie tambm ficou, mas eu a prevenira para no se 
mostrar entusiasmada. Escolhi pequenos detalhes para despistar a corretora.
    - A chamin d a impresso de no funcionar.
    -  tima, escoando bem a fumaa.
    - A caldeira...  a leo ou gs?
    - Gs natural, instalada h cinco anos. O banheiro e a cozinha tambm foram reformados. Aqui morava um casal que trabalhava para os Foxworth, cuja manso fica 
na montanha, mas resolveram vender a casa e morar na Flrida. Contudo,  fcil ver que adoravam a casa.
    Claro que sim. S uma casa muito amada pelos donos teria todos os pequenos e bem cuidados detalhes que a tornavam  excepcional. Comprei-a e assinei todos os 
documentos sem o auxlio de advogado, embora tivesse lido sobre o assunto e mandado verificar a legalidade da escritura.
    - Mandaremos instalar um forno embutido na parede, com porta de vidro - disse eu a Carrie, que adorava cozinhar - graas a Deus, pois no me sobrava tempo para 
isso! - E pintaremos ns mesmas todo o interior da casa, economizando a despesa de mo-de-obra.
#244
    quela altura, eu j comeava a perceber que os cem mil dlares no durariam muito depois do pagamento de todos os meus dbitos e do sinal de compra da casa. 
Entretanto, no me atirara quela aventura de olhos vendados. Enquanto Carrie permaneceu com Jory num motel, fui procurar a professora
de bal que colocara a escola  venda e ia aposentar-se. Era loura, muito mida, e tinha cerca de noventa anos. Deu a impresso de ficar satisfeita ao ver-me. Trocamos 
um aperto de mos e fechamos o negcio pela quantia que ela desejava.
    - Vi-a danar Com seu marido. Na  verdade, Srta. Dahl, embora me sinta muito contente porque deseja comprar minha escola de bal, tenho pena de que abandone 
o palco ainda to jovem. Eu jamais conseguiria parar de danar aos vinte e sete anos! Nunca!
    Ela no era eu; no tivera meu passado ou meu tipo de infncia. Quando verificou que eu estava mesmo decidida a fechar o negcio, forneceu-me uma lista dos alunos.
    - A maior parte dessas crianas pertence s famlias ricas que residem nas redondezas e no acredito que nenhuma delas tencione seriamente tornar-se profissional 
de bal. Freqentam as aulas por vontade dos pais, que gostam de v-las bonitinhas em traje de dana durante os recitais. Jamais consegui formar aqui uma bailarina 
verdadeiramente talentosa.
    Todos os trs dormitrios de nosso chal eram muito pequenos, mas a sala era em forma de "L", de propores razoveis, com uma lareira ladeada por estantes. 
A perna mais curta do "L" podia ser utilizada como sala de jantar. Carrie e eu empunhamos as brochas e dentro de uma semana pintamos todos os cmodos de um verde 
bem suave. Com o madeirame pintado de branco, o resultado foi delicioso. O espao aumentou e tudo parecia maior. Carrie, naturalmente, precisaria ter acessrios 
roxos e vermelhos no "seu"
quarto.
    Em trs semanas tnhamos entrado numa nova rotina. Eu dava aulas na escola de bal, situada acima da farmcia local, enquanto Carrie cuidava da casa e da cozinha, 
ao mesmo tempo em que tomava conta de Jory. Sempre que possvel, eu levava Jory comigo para a escola de bal, no s para aliviar a responsabilidade de Carrie, como 
tambm para t-lo perto de mim. Lembrava-me das palavras de Madame Marisha a respeito de deix-lo observar, ouvir e ter a sensao da dana.
    Em certa manh de sbado, no incio de junho, eu olhava pelas janelas para as montanhas encobertas de nvoa azulada, que jamais mudavam de aparncia. A manso 
dos Foxworth continuava como sempre. Eu poderia atrasar o relgio at 1957 e, naquela noite, tomar Carrie e Jory pela mo, seguindo as
trilhas sinuosas que vinham da parada de trem. Seria exatamente como na noite em que Mame levara quatro filhos para a priso da esperana e, depois, do desespero, 
deixando-os l para serem torturados, espancados e mortos de fome. Relembrei repetidamente tudo o que acontecera: a chave de madeira que
fizemos para fugir da priso, o dinheiro que roubramos do luxuoso quarto de nossa me, a noite em que encontramos o volumoso livro sobre prazeres sexuais na mesinha 
de
#245
cabeceira. Talvez, se nunca tivssemos visto aquele livro... talvez, ento as coisas transcorressem de modo diferente.
    - Em que est pensando? - quis saber Carrie. - Acha que devemos voltar para visitar o Dr. Paul e Henny?... Espero que pense nisso.
    - Na verdade, Carrie, sabe que no podemos faz-lo.  poca de recital e meus alunos precisam ensaiar diariamente. Os pais pagam as aulas para assistirem aos 
recitais. Contudo, podemos pedir a Paul e Henny que venham visitar-nos.
    Carrie emburrou-se, mas, de repente, animou-se por algum motivo.
    - Sabe, Cathy, no dia em que aquele homem veio instalar o fogo, um jovem bonito, viu-me com Jory e perguntou se era meu filho. Soltei uma risadinha e ele tambm 
sorriu. Chama-se Theodore Alexandre Rockingham, mas pediu-me que o tratasse por Alex.
    Fez uma pausa, fitando-me temerosa e tremendo de esperana.
    - Cathy, ele me convidou para um encontro.
    - Voc aceitou?
    - No.
    - Por que no?
    - No o conheo o suficiente. Ele disse que est fazendo o curso preparatrio para a universidade e trabalha parte do tempo como eletricista para custear os 
estudos. Declarou que pretende ser engenheiro eletrnico, ou talvez pastor protestante... Ainda no se decidiu.
    Com um leve sorriso a um s tempo orgulhoso e encabulado, acrescentou:
    - Cathy, ele nem notou que sou to pequena.
    O modo como ela pronunciou a frase fez-me sorrir tambm.
    - Carrie... voc ficou ruborizada! Comea por declarar que mal conhece o rapaz, mas logo em seguida d todas as informaes importantes a seu respeito. Vamos 
convid-lo para jantar. Ento, poderei verificar se ele serve para minha irm.
    - Mas... mas... - gaguejou ela, muito vermelha. - Alex convidou-me para passar um fim de semana em sua casa, em Maryland. J falou com os pais a meu respeito... 
mas, Cathy, ainda no estou pronta para enfrentar seus pais!
    Seus olhos azuis demonstravam pnico. S ento me dei conta de que Carrie devia ter-se encontrado muitas vezes com o rapaz enquanto eu dava aulas de bal.
    - Oua, querida: convide Alex para jantar aqui conosco e deixe-o ir para casa sozinho. Creio que devo conhec-lo melhor antes de deix-la viajar sozinha com 
ele.
    Ela me fitou demoradamente, com uma expresso estranha. Depois, baixou os olhos.
    - Voc estar aqui se ele vier jantar?
    - Ora, claro que estarei.
    S ento entendi. Oh! Deus! Tomei-a nos braos.
#246
    - Escute, querida: convidarei Paul para vir este fim de semana, de modo que quando Alex perceber que gosto de homens mais velhos nem olhar para mim. Alm disso, 
vocs se viram antes. Ele no vai querer uma mulher mais velha, viva, com um filho.
    Cheia de felicidade, Carrie enlaou-me o pescoo com os braos.
    - Oh! Cathy, eu a amo! E Alex sabe consertar torradeiras e ferros de  engomar. Alex conserta tudo!

    Uma semana mais tarde, Alex e Paul sentaram-se  nossa mesa de jantar. Alex era um rapaz bem apessoado, de vinte e trs anos, que elogiou minha comida. Apressei-me 
em declarar que Carrie preparara a maior parte da refeio.
    - No - protestou ela, modesta. - Cathy preparou quase tudo. Eu s recheei a galinha, preparei o molho, amassei as batatas, fiz os pes quentes e os suspiros. 
Cathy cuidou do resto.
    De repente, senti-me como se apenas tivesse arrumado a mesa. Paul piscou um olho para mim, mostrando que compreendia.
    Quando Alex levou Carrie ao cinema e Jory estava acomodado na cama com seus brinquedos prediletos, Paul e eu sentamo-nos diante da lareira, como se fssemos 
casados h muitos anos.
    - Ento, j viu sua me? - indagou ele.
    - Esto aqui, ela e o marido - respondi em voz baixa. - Moram em Foxworth Hall. O jornal local noticia-lhes todos os movimentos. Parece que a minha querida av 
dos olhos de pedra sofreu um leve ataque cardaco, de modo que Bartholomew Winslow e Sra. residiro com ela... at que morra.
    Paul ficou calado durante longo tempo, em frente  lareira, observando os carves vermelhos se transformarem em cinzas escuras.
    - Gosto do modo como arrumou a casa - comentou ele, afinal.-   muito acolhedora.
    Levantou-se e veio sentar-se junto de mim, no sof. Abraou-me ternamente e assim ficamos, encarando-nos nos olhos.
    - Onde me encaixo eu? - murmurou. - Ou no me encaixo em lugar nenhum agora?
    Apertei-o em meus braos. Jamais deixara de am-lo, mesmo quando era casada com Julian. Parecia que no existia um homem que me pudesse dar tudo o que eu queria.
    - Quero fazer amor com voc, Catherine, antes que Carrie volte para casa.
    Despimo-nos rapidamente. Nossa paixo mtua em nada diminura durante todos os anos que se haviam passado desde que tivramos pela primeira vez um contato to 
ntimo. No me parecia errado, pelo menos quando ele era capaz de sussurrar:
    - Oh! Catherine, se h algo que desejo  possu-la por toda a minha vida e, quando morrer, que seja aps fazermos amor, tendo-a em meus braos, com voc me abraando 
e fitando como faz agora.
#247
    - Que belo e potico - repliquei. - Mas voc completar cinqenta e dois anos em novembro e sei que viver at os oitenta, ou noventa. E quando tiver essa idade, 
espero que a paixo ainda nos governe, como agora.
    Ele sacudiu a cabea.
    - No quero chegar aos oitenta sem voc a meu lado e ainda me amando. Prefiro morrer quando voc deixar de me amar.
    Fiquei sem saber o que responder, mas deixei que meus braos falassem por mim, estreitando-o ainda mais para que eu pudesse beij-lo repetidamente. Ento, o 
telefone comeou a tocar. Estendi preguiosamente o brao para atender... ento sentei-me bruscamente na cama.
    - Minha Lady Catherine! - era a voz de Chris. - Henny estava com uma amiga quando telefonei para Paul. A amiga deu-me o nmero de seu telefone. Cathy, que diabo 
est fazendo voc na Virgnia? Sei que Paul est a... e rezo para que ele consiga dissuadi-la de fazer o que diabo voc tem em mente!
    - Paul  muito mais compreensivo que voc. E, Chris, voc  a pessoa que melhor deveria saber o que estou fazendo aqui!
    Meu irmo produziu um rudo de contrariedade.
    - O pior de tudo  que compreendo. Mas tenho certeza de que se magoar, Cathy. Alm disso, h o problema de Mame. No quero que voc a machuque mais do que 
ela j est machucada, como voc sabe que est.
Entretanto, acima de tudo, no quero que voc se magoe outra vez e sei que isto acontecer. Est sempre fugindo de mim, Cathy, mas nunca poder ir bastante longe 
ou com suficiente pressa para escapar-me, porque estarei sempre em seus calcanhares, amando-a. Sempre que algo de bom me acontece, sinto-a ao meu lado, segurando-me 
a mo, amando-me como eu a amo, mas
recusando-se a reconhecer o fato por pensar que  pecado. Se for pecado, ento o cu
deve ser perto de voc.
    Tive uma terrvel sensao de pnico. Despedi-me rapidamente e desliguei. Em seguida, virei-me para aninhar-me nos braos de Paul, esperando que ele no desconfiasse 
do motivo que me fazia tremer. 

     Na calada da noite, com Paul profundamente adormecido no terceiro quartinho do chal, acordei repentinamente. Tive a impresso de escutar as montanhas chamarem: 
"Filha do Diabo!" O vento uivava l fora, acrescentando sua voz s que me chamavam de pecaminosa, m, diablica e tudo mais que a av dizia de ns.
    Levantei-me e fui  janela olhar para os picos sombrios  distncia. Os mesmos picos que eu costumava observar das janelas do sto.

     Sim, exatamente como Cory, eu podia escutar o vento soprando e uivando como um lobo  minha procura, querendo arrastar-me tambm, da mesma forma Como arrastara 
Cory e o transformara apenas em p. 
     Corri ao quarto de Carrie e agachei-me ao lado de sua cama, desejando proteg-la, pois tinha a impresso, no estado de pesadelo em que me encontrava, que era 
mais provvel que o vento a arrastasse antes de mim.

#248
o Romance Agridoce de Carri

    Carrie tinha vinte anos, eu vinte e sete, Chris completaria trinta em novembro.
    Parecia-me uma idade impossvel para ele, mas quando olhava o meu Jory eu ficava abismada com a rapidez com que o tempo corre  medida que envelhecemos.
    O tempo que antes parecia arrastar-se ganhava impulso, acelerando-se - pois nossa Carrie estava apaixonada por Alex! O amor brilhava-lhe nos olhos azuis e danava-lhe 
nos ps midos enquanto ela percorria a casa limpando os mveis, manipulando o aspirador, lavando a loua ou planejando o cardpio
para o dia seguinte.
   - Ele no  lindo, Cathy? - indagava ela.
     E eu concordava, embora, na realidade, Alex fosse apenas um jovem comum, com cerca de um metro e sessenta e oito de estatura, boa aparncia, cabelos castanhos 
claros que se despenteavam com facilidade e lhe davam um ar relativamente atraente de cozinho arrepiado, pois era to meticuloso e bem arrumado em todos os outros 
sentidos! Tinha olhos azuis esverdeados e a expresso de algum por cuja mente jamais passara um pensamento feio ou maldoso.
    Carrie eletrizava-se ao escutar o toque do telefone, pois freqentemente o chamado era para ela. Chegava a borbulhar de excitao. Redigia para Alex longos e 
apaixonados poemas de amor, obrigando-me a l-los e depois guardando-os sem envi-los a quem realmente deveria v-los.
    Sentia-me feliz por ela e por mim tambm, pois a escola de bal ia de vento em popa e Chris viria para casa a qualquer momento!
    - Voc  capaz de acreditar, Carrie? O curso de especializao de Chris est quase terminando!
    Ela riu e correu para mim, como costumava fazer quando criana. Estendi os braos e Carrie se atirou neles.
    - Eu sei!-  exclamou. - Em breve, voltaremos a ser uma famlia completa! Como ramos antes, Cathy. Se eu tiver um filhinho louro de olhos azuis, adivinhe que 
nome lhe darei.
    Eu no precisava adivinhar, pois j sabia. O primognito de Carrie, louro e de olhos azuis, teria o nome de Cory.
     Era puro encantamento observar Carrie apaixonada. Parou de falar em seu raquitismo e at mesmo comeou a sentir-se normal. Pela primeira vez na vida, passou 
a maquilar-se. Tinha o cabelo naturalmente ondulado, como o
meu, mas cortou-o  altura dos ombros, onde as pontas se curvavam para cima num atraente abandono.
    - Veja, Cathy! - exclamou ao voltar do salo de beleza com o novo corte de cabelo, mais elegante. - Agora, minha cabea j no parece to grande, hem? E notou 
como fiquei mais alta?
#249
    Ri. Carrie usava sapatos com salto sete e meio e solas tipo tamanco, com cinco centmetros de altura! Mas tinha razo: o cabelo mais curto dava a impresso de 
diminuir-lhe o tamanho da cabea.
     Sua juventude, beleza e alegria comoveram-me tanto que o corao me doeu de apreenso. Rezei para que no acontecesse alguma coisa que estragasse tudo para 
minha irm.
    - Oh! Cathy, se Alex no me amar eu prefiro morrer! - declarou Carrie. - Quero ser para ele a melhor esposa possvel. Manterei a casa to limpa que nem haver 
poeira no ar. Todas as noites ele jantar comida de gourmet preparada por mim - nada dessas porcarias que j vm prontas do supermercado. Farei minhas roupas, as 
dele e as das crianas. Economizarei muito dinheiro
de todas as maneiras possveis. Ele no fala muito; limita-se a ficar sentado, olhando-me daquele modo suave e especial. Portanto, contentar-me-ei com isso, sem 
precisar de palavras pois ele raramente as pronuncia.
   Ri, abraando-a. Oh! como queria que Carrie fosse feliz! 
     - Os homens no falam tanto de amor quanto as mulheres, Carrie. Alguns gostam de provocar-nos e isso constitui uma boa indicao de que esto interessados e 
de que o interesse pode transformar-se em algo mais profundo. E o jeito de descobrirmos o quanto gostam de ns  fit-los nos olhos: o olhar
nunca aprende a mentir.
   Era fcil perceber Que Alex se encantava com Carrie. Ainda trabalhava parte do tempo como eletricista para uma loja local de aparelhos eltricos enquanto fazia 
cursos de frias na universidade, mas passava cada minuto de tempo livre em companhia de Carrie. Eu desconfiara que ele j propusera ou estava prestes a propor casamento 
a ela.
   Uma semana mais tarde, acordei de repente para deparar com Carrie em frente  janela, olhando para as montanhas escuras. Carrie, que nunca tinha insnia freqente, 
como eu. Carrie, que conseguia continuar dormindo
durante trovoadas, com o telefone tocando a meio metro de seus ouvidos, ou com um incndio no outro lado da rua. Portanto, como  natural, alarmei-me ao v-la ali. 
Levantei-me e me aproximei dela.
    - Est passando bem, querida? Por que no dorme?
    - Queria ficar perto de voc - sussurrou ela, com o olhar ainda pregado nas montanhas distantes, escuras e misteriosas dentro da noite. Cercava-nos por todos 
os lados, encurralando-nos como outrora. - Alex pediu-me em casamento esta noite - acrescentou num tom inexpressivo.
    Exclamei:
    - Que maravilha! Sinto-me feliz por voc, Carrie! E por ele tambm.
    - Ele me contou uma coisa, Cathy: resolveu ser pastor.
    Sua voz tinha um tom de sofrimento e tristeza que no consegui entender.
    - No quer ser esposa de um ministro de Deus? - indaguei.
    No fundo, sentia-me temerosa, pois Carrie se mostrava to distante e desanimada!
#250
    - Os pastores esperam que as pessoas sejam perfeitas - disse ela, nun tom que me causou wn medo mortal. - Em especial, suas esposas. Lembro-me de tudo que a 
av costumava dizer a respeito de ns. ramos filhos do Demnio, cheios de maldade e pecado. Eu no entendia direito o que ela
queria dizer, mas lembro-me bem das palavras. E ela dizia sempre que ramos
crianas ruins e pecaminosas, que nunca deveriam ter nascido. Deveramos ter
nascido, Cathy?
    Engasguei-me, horrivelmente amedrontada. Engoli em seco, a fim de livrar-me do n que me apertava a garganta.
    - Carrie, se Deus no quisesse que nascssemos, nunca teria permitido que isso acontecesse.
    - Mas, Cathy... Alex deseja uma mulher perfeita - e eu no sou perfeita.
    - Ningum , Carrie. Absolutamente ningum  perfeito. S os mortos.
    - Alex  perfeito. Jamais fez alguma coisa ruim ou errada.
    - Como pode ter certeza? Ele lhe contaria, se tivesse feito?
    Seu lindo rosto jovem mostrava-se sombrio. Vacilante, explicou:
    - Tenho a impresso de que Alex e eu nos conhecemos j h muito, muito tempo, mas at recentemente ele pouco me falou a respeito de si mesmo. E eu falei pelos 
cotovelos, mas nunca lhe contei a respeito de nosso
passado, exceto que passamos  tutela do Dr. Paul quando nossos pais morreram num acidente de automvel. E isto  mentira, Cathy. No somos rfos. Nossa me ainda 
est viva.
    - Mentiras no so pecados mortais, Carrie. Todos contam uma mentirinha de vez em quando.
    - Alex no mente. Sempre se sentiu atrado para Deus e a religio. Quando era mais jovem, queria converter-se ao catolicismo para poder ser padre. Ficou mais 
velho e descobriu que os padres so obrigados ao celibato, de modo que desistiu do catolicismo, pois deseja uma esposa e filhos. Disse-me que jamais teve uma experincia 
sexual porque passou toda a vida adulta  procura da garota certa com quem se casar: algum perfeito, como eu.
    Comeou a chorar de dar pena.
    - Cathy! No sou perfeita! Sou pecadora! Como a av sempre nos dizia, sou m e pecaminosa, tambm! Tenho maus pensamentos! Odiei aquelas meninas que me colocaram 
no telhado e disseram que eu era uma coruja! Desejei que todas elas morressem! E Sissy Towers - odiei-a mais que as outras!
Cathy, sabe que Sissy Towers morreu afogada quando tinha doze anos? Nunca escrevi nem nunca lhe contei, mas senti que a culpa foi minha, por odi-la tanto! Tambm 
odiei Julian, por roubar voc de Paul e ele tambm morreu! Ser que no compreende? Como posso contar tudo isto a Alex e, ainda por cima dizer-lhe que nossa me 
se casou com seu meio-tio? Alex me detestaria, Cathy. No me quereria mais; tenho certeza, Cathy. Alex pensaria que eu lhe daria filhos deformados, como eu... E 
eu o amo tanto!
    Ajoelhei-me ao lado da cadeira e abracei Carrie, como faria uma me. No sabia o que dizer, ou como dizer. Ansiava pela presena e apoio de Chris.
#251
E tambm por Paul, que sempre sabia dizer as coisas certas no momento adequado. Lembrando-me disso, tomei por emprstimo as palavras que ele me dissera e repeti-as 
para Carrie, embora sentisse uma fria terrvel contra a av que implantara todas aquelas noes malucas na mente de uma criana de
cinco anos:
    - Querida, no sei como dizer tudo da maneira correta, mas tentarei. Quero que voc entenda que aquilo que  preto para uma pessoa pode ser branco para outra. 
E nada neste mundo  to perfeito a ponto de ser branco ou to ruim a ponto de ser preto. Tudo o que se refere aos seres humanos tem
as mais variadas tonalidades de cinza, Carrie. Nenhum de ns  perfeito, sem
nenhum defeito. Eu mesma j senti as mesmas dvidas que voc.
     Seus olhos lacrimosos se arregalaram quando ela escutou isto, como se me considerasse - entre todas as pessoas neste nundo - perfeita.
    - Foi o nosso Dr. Paul quem me esclareceu, Carrie. H muito tempo, ele me explicou que se houve pecado quando nossos pais se casaram e conceberam filhos, esse 
pecado foi deles e no nosso. O Dr. Paul afirmou que Deus no pretende fazer com que ns paguemos pelo erro cometido por nossos
pais. Alm disto, eles no eram parentes prximos, Carrie. Sabe que no antigo Egito os faras s permitiam que seus filhos e filhas se casassem com uma irm ou irmo? 
Portanto, como voc pode ver, a sociedade estabelece as regras. Alm disso, nunca se esquea de que nossos pais tiveram quatro
filhos e nenhum de ns  excepcional. Portanto, Deus no os puniu - nem a ns.
    Carrie grudou em meu rosto os grandes olhos azuis, querendo desesperadamente acreditar em mim. E eu nunca, jamais deveria ter usado o termo "excepcional".
    - Cathy, talvez Deus tenha punido a mim. No creso. Isto  um castigo.
    Soltei um riso trmulo e puxei-a ainda mais para mim.
    - Olhe ao seu redor, Carrie. Existem muitas pessoas menores que voc. Sabe que no  an. Mesmo que fosse - e no  -, ainda teria que aceitar o fato da melhor 
maneira possvel, como faz tanta gente que se considera demasiadamente alta, gorda, magra, ou l o que seja. Voc possui um rosto lindo, um cabelo sensacional, uma 
pele maravilhosa, num corpo adorvel e bem
conformado. Tem uma voz bonita e sonora, uma inteligncia brilhante. Veja como  capaz de datilografar e taquigrafar depressa e corretamente, manter em dia a escriturao 
de Paul, cozinhar duas vezes melhor que eu. Ademais,  muito melhor dona de casa e d gosto ver os vestidos que faz. So muito mais bonitos e melhores que os das 
lojas. Somando tudo isto, Carrie, como  capaz de
no se julgar suficientemente boa para casar-se com Alex ou qualquer outro
homem?
    Ela continuou a chorar, sem se tranqilizar com minha argumentao.
    - Mas, Cathy, voc no o conhece como eu! Passamos por um cinema que exibe filmes imorais e Alex disse que qualquer pessoa que fizesse aquilo era pecadora e 
pervertida! Entretanto, voc e o Dr. Paul me disseram que sexo e fazer bebs  uma parte natural #252
da vida, cheia de amor. E sou pecadora,
Cathy. Uma vez, fiz algo muito ruim.
    Arregalei os olhos, apanhada de surpresa. Com quem? Foi como se Carrie me lesse os pensamentos, pois sacudiu a cabea enquanto as lgrimas continuavam a escorrer-lhe 
pelo rosto.
    - No... eu nunca tive... tive... relaes sexuais, com ningum. Mas fiz outras coisas que so pecados. Alex pensaria assim. E eu devia saber que era errado..
    - O que fez de to terrvel, querida?
    Ela engoliu em seco e baixou a cabea, envergonhada.
    - Foi Julian. Um dia, quando eu estava de visita e voc se ausentou de casa, ele quis fazer... alguma coisa comigo. Disse que seria gostoso e no se tratava 
realmente de sexo, do tipo que produz bebs. Portanto, fiz o que ele queria; Julian me beijou e disse que, depois de voc, eu era a pessoa de quem ele mais gostava. 
Eu no sabia que era errado fazer apenas o que fiz.
    Lutei para livrar-me do doloroso n na garganta, beijei os cabelos de Carrie, afastei-os de sua testa febril e enxuguei-lhe as lgrimas.
    - No chore nem fique envergonhada, querida. H muitos tipos de amor e modos de express-los. Voc ama o Dr. Paul, Jory e Chris de trs modos diferentes ea mim 
de outro. E se Julian convenceu-a a fazer algo que agora voc acha pecaminoso, o pecado foi dele e no seu. E meu tambm pois deveria
t-la prevenido quanto ao que ele poderia desejar de voc. Julian prometeu-me jamais tocar num fio de seus cabelos ou alimentar desejos sexuais em relao a voc 
- e acreditei nele. Mas se voc fez alguma coisa, no mais precisa envergonhar-se. E Alex no precisa tomar conhecimento. Ningum contar a ele.
    Carrie levantou a cabea muito devagar e a lua que surgiu de repente de trs das nuvens escuras lhe brilhou nos olhos cheios de remorso.
    - Mas eu saberei.
    Comeou a soluar histericamente.
    - Isso no  o pior, Cathy! -  berrou. - Gostei de fazer aquilo! Gostei que ele me pedisse para fazer... tentei evitar que meu rosto demonstrasse prazer, pois 
Deus poderia estar observando!... Agora, no consegue perceber que Alex no entender? Ele me detestaria, se soubesse! E mesmo que
nunca venha a saber, eu ainda me detestarei por ter feito e gostado! 
     - Por favor, pare de chorar. Na verdade, o que fez no foi to terrvel. Esquea-se da av, que vivia falando em nosso sangue amaldioado.  uma hipcrita preconceituosa 
que no sabe distinguir o certo do errado e fez as coisas mais horrveis em nome de uma falsa santidade, mas nada em nome do amor. Voc no  m, Carrie. Desejava 
apenas que Julian a amasse; se o que fizeram deu prazer a ambos, isso  muito normal. As pessoas so feitas para terem prazer sensual e gostarem de sexo. Julian 
errou, pois no deveria ter
induzido voc; mas o pecado foi dele, no seu.
    - Lembro-me de muitas coisas que voc no imagina que eu faa - sussurrou ela. - Lembro-me do modo esquisito pelo qual Cory e eu costumvamos conversar, a fim 
de que voc #253
e Chris no entendessem. Sabamos que
ramos filhos do Demnio. Escutvamos a av falar. Sabamos que estvamos trancados porque no merecamos ser livres no mundo, entre gente melhor que ns.
    - Pare!-  gritei. - No se lembre! Esquea! Samos de l, no  mesmo? ramos quatro crianas que no tinham  responsabilidade pelos atos dos pais. Aquela velha 
detestvel tentou destruir nossa confiana e orgulho - no permita que ela consiga! Olhe para Chris - no se orgulha dele? No se orgulhava de mim, quando eu estava 
no palco danando? E um dia, depois que voc e Alex se casarem, ele mudar de idia a respeito do que  ou no
pervertido - pois isso aconteceu comigo. Alex amadurecer e deixar de ser
exageradamente santo, pois ainda no conhece o prazer que o amor pode proporcionar.
    Carrie libertou-se de mim e foi  janela olhar para as distantes montanhas escuras e para a lua minguante que parecia singrar o cu como a vela de um barco viking.
    - Alex no mudar - declarou com desnimo. - Pretende tornar-se pastor. As pessoas religiosas acham que tudo  errado, como a av. Quando ele revelou que desistira 
da idia de ser engenheiro eletrnico, compreendi que estava tudo acabado entre ns.
    - Todo mundo muda! Veja o mundo que nos rodeia, Carrie. Veja as revistas, os filmes que gente decente vai assistir e gosta, as peas teatrais com todos os atores 
despidos, o tipo de livros que so publicados. No sei se a mudana  para melhor, mas o fato  que as pessoas no so estticas. Todos ns mudamos a cada dia. Talvez 
daqui a vinte anos nossos filhos olhem para a nossa poca atual e se sintam chocados, sorriam e nos considerem ingnuos e inocentes. Ningum sabe como o mundo mudar. 
Portanto, se o mundo  capas de mudar, o mesmo acontece com um homem chamado Alex!
    - Alex no mudar. Revolta-se contra a falta de moral que existe hoje em dia, com os tipos de livros que esto sendo publicados, com os fIlmes sujos e as revistas 
que trazem fotografias de pessoas fazendo coisas pecaminosas. Creio que tambm no aprove o tipo de dana que voc costumava fazer com Julian.
    Tive mpetos de gritar: "Ao diabo com Alex e seu puritanismo!" Entretanto, no podia ir contra o nico homem que Carrie encontrara para amar.
    - Carrie, querida, v deitar-se. Durma bem e lembre-se, quando acordar, que o mundo est cheio de homens que se deliciariam por amar algum to linda, suave 
e boa dona de casa como voc. E se no der certo com voc e Alex, dar certo com voc e outra pessoa.
    Ela me lanou um rpido olhar do mais profundo desespero.
    - No foi melhor quando Deus tez Cory morrer?
    Oh! meu Deus, como responder uma pergunta como aquela?
    - Foi melhor quando Papai morreu na estrada?
    - Voc nem se lembra daquele dia.
    - Lembro-me, sim. Tenho boa memria.
#254
    - Carrie, absolutamente ningum  perfeito. Nem eu, nem voc, nem Chris, nem Alex. Ningum.
    - Eu sei - replicou ela, deitando-se como uma boa menina que obedece  me. - As pessoas que procedem mal, Deus  v e, mais tarde, aplica-lhes o castigo. s 
vezes, utiliza-se de uma av com uma chibata, como aquela velha espancou Chris e voc. No sou imbecil, Cathy. Sei que Chris e voc se olham como Alex e eu nos olhamos. 
Julgo, tambm, que voc e o Dr. Paul foram
amantes - e talvez tenha sido por isso que Julian morreu: para castig-los. Contudo, voc  o tipo de mulher de quem os homens gostam e eu no. No sou bailarina, 
no sei como fazer que todos gostem de mim. S minha famlia me ama - e Alex. E quando eu contar a verdade a Alex, ele deixar de me amar;
no me querer mais.
    - Voc no vai contar a ele!-  ordenei rispidamente.
    Carrie deitou-se com os olhos fixos no teto at que, afinal, adormeceu. Ento, fui a nica a permanecer acordada, doendo interiormente, ainda abismada pelo efeito 
que uma nica mulher surtia na vida de tanta gente. Odiava Mame por nos ter levado para Foxworth Hall. Mesmo sabendo como era a sua me, levara-nos para l. Conhecia 
seus pais melhor que ningum e, no obstante, casara-se pela segunda vez e deixara-nos sozinhos, de modo que se divertia enquanto ramos torturados. E ramos ns 
que continuvamos a
sofrer enquanto ela se divertia!
    Sua diverso no duraria muito, pois eu estava ali e Bart tambm; mais cedo ou mais tarde, ns nos encontraramos. Contudo, s mais tarde vim a saber como ela 
conseguira evitar-me at ento.
    Consolei-me pensando que em breve mame tambm estaria sofrendo como ns. Sofrimento por sofrimento, ela ficaria sabendo o que havamos sentido - quando ela 
fosse abandonada, sozinha e sem amor. No conseguiria suportar... no outra vez! Mais um s golpe seria sua runa. De algum modo,
eu tinha certeza disso - talvez por ser to semelhante a ela...

    - Tem certeza de que est passando bem? - perguntei a Carrie alguns dias mais tarde. - No tem comido direito. Que fim levou seu apetite? 
    Mantendo o rosto inexpressivo, ela replicou em voz baixa:
    - Estou muito bem. Apenas no sinto muita vontade de comer. No leve Jory hoje para a escola de bal. Deixe-me ficar com ele o dia inteiro. Sinto falta quando 
voc o leva.
    Fiquei temerosa de deix-la o dia inteiro com Jory, que s vezes dava muito trabalho. Afinal, Carrie no estava com muito boa aparncia.
    - Carrie, seja franca comigo, por favor. Se no est passando bem, deixe-me lev-la ao mdico.
    -  o meu perodo mensal, nada mais - disse ela, com os olhos baixos. - Sinto muitas clicas trs ou quatro dias antes.
    Apenas o incmodo mensal - e, na idade dela, as clicas eram mais fortes que na minha. Dei um beijo de despedida em meu filhinho, que abriu um berreiro
#255
ensurdecedor, querendo acompanhar-me para observar os bailarinos.
    - Quero escutar a msica, Mame! - protestou Jory, que sabia muito bem o que queria ou no. - Quero ver os danarinos!
    - Vamos passear no parque; empurrarei voc no balano e brincaremos na caixa de areia - disse Carrie apressadamente, pegando meu filho no colo e o abraando 
com fora. - Fique comigo, Jory. Gosto tanto de voc e nunca o vejo bastante... No gosta de sua Tia Carrie?
    Ele sorriu, enlaando-a pelo pescoo. Sim, Jory amava todo mundo.

    Foi um dia terrivelmente longo. Telefonei vrias vezes, a fim de verificar
se Carrie estava bem. 
    - Estou tima, Cathy. Jory e eu nos divertimos a valer no parque. Agora,
vou deitar-me para um cochilo. Portanto, no telefone porque no quero acordar.
    O relgio bateu quatro horas. Era a ltima aula do dia e os alunos de seis e sete anos postaram-se no centro do salo. Enquanto a msica tocava, eu contava:
    - Un, deux, plis, un, deux, plis, e agora, un, deux, tendu, fechem as pernas, un, deux, tendu, fechem as pernas, un, deux, tendu...
     E a aula prosseguia, quando, de repente, senti um arrepio na nuca a indicar que algum me olhava fixamente. Girei nos calcanhares e avistei um homem de p bem 
no fundo do salo: Bart Winslow, o marido de minha me!
    To logo percebeu que eu o reconhecera, encaminhou-se para mim.
    - Fica sensacional com essa malha roxa, Srta. Dahl. Pode ceder-me um minuto do seu tempo?
    - Estou ocupada! - repliquei com rispidez, aborrecida por ele me interpelar quando eu tinha que cuidar de uma dzia de pequenos bailarinos dos quais no podia 
afastar os olhos. - Minhas aulas terminam s cinco. Se quiser, pode sentar-se ali e esperar.
    - Srta. Dal - eu tive um trabalho dos diabos para encontr-la e voc estava aqui durante todo o tempo, bem diante do meu nariz.
    - Sr. Winslow - repliquei friamente. - Se o cheque que lhe enviei pelo correio no foi suficiente, poderia escrever-me e o correio me faria chegar s mos a 
sua carta.
    Ele franziu as sobrancelhas escuras e grossas.
    - No estou aqui para tratar de honorrios, embora no tenha recebido o preo que tinha em mente.
    Sorridente e seguro de si, enfiou a mo no palet e puxou uma carta do bolso interno. Prendi a respirao ao reconhecer no envelope minha prpria caligrafia, 
alm de todos os carimbos e marcas de cancelamento na carta que acompanhara o trajeto de minha me por toda a Europa!
    - Percebo que reconhece esta carta - comentou, os penetrantes olhos castanhos observando minhas mnimas reaes faciais.
#256
    - Escute, Sr. Winslow - respondi em estado de total confuso. - Minha irm no est passando bem hoje e tem a seus cuidados meu filhinho, que ainda  quase um 
beb. E, como o senhor mesmo pode ver, estou
ocupadssima aqui. Podemos tratar deste assunto em outra ocasio?
    - Quando melhor lhe convier, Srta. Dahl - disse ele, fazendo uma breve reverncia e entregando-me um carto de visitas. - O mais breve possvel, por favor. Tenho 
muitas perguntas a lhe fazer - e no tente esquivar-se. Desta vez, tratarei de vigi-la de perto. No julga que um encontro para jantar foi suficiente, no ?
    Perturbou-me tanto o fato de v-lo com aquela carta nas mos que, to logo ele se retirou, dispensei os alunos e fui para meu pequeno escritrio. Sentei-me para 
examinar o livro de escriturao contbil, verificando que ainda estava em dbito. Quando comprei a escola, fui informada de que teria pelo menos quarenta alunos, 
mas ningum me revelou que a maior parte deles
viajava no incio do vero e s regressava no outono. Alm disso, havia as mimadas crianas ricas no inverno e as das classes intermedirias no vero, que s vinham 
s aulas uma ou duas vezes por semana. Por mais que eu esticasse o dinheiro que ganhava, no conseguia cobrir as despesas que fizera com a ova decorao da escola 
e a instalao de espelhos novos atrs da comprida barra de exerccios.
    Ento, consultei o relgio e verifiquei que eram quase seis horas - Troquei de roupa e corri os dois quarteires que separavam a escola de meu pequeno chal. 
Carrie deveria estar na cozinha preparando o jantar enquanto Jory brincava no jardim cercado. Contudo, no vi Jory e Carrie no estava na
cozinha! 
    - Carrie! - chamei. - J cheguei. Onde se esconderam Jory e voc?
    - Estou aqui - respondeu ela num mero Sussurro.
    Corri at o quarto e a encontrei ainda deitada. Com voz fraca, explicou que Jory estava na casa ao lado, com os vizinhos.
    - Cathy... realmente no me sinto bem... Vomitei quatro ou cinco vezes; no me lembro com certeza. - Sinto tantas clicas... Estou esquisita, muito esquisita...
    Levei-lhe a mo  testa, constatando-a estranhamente fria, embora fosse um dia bastante quente.
    - Vou chamar um mdico.
    Mal as palavras me saram dos lbios tive que rir amargamente de mim mesma. Naquela cidadezinha no havia um mdico que atendesse a domiclio. Corri de volta 
a Carrie e enfiei-lhe um termmetro na boca. Ento, perdi o flego ao ler o resultado.
    - Carrie, vou buscar Jory e depois a levarei ao hospital mais prximo. Est com quarenta e um graus de febre!
    Carrie meneou debilmente a cabea e tornou a adormecer. Corri  casa vizinha para verificar como estava meu filho, que brincava alegremente com uma menininha 
um ms mais velha que ele.
#257
    - Oua, Sra. Marquet - disse a Sra. Townsend, uma mulher bondosa e maternal com pouco mais de quarenta anos, que tomava conta da netinha. - Se Carrie est doente, 
deixe-me cuidar de Jory at a senhora voltar para casa. Espero que Carrie no tenha alguma coisa grave, pois  to boazinha! Mesmo assim, notei que est muito plida 
e abatida h cerca de dois dias.
    Eu tambm notara a mesma coisa, mas atribura tudo ao fato de seu romance com Alex estar causando problemas.
     Como me enganei!

   No dia seguinte, telefonei para Paul.
    - Catherine, o que h de errado? - quis saber ele, percebendo o pnico em minha voz.
    Desembuchei tudo de uma s vez: Carrie estava internada no hospital, onde j haviam realizado vrios exames e ainda no sabiam o que havia com ela.
    - Paul, ela est com uma aparncia terrvel! E perdendo peso depressa incrivelmente depressa! Vomita, no consegue manter a comida no estmago e tambm sofre 
de diarria! No pra de chamar por voc e por Chris.
    - Arranjarei outro mdico para substituir-me aqui e irei imediatamente,
de avio - disse ele sem qualquer hesitao. - Mas espere antes de tentar entrar em contato com Chris. Os sintomas que voc mencionou so comuns a uma srie de distrbios.
    Tomei-lhe as palavras ao p da letra e no tentei entrar em contato com Chris, que aproveitava uma folga para fazer uma viagem de duas semanas pela Costa Oeste 
antes de voltar para casa e prosseguir seu perodo de residncia mdica. Dentro de trs horas, Paul estava comigo no hospital, observando
Carrie. Esta sorriu debilmente ao v-lo no quarto e estendeu os braos magros.
    - Ol - sussurrou com voz sumida. - Aposto que no imaginou encontrar-me num leito de hospital, no  mesmo?
    Paul abraou-a e comeou de imediato a fazer perguntas. Quais foram os primeiros sinais de que havia algo errado?
    - H cerca de uma semana, comecei a sentir muito cansao. No mencionei a Cathy porque ela sempre se preocupa demais comigo, de qualquer maneira. Depois, passei 
a ter dores de cabea e ficar sonolenta o tempo todo. Apareceram marcas, como equimoses, e no sei como foram causadas. Em seguida, o pente vinha cheio de cabelos 
sempre que me penteava e comecei a vomitar... Ento, outras coisas que os mdicos j perguntaram e contei a eles.
    Seu sussurro tornou-se cada vez mais sumido.
    - Eu gostaria de ver Chris... - murmurou, antes de fechar os olhos e
adormecer outra vez.
    Paul j examinara a ficha mdica de Carrie e confabulara com os mdicos que cuidavam dela. Agora, virou-se para mim com aquele rosto inexpressivo que me enchia 
o corao de medo... pois me parecia to
significativo!
    - Acho melhor voc mandar chamar Chris.
#258
    - Paul! Quer dizer...?
    - No, no quero dizer isso. Mas se Carrie deseja v-lo, o lugar dele  aqui, perto dela.

    Eu estava no corredor, esperando que os mdicos fizessem alguns exames em Carrie. Haviam-me retirado do quarto. Andando de um lado para outro em frente  porta 
fechada do quarto, senti-lhe a presena antes de
avist-lo. Dei meia-volta e prendi a respirao ao deparar com Chris aproximando-se pelo corredor, passando pelas enfermeiras que carregadas de bandejas com remdios, 
viravam-se para observ-lo em toda a sua esplndida glria.
     Recuei no tempo e vi Papai, do jeito como mais me lembrava dele, usando trajes de jogar tnis. No consegui falar quando Chris me tomou nos braos e enfiou 
o rosto queimado de sol em meus cabelos. Ouvi-lhe as batidas fortes e regulares do corao. Solucei,  beira de um dilvio de lgrimas.
    - No demorou a chegar.
    Ele continuou com o rosto enfiado em meus cabelos e tinha a voz rouca de emoo.
    - Cathy - perguntou, erguendo a cabea para fitar-me nos olhos: - o que h de errado com Carrie?
    A pergunta me aturdiu - pois ele deveria saber! 
    - No consegue adivinhar?  aquele maldito arsnico - tenho certeza! Que mais poderia ser? Ela estava tima h uma semana. De repente, adoeceu assim!
    Interrompi-me e comecei a chorar.
    - Ela quer ver voc.
    Entretanto. antes de lev-lo ao pequeno quarto de Carrie, coloquei na mo de meu irmo o bilhete que encontrara entre as pginas do dirio que Carrie iniciara 
no dia em que conhecera Alex.
    -  Chris, h muito tempo Carrie sabe que algo estava errado, mas manteve segredo. Leia isto e diga-me o que acha.
    Enquanto ele lia, mantive os olhos pregados em seu rosto.

     "Queridos Cathy e Chris,
     "s vezes, chego a pensar que vocs so meus pais de verdade; ento, lembro-me de Mame e Papai e tenho a impresso de que se trata de um sonho que jamais aconteceu. 
Sou incapaz de imaginar a fisionomia de Papai a menos que tenha nas mos sua fotografia - embora me recorde de Cory exatamente como ele era.
     "Estive ocultando algo. Por isso, caso eu no escreva estas linhas, vocs se julgaro culpados. H muito tempo venho sentindo que morrerei em breve e j no 
me importo com o fato. No posso ser esposa de um pastor. No teria sobrevivido at hoje se vocs dois, Jory, o Dr. Paul e Henny no me tivessem dedicado tanto amor. 
Sem todos vocs para
segurar-me neste mundo, eu j teria ido ao encontro de Cory h muito tempo. Todo mundo tem algum especial para amar, menos eu. Todo mundo tem algo especial #259
para fazer, menos eu. Sempre tive certeza de que nunca me casaria. Sabia que enganava a mim mesma quanto a ter filhos, pois meus quadris so estreitos demais e tambm 
acho que sou raqutica demais para tornar-me uma boa esposa. Eu jamais seria algum especial - como voc, Cathy, que pode danar, ter filhos e tudo o mais.
No posso ser mdica, como Chris. Portanto, eu nunca seria muita coisa,
mas apenas algum para atrapalhar e preocupar todo mundo por ser infeliz.
     "Portanto, neste momento, antes que prossigam a leitura, prometam-me no permitir que os mdicos faam alguma coisa para prolongar minha existncia. Deixem-me 
apenas morrer e no chorem por mim. No fiquem tristes nem tenham saudades de mim depois que eu for
sepultada. Nada correu bem para mim desde que Cory se foi, deixando-me sozinha. O que mais lamento  no estar presente para ver Jory danar no palco, como Julian 
fazia. Agora, preciso confessar uma coisa: eu amava Julian do mesmo modo que amo Alex. Julian nunca me julgou
pequena demais e foi o nico homem que me fez sentir como uma mulher normal, embora por curto espao de tempo. Mesmo assim, foi pecado. Apesar de voc dizer que 
no, Cathy, sei que foi pecado.
     "Na semana passada, comecei a pensar na av e no que ela costumava dizer a respeito de sermos filhos do Demnio. Quanto mais eu pensava no assunto, mais certeza 
tinha de que ela estava com a razo: eu nunca deveria ter nascido! No presto! Quando Cory morreu por causa do arsnico nas rosquinhas que a av nos dava, eu tambm 
devia ter morrido! Nem imaginavam que eu sabia, no  mesmo? Pensavam que durante todo o tempo em que permaneci sentada no cho, no canto do
quarto, eu no escutava nem prestava ateno, mas eu estava vendo e ouvindo, embora naquela poca no acreditasse. Agora, acredito.
     "Obrigada, Cathy, por fazer o papel de minha me e ser a melhor irm do mundo. E muito obrigada, Chris, por ser o substituto de Papai e o melhor irmo do mundo. 
Muito obrigada, tambm, Dr. Paul, por gostar tanto de mim apesar de eu no crescer. Obrigada a todos vocs por no se envergonharem de serem vistos em minha companhia 
e digam a Henny que eu a amo. Penso que Deus tambm no me vai querer at que eu cresa mais, mas nesses momentos lembro-me de Alex, que afirma-
que Deus ama todo mundo, mesmo que no sejam de estatura normal."
   
     Carrie assinou a carta com caligrafia bem grande, a fim de compensar seu tamanho diminutivo.
     - Oh! meu bom Deus! -  exclamou Chris. - Cathy, o que significa isto? 
     S ento pude abrir a bolsa e dela retirar algo que encontrara escondido bem no fundo do armrio de Carrie. Os olhos azuis de Chris se esbugalharam quando ele 
viu o vidro de veneno contra ratos e, depois, o pacote de rosquinhas aucaradas, das quais restavam apenas uma. S uma. Trazia uma marca de dentada. As lgrimas 
comearam a #260
correr pelo rosto de Chris e, de repente, ele comeou a soluar no meu ombro.
    - Oh! Deus!... ela colocou arsnico nas rosquinhas - para morrer da mesma maneira que Cory!
    Libertei-me dos braos de Chris, que estava muito plido, e recuei alguns passos, sentindo-me como se j no houvesse sangue em minhas veias.
    - Chris! Leia novamente a carta! No reparou que ela escreveu que antes no acreditava, mas que agora passara a acreditar? Por que no acreditava antes e agora 
acreditava? Algo aconteceu! Ocorreu alguma coisa que a fez acreditar que nossa me era capaz de envenenar-nos!
    Ele sacudiu a cabea, atnito, as lgrimas ainda brotando dos olhos.
    - Mas se ela sempre soube, como poderia acontecer algo mais para convenc-la? Bastaria ter escutado nossas conversas naquela poca e ter visto o camundongo envenenado!
    - Como posso explicar-lhe? - exclamei, desesperada. - Mas as rosquinhas foram fartamente recobertas com arsnico! Paul mandou analis-las. Carrie comeu-as, sabendo 
que elas a matariam. No entende que se trata de outro assassinato cometido por nossa me?
     - Carrie ainda no morreu! - bradou Chris. - Ns a salvaremos! No permitiremos que morra. Falaremos com ela, diremos que precisa continuar viva!
    Corri para segur-la, temendo que fosse tarde demais e esperando desesperadamente que no fosse. Enquanto estvamos abraados, transformados novamente em pais 
pelo sofrimento comum, Paul saiu do quarto de Carrie. A expresso solene em sua fisionomia abatida revelou-me tudo.
    - Chris -disse ele em tom calmo. - muito bom rev-lo. Pena que as circunstncias sejam to tristes.
    - H esperana, no h? - exclamou Chris.
    - Sempre h esperana. Estamos fazendo o possvel. Voc parece to moreno e vibrante. V ao quarto de sua irm e tente transferir para ela parte de sua vitalidade. 
Catherine e eu j dissemos tudo o que conseguimos
imaginar para tentar fazer Carrie resistir e recuperar a vontade de viver, mas ela
desistiu da vida. Alex est l dentro, ajoelhado ao lado da cama, rezando para que Carrie sobreviva, mas ela mantm o rosto virado para a janela. No acredito que 
compreenda o que est sendo  dito ou feito. Carrie se colocou fora de nosso alcance.
    Paul e eu seguimos devagar os passos de Chris, que correu para junto de Carrie. Esta jazia, magra como um palito, sob uma pesada camada de cobertores - apesar 
de ainda ser vero. Parecia impossvel que minha irm menor envelhecesse to depressa. Todas as formas redondas, firmes e rosadas da
juventude tinham desaparecido, deixando-lhe o rostinho magro e encovado. Os olhos afundados nas rbitas tornavam-lhe as mas do rosto muito salientes. Parecia at 
mesmo ter perdido mais peso. Chris no conteve uma
exclamao ao v-la. Debruou-se para abra-la, chamando-lhe repetidamente o nome, acariciando-lhe os cabelos. Para
#261
horror de meu irmo, centenas de fios de
cabelos louros vieram em seus dedos quando ele os retirou.
    - Meu Deus do cu... que esto fazendo por ela?
    Quando ele procurou soltar os cabelos dos dedos, apressei-me em ajud-lo, colocando os fios louros numa caixinha plstica. A eletricidade esttica do plstico 
mantinha-os na caixinha. Era uma noo idiota, mas eu no suportaria ver os lindos cabelos de Carrie carem e serem jogados fora. Os fios louros brilhavam nos travesseiros, 
na colcha e na renda branca da camisola que ela usava. Como num transe de pesadelos infindveis, juntei os fios dourados para guard-los na caixinha, enquanto Alex 
continuava rezando sem parar.
At mesmo quando foi apresentado a Chris, interrompeu-se apenas o tempo suficiente para fazer um aceno de cabea.
    - Responda-me, Paul! O que est sendo feito por Carrie? 
    - Tudo o que sabemos fazer - respondeu Paul num tom baixo e suave, que as pessoas costumam usar quando a morte est por perto. - Uma equipe de timos mdicos 
trabalha vinte e quatro horas por dia para salv-la, mas os glbulos vermelhos do sangue esto sendo destrudos mais depressa do que
conseguimos substitu-los por meio de transfuses.
    Durante trs dias e trs noites, todos ns permanecemos junto ao leito de Carrie, enquanto minha vizinha cuidava de Jory. Cada um de ns, que a amvamos, rezava 
para que ela vivesse. Telefonei para Henny e pedi-lhe que fosse  igreja, levando a famlia e todos os membros da irmandade para orarem por Carrie. Ela tamborilou 
no telefone seu sinal que significava: "Sim, sim!"
    Todos os dias chegavam flores para encher o quarto. Eu no olhava os bilhetes para ver quem as enviava. Sentava-me ao lado de Chris ou Paul, ou entre ambos, 
segurando-lhes as mos e rezando silenciosamente. Olhava com antipatia para Alex, que eu julgava responsvel por grande parte do que havia de errado com Carrie. 
Afinal, no consegui mais conter-me; levantei-me,
aproximei-me de Alex e encurralei-o num canto. 
    - Alex, por que motivo Carrie desejaria morrer na poca mais feliz de sua vida?
    Ele voltou para mim o rosto aturdido, mal barbeado, desfigurado pelo sofrimento.
    - Que foi que disse? - replicou, os olhos avermelhados pela falta de sono.
    Repeti a pergunta com um tom ainda mais rspido. Alex sacudiu a cabea, como se procurasse clarear as idias. Parecia sonolento e magoado ao passar os dedos 
compridos pelos cabelos castanhos anelados e em desordem.
    - Cathy, Deus  testemunha de que fiz todo o possvel para convencer Carrie de que a amo! Mas ela se recusa a escutar-me. Vira o rosto para o outro lado e permanece 
calada. Pedi-lhe que se casasse comigo e ela respondeu que sim; abraou-me pelo pescoo e repetiu que sim uma poro de vezes. Ento,
disse: "Oh! Alex, no sirvo para voc!" Eu ri, replicando que ela era perfeita, exatamente o que eu desejava. O que fiz de errado, Cathy? O que fiz para volt-la
#262
contra mim a ponto de agora nem se dignar a olhar em minha direo?
    Alex possua o tipo de fisionomia doce e piedosa que s esperamos encontrar em santos de mrmore. No obstante, ao v-lo to humilde, combalido de sofrimento 
e dilacerado pelo amor que se voltava contra ele, estendi a mo para consol-lo, pois ele realmente amava Carrie. A seu prprio modo,
ele a amava.
    - Sinto muito Se lhe pareci spera, Alex. Perdoe-me. Mas Carrie lhe confessou alguma coisa?
    Mais uma vez, seus olhos se anuviaram.
    - Uma semana atrs, telefonei para Carrie e pedi que se encontrasse comigo. Sua voz parecia esquisita, como se algo horrvel tivesse acontecido e ela no pudesse 
falar no assunto. Peguei o carro e fui para l o mais depressa possvel, a fim de estar junto dela. Mas Carrie no me deixou entrar! Eu a amo, Cathy! Ela afirmava 
que tinha o corpo pequeno demais e a cabea enorme, mas para mim, suas propores so perfeitas. Para mim, Carrie era uma bonequinha elegante que ignorava a prpria 
beleza. E se Deus deixar que ela morra, nunca mais na vida recuperarei a f! 
    Ento, escondeu o rosto nas mos e comeou a chorar.
    Era a quarta noite aps a chegada de Chris. Eu cochilava ao lado da cama de Carrie. Os outros tentavam dormir um pouco a fim de no adoecerem tambm e Alex cochilava 
numa maca no corredor, quando escutei Carrie
chamar meu nome. Ajoelhei-me ao lado do leito e peguei-lhe a moo minscula por baixo das cobertas. Agora, no passava de uma mo esqueltica, com a pele to transparente 
que era possvel verem-se as artrias e veias.
    - Querida, eu estava esperando que voc acordasse - declarei num sussurro rouco. - Alex est no corredor. Chris e Paul esto cochilando na sala dos mdicos. 
Devo cham-los?
    - No - murmurou Carrie. - Quero falar apenas com voc. Vou morrer, Cathy.
    Fez a declarao com a maior calma, como se no fizesse diferena; aceitava a morte e estava satisfeita.
    - No! - protestei energicamente. - Voc no vai morrer! No deixarei que morra! Eu a amo como minha prpria filha - Muita gente a ama e precisa de voc, Carrie! 
Alex a ama tanto, quer casar-se com voc e desistiu de
ser pastor, Carrie; conversei com ele, explicando que isto a preocupa. Alex
no se importa realmente com a profisso que seguir, desde que voc continue viva e o ame. No quer saber se voc  franzina ou se pode ter filhos. Vou cham-lo 
para que ele lhe diga pessoalmente...
    - No... - sussurrou ela com voz sumida. - Tenho um segredo para lhe contar.
    Sua voz to sumida parecia vir de muito longe, passando por centenas de colinas arredondadas.
    - Vi uma mulher na rua - disse to baixinho que precisei debruar-me para ouvir. - Parecia tanto com Mame que no pude deixar de correr atrs dela. Segurei-#263
lhe a mo. Ela se libertou num arranco e me encarou com olhar duro e frio, dizendo: "No a conheo". Era nossa me, Cathy! Est quase
como era antes, apenas um pouco mais velha. At mesmo usava o colar de prolas e o broche em forma de borboleta dos quais me recordo to bem. E, Cathy, quando nossa 
prpria me no nos quer, significa que nenhuma outra pessoa pode nos querer, no  mesmo? Ela olhou para mim e me reconheceu;
percebi em sua expresso. Mesmo assim, no me quis porque sabe que no presto. Foi por isso que me disse aquilo: que no tinha filhos. Ela tambm no quer saber 
de voc ou de Chris, Cathy. E todas as mes amam e querem seus filhos, a menos que sejam pecaminosos e no prestem... como ns.
    - Oh! Carrie, no permita que ela lhe faa isto! Foi o apego ao dinheiro que a levou a renegar voc... no o fato de sermos ruins, pecaminosos ou no prestarmos. 
Voc nada fez de errado! O que interessa a ela  o dinheiro, Carrie, no ns. Mas no precisamos dela, pois voc tem Alex e Chris, Paul e a mim... e tambm Jory... 
e Henny... No nos parta o corao! Carrie, resista o
bastante para permitir que os mdicos a auxiliem. No se entregue. Jory quer a tia de volta; todos os dias, pergunta onde voc est. O que vou dizer a ele - que 
voc no o ama o bastante para importar-se em viver?
    - Jory no precisa de mim - replicou ela no mesmo tom que usava quando criana. - Jory tem muita gente, alm de mim, para am-lo e cuidar dele... Mas Cory est 
a minha espera, Cathy. Posso v-lo neste momento.
Olhe ali, atrs de seu ombro: Cory est junto de Papai e ambos me querem mais que qualquer outra pessoa neste mundo.
    - No, Carrie!
    - O lugar para onde vou  timo, Cathy: flores por toda parte, pssaros lindos, e quase me posso sentir crescendo... Veja, estou quase to alta quanto Mame, 
como sempre desejei. E quando eu chegar l, ningum me dir que tenho olhos enormes e assustadores como uma coruja. Ningum tornar a chamar-me de "an" e me aconselhar 
a usar uma mquina de esticar... porque serei to alta quanto desejo.
    A voz fraca e trmula foi diminuindo at sumir. Os olhos se voltaram para o cu e permaneceram abertos, sem piscar. Os lbios ficaram entreabertos, como se tivessem 
mais alguma coisa para dizer-me. Oh! meu Deus, ela morreu!
    Mame comeara tudo aquilo. Mame, que escapara livre como um pssaro! Ilesa e sem cicatrizes! E rica, rica, rica! Tudo o que precisou fazer foi derramar algumas 
lgrimas de autocomiserao ao voltar para casa. Foi ento que eu gritei! Sei que gritei. Chorei e tive mpetos de arrancar os cabelos e a
pele do rosto - pois parecia-me demais com a mulher que precisava pagar, pagar, pagar... e pagar ainda mais!

    Num dia quente de agosto, sepultamos Carrie no cemitrio da famlia Sheffield, poucos quilmetros fora do limite urbano de Clairmont. Desta vez, no choveu nem 
havia neve no solo. Agora, a morte tomara para si todas as estaes menos o inverno, deixando-me apenas aquela poca fria e movimentada #264
livre de lembranas amargas e dolorosas. Cobrimos Carrie com flores vermelhas e roxas de que ela tanto gostava. O sol tinha uma rica colorao de aafro, quase 
alaranjada, antes de assumir um tom vermelho ao baixar no horizonte e tingir o cu de cor-de-rosa.
    Meus pensamentos eram como as folhas secas sopradas pelo forte vento do dio quando permaneci sentada, embora o banco de mrmore fosse duro e incmodo. Depois 
de juntar e torcer aquelas folhas secas, transformei-as numa vara de feiticeira cruel, num instrumento para remexer o esquecido caldeiro de vingana!
    Das quatro bonecas de porcelana de Dresden, restavam apenas duas. E uma nada faria. Jurara solenemente fazer o possvel para preservar a sade e a vida, mesmo 
de quem no merecia viver.
    Detestei ter que deixar Carrie sozinha  noite - a primeira que ela passaria sob a terra. Sentia-me na obrigao de passar aquela noite com ela e reconfort-la 
de algum modo que eu ignorava. Lancei um olhar aos tmulos onde descansavam tambm Julia e Scotty , perto dos pais de Paul e de um
irmo mais velho que morrera antes mesmo do nascimento de Amanda. Imaginei o que ns, Foxworth, fazamos no cemitrio da famlia Sheffield. Que significado haveria 
em tudo aquilo?
     Se Alex no tivesse surgido na vida de Carrie para lhe dar amor, ela estaria melhor? Se Carrie no tivesse avistado Mame na rua e corrido ao seu encontro, 
bastante feliz para tomar-lhe a mo e cham-la de "Mame", teria feito alguma diferena? Deveria ter feito toda a diferena! Tinha que fazer! Aps ser renegada pela 
me, Carrie fora diretamente comprar o veneno para ratos porque no se achava digna de viver quando a prpria me a renegara. E o
veneno em suas rosquinhas no fora apenas uma pequena dose, mas uma grande quantidade de arsnico puro!
    Algum chamou meu nome em voz baixa. Algum pegou-me suavemente os cotovelos para levantar-me. Com o brao passado em minha cintura, amparando-me, conduziu-me 
para fora do cemitrio onde eu teria permanecido a
noite inteira, at o amanhecer.
    - No, querida - disse Chris. - Carrie no precisa de voc agora, mas outras pessoas precisam. Cathy, deve esquecer o passado e os planos de vingana. Vejo a 
expresso em seu rosto e leio-lhe os pensamentos. Compartilharei com voc meu segredo para encontrar a paz. J tentei revel-lo muitas vezes, mas voc se recusa 
a escutar. Desta vez escute e acredite! Faa como eu e obrigue-se a esquecer tudo o que lhe causa sofrimento; lembre-se apenas do
que lhe d satisfao. Eis a todo o segredo para viver feliz, Cathy: esquecer e perdoar.
    Fitei-o com amargura e desnimo, replicando desdenhosamente: 
    - Voc  realmente perito em questo de perdoar, Christopher. Quanto a esquecer, o caso  bem diferente!
    Meu irmo ficou to vermelho quanto o sol poente.
    - Por favor, Cathy! Perdoar no  a parte melhor? S me recordo das coisas mais agradveis.
#265
    - No! No!
    Mas agarrei-me a ele como algum que se aproxima do inferno agarra-se  salvao.
    Embora no tenha certeza, julguei ver uma mulher vestida de negro, com a cabea e o rosto ocultos por um vu preto, esconder-se atrs de uma rvore quando nos 
aproximamos da rua onde o carro se encontrava estacionado. Escondeu-se para que no consegussemos v-la. Mas vi-a de relance - o suficiente para perceber as lustrosas 
prolas de seu colar. Prolas que uma mo fina e branca ergueu nervosamente, por fora de um velho hbito, para torcer e
destorcer.
    Eu conhecia apenas uma mulher que costumava fazer aquilo - e era a mulher perfeita para usar roupas negras e correr a esconder-se! Sempre esconder-se!
     Que todos os seus dias fossem negros! Cada um deles!
     Eu providenciaria para que todos os dias que lhe restavam na terra
fossem negros. Mais negros que o piche derramado em meus cabelos. Mais negros que qualquer coisa naquele quarto trancado ou nas mais escuras sombras do sto onde 
framos prisioneiros quando jovens, temerosos e to necessitados de amor. Mais negros que a fenda mais profunda do inferno!
Eu j esperara bastante para fazer o que devia. Mais que o suficiente. E mesmo que Chris estivesse presente para tentar deter-me - nem ele conseguiria evitar o que 
eu tinha que fazer!

#267
QUINTA PARTE

#269
A Hora da Vingana

    A extempornea morte de Carrie deixou uma lacuna nas vidas de todos ns que a amvamos. Agora, as bonequinhas de porcelana eram minhas para guardar como recordao. 
Chris partiu para um perodo de residncia mdica no hospital da Universidade da Virgnia, a fim de no ficar muito afastado de mim.
   - Fique, Catherine - pediu-me Paul quando lhe revelei minha disposio de voltar  minha casa nas montanhas da Virgnia e reassumir minha atividade como professora 
de bal. - No me abandone outra vez! Jory precisa de um pai; eu preciso de uma esposa; ele precisa de um homem que o oriente. J
estou cansado de poder am-la apenas a longos intervalos.
    - Mais tarde - repliquei com inabalvel determinao, afastando-me de seus braos. - Um dia, voltarei para voc e nos casaremos. Antes, porm, tenho alguns negcios 
a liquidar.
    Logo retomei minha rotina de trabalho, no muito longe da residncia dos Foxworth. Dediquei-me a elaborar planos. Jory passara a constituir-se num problema, 
agora que eu no tinha Carrie. Cansava-se da escola de
bal e queria brincar com crianas de sua idade. Matriculei-o numa escola pr-primria especial e contratei uma empregada para ajudar nos trabalhos domsticos e 
ficar com Jory quando eu saa.  noite, eu saa  caa, procurando - naturalmente - um determinado homem. At ento, no conseguira localiz-lo. Mais cedo ou mais 
tarde, porm, o destino faria com que nossos caminhos se
cruzassem - ento, Deus tivesse piedade de Mame!
    O jornal local dedicou grande espao  notcia de que Bart Winslow abrira um segundo escritrio de advocacia em Hillendale, enquanto seu scio minoritrio cuidaria 
do primeiro, em Greenglenna. Dois escritrios, pensei com meus botes; o que o dinheiro no conseguia comprar? Meu plano no inclua ser atrevida a ponto de procur-lo 
diretamente; nosso encontro teria que
ser "acidental". Deixando Jory aos cuidados de Emma Lindstrom, brincando com dois amiguinhos de sua idade em nosso jardim cercado, peguei meu carro e fui aos bosques 
no muito afastados de Foxworth Hall.
#270
     Bart Winslow era uma espcie de celebridade, com todos os seus movimentos divulgados pela imprensa, de modo que eu soubera atravs dos jornais que ele costumava 
correr diariamente alguns quilmetros antes do caf da manh. Na verdade, precisaria de um corao forte para enfrentar o que o futuro prximo lhe reservava. Passei 
a correr diariamente, usando as sinuosas trilhas que atravessavam os bosques, o solo forrado de folhas mortas e secas, que estalavam sob meus ps. Era setembro e 
fazia um ms que Carrie morrera.
Pensamentos tristes enchiam-me a cabea quando eu sentia o aroma pungente das fogueiras e escutava o barulho dos machados rachando lenha - sons e odores que Carrie 
deveria estar aproveitando... Eles pagaro caro, Carrie! Farei que paguem muito caro! No sei como, esquecia-me de que Bart Winslow no tinha culpa nenhuma no caso. 
Ele no - s ela! O tempo passava depressa
e eu no progredia em meu intento! Onde estaria Bart Winslow? Eu no podia freqentar os bares onde homens entravam sozinhos - seria por demais vulgar e bvio. Quando 
nos encontrssemos, como era foroso acontecer algum dia, ele diria algum clich, ou eu o faria. Aquilo seria o final ou o
incio do plano que eu arquitetara e tinha em mente desde a primeira vez em que vira Bartholomew Winslow danar com minha me na noite de Natal.
    Ao contrrio do que esperava, no o encontrei correndo nos bosques. Num sbado ao meio-dia, encontrava-me num caf elegante quando Bart Winslow entrou  despreocupadamente! 
Olhou em volta, avistou-me sentada perto das janelas e se encaminhou para mim com seu terno e colete de advogado,
que deveria ter custado uma fortuna. Trazendo na mo uma pasta de documentos, chegou mesmo a adotar um andar meio rebolado de gal de cinema! Exibia um largo sorriso 
e seu rosto magro, tisnado de sol, parecia
ligeiramente sinistro ou talvez fosse apenas impresso minha.
    - Bem - disse com arrastado sotaque sulino -, se no  Catherine Dahl, a mulher que h muitos meses venho querendo  encontrar!
    Deixou a pasta numa cadeira, sentou-se  minha frente sem ser convidado e apoiou-se nos cotovelos para estudar-me o rosto com intenso interesse.
    - Onde, diabo, se escondeu? - indagou, usando o p para puxar a outra cadeira para mais perto de si, a fim de vigiar a pasta.
    - No me escondi - repliquei, sentindo-me nervosa e esperando no demonstrar.
    Ele riu enquanto os olhos castanhos observavam-me a blusa e saia justas,
e meu p que se balanava com indisfarvel nervosismo. Ento, sua fisionomia assumiu uma expresso solene.
    - Li nos jornais a notcia da morte de sua irm. Sinto muito.  sempre triste lermos a notcia da morte de algum to jovem. Se no a ofendo, permite-me indagar 
de que ela morreu? Foi doena ou acidente?
    Esbugalhei os olhos. O que matara Carrie? Oh! eu poderia escrever um livro a respeito!
    - Por que no pergunta  sua esposa o que matou minha irm? - redargi rigidamente.
#271
    Bart pareceu espantado. Em seguida, perguntou bruscamente: 
     - Como pode minha esposa saber isso, se no conhece voc ou sua irm? No obstante, vi-a com o recorte do obiturio nas mos e estava chorando quando lhe tomei 
o papel. Exigi uma explicao; mas ela correu para
trancar-se no quarto. E continua a recusar-se a responder minhas perguntas sobre
o assunto. Diga-me, afinal, quem diabo  voc?
    Mordi meu sanduche de presunto, alface e tomate e mastiguei de modo vagaroso e irritante, s para observar-lhe o vexame.
    - Por que no pergunta isso a ela? - retruquei afinal. 
    - Detesto pessoas que respondem perguntas com outras perguntas - declarou ele rispidamente. Em seguida, fez sinal para uma garonete ruiva que se encontrava 
nas proximidades e pediu-lhe que trouxesse um sanduche igual ao meu. - Agora - prosseguiu, puxando a cadeira para mais perto da mesa, - faz algum tempo que entrei 
na escola de bal e lhe mostrei uma daquelas
cartas de extorso que tem enviado  minha esposa.
    Enfiou a mo no bolso e retirou trs cartas que eu escrevera anos atrs. Pelo aspecto manuseado do papel, bem como o grande nmero de selos e carimbos nos envelopes, 
as cartas tinham acompanhado minha me ao redor do mundo e agora me voltavam s mos, com Bartholomew Winslow quase gritando:
    - Quem, diabo,  voc?
    Sorri para encant-lo. O sorriso de Mame. Tombei a cabea ligeiramente para o lado, como ela costumava fazer, e ergui a mo para brincar com um imaginrio colar 
de prolas.
    - Precisa mesmo perguntar? No  capaz de adivinhar?
    - No banque a sabidinha comigo! Quem  voc, realmente? Que relao tem com minha esposa? Sei que se parece com ela: o mesmo cabelo, os mesmos olhos e at mesmo 
alguns cacoetes iguais. Deve ter algum parentesco...?
    - Sim. Pode-se dizer.
    - Ento, por que no a conheci antes?  prima? Sobrinha, talvez? 
    Bart Winslow possua um forte magnetismo animal que me amedrontava de fazer o tipo de jogo que eu tinha em mente. No se tratava de um adolescente facilmente 
impressionvel por uma ex-bailarina. Seu tipo moreno exercia uma forte atrao que quase me dominava. Oh! deveria ser um amante sensacional! Eu seria capaz de afogar-me 
em seus olhos ao fazer amor com ele, ficando perdida para qualquer outro homem. Era por demais confiante, masculino, seguro de si. Tinha a capacidade de sorrir e 
manter-se calmo enquanto eu me sentia nervosa e tinha vontade de fugir antes que ele me arrastasse pela senda que, at aquele momento, eu julgara pretender seguir.
    - Ora, vamos - disse ele, estendendo a mo para segurar-me com fora, impedindo-me de partir quando me levantei para sair. - Deixe de parecer amedrontada e faa 
o jogo que tem em mente h algum tempo.
    Pegou as cartas e exibiu-as ante meus olhos. Desviei o rosto, insatisfeita comigo mesma.
#272
    - No desvie o olhar. Recebemos cinco ou seis cartas suas enquanto estvamos na Europa; minha esposa as lia e ficava muito plida. Engolia em seco, nervosa - 
como voc est fazendo agora. Levantava a mo para brincar com as prolas - exatamente como voc est brincando agora. Por duas vezes,
vi-a escrever no envelope: "Destinatrio desconhecido". Ento, certo dia abri
a correspondncia e encontrei estas trs cartas que voc escreveu para ela.
Abri-as. Li-as.
    Fez uma pausa, debruando-se sobre a mesa de modo que seus lbios ficaram a poucos centmetros dos meus. Sua voz soou dura, fria, completamente controlada, sem 
demonstrar qualquer fria que ele pudesse estar sentindo:
    - Que direito tem voc de tentar fazer chantagem com minha esposa?
    Tenho certeza de que o sangue me fugiu do rosto. Sei que me senti doente, fraca, ansiosa para fugir do local e esconder-me de Bart. Imaginei a voz de Chris dizendo: 
"Deixe o passado descansar em paz. Esquea-o, Cathy. Deus,  sua maneira, providenciar a vingana que voc tanto deseja. A seu
prprio modo e no devido tempo, Deus lhe tirar dos ombros essa responsabilidade".
    Ali estava minha oportunidade de revelar tudo! De deixar que Bart soubesse o tipo de mulher com quem se casara! Por que meus lbios no abriam para que minha 
lngua dissesse a verdade?
    - Por que no pergunta  sua esposa quem sou eu? Por que vem a mim, quando ela tem todas as respostas?
    Bart recostou-se no berrante encosto da cadeira, forrado de plstico alaranjado brilhante, e tirou do bolso uma cigarreira de prata com o monograma em brilhantes. 
Tinha que ser presente de minha me - era o tipo que ela adorava. Ofereceu-me um cigarro. Recusei. Ele bateu a ponta de um cigarro para compactar o fumo solto e 
acendeu-o com um isqueiro de prata com
monograma tambm de brilhantes. Durante todo o tempo, seus olhos escuros, semicerrados, observavam os meus e, como uma mosca presa numa teia de aranha, esperei ser 
devorada.
    - Cada carta que voc escreveu declara que precisa desesperadamente de um milho de dlares - declarou Bart num tom montono, inexpressivo.
    Depois, soprou-me a fumaa no rosto. Tossi, abanando o ar. Em todas as paredes havia avisos " PROIBIDO FUMAR".
    - Por que precisa de um milho?
    Observei a fumaa que fazia um crculo e vinha diretamente sobre mim, envolvendo-me num halo a cabea e o pescoo.
    - Oua - respondi, lutando para recuperar o controle. - Sabe que meu marido morreu. Eu esperava um filho e estava afogada de dvidas que no poderia pagar; mesmo 
depois que recebi o dinheiro do seguro, graas  sua interveno, continuei a afundar-me. Minha escola de bal d prejuzo. Tenho um filho para criar, preciso de 
coisas para ele, de economias para custear-lhe os estudos e sua esposa possui tantos milhes... Pensei que pudesse
dispensar apenas um deles.
#273
    Bart exibiu um leve sorriso cnico. Soprou anis de fumaa para me obrigar a tossir e esquivar-me outra vez.
    - Por que motivo uma mulher inteligente como voc presumiria que minha esposa seria bastante generosa para dar um msero centavo a uma parenta que ela alega 
nem conhecer?
    - Pergunte a ela por qu!
    - J perguntei. Peguei estas cartas e enfiei-as sob o nariz, exigindo que ela me explicasse tudo. J indaguei uma dzia de vezes quem  voc e que ligao tem 
com ela. E todas as vezes ela respondeu que voc no passa de uma bailarina que ela viu no palco. Desta vez, quero as respostas certas - de
voc!
    A fim de certificar-se de que eu no viraria o rosto para esconder o olhar, ele estendeu a mo, segurando-me o queixo com firmeza para imobilizar-me a cabea.
    - Quem, diabo,  voc? Que ligao tem com minha esposa? Por que julga que ela lhe pagaria chantagem? Por que suas cartas fazem-na subir correndo para o quarto 
e abrir um lbum de fotografias que mantm trancado na gaveta da escrivaninha ou num cofre? Um lbum que ela se apressa a
esconder e trancar sempre que entro no quarto?
    - Ela ficou com o lbum? O lbum azul, com uma guia dourada na capa de couro? - murmurei, chocada por saber que ela o guardara.
    - Aonde quer que vamos, o lbum a acompanha numa das malas trancadas - replicou ele, apertando ameaadoramente os olhos. - Voc descreveu com exatido aquele 
lbum azul e dourado, embora j esteja gasto pelo manuseio. Enquanto minha mulher v as fotos do lbum, minha sogra l a Bblia a ponto de gast-la. s vezes, surpreendo 
minha esposa chorando ao ver as fotografias contidas naquele lbum azul, que, presumo, tenha fotos do seu primeiro marido.
    Suspirei pesadamente e fechei os olhos. No queria saber que ela chorava!
    - Responda-me, Cathy: quem  voc?
    Tive certeza de que ele me seguraria ali, pelo queixo, o resto da vida se eu no dissesse alguma coisa; por algum motivo estpido, menti:
    - Henrieta Beech era meia irm de seu marido. Entenda: Malcolm Foxworth teve um caso extraconjugal do qual resultaram trs filhos. Sou um deles. Sua esposa  
minha meia-tia.
    - Ahhh! - suspirou ele, largando-me o queixo e recostando-se na cadeira, como se convencido de que eu dissera a verdade. - Malcolm teve um caso com Henrietta 
Beech, que lhe deu trs filhos ilegtimos. Que informao extraordinria! - comentou com um risinho de mofa. - Nunca pensei que o
velho demnio fosse desse tipo,  especialmente aps o ataque cardaco que sofreu logo depois que minha mulher se casou pela primeira vez.  uma verdadeira
inspirao tomar conhecimento do fato.
    De repente, ficou muito srio, fitando-me de modo prolongado e penetrante.
#274
    - Onde se encontra sua me, agora? Eu gostaria de v-la e conversar com ela.
    - Morreu - respondi, ocultando as mos sob a mesa e mantendo os dedos cruzados como uma criana tola e supersticiosa. - Faz muito tempo.
    - Est certo. J percebi tudo. Trs jovens, filhos ilegtimos da famlia
Foxworth, tentando conseguir dinheiro  custa do parentesco atravs da chantagem contra minha esposa. Certo? 
    - Errado! Apenas eu. Nem meu irmo, nem minha irm. Eu s queria receber o que temos direito! Na ocasio em que escrevi aquelas cartas, encontrava-me numa situao 
desesperadora e hoje em dia no estou muito melhor. Os cem mil dlares do seguro no duraram muito. Meu marido tinha dvidas
enormes e estvamos atrasados no pagamento do aluguel e das prestaes do carro; alm disso, eu devia as contas dele no hospital, as despesas com seu funeral e os 
custos do parto. Poderia passar a noite inteira relatando os problemas de minha escola de bal e como fui iludida, induzida a acreditar que se tratava de um negcio 
rentvel.
    - E no ?
    - No quando o grosso dos alunos consiste de meninas mimadas que viajam de frias duas ou trs vezes por ano e, de qualquer maneira, no levam a srio o bal. 
S querem parecer bonitas e se sentirem graciosas. Se eu tivesse ao menos uma boa aluna talentosa, todo o esforo valeria a pena. Mas no tenho - nem mesmo uma.
    Ele tamborilou com dedos fortes na toalha, parecendo absorto em reflexes. Em seguida, acendeu outro cigarro, no como se gostasse realmente de fumar, mas a 
fim de ter algo com que ocupar os dedos inquietos. Inalou profundamente a fumaa e depois fitou-me nos olhos.
    - Vou lhe falar com muita franqueza, Catherine Dahl. Em primeiro lugar, no sei se mente ou diz a verdade, mas parece pertencer ao cl dos Foxworth. Em segundo 
lugar, no me agrada que faa chantagem com minha esposa. Em terceiro, no gosto de ver minha mulher infeliz a ponto de chorar.
Quarto: acontece que estou muito apaixonado por ela, embora confesse que em certas ocasies tenho mpetos de estrangul-la e for-la a desabafar todo o passado. 
Ela jamais fala no assunto;  cheia de segredos que meus ouvidos jamais escutaro. E um grande segredo do qual nunca tomei conhecimento anteriormente  que Malcolm 
Neal Foxworth, o cavalheiro bondoso, piedoso
e santo, teve um caso amoroso aps sofrer um ataque cardaco. Por acaso, sei que ele teve um caso de amor antes do infarto, mas apenas um.
   Oh! Ele sabia mais que eu! Eu dera um tiro no escuro sem imaginar que acertaria na mosca!
    Bart Winslow correu os olhos pelo caf. Famlias chegavam para jantar cedo e suponho que Bart temia que algum o reconhecesse e contasse  sua esposa - minha 
me.
    - Venha, Cathy. Vamos cair fora daqui - disse num tom urgente, levantando-se e estendendo a mo para ajudar-me. - Voc pode convidar-me a tomar um drinque em 
sua casa, #275
aonde nos sentaremos e conversaremos melhor.
Ento, poder fornecer-me maiores detalhes.
    O crepsculo desceu sobre as montanhas como uma cortina fechada s pressas. Anoitecera de repente e fazia horas que estvamos no caf. Estvamos na calada quando 
Bart segurou meu suter cardigan para que eu enfiasse os braos nas mangas, embora o ar estivesse to frio que senti necessidade de um casaco ou capote.
    - Onde fica sua casa?
    Expliquei e ele pareceu desconcertado.
    - Acho melhor no irmos l... muita gente poderia ver-me entrar.
     ( claro que na ocasio ele ainda no sabia que eu escolhera o chal principalmente porque ficava recuado numa rea cheia de rvores, proporcionando bastante 
privacidade para que um homem entrasse e sasse sem ser avistado).
    - Minha fisionomia aparece com tanta freqncia nos jornais que sou capaz de apostar que seus vizinhos me reconheceriam - prosseguiu ele. - No pode telefonar 
para a bab do menino e pedir que permanea com ele
mais um pouco?
    Foi o que fiz, falando primeiro com Emma Lindstrom e depois com Jory, recomendando-lhe que se portasse como um bom menino at Mame voltar para casa.
    O carro de Bart era preto e luxuoso: um Mercedes. Fazia pouco barulho, como os carros de luxo de Julian, to pesado e bem acabado que no produzia rudos que 
os outros automveis costumam fazer, mantendo-se firme nas curvas da sinuosa estrada das montanhas.
   - Aonde pretende levar-me, Sr. Winslow?
   - A um local onde poderemos conversar sem sermos vistos ou ouvidos - replicou ele com um sorriso e lanando-me um rpido olhar. - Esteve estudando meu perfil. 
Que nota mereo?
    Uma onda quente de sangue me subiu ao rosto. Saber que estava ruborizada fez-me ficar ainda mais vermelha, at sentir o rosto mido. Minha vida fora cheia de 
homens bonitos, mas este era muito diferente de todos os outros que eu conhecera: folgazo, sensual, tipo bandido, que me provocava sinais de alarme - v devagar 
com este! Era a advertncia que me fazia o instinto,
enquanto eu lhe estudava a fisionomia, reparando em cada detalhe. Suas roupas
caras, magnificamente bem cortadas... Tudo nele proclamava ostensivamente que era to decidido quanto eu a conseguir o que queria, quando queria.
    - Bem - repliquei, imitando seu arrastado sotaque sulino. - Sua aparncia me aconselha a fugir depressa para casa e trancar a porta do quarto!
    Ele tornou a sorrir maliciosamente, parecendo satisfeito.
    - Portanto, julga-me excitante e um tanto perigoso. timo. Ser bonito e maante seria pior que feio e encantador, no acha?
    - No sei. Quando um homem  bastante encantador e inteligente, costumo ignorar-lhe a aparncia e ach-lo bonito, a despeito de tudo.
    - Ento deve satisfazer-se com facilidade.
#276
    Desviei o olhar e empertiguei-me com ar pudico.
    - Na verdade, Sr. Winslow...
    - Bart - corrigiu ele.
    - Na verdade, Bart, sou muito difcil de contentar. Sinto-me inclinada a colocar os homens num pedestal e pensar que so perfeitos. to logo percebo neles o 
mnimo defeito, deixo de gostar deles e me torno indiferente.
    - Poucas mulheres se conhecem to bem - comentou ele. - A grande maioria anda por a sem saber o que h por detrs de sua fachada. Pelo menos sei a quantas ando: 
sou um smbolo sexual, sem pedestal de santo.
    Nooo! Eu jamais o colocaria num pedestal. Conhecia-o pelo que realmente era: um conquistador, sempre atrs de um rabo-de-saia, cheio de vento e fogo, o bastante 
para levar  loucura uma esposa ciumenta! Certamente, minha me no comprara aquele manual de prticas sexuais para ensinar-lhe
como, quando e onde! Bart devia saber tudo a respeito.
    Parou bruscamente o carro e voltou-se para encarar-me. O branco de seus olhos brilhava mesmo na escurido. Era viril e vibrante demais para um homem que j deveria 
dar sinais de envelhecimento. Bart tinha oito anos menos que minha me, o que significava que estava com quarenta, a idade em que o homem  mais atraente, torna-se 
mais vulnervel e comea a pensar que
sua juventude se aproxima do fim. Agora, teria que fazer suas novas conquistas antes que o doce e esquivo pssaro da juventude voasse para longe, levando consigo 
todas as jovens bonitas que ele gostaria de possuir. E devia estar cansado de uma esposa a quem j conhecia to bem, embora alegasse am-la.
Por que, ento, seus olhos brilhavam tanto, desafiando-me? Oh! Mame, onde quer que esteja, deveria ajoelhar-se e rezar! Pois no pretendo dar-lhe nenhuma piedade 
- no mais do que voc nos deu!
     No obstante, enquanto eu permanecia sentada no carro, avaliando Bart Winslow, compreendi que no era um homem tranqilo e disposto a sacrificar-se, como Paul. 
No seria necessrio seduzi-lo. Ele mesmo o faria, em ritmo de staccato. Caaria como uma pantera negra at conseguir apanhar a presa desejada; ento, sumiria, abandonando-me, 
e tudo estaria terminado. Bart jamais abriria mo da oportunidade de herdar milhes de dlares e os prazeres que tais milhes lhe proporcionariam, trocando-os por 
uma amante que lhe surgira fortuitamente no caminho. Sinais vermelhos piscavam-me na mente... Proceda com calma... faa tudo certo, pois correr perigo se cometer 
algum
engano!
    E, enquanto eu o aquilatava, ele me avaliava da mesma maneira. Eu lhe
lembraria tanto a esposa, a ponto de no haver uma diferena real? Ou minha semelhana com ela constitua uma vantagem? Afinal os homens no se apaixonam sempre 
pelo mesmo tipo de mulher?
    - Noite linda - comentou ele. -  a minha estao predileta. O outono  to cheio de paixo - mais ainda que a primavera. Venha andar um pouco comigo, Cathy. 
Este local me proporciona uma estranha sensao de melancolia, como se eu precisasse correr para alcanar a melhor coisa de minha vida, que at hoje tem-se esquivado 
de mim.
#277
    - Parece potico - repliquei.
    Saltei do carro e Bart me tomou a mo. Comeamos a caminhar, com ele me guiando habilmente ao longo - acreditem se quiserem - de uma linha frrea que atravessava 
os campos! Parecia-me familiar. Contudo, no poderia ser, no  mesmo? No era a mesma linha frrea que nos trouxera, quando
crianas, h quinze anos, para Foxworth Hall! Na poca em que eu tinha apenas doze anos!
    - Bart, no sei se o mesmo ocorre com voc, mas tenho a sensao esquisita de que j trilhei este caminho antes, em sua companhia, numa outra noite.
    - Dj vu - replicou ele. - Sinto a mesma coisa, como se outrora estivssemos muito apaixonados um pelo outro e  atravessssemos aquele bosque. Sentamo-nos naquele 
banco verde ao lado desta linha de trem. Senti-me impelido a traz-la aqui, embora nem soubesse em que direo guiava o
automvel.
    Aquelas palavras obrigaram-me a erguer o rosto para fit-lo e verificar se falava srio. Por sua expresso espantada e levemente embaraada, creio que ele estava 
surpreso.
    - Gosto de ponderar tudo o que  considerado impossvel ou implausvel - declarei. - Quero que tudo impossvel se torne possvel e tudo implausvel se transforme 
em realidade. Ento, quando tudo fica explicvel, desejo confrontar-me com novos mistrios, de modo a ter sempre algo inexplicvel em que pensar.
    - Voc  uma romntica.
    - Voc no ?
    - No sei. Costumava ser, quando rapaz.
    - Por que mudou?
    -  impossvel continuar sendo um rapaz com idias romnticas quando se freqenta uma faculdade de direito e se depara com as duras realidades do assassinato, 
roubo, estupro e corrupo. E professores que martelam na mente dos alunos idias dogmticas que expulsam o romantismo. Ingressamos na faculdade jovens e idealistas; 
dela samos cticos e empedernidos, sabendo que  preciso lutar para galgar cada degrau do caminho futuro - e lutar muito, se quisermos prestar para alguma coisa. 
Logo aprendemos que no somos
os melhores e que a concorrncia  assustadora.
    Virou-se para sorrir com um encanto jovial.
    - Entretanto, Catherine Dahl, tenho a impresso de que voc e eu possumos muita coisa em comum. Eu tambm j senti essa necessidade de mistrios, de enfrentar 
coisas confusas, de ter algum a quem idolatrar.  verdade que me apaixonei por uma herdeira de milhes de dlares, mas os milhes que ela desejava herdar interpunham-se 
em meu caminho. Afastavam-me dela e me
amedrontavam. Eu sabia que todos julgavam que me casaria com ela s pelo dinheiro. Creio que ela tambm pensava assim, at que consegui convenc-la do contrrio. 
Apaixonei-me realmente antes de saber quem ela era. Na realidade, julguei que fosse como voc.
#278
    - Como pde pensar assim? - indaguei, sentindo-me tensa ao escutar aquelas revelaes.
    - Porque ela era como voc, Cathy - por algum tempo, pelo menos. Ento, herdou todos aqueles milhes e, em verdadeiras orgias de compras, adquiria tudo que lhe 
vinha  mente. Em breve, nada mais tnhamos para desejar - exceto um filho. E ela no podia ter filhos. Voc nem pode imaginar quanto tempo passamos olhando as vitrines 
de lojas de roupas, brinquedos e mveis infantis. Quando me casei com ela, sabia que no poderamos ter filhos e julguei que no me importaria. Em breve, comecei 
a importar-me demais. Aquelas lojas de artigos infantis me fascinavam tambm.
    A estreita trilha que seguimos levava diretamente ao banco verde entre dois dos quatro velhos postes que sustentavam o enferrujado telhado de zinco da parada 
de trem. Sentamo-nos ali, respirando o ar frio das montanhas, a lua brilhando e as estrelas cintilando no cu. Os insetos zumbiam como o sangue que me corria nas 
veias.
    - Isto aqui servia de parada de trem para deixar e pegar a mala postal, Cathy - explicou Bart, acendendo outro cigarro. - Os trens j no passam por esta linha. 
Finalmente, os ricaos que moram nas redondezas ganharam uma ao judicial contra a ferrovia e acabaram com os trens que, com tanta falta de considerao, apitavam 
durante a noite, perturbando-lhes o sono. Eu
gostava muito de escutar os trens apitando  noite. Na poca, porm, tinha apenas vinte e sete anos; era recm-casado e morava em Foxworth Hall. Deitava-me ao lado 
de minha mulher numa cama Com um cisne acima de minha cabea... consegue acreditar numa coisa dessas? Ela dormia com a cabea no meu
ombro ou passvamos a noite inteira de mos dadas. Tomava plulas para dormir, de modo que ressonava profundamente. Tanto que jamais escutou a linda msica que vinha 
de cima. Aquela msica me intrigava e, quando a mencionei, minha mulher replicou que era produto de minha imaginao. Ento, um dia
a msica cessou definitivamente e cheguei  concluso de que ela estava certa e era apenas imaginao minha. Quando a msica parou de tocar, senti falta. Ansiava 
por tornar a escut-la. Era uma msica que emprestava algum encanto  velha e inspida manso. Eu costumava adormecer e sonhar com uma bela jovem que danava l 
em cima. Julguei que sonhasse com minha mulher quando ela era jovem. Ela me contou que,  freqentemente,  guisa de castigo, seus
pais a mandavam para a sala de aulas existente no sto e a obrigavam a permanecer l o dia inteiro, at mesmo no vero, quando a temperatura devia passar de quarenta 
graus. E tambm a mandavam para l no inverno - ela disse que fazia um frio de gelar e seus dedos chegavam a ficar azulados. Ento, passava o tempo todo agachada 
no cho, perto da janela, chorando porque perdia algo divertido que seus pais consideravam pecaminoso.
    - Alguma vez voc subiu para ver o sto?
    - No. Tive vontade, mas as portas duplas no topo da escada estavam sempre trancadas. Alm disso, todos os stos so iguais; basta ver um para conhecer todos 
- respondeu Bart, lanando-me um rpido sorriso malicioso. - E agora, que lhe revelei tanto a meu respeito, fale-me um pouco de voc.
#279
Onde nasceu? Que escolas freqentou? O que a levou a escolher o bal? E por que razo jamais compareceu a um daqueles bailes que os Foxworth costumam promover na 
noite de Natal?
    Suei, embora sentisse frio.
    - Por que eu lhe contaria tudo a meu respeito? S porque ficou a sentado, revelando-me um pouco de sua vida? No me contou nada de importante. Onde voc nasceu? 
Por que resolveu estudar direito? Como conheceu sua esposa? No vero ou no inverno, de que ano? Sabia que ela j fora casada, ou ela s lhe contou depois de casar-se 
com voc? 
    - Voc  bem abelhuda, hem? Que diferena faz onde nasci? No tive uma vida excitante como a sua. Nasci numa insignificante cidadezinha do interior,
chamada Greenglenna, na Carolina do Sul. A Guerra Civil ps um ponto final nos dias de prosperidade de meus ancestrais e a famlia escorregou por uma rampa descendente, 
como todos os nossos amigos. Mas trata-se de uma velha estria, repetida milhares de vezes. Ento, casei-me com uma dama da famlia
Foxworth e a prosperidade voltou a reinar no Sul. Minha esposa pegou a casa de meus antepassados e praticamente reconstruiu-a e redecorou-a, gastando muito mais 
do que se comprasse uma casa nova. E o que fiz durante todo esse tempo? Um dos primeiros alunos de sua turma na Universidade Harvard, percorrendo o mundo com a esposa. 
Aproveitei muito pouco minha formao profissional: tornei-me uma borboleta da alta sociedade. Defendi alguns casos no tribunal e ajudei voc a cobrar o seguro de 
vida de seu marido. A propsito, voc nunca me pagou os honorrios que eu tinha em mente.
    - Enviei-lhe pelo correio um cheque de duzentos dlares!-  protestei acaloradamente. - Se no for suficiente, faa-me o favor de no dizer agora; no tenho mais 
duzentos para dar-lhe.
    - Por acaso falei em dinheiro? Dinheiro pouco significa para mim, agora que tenho tanto  minha disposio. Em seu caso particular, eu tinha em mente outro tipo 
de honorrios.
    - Ora, pare com isso, Bart Winslow! Trouxe-me para o meio do mato. Pretende, agora, fazer amor comigo no capim? Ser a grande ambio de sua vida fazer amor 
com uma ex-bailarina? No distribuo sexo a esmo e no costumo pagar minhas dvidas dessa maneira. E o que tem voc de to atraente:
um cozinho de estimao de uma mulher mimada, bajulada e milionria que pode comprar tudo o que deseja - inclusive um marido muito mais moo que ela? Ora,  mesmo 
espantoso que ela no lhe tenha passado uma argola pelo nariz, para lev-lo aonde quiser e obrig-lo a sentar-se para implorar tudo o
que quer!
     Ento, Bart agarrou-me com fora e brutalidade, espremendo os lbios contra os meus com uma violncia que me doeu! Tentei resistir-lhe com os punhos, esmurrando-lhe 
os braos e tentando virar o rosto para o lado, mas, para onde quer que voltasse a cabea - para a direita ou esquerda, para cima ou para baixo - ele prosseguiu 
o beijo, exigindo que meus lbios se entreabrissem para cederem  presso de sua lngua! Compreendendo que no poderia escapar aos braos de ao que me envolviam, 
moldando meu corpo ao seu, contra a minha vontade,
#280
abracei-lhe o pescoo. Meus dedos descontrolados traram-me, enfiando-se em seus bastos cabelos escuros. O beijo durou, durou, durou muito, at ficarmos ambos acalorados 
e ofegantes - e, ento, Bart
afastou-me de si com tanta violncia que quase ca do banco.
    - Bem, pequena Srta. Pedante... que tipo de cozinho de estimao me julga agora? Ou Chapeuzinho Vermelho acaba de encontrar o Lobo Mau? 
    - Leve-me para casa.
    - Vou lev-la para casa - mas s depois de aproveitar mais um pouco o que voc acaba de me dar.
    Avanou para abraar-me outra vez, mas levantei-me e corri em direo ao carro, a fim de alcanar minha bolsa para que, quando ele l chegasse, eu estivesse 
armada com minha tesourinha de unhas, pronta para crav-la nele.
    Bart chegou, sorriu, estendeu a mo e tirou-me a tesoura. 
    - Isso pode causar um feio arranho - zombou. - E no gosto de arranhes, exceto quando feitos por unhas femininas nas minhas costas. Quando voc saltar do carro 
 porta de casa, devolver-lhe-ei a tesourinha.
    Diante do meu chal, ele me devolveu a tesoura. 
    - Agora, faa o pior que puder: fure-me os olhos, apunhale-me no corao... Ser melhor assim. Aquele beijo j comeou, mas ainda exigirei o pagamento total 
de meus honorrios.

Segurar um Tigre pelo Rabo

    Alguns dias depois, num domingo de manh cedo, eu fazia exerccios de aquecimento na barra em meu quarto. Meu filhinho tentava
entusiasticamente imitar tudo o que eu fazia. Era to gostoso observ-lo pelo espelho que eu mudara da penteadeira para a barra!
    - Estou danando? - indagou Jory.
    - Sim, Jory. Voc est danando!
    - Sou bom bailarino?
    - Sim, Jory. Voc  maravilhoso!
    Jory riu, abraou-me as pernas e fitou-me com aquela expresso de entusiasmo e xtase de que s as crianas pequenas so capazes - seus olhos exprimiam todo 
o encanto de estar vivo e aprender algo novo todos os dias.
    - Eu amo voc, mame!-  disse, como costumvamos dizer um ao outro mais de uma dzia de vezes por dia. - Mary tem um papai. Por que no tenho um papai?
    Aquilo me doeu.
    - Voc tinha um papai, Jory, mas ele foi embora para o cu. E talvez algum dia Mame encontre um novo papai para voc.
#281
    Ele sorriu, satisfeito. Os papais eram importantes no seu mundo, pois todas as crianas da escola maternal tinham um - todas menos Jory.
    Naquele instante, escutei a porta da frente fechar-se com estrondo e uma voz familiar chamou meu nome. Chris! Meu irmo andou atravs do pequeno chal e me apressei 
a ir ao seu encontro em minhas malhas azuis e sapatilhas de bal. Nossos olhares se cruzaram demoradamente. Sem dizer uma palavra, Chris estendeu os braos e corri 
para ele sem a menor hesitao. Embora ele procurasse beijar-me os lbios, s conseguiu encontrar-me o rosto.
    Jory puxava-lhe as calas de flanela cinzenta, ansioso por ser acolhido nos
braos fortes e msculos.
    - Como est o meu Jory? - indagou Chris, aps beijar-lhe ambas as bochechas rosadas.
    Os olhos de meu filho se esbugalharam ao fitar Chris.
    - Voc  meu papai, Tio Chris?
    - No - replicou severamente Chris, recolocando Jory no cho. - Mas certamente gostaria de ter um filho como voc.
    Aquelas palavras provocaram em mim um movimento nervoso. Virei-me para o outro lado, a fim de evitar que Chris me visse os olhos. Ento, perguntei-lhe o que 
estava fazendo em minha casa quando devia cuidar de seus pacientes.
    - Tirei folga no fim de semana, a fim de pass-lo com voc; isto , se me permitir.
    Meneei levemente a cabea, pensando em outra pessoa que tambm deveria vir naquele fim de semana.
    - Fui o melhor mdico residente no hospital e, como recompensa, ganhei um fim de semana de folga - explicou ele, com o mais cativante dos sorrisos.
    - Tem recebido notcias de Paul? - indaguei. - Ele no tem vindo com a antiga freqncia e tambm no escreve muito.
    - Viajou para outro congresso mdico. Julguei que sempre se mantivesse em contato com voc.
    Colocou uma ligeira nfase na palavra "voc".
    - Chris, estou preocupada com Paul. Antes, ele fazia questo de responder cada uma de minhas cartas.
    Meu irmo riu, deixando-se cair numa poltrona e pegando Jory no colo.
    - Talvez, minha querida irm, voc tenha encontrado finalmente um homem capaz de deixar de am-la.
    Fiquei sem saber o que dizer ou o que fazer com as mos. Sentei-me com o olhar fixo no cho, sentindo os penetrantes olhos de Chris procurarem ler-me os pensamentos.
    - Cathy, o que faz voc aqui nas montanhas? Que anda planejando? Tenciona roubar Bart Winslow de nossa me?
    Levantei vivamente a cabea, enfrentando-lhe os semicerrados olhos azuis e sentindo a onda de calor que me subia do corao.
#282
    - No me interrogue como se eu fosse uma desmiolada criana de dez anos. Farei o que preciso fazer - exatamente como voc.
    - Claro que far. Eu nem precisava perguntar, pois j sei. No  preciso uma bola de cristal para ler suas intenes. Sei como voc funciona e o que pensa - 
mas deixe Bart Winslow em paz! Ele nunca a deixar em troca de voc! Ela possui milhes de dlares e voc tem apenas juventude. Existem
milhares de mulheres mais moas entre as quais ele pode escolher  vontade - por que haveria de escolher voc?
    No respondi, limitando-me a enfrentar-lhe o rosto carrancudo com um sorriso confiante, obrigando-o a corar e desviar o rosto para o lado. Senti-me mesquinha, 
cruel e envergonhada.
    - No vamos brigar, Chris. Sejamos amigos e aliados. De quatro, restamos apenas ns dois.
    Seus olhos azuis assumiram uma expresso mais suave ao me estudarem.
    - Eu estava apenas tentando, como sempre - disse ele, olhando em volta e tornando a encarar-me. - No hospital, divido um quarto com outro residente. Seria timo 
poder morar aqui, com voc e Jory. S ns, como outrora.
    Empertiguei-me ante a sugesto.
    - Voc teria que fazer uma longa viagem todas as manhs e no estaria disponvel no hospital em caso de urgncia.
    - Eu sei... e nos fins de semana? Tenho folga em fins de semana alternados. Isto a incomodaria muito? 
    - Sim, incomodar-me-ia demais. Tenho minha prpria vida, Christopher.
    Observei-o morder o lbio inferior antes de forar um sorriso.
    - Est certo. Seja como voc prefere... ou acha que deve ser. Peo a Deus que no se arrependa.
    - Quer fazer o favor de mudar de assunto? - repliquei sorrindo, aproximando-me para abra-lo. - Seja bonzinho e aceite-me como sou - obstinada como Carrie. 
Agora, o que gostaria de almoar?
    - Ainda no tomei o caf da manh.
    - Ento, faremos uma s refeio que valer pelas duas.
    Da em diante, o dia passou depressa. Chris sentou-se  mesa pronto para comer o omelete de queijo de que tanto gostava. Jory, graas a Deus, comia de tudo. 
A despeito de mim mesma, imaginei Chris como um pai para Jory. Parecia-me to bom t-lo  mesa, como costumava acontecer antes...
quando ele e eu fazamos papel de pais. Fazendo o melhor possvel, tudo o que estava ao nosso alcance - quando ramos apenas crianas, tambm. 
    Aps a refeio, passeamos pelos bosques, percorrendo as trilhas que eu
utilizava em minhas corridas dirias. Jory foi montado nos ombros de Chris. Observamos o mundo nas redondezas de Foxworth Hall e todos os lugares que no conseguamos 
avistar quando estvamos no telhado ou trancados no quarto. Paramos juntos, a fim de olharmos para a imensa manso.
    - Mame est l? - indagou Chris, com voz embargada.
    - No. Ouvi dizer que se encontra no Texas, num daqueles balnerios para
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tratamento de beleza freqentados por mulheres muito ricas, tentando perder um excesso de sete ou oito quilos.
    Alertado, ele virou vivamente a cabea.
    - Quem lhe contou?
    - Quem voc julga que foi?
    Chris sacudiu violentamente a cabea. Em seguida, ergueu Jory dos ombros, pousando-o no cho.
    - Maldita seja, Cathy, por envolver-se com ele! Eu o conheo de vista.  perigoso - afaste-se dele. Volte para Paul e case-se com ele, se tem necessidade de 
um homem em sua vida. Deixe nossa me levar a vida dela em paz. No me diga que no acredita que ela est sofrendo! Julga que ela pode ser feliz sabendo o que fez? 
Nem todo dinheiro deste mundo poder devolver o que ela perdeu: ns! Que isto seja vingana suficiente, Cathy.
    - No  suficiente. Quero confront-la com a verdade, diante de Bart. E voc pode ficar aqui cem anos, ajoelhar-se e implorar at que sua lngua role pelo cho 
- mas irei em frente e farei o que preciso fazer!

     Quando Chris ficou em meu chal, dormiu no quarto que fora de Carrie. Conversvamos muito pouco, embora ele me observasse os mnimos movimentos. Parecia exausto, 
confuso... e, acima de tudo, magoado. Tive vontade de dizer-lhe que, ao terminar o que tinha que fazer, eu voltaria para Paul e
levaria uma vida segura com ele, dando a Jory o pai que precisava. Mas permaneci calada.
    As noites nas montanhas eram frias, mesmo em setembro, quando os dias ainda eram quentes. Naquele sto, quase nos derretamos com o calor abrasador e creio 
que ambos nos lembrvamos disto sentados diante da lareira na noite em que Chris tinha que partir. Meu filho j estava na cama havia horas quando me ergui da poltrona, 
bocejei, espreguicei-me e olhei para o relgio sobre o aparador da lareira, que marcava onze horas.
    - J  hora de dormir, Chris. Especialmente para voc, que precisa acordar to cedo amanh.
    Sem falar, ele me acompanhou ao quarto de Jory, onde olhamos para o menino adormecido, deitado de lado, os cachos escuros midos e o rosto corado. Abraava um 
cavalinho macio e peludo semelhante ao que desejava ganhar, de verdade, quando completasse quatro anos.
    - Quando est dormindo, ele se parece mais com voc do que com Julian - sussurrou Chris.
    Paul dissera o mesmo.
    - Boa-noite, Christopher Doll - disse eu ao pararmos junto  porta do quarto de Carrie. - Durma bem e no seja mordido pelos percevejos.
    Aquelas palavras lhe provocaram uma careta de dor. Dando-me as costas, abriu a porta do quarto. Em seguida, deu meia-volta para encarar-me.
    - Era assim que costumvamos dizer boa-noite quando dormamos no mesmo quarto - comentou.
    Ento, tornou a virar-se e fechou a porta atrs de si.
#284
    Quando acordei, s sete horas, Chris j se fora. Chorei um pouco. Jory fitou-me com os olhos muito abertos de espanto.
    - Mame... - indagou, amedrontado.
    - Tudo bem, Jory. Mame sente saudades de seu tio Chris. E Mame no ir trabalhar hoje.
    Por que iria? Apenas trs alunas compareceriam e eu poderia ensinar tudo no dia seguinte, quando a turma inteira estivesse reunida.
     Meus planos caminhavam devagar demais. A fim de aceler-los, pedi a Emma que viesse tomar conta de Jory enquanto eu corria pelos bosques.
    - No devo demorar mais que uma hora. Deixe-o brincar l fora at a hora do almoo e, a essa altura, j deverei estar de volta.
    Usando um agasalho de ginstica azul-brilhante com as costuras arrematadas com listras brancas, parti correndo pelas trilhas. Desta feita, tomei uma bifurcao 
 direita, que nunca usara antes, penetrando num pinheiral mais denso. A trilha mal era visvel e muito sinuosa, obrigando-me a prestar ateno ao solo, a fim de 
evitar razes que me fizessem tropear. As rvores de regio montanhosa que cresciam entre os pinheiros tinham o brilhante colorido vermelho do outono, destacando-se 
como labaredas em contraste com o verde-esmeralda dos pinheiros, abetos e espruces. Como eu pensava desde criana, o ltimo e apaixonado caso de amor do ano chegava 
ao fim antes
que ele envelhecesse e morresse fatigado pelo frio do inverno...
    Algum corria atrs de mim. No me voltei para olhar. O estalar das folhas mortas era um rudo agradvel a meus ouvidos, de modo que aumentei a velocidade, deixando 
que o vento me soprasse os cabelos soltos enquanto a beleza do dia afastava de mim o sofrimento, o remorso e a vergonha,
transformando-os em sombras transparentes que no resistiam  luz do sol.
    - Espere, Cathy!-  chamou uma forte voz masculina. - Corre depressa demais!
    Era Bart Winslow, naturalmente. Como teria de ser, mais cedo ou mais tarde. O destino no me poderia iludir para sempre; minha me no podia vencer invariavelmente. 
Lancei um rpido olhar por cima do ombro e sorri ao v-lo ofegante, usando um elegante traje de ginstica cor de caramelo, arrematado com listras amarelas e cor 
de laranja, e tendo punhos, cintura e gola
sanfonados. Duas listras verticais, uma amarela e outra laranja, desciam ao longo
das costuras laterais das calas. Exatamente o que um ginasta local usaria ao caar uma mulher no mato.
    - Ol, Sr. Winslow - respondi, apertando ainda mais o passo. - Um homem incapaz de alcanar uma mulher no  homem!
    Ele aceitou o desafio e imprimiu maior velocidade s pernas compridas; fui obrigada a correr de verdade para manter a dianteira! Eu praticamente voava ao longo 
da trilha, com os cabelos longos esvoaando atrs de mim. Os esquilos que catavam nozes pelo cho tinham que fugir s pressas de meu caminho. Ri com o poder que 
sentia possuir, e abri os braos, fazendo uma pirueta, tendo a impresso que danava meu melhor papel no palco. Ento, como se brotasse do solo, uma #285
raiz nodosa pegou-me por baixo da ponta do
tnis sujo e ca de bruos. Felizmente, as folhas mortas amaciaram-me a queda.
    Levantei-me de imediato e continuei a correr, mas o tombo dera a Bart oportunidade de chegar mais perto. Ofegante, engasgando-se, indicando claramente que no 
tinha resistncia para competir comigo a despeito da vantagem que lhe davam as pernas mais compridas, ele gritou:
    - Pare de correr, Cathy! Tenha pena de mim! Estou quase morto! H outros meios de provar a minha masculinidade!
    No tive pena! Pensei: agarre-me se puder, do contrrio no chegar perto de mim. Gritei-lhe isso e prossegui a corrida, deleitando-me com minhas robustas pernas 
de bailarina, os msculos longos e geis, o treinamento de dana que me fazia sentir veloz como um raio.
    Mal tais pensamentos jactanciosos me passaram pela cabea, torci o joelho, que cedeu sob o peso do corpo, e tornei a cair com o rosto nas folhas mortas. S que 
desta vez estava machucada de verdade, sentindo muita dor. Teria sofrido uma fratura? Torcido o tornozelo, esgarado um tendo - outra vez?
     Dentro de poucos segundos Bart me alcanou, ajoelhando-se a meu lado, virando-me de modo a ver-me o rosto antes de indagar com evidente preocupao:
    - Machucou-se? Parece to plida... Onde sente dor?
    Eu quis responder que, naturalmente, estava bem - pois as bailarinas sabem cair, exceto quando se trata de um tombo  inesperado. Entretanto, por que o joelho 
me doa tanto? Fitei o local dolorido, sentindo-me trada pelo mesmo joelho que sempre me causava problemas, magoando-me de muitas maneiras.
    - Foi o maldito joelho. Se bato com o cotovelo na parede do chuveiro, meu joelho direito di! Quando sinto dor de cabea, ele tambm di, em solidariedade. Uma 
vez, fui obturar um dente e o dentista deixou a broca escapar, cortando-me a gengiva; pois meu joelho direito reagiu imediatamente,
esticando-se e desferindo um pontap na barriga do dentista!
    - Est brincando!
    - Estou falando srio. Voc no tem algo de peculiar sob o ponto de vista fsico?
    - Nada que eu goste de mencionar.
    Ele sorriu, com um brilho de malcia no olhar, depois ajudou-me a ficar em p. Apalpou-me o joelho com ar de quem sabia o que estava fazendo.
    - Tenho a impresso de que se trata de um bom joelho, perfeitamente funcional.
    - Como pode saber?
    - Meus joelhos tambm funcionam bem, de modo que posso distinguir s pelo tato. Contudo, se pudesse ver seu joelho, poderia julgar melhor.
    - V para casa e olhe para os joelhos funcionais de sua esposa.
    - Por que se porta de modo to detestvel comigo? - indagou ele, apertando #286
as plpebras. - Aqui estava eu, feliz por rev-la, e voc demonstra tanto 
antagonismo.
    - A dor sempre me causa antagonismo. No lhe acontece o mesmo?
    - Quando sofro - o que  muito raro - mostro-me delicado e humilde. Agindo assim, recebemos mais ateno. E lembre-se de que no fui eu quem lanou o desafio; 
foi voc.
    - E voc no precisava aceitar. Poderia ter seguido tranqilamente seu caminho, deixando-me seguir o meu.
    - Agora, estamos discutindo - disse ele, desapontado. - Voc quer brigar quando desejo ser amistoso. Seja boazinha comigo. Diga que se sente alegre por rever-me. 
Diga-me o quanto fiquei mais bonito desde a ltima vez em que me viu e como voc me acha excitante. Embora no seja capaz de correr
como o vento, tambm tenho minha pequena coleo de truques.
    - Aposto que tem.
    - Minha esposa continua naquele balnerio e faz longos meses que estou sozinho em casa, morto de tdio por morar com uma velha senhora que no consegue falar 
ou andar, mas d um jeito de ficar carrancuda sempre que olha para mim. Uma noite, encontrava-me tranqilamente sentado em frente  lareira, desejando que algum 
das redondezas resolvesse cometer um
assassinato, de modo que eu pudesse defender um caso interessante, para variar.  de causar uma frustrao deveras desesperadora ser advogado e viver cercado de 
gente normal e feliz, desprovida de emoes reprimidas que entrem bruscamente em erupo.
    - Parabns, Bart! Tem diante de si uma pessoa cheia de ressentimento agressivo e dio reprimido que entrar em erupo numa vingana implacvel - pode contar 
com isso!
    Bart julgou que eu estivesse pilheriando, brincando de gato-e-rato, num
jogo entre homem e mulher, e se ergueu disposto a aceitar o desafio, sem a menor desconfiana quanto ao meu verdadeiro propsito. Olhou-me detidamente, como se despisse 
meu agasalho de ginstica com os olhos sensuais de um homem vido de desejo por aquilo que eu lhe podia dar.
    - Por que veio morar aqui, perto de mim?
    Eu ri.
    - Arrogante, hem? Vim tomar posse de uma escola de bal.
    - Claro que sim... Tem Nova York e sua cidade natal, que eu no tenho a menor idia de qual seja, mas veio para c - a fim de aproveitar tambm os esportes de 
inverno?
    Seu olhar insinuava o tipo de "esporte caseiro" que ele tinha em mente, caso eu tambm quisesse.
    - Sim, gosto de todas as espcies de esportes, dentro de casa e ao ar livre - respondi com ar inocente.
    Ele soltou uma risadinha confiante, presumindo - como todos os homens cheios de convencimento - que j marcara um tento no nico jogo ntimo que um homem realmente 
deseja fazer com uma mulher.
#287
    - A tal velha que no consegue falar pode movimentar-se pela casa? - indaguei.
    - Um pouco. Minha sogra tenta falar, mas as slabas saem misturadas e ininteligveis para qualquer pessoa exceto minha mulher.
    - E voc a deixa sozinha...  seguro?
    - No fica sozinha. Tem uma enfermeira particular de planto a seu lado o tempo todo, alm de uma equipe de empregados - respondeu ele, franzindo a testa como 
se minhas perguntas no lhe agradassem; no obstante, insisti: - Ento, por que permanece aqui e no trata de ir divertir-se longe de casa enquanto a gata no volta?
    - s vezes, voc parece uma megera. Embora eu jamais tenha gostado de minha sogra, tenho pena de v-la no estado atual. , meramente por pertencer  natureza 
humana, no confio que os empregados lhe dispensem os cuidados necessrios se no houver um membro da famlia para verificar o
que eles fazem para proporcionar maior conforto  enferma. Minha sogra  invlida: no pode levantar-se da cadeira de rodas sem ser ajudada nem sair da cama sem 
que algum a carregue. Portanto, at que minha mulher volte para casa, estou encarregado de verificar que a Sra. Malcolm Foxworth no seja maltratada, negligenciada 
ou roubada.
    Uma curiosidade avassaladora me invadiu. Quis saber o nome da av, pois nunca o escutara.
    - Voc a chama de Sra. Foxworth?
    Bart no entendia meu interesse por uma velha invlida e tentou desviar o assunto, mas persisti.
    - Chamo-a de Olivia! - replicou afinal, lacnico. - Logo que me casei, evitava dirigir-lhe a palavra e tentava esquecer-lhe a existncia. Agora, trato-a pelo 
nome de batismo; creio que isto lhe d satisfao, mas no posso ter certeza. Seu rosto parece feito de pedra, fixo numa expresso - fria como gelo.
    Pude imaginar a av, imvel a no ser pelos olhos duros e malvados, cinzentos como granito. Bart j me dissera tudo o que eu queria saber. Agora, eu podia estabelecer 
os planos definitivos - to logo tivesse mais uma pequena informao:
    - Quando voltar sua esposa?
    - Por que quer saber?
    - Fico muito solitria, Bart... Depois que Emma, a bab, vai para casa, tenho apenas a companhia de meu filhinho. Portanto... imaginei que talvez uma noite voc 
poderia gostar de jantar comigo...
    - Irei hoje - replicou ele de imediato, os olhos escuros faiscando.
    - Nosso horrio gira em torno do menino. No vero, jantamos por volta de cinco e meia, mas agora, que os dias so mais curtos, nosso horrio de jantar  s cinco.
    - timo. D o jantar a seu filho s cinco horas e ponha-o na cama. Chegarei s sete e meia para um drinque. Depois do jantar, poderemos conhecer-nos melhor.
#288
    Fiquei pensativa e ele me encarou com solene intensidade, como cabia bem a um bom advogado. Ento, porque o olhar que trocamos foi muito demorado, ambos rimos 
simultaneamente.
    - A propsito, Sr. Winslow, se atravessar o bosque nos fundos de sua
casa, poder chegar ao meu chal sem que algum o veja. A menos,  claro, que faa questo de mostrar-se.
    Bart ergueu a mo espalmada e meneou a cabea, como se arquitetssemos uma conspirao.
    - A senha  discrio, Srta. Dahl.

A Aranha e a Mosca 

    A campainha da porta soou exatamente s sete e meia, acionada por um dedo impaciente e obrigando-me a correr para evitar que Jory acordasse. Meu filho detestava 
ir para a cama to cedo.
     Eu me esforara para apresentar-me com a melhor aparncia possvel e Bart procedera da mesma forma. Entrou como se j fosse o dono da casa e de mim, deixando 
atrs de si um perfume de loo de barba com aroma de pinho silvestre. Tinha os cabelos meticulosamente penteados, cada fio no devido lugar, o que fez imaginar que 
talvez j apresentasse os primeiros sinais de
calvcie... o que eu descobriria por mim mesma, mais cedo ou mais tarde. Tomei-lhe o casaco e pendurei-o no armrio embutido no vestbulo. Em seguida, fui ao bar, 
onde me ocupei com a preparao das bebidas, enquanto Bart se sentava diante do fogo que ardia na lareira (nada fora esquecido; at o som de msica suave enchia 
o ambiente ). A essa altura, eu j conhecia o suficiente os
homens e as maneiras de melhor agrad-los. No existia homem no mundo que no se deixasse encantar com a proximidade fsica de uma mulher bonita ansiosa por servi-lo, 
mim-lo, jantar e tomar vinho com ele.
    - Qual  sua fraqueza, Bart?
    - Usque.
    - Com gelo?
    - Puro.
    Bart observava-me cada movimento, que era deliberadamente gracioso e eficiente. Ento, dando-lhe as costas, preparei para mim um leve coquetel de frutas, adicionando 
uma pequena dose de vodca. E, com os dois pequenos copos de ps curtos numa bandeja de prata, encaminhei-me sedutoramente para ele, debruando-me a fim de exibir-lhe 
o atraente colo sem suti. Sentei-me em frente a Bart, cruzando as pernas para permitir que a comprida abertura lateral de meu vestido cor-de-rosa se abrisse e deixasse 
 mostra minha perna, desde a sandlia prateada at a metade da coxa. Bart no conseguiu despregar os olhos de minha carne.
#289
   - Desculpe-me quanto aos copos - disse eu num tom suave, satisfeita com a expresso de seu rosto. - No tenho lugar neste chal para desencaixotar todas as minhas 
coisas. A maior parte dos cristais continua guardada e s tenho aqui copos para vinho e gua.
   - Usque  usque, no importa como seja servido. O que est tomando?
    A essa altura, seu olhar passara para o pronunciado decote em V do meu vestido.
    - Bem,  feito com laranja recm-espremida, um pouco de suco de limo, uma dose de vodca e um pouco de leite de coco. Adiciona-se uma cereja para ter-se o prazer 
de pesc-la depois. Batizei-o de "Deleite de Donzela". 
    Aps conversarmos alguns minutos, encaminhamo-nos  mesa de jantar arrumada no muito longe da lareira, a fim de jantarmos  luz de velas. A intervalos, Bart 
deixava cair a colher ou o garfo; ambos nos curvvamos para pegar o talher e, rindo, verificvamos quem era o mais rpido. Ganhei dele todas as vezes. Bart estava 
por demais distrado para localizar uma colher ou um garfo no cho, quando tinha diante dos olhos um decote que se abria com tanta generosidade.
    - A galinha est deliciosa - declarou, aps demolir em dez minutos o resultado de um trabalho insano de cinco horas. - Em geral, no gosto de galinha... Onde 
aprendeu a preparar este prato?
    Respondi a verdade:
    - Uma bailarina russa me ensinou, quando veio fazer uma temporada nesta regio e nos tornamos amigas. Ela e o marido se hospedaram com Julian e eu. Cozinhvamos 
juntas sempre que no estvamos danando, passeando ou fazendo compras. Era preciso quatro galinhas para satisfazer o apetite de
quatro pessoas. Agora, voc j conhece a feia verdade sobre as bailarinas: em
questo de comida, nada temos de delicadas ou elegantes. Isto , aps um espetculo. Antes de nos apresentarmos no palco, temos que comer muito pouco.
    Ele sorriu, debruando-se sobre a pequena mesa console. A luz das velas
refletia-se em seus olhos, fazendo-os brilhar diabolicamente.
    - Cathy, diga-me francamente por que motivo veio morar nesta cidadezinha caipira e est to decidida a ter-me como amante?
    - No comece a imaginar coisa, homem convencido - repliquei no meu tom mais altaneiro.
    Imaginava-me muito bem sucedida em aparentar frieza exterior quando,
interiormente, sentia um emaranhado de emoes conflitantes. Era como o nervosismo de uma bailarina esperando nas coxias o momento de enfrentar o pblico numa noite 
de estria. E aquela seria a apresentao mais importante da minha vida.
    Ento, como num passe de mgica, senti-me no palco. No precisei pensar em como deveria agir ou no que precisava dizer para encant-lo e conquist-lo para sempre. 
O roteiro fora escrito h muitos anos, quando eu ainda era uma menina-moa de quinze anos, trancada num quarto. Sim, Mame, chegou a
#290
hora de iniciar o primeiro ato! Uma pea escrita Com percia por um autor que conhecia Bart muito bem, por causa das respostas que ele dera a tantas perguntas. Como 
poderia eu fracassar?
    Aps o jantar, desafiei Bart para uma partida de xadrez e ele aceitou. Apressei-me em trazer o tabuleiro to logo terminei de tirar a mesa e empilhar a loua 
na pia. Comeamos a arrumar os dois exrcitos de guerreiros medievais.
    - Exatamente o motivo pelo qual vim aqui - jogar xadrez! - exclamou Bart, lanando-me um olhar duro. - Tomei banho, fiz a barba, vesti meu melhor terno... para 
jogar xadrez!
    Em seguida, exibiu um sorriso atraente, devastador.
    - Se eu ganhar... qual a recompensa?
    - Uma segunda partida.
    - Quando eu ganhar a segunda partida... qual ser a recompensa?
    - Se voc ganhar duas partidas, jogaremos a "negra". E no fique a, sorrindo com tanta confiana. Quem me ensinou a jogar foi um mestre. Chris,  claro.
    - Depois que eu ganhar a "negra"... qual a recompensa? - insistiu
Bart. 
    - Poder voltar para casa e dormir muito satisfeito consigo mesmo.
    Com estudada deliberao, ele pegou o tabuleiro e o colocou em cima da geladeira, tendo o cuidado de equilibrar as peas esculpidas em marfim. Tomando-me pela 
mo, levou-me  sala de visitas.
    - Ligue a msica, bailarina - disse baixinho. - Vamos danar. Nada de passos complicados. Alguma coisa fcil e romntica.
    Eu s conseguia ouvir msica popular no rdio do carro, para alegrar uma viagem longa e solitria; contudo, quando se tratava de gastar meu dinheiro com discos, 
s comprava msica clssica ou de bal. Naquele dia, porm, comprara especialmente um disco intitulado "A Noite Foi Feita para os Namorados". Enquanto danvamos 
na obscuridade da sala de visitas iluminada apenas pelo fogo da lareira, lembrei-me do sto empoeirado e de Chris.
    - Por que est chorando, Cathy? - indagou Bart suavemente.
    Ento, fez-me virar a cabea, de modo que ficou com o rosto molhado por minhas lgrimas.
    - No sei... - solucei.
    E, realmente, no sabia...
    - Claro que sabe - replicou Bart, roando o rosto escanhoado no meu, enquanto continuvamos danando. - Voc constitui uma mescla que me deixa intrigado: um 
pouco de criana, um pouco de mulher sedutora, um
pouco de anjo.
    Soltei um riso curto e amargo.
    - Isso  o que todos os homens gostam de pensar a respeito das mulheres. Garotinhas de quem eles precisam cuidar - quando sei que, na verdade,  o sexo masculino 
que  mais menino que adulto.
    - Ento, diga "al" ao primeiro homem adulto em sua vida.
#291
    - Voc no  o primeiro homem arrogante e convencido que encontrei.
    - Mas serei o ltimo e o mais importante - aquele que voc jamais esquecer.
    Oh! Chris estava certo: com Bart, eu fora alm de minhas possibilidades.
    - Cathy, julga realmente que conseguiria chantagear minha mulher?
    - No, mas resolvi tentar. Sou idiota. Espero demais e, depois, fico furiosa porque nada acontece do modo que planejei. Quando eu era jovem, cheia de esperanas 
e aspiraes, no imaginava que me magoaria com tanta freqncia. Creio que me tornarei empedernida e deixarei de magoar-me; ento, minha frgil proteo se esfacela 
e, mais uma vez, simbolicamente, meu sangue escorre com as lgrimas que derramo. Torno a recompor-me, prossigo, conveno-me de que existe uma razo para tudo, que 
me ser revelada em algum ponto de minha vida. E quando consigo alguma coisa que desejo, espero em Deus que dure o bastante para me permitir saber que a possuo, 
que no
sofra ao perd-la - pois j no acredito que dure muito tempo, pelo menos atualmente. Sou como uma rosca, sempre sendo furada no centro; e vivo  procura do pedao 
que ficou faltando. E tudo contnua assim, nunca
terminando, apenas comeando...
    - No est sendo honesta consigo mesma - declarou suavemente Bart. - Sabe melhor que ningum onde est o pedao que ficou faltando. Do contrrio, eu no estaria 
aqui, agora.
    Sua voz foi to suave e sedutora que apoiei a cabea em seu ombro enquanto continuamos a danar.
    - Engana-se, Bart, pois no sei por que motivo voc est aqui. No sei como encher os meus dias. Vivo quando estou dando aulas de bal ou fico na companhia de 
meu filho. Entretanto, quando ele vai dormir e estou sozinha, no sei o que fazer de mim mesma. Sei que Jory precisa de um pai e quando me recordo do pai dele compreendo 
que sempre consegui fazer a coisa errada. Li as crticas que falam com tanto entusiasmo de meu potencial como grande bailarina... na minha vida pessoal, porm, s 
cometi erros que anulam tudo o que realizei profissionalmente.
    Parei de mexer os ps e funguei, tentando ocultar o rosto - mas Bart obrigou-me a erguer a cabea, enxugou-me as lgrimas e ofereceu-me o leno para assoar o 
nariz.
    Ento, veio o silncio. Um prolongado, infindvel silncio. Nossos olhares se encontraram demoradamente e o corao comeou a bater-me mais depressa.
    - Todos os seus problemas so muito simples, Cathy - comeou Bart. - S precisa de algum como eu, que necessita de algum como voc. Se Jory precisa de um pai, 
eu necessito de um filho. Est vendo como todas as coisas complicadas podem resolver-se com facilidade?
    Com facilidade demais, refleti, quando ele era casado e eu possua uma dose suficiente de cinismo e discernimento para saber que ele no poderia gostar o bastante 
de mim.
    - Voc tem uma esposa a quem ama - repliquei amargurada.
#292
    - Afastei-o bruscamente de mim. No desejava conquist-lo com tanta facilidade, mas s depois de longas e difceis batalhas contra minha me. E esta no estava 
presente para tomar conhecimento dos fatos.
    - Os homens tambm mentem - declarou Bart incisivamente, perdendo parte do entusiasmo que lhe faiscara nos olhos. - Tenho uma esposa e, ocasionalmente, dormimos 
juntos; mas o fogo se apagou. No a conheo. E no acredito que algum realmente a conhea. Ela  uma trouxa de segredos, bem amarrada, e no me permite verificar 
o que h l dentro. Isso j durou tanto tempo que nem desejo mais ter acesso, agora. Ela que fique com seus segredos e lgrimas, que se morda interiormente com as 
suas ansiedades ou seja l o que a faz acordar no meio da noite para olhar aquele maldito lbum de
capa azul! Agora, est com excesso de peso e me escreveu que fez plstica no rosto - afirma que nem a conhecerei quando ela voltar - como se eu realmente a conhecesse!
    Entrei em pnico - ele precisava gostar dela! Como poderia eu desfazer um casamento que j se esfacelava? Tinha necessidade de sentir que conseguira meu intento 
contra probabilidades esmagadoras!
    - V para casa! - bradei, empurrando Bart. - Saia de minha casa! No o conheo bastante para escutar-lhe os problemas pessoais... e no acredito em voc! No 
confio em voc!
    Ele riu, zombando de mim, excitado por meus ridculos esforos para empurr-lo. Sua libido inflamou-se... Chamejava-lhe nos olhos quando me agarrou os antebraos, 
puxando-me com fora de encontro a si.
    - Agora, pare com isso! Veja de que modo est vestida. Convidou-me para jantar por um motivo. Portanto, aqui estou, disposto e pronto para ser seduzido. Seduziu-me 
na primeira vez em que a vi - e, por Deus, tenho a impresso de conhec-la h muito mais tempo do que na verdade a conheo.
Ningum joga comigo e interrompe a partida para declarar um empate. Um dos dois ganha o jogo. Entretanto, se formos juntos para a cama, talvez acordemos na manh 
seguinte e verifiquemos que samos ambos vencedores.
    As luzes vermelhas de advertncia comearam a piscar. Pare! Resista! Lute! Mas no fiz nada disto. Esmurrei-lhe o peito com pequenos punhos ineficazes enquanto 
ele ria, erguendo-me e carregando-me sobre o ombro. Usou uma das mos para prender-me as pernas e evitar que esperneasse. Com a mo livre, apagou as luzes. No escuro, 
enquanto eu ainda lhe esmurrava as costas, carregou-me at meu quarto e jogou-me em cima da colcha que cobria a cama. Lutei para levantar-me, mas ele avanou rpido! 
Houve uma  oportunidade para usar o joelho que eu mantinha preparado. Sentindo que minha agilidade de bailarina poderia derrot-lo, Bart jogou-se para a frente, 
pegando-me pela cintura, de modo que rolamos ambos para o cho! Abri a boca para gritar, mas ele a
tampou com uma das mos. Em seguida, prendeu-me os braos com sua fora de ao e sentou-se nas pernas que eu utilizava para tentar libertar-me.
    - Cathy, minha linda sedutora, teve tanto trabalho! Seduziu-me h muito tempo, bailarina. Agora, ser minha at uma semana antes do Natal. Ento minha mulher 
voltar para casa e no precisarei mais de voc.
#293
    Afastou a mo de minha boca e pensei em gritar. Todavia, limitei-me a vociferar:
    - Pelo menos, eu no precisei compr-lo com os milhes de meu pai!
    Aquilo foi a gota que fez o vaso transbordar. Bart esmagou brutalmente os lbios contra os meus antes que me percebesse do que acontecia. No era
exatamente o que eu desejava! Queria tent-lo, inflam-lo, obrig-lo a perseguir-me - e, ceder apenas depois de uma longa e rdua caada a que minha me pudesse 
assistir e sofrer, sabendo que nada poderia dizer em protesto - do contrrio eu daria com a lngua nos dentes! No obstante, Bart possua-me sem usar o corao, 
de forma to brutal quanto Julian em seus piores
momentos! Agia como um selvagem. Movimentava-se para penetrar-me, at mesmo enquanto suas mos rasgavam em pedaos meu colante vestido cor-de-rosa. A essa altura, 
fiquei apenas com a meia-cala, que ele puxou por minhas pernas abaixo, de modo que as sandlias prateadas me saram dos ps e ficaram presas dentro da pea de roupa.
    Com os lbios ainda brutalmente espremidos contra os meus, Bart guiou-me a mo at o fecho de suas calas, apertando-me os dedos at estalarem. Ou eu lhe abria 
o fecho ou ele me quebrava os dedos! Jamais entenderei como ele conseguiu livrar-se de suas roupas ao mesmo tempo em que me
prendia, nua, sob o peso de seu corpo. Quando ficou despido, usando apenas as meias, continuei a debater-me, retorcer-me, dar-lhe cabeadas e tentando arranhar ou 
morder - mas ele me beijava, acariciava, explorava-me o corpo. Por vrias vezes, tive oportunidade de gritar - mas tambm ofegava, forando o corpo para cima a fim 
de livrar-me. Contudo, Bart interpretou o movimento
como um arquear convidativo de minha espinha. Penetrou-me, satisfez-se com
demasiada rapidez e afastou-se antes que eu tivesse algum prazer! 
    - Suma-se daqui!- berrei. - Vou chamar a polcia! Mandarei prend-lo, sob acusao de agresso e estupro!
    Bart riu desdenhosamente, deu-me um belisco brincalho no queixo e depois colocou-se de p para vestir-se.
    - Oh! - disse, zombeteiro, imitando minha voz. - Estou tremendo de medo!
    Em seguida, assumiu uma atitude sria.
    - No se sente feliz, no  mesmo? A coisa no funcionou como voc queria. No faz mal, porm; estarei de volta amanh  noite e ento talvez voc consiga agradar-me 
o suficiente para que eu resolva demorar o bastante para satisfaz-la.
    - Tenho uma arma! - (era mentira). - Se voc ousar apresentar-se outra vez nesta casa,  um homem morto! Alis, nem mesmo  um homem; no passa de um brutamontes, 
mais animal que humano!
    - Minha esposa diz freqentemente o mesmo - respondeu ele, com ar indiferente, fechando desavergonhadamente a braguilha, sem ter a decncia de ao menos virar-se 
de costas para mim. - Mas ela gosta, exatamente como voc gostou. Amanh, prepare o bife  Wellington com uma salada mista; e musse de
chocolate para sobremesa. Se me der muitas calorias, poderei queim-las da maneira mais #294
agradvel possvel - e no me refiro a correr pelos bosques...
   Sorriu, bateu-me uma continncia, deu uma perfeita meia-volta ao estilo militar e depois parou junto  porta. Sentei-me no cho e procurei cobrir os seios com 
o que restava de meu vestido rasgado.
    - Amanh,  mesma hora. E passarei a noite aqui... isto , se voc me tratar bem.
    Saiu, batendo a porta da frente com fora. Ao diabo com ele! Comecei a chorar, mas no foi por pena de mim. Era uma frustrao to intensa que eu seria capaz 
de esquartejar Bart aos pouquinhos! Bife  Wellington! Eu temperaria a carne com arsnico!
    Um som leve e tmido veio do lado de fora da porta do quarto.
    - Mame... estou com medo... Voc est chorando, Mame?
    Vesti rapidamente um roupo e mandei Jory entrar, aninhando-o em meus braos.
    - Querido... querido, Mame est bem. Voc teve um pesadelo. Mame no est chorando... veja s!
    Eu enxugara as lgrimas - pois iria  forra!

    Trs dzias de rosas vermelhas chegaram quando Jory e eu tomvamos o caf da manh. Do tipo de talo comprido, vinham numa embalagem da loja de flores. Um cartozinho 
dizia:

     "Envio-lhe um grande buqu de rosas:
     Uma para cada noite em que ser dona de meu corao."
   
     Sem assinatura. E que diabo faria eu com trs dzias de rosas numa casa to pequena que parecia feita para bonecas? No podia envi-las a uma enfermaria infantil, 
pois o hospital mais prximo ficava a muitos quilmetros de distncia. Jory tomou a deciso por mim:
    - Oh! Mame, que beleza! Rosas do Tio Paul!
    Por causa de Jory, fiquei com as rosas em vez de jog-las fora. Arrumei-as em muitas jarras que espalhei pela casa inteira. Jory adorou; quando o levei comigo 
para a escola de bal, fez questo de dizer a todos os meus alunos que sua casa estava cheia de rosas - at mesmo no banheiro.
    Depois do almoo, levei Jory de carro  escola maternal que ele tanto adorava. Era um estabelecimento que usava o mtodo Montessori, inspirando-o a querer aprender 
atravs de apelos aos seus sentidos. J era capaz de escrever o prprio nome em letras de forma - e tinha apenas trs anos! Eu
dizia com meus botes que Jory era como Chris: bonito, de uma inteligncia brilhante, cheio de talento. Oh! O meu Jory tinha tudo - menos um pai. Seus brilhantes 
olhos castanhos irradiavam a inteligncia e rapidez de raciocnio de algum que teria toda uma vida de curiosidade a respeito de tudo.
    - Jory, eu o amo.
    - Eu sei, Mame - respondeu ele, acenando quando me afastei no carro.
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    Fui esper-lo  sada da escola. Jory tinha o rostinho corado e uma expresso perturbada.
    - Mame - disse ele, logo que se acomodou a meu lado no carro. - Johnny Stoneman contou que a me dele lhe bateu quando ele pegou nela... a - apontou timidamente 
para meu seio. - Voc no bate quando pego a.
    - Mas voc no me pega aqui desde que era beb e eu o amamentei durante algum tempo.
    - Voc me batia, naquela poca? - indagou ele, parecendo deveras preocupado.
    - No, claro que no. Os bebs costumam mamar nos seios das mes... e eu jamais bateria em voc por tocar-me aqui... Portanto, se quer tentar, fique  vontade: 
v em frente e pegue.
    Jory esticou a mozinha, hesitante, estudando-me o rosto para verificar se eu ficaria chocada. Oh! como as crianas aprendem depressa os tabus! E quando me tocou 
o seio sem ser atingido por um raio lanado dos cus, Jory sorriu, muito aliviado.
    - Oh! apenas um lugar macio.
    Fizera uma descoberta agradvel e abraou-me o pescoo.
    - Eu tambm a amo, Mame. Porque voc me ama mesmo quando sou mau.
    - Eu sempre o amarei, Jory. E se s vezes voc for mau, tentarei compreender.
    Sim, eu no seria como a av - ou minha me. Seria a me perfeita e, algum dia, Jory teria tambm um pai. Como se explicava que crianas, ainda to pequenas, 
j falassem em pecado e apanhassem por tocar as prprias
mes? Seria por estarem numa regio muito elevada, mais perto de Deus que o resto do mundo? Ento, todos viviam cheios de medo, sob a influncia de Deus, bancando 
os santinhos do pau oco enquanto cometiam todos os tipos possveis de pecados? Honra teu pai e tua me. Faze com os outros o que farias contigo. Olho por olho...
     Sim... olho por olho, - eis o motivo pelo qual eu ali estava.
    A caminho do chal, parei no posto dos correios para comprar selos e deixei Jory cochilando no banco dianteiro do carro. Ele estava na agncia postal, cujas 
dimenses no excediam as de minha sala de visitas, e tambm comprava selos. Exibiu-me um sorriso encantador, como se nada desagradvel
tivesse ocorrido entre ns na noite anterior. Atreveu-se at mesmo a acompanhar-me ao carro, a fim de indagar se eu gostara das rosas.
    - No gosto do seu tipo de rosas - repliquei rispidamente.
    Em seguida, entrei pudicamente no carro e bati-lhe a porta na cara. Parti, deixando-o a observar-me - com efeito, parecendo um tanto triste e desapontado.
    s cinco e meia, um mensageiro especial veio ao chal entregar um pequeno pacote. A encomenda era registrada, de modo que precisei assinar um recibo. O pacote 
continha uma caixa, dentro da qual havia outra caixa menor. No interior desta, um estojo de jias forrado por fora de veludo. Apressei-me a abri-lo sob a atenta
#296
observao de Jory, cujos olhos estavam esbugalhados. Sobre o fundo de veludo negro estava uma rosa feita de inmeros brilhantes. O bilhete no carto dizia: "Talvez 
este tipo de rosas lhe agrade mais."
Larguei a jia de lado como uma quinquilharia adquirida com o dinheiro dela;
portanto, no constitua um presente dele. Nem as rosas naturais.

    Bart teve a ousadia de vir naquela noite, s sete e meia, como prometera. No obstante, convidei-o a entrar e conduzi-o, calada,  mesa do jantar. Nada de coquetis 
ou conversas amveis. A mesa fora posta com esmero ainda maior que na vspera. Eu abrira alguns caixotes e desempacotara algumas de
minhas coisas, de modo que sobre a mesa estavam minha melhor toalha e guardanapos de renda, bem como travessas de prata. Nenhum de ns dois dissera uma palavra. 
Eu reunira todas as rosas que recebera pela manh; agora, estavam na caixa ao lado do prato dele. No prato vazio, o estojo de veludo
contendo o broche de brilhantes em forma de uma rosa. Sentei-me para observar a expresso de Bart, que colocou de lado com a maior naturalidade o estojo da jia 
e afastou de si a caixa com as rosas vermelhas. Em seguida, tirou do bolso do palet um bilhete dobrado, entregando-o a mim. Escrevera com caligrafia grande e ousada:

     "Amo-a por motivos que no tm princpio ou fim. Amei-a antes mesmo de conhec-la, portanto meu amor no tem motivos ou intenes. Mande-me embora e obedecerei. 
Saiba porm, antes de mandar-me embora, que relembrarei pelo resto da vida o amor que deveria existir entre ns. E quando estiver rgido e frio numa sepultura, am-la-ei 
ainda mais depois de morto."

    Ergui a cabea para fit-lo nos olhos pela primeira vez desde que ele chegara.
    - Sua poesia tem algo que me  familiar, mas com um toque um pouco estranho.
    - Eu a compus h apenas alguns minutos... como  possvel que lhe parea familiar? - disse ele, estendendo a mo para pegar a tampa de prata que, ostensivamente, 
ocultava o fil  Wellington. - Preveni-a de que sou advogado e no poeta, o que explica o toque um tanto estranho. Poesia no foi minha matria predileta na escola.
    - Isso  evidente - repliquei, muito interessada em sua expresso facial. - Elizabeth Barrett Browning  tima poetisa, mas certamente voc no o .
    - Fiz o possvel - admitiu ele com um sorriso travesso, fitando-me os olhos com ar desafiador, antes de voltar a ateno para a grande travessa de prata que 
continha apenas um cachorro-quente com um pouco de ervilhas em lata frias.
    A descrena em seu olhar, sua expresso de ter sofrido um grande choque e ofensa, o ar de desapontamento - tudo isso me causou tanta satisfao que quase cheguei 
a gostar dele naquele instante.
#297
    - Agora, voc est vendo o cardpio predileto de Jory - declarei em tom de gozao. -  exatamente o mesmo que comemos no jantar desta noite e, desde que suficientemente 
bom para ns, guardei um pouco para voc. E levando em considerao que j jantei, tudo  seu. Sirva-se  vontade.
    Carrancudo, Bart lanou-me um olhar duro e faiscante; ento, deu uma violenta dentada no cachorro-quente, que eu tinha certeza de estar to frio quanto as ervilhas. 
Contudo, Bart comeu tudo e tomou seu copo de leite.
    Como sobremesa, servi-lhe biscoitinhos com formato de animais. Primeiro, ele olhou para a caixa com outra expresso de espanto e incredulidade; depois, abriu-a 
com um puxo, escolheu um biscoito com forma de leo e arrancou-lhe a cabea numa nica dentada.
     S quando terminou de comer todos os biscoitos da caixa e catar cada farelo, incomodou-se em me olhar com tanta desaprovao que eu deveria encolher-me at 
ficar do tamanho de uma formiga.
    - Presumo que seja uma dessas desprezveis mulheres liberadas, que se
recusam a fazer qualquer coisa capaz de agradar um homem!
    - Engana-se. Sou liberada apenas em relao a alguns homens. Existem outros a quem sou capaz de adorar, idolatrar e servir como uma escrava. 
    - Voc me obrigou a fazer o que fiz! - protestou ele, eloqente. - Acha que planejei tudo daquela maneira? Queria que tivssemos um relacionamento na base da 
igualdade. Por que usou aquele tipo de vestido?
    -  o tipo preferido por todos os homens chauvinistas!
    - No sou chauvinista - e detesto aquele tipo de vestido!
    - Gosta mais do que estou usando agora?
    Empertiguei-me na cadeira a fim de permitir-lhe ver melhor a velha suter
larga que eu usava com calas jeans desbotadas, tnis sujos, os cabelos puxados para trs e amarrados num coque  moda antiga. Eu soltara propositalmente algumas 
mechas compridas, deixando-as cair ao longo do rosto, desalinhadas, a fim de tornar-me mais atraente. A ausncia de maquilagem
embelezava-me o rosto. Bart estava trajado com extrema elegncia.
    - Ao menos, parece-me honesta e disposta a permitir-me tomar a iniciativa. Se existe algo que desprezo so mulheres que atacam os homens, como voc fez ontem. 
Esperava tudo de voc, menos aquela espcie de vestido
colante que mostrava tudo, roubando-me a sensao de descobrir por mim mesmo.
    Franzindo o cenho, murmurou:
    - De um maldito vestido vermelho de prostituta a jeans desbotadas... Em vinte e quatro horas, ela se transformara numa colegial adolescente!
    - No era vermelho mas cor-de-rosa! Alm disso, Bart, homens fortes como voc sempre adoram mulheres fracas, passivas e estpidas, porque eles prprios so tmidos, 
medrosos e temem uma mulher agressiva!
    - No sou tmido, medroso, ou coisa nenhuma semelhante, mas um homem que gosta de sentir-se msculo e no se deixa usar pelas mulheres. Quanto s mulheres passivas, 
desprezo-as tanto quanto as agressivas. Simplesmente no me agrada a sensao de ser vtima de uma caadora que me atrai para
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uma armadilha. Que diabo est procurando fazer comigo? Envio-lhe rosas, jias, poemas imitados e voc nem mesmo penteia os cabelos ou passa um pouco de p-de-arroz 
no rosto!
    - Voc me est vendo como sou ao natural. E agora que j viu, pode ir embora - repliquei, erguendo-me da mesa, caminhando at a porta de entrada e abrindo-a 
para ele. - No servimos um para o outro. Volte para sua mulher. Ela que fique com voc, pois eu no o quero.
    Bart veio depressa em direo  porta, como se pretendesse sair. Ento, tomou-me nos braos e fechou a porta com o p.
    - Eu a amo. Deus  testemunha de que tenho a impresso de sempre a ter amado.
    Fitei-lhe o rosto, no acreditando em suas palavras, mesmo quando ele retirou os grampos que me prendiam o cabelo, deixando-o cair naturalmente. Por fora de 
um velho hbito, sacudi a cabea, balanando-os para que se ajeitassem sozinhos. Com um leve sorriso, Bart fez-me erguer o rosto para o seu.
    - Permite-me beijar-lhe os lbios naturais? So muito lindos.
    Sem aguardar a permisso, roou de leve os lbios nos meus. Oh!... que sensao me provocou aquele beijo leve como uma pluma! Por que todos os homens no entendiam 
que aquele era o modo certo de comear? Que mulher desejaria ser devorada viva, sufocada por uma lngua insistente? Eu no; meu desejo era ser tocada como um violino, 
dedilhada em pianissimo em andamento largo, depois em legato, passando a um crescendo. Desejava encaminhar-me deleitada s alturas do xtase que s poderiam ser 
alcanadas por
mim ao escutar as palavras certas e receber o tipo adequado de beijos antes que as mos dele comeassem a agir. Se Bart fizera muito pouco por mim na vspera, esta 
noite ps em prtica toda a sua percia. Desta feita,
levou-me s estrelas, onde ambos explodimos e continuamos muito agarrados um ao outro, tornando a explodir mais uma e, ainda, outra vez.
    Bart tinha o corpo inteiro cabeludo. Julian quase no tinha cabelos no corpo, excetuando uma linha fina que lhe subia at o umbigo. E Julian nunca me beijara 
os ps, que agora cheiravam a rosas por causa do prolongado banho de imerso perfumado que eu tomara antes de vestir as velhas roupas de
trabalho. Bart beijou-me os artelhos, um por um, antes de comear a subir vagarosamente. Senti-me como se a av nos observasse, as chamas em seus duros olhos cinzentos 
condenando-nos eternamente ao inferno. Desliguei a mente, esquecendo-me dela e entregando todos os meus sentidos quele homem que, agora, me tratava como um verdadeiro 
amante.
     Contudo, eu sabia que ele no me amava. Bart se utilizava de mim como substituta de sua esposa; quando ela regressasse, eu nunca mais o veria. Eu sabia, tinha 
certeza - e, no obstante, recebi e dei at adormecermos
abraados.
    Quando dormi, sonhei com Julian, que estava no interior da caixinha de msica que meu pai me dera de presente quando eu tinha apenas seis anos. Girava sem parar, 
acusando-me com os olhos negros, Ento, deixou crescer o bigode e transformou-se em Paul, que apenas parecia muito triste. Corri para libert-lo da morte numa caixinha 
de #299
msica que se tornava um tmulo - ento vi Chris no interior da caixinha, os olhos fechados, as mos cruzadas sobre o peito... morto. Chris!
     Acordei e verifiquei que Bart se fora. O travesseiro estava molhado de lgrimas. Mame, por que voc comeou isto? Por qu?
    Segurando com fora a mo de meu filhinho, sa com ele para o ar frio da manh, a caminho do trabalho. De leve, a grande distncia, escutei algum chamando por 
mim; com a voz, vinha o aroma de rosas naturais. Por que voc no vem, Paul, e me salva de mim mesma? Por que s me chama no
pensamento?
    O primeiro ato terminara. O segundo comearia quando minha me soubesse que eu esperava um filho de Bart. Alm disso, havia a av, que tambm tinha que pagar. 
E quando ergui os olhos, tive a impresso de que as
montanhas se curvavam para cima num sorriso zombeteiro e satisfeito. Finalmente eu lhes atendera o chamado. Escutara-lhes o lamento vingativo e atormentado.

Revisitando a Av

    Foxworth Hall situava-se no final de um cul-de-sac, a maior e mais impressionante dentre muitas residncias enormes e bonitas, a nica que ficava bem alto na 
encosta da montanha, dominando todas as demais como um
castelo medieval. Dias a fio eu ia observ-la, arquitetando meus planos.
     Bart e eu no tnhamos necessidade de esgueirar-nos furtivamente para nossos encontros. Nossas residncias eram muito afastadas entre si e ningum o avistaria 
se ele sasse de casa pela porta dos fundos, que se abria para um jardim cercado. Atrs do jardim, existia uma alameda ladeada por arbustos e ocultada por muitas 
rvores. Ocasionalmente, encontrvamo-nos numa cidade
distante e nosso amor no quarto de um motel era doce, selvagem, terno, ertico e totalmente satisfatrio. No obstante, gelei quando ele anunciou um dia, na hora 
do almoo:
    - Ela telefonou hoje de manh, Cathy. Voltar antes do Natal.
    - timo - respondi.
     E continuei a comer minha salada, na expectativa do Bife  Wellington que logo seria trazido. Bart franziu a testa e o garfo cheio de salada hesitou um momento 
a caminho de sua boca.
    - Significa que no poderemos estar juntos com tanta freqncia. No se incomoda com isso?
    - Daremos um jeito.
    - Voc  mesmo uma mulher incrvel!
#300
    - No faa tempestade num copo d'gua. Todas as mulheres so monstros para os homens e, talvez, para elas mesmas. Somos nossas piores inimigas. Voc no tem 
necessidade de divorciar-se dela e abrir mo da oportunidade de herdar-lhe a fortuna, embora ela talvez viva mais tempo que voc e ainda tenha outra chance de comprar 
mais um marido jovem.
    - s vezes, voc  to megera quanto ela! Ela no me comprou! Eu a amava! E ela me amava! Eu era louco por ela; to louco quanto sou agora por voc. Todavia, 
ela mudou. Quando a conheci, era uma mulher delicada, encantadora, tudo que um homem pode desejar numa mulher e numa esposa -
mas mudou.
    Enfiou raivosamente na boca o garfo com a salada, mastigando com violncia. Depois, acrescentou:
    - Sempre foi um mistrio para mim - como voc.
    - Bart, meu amor - respondi. - Em breve, todas as muralhas misteriosas ruiro.
    Ele prosseguiu, sem dar ateno  minha interrupo:
    - Aquele pai dela tambm era um mistrio; ao v-lo, tinha-se a impresso de um excelente cavalheiro idoso, mas, sob a aparncia havia um corao de pedra. Julguei 
que eu fosse seu nico advogado, mas ele possua outros seis, cada um de ns encarregado de uma funo especfica. A minha era redigir seus testamentos. Alterou-os 
dzias de vezes, incluindo um membro da
famlia, retirando outro, adicionando codicilos como um possesso, embora
conservasse a sanidade mental at morrer. O ltimo codicilo foi o pior de todos.
     Claro: nada de filhos para Bartholomew Winslow. Nunca.
   - Ento, voc realmente trabalhava como advogado?
   Ele sorriu com amargura antes de replicar:
   - Naturalmente que era advogado praticante. E, agora, sou novamente. Um homem precisa fazer algo til, que tenha um significado. Quantas vezes algum consegue 
viajar pela Europa antes de enjoar disto? Faz-se sempre a mesma coisa, encontra-se sempre a mesma pessoa. ri-se sempre das mesmas piadas. O jet set, a "gente charmosa" 
- que pilhria! O dinheiro em grandes quantidades pode comprar tudo, menos sade. Portanto, aquela gente no tem mais sonhos a comprar, perde as inspiraes, termina 
simplesmente entediada.
    - Por que no se divorcia e faz algo til na vida?
    - Ela me ama.
    Foi esta a resposta Clara,  sucinta, Delicada. Ele ficava porque ela o amava, obrigando-o a permanecer.
    - Logo que me conheceu, voc disse que a amava. Agora, afirma o contrrio. Qual  a verdade?
    Bart refletiu durante longo tempo.
    - Falando francamente, bailarina, sou ambivalente e tenho ressentimentos. Eu a amo e a odeio. Portanto, faa o favor de ocultar sua faceta de megera, que me 
faz lembrar dela, e no tente fazer comigo o que ela fez. Voc est erguendo um muro entre ns 
#301
porque sabe algo que eu ignoro. No me
apaixono com facilidade e gostaria de no amar voc.
    De repente, Bart pareceu-me um menino tristonho, cujo cozinho de estimao o tivesse trado e a vida nunca mais voltasse a ser agradvel. Tocada, atrevi-me 
a dizer:
    - Bart, juro-lhe que chegar o dia em que voc conhecer todos os meus segredos e os dela tambm - at l, porm, diga que me ama, mesmo que no seja verdade, 
porque no conseguirei ter prazer de estar a seu lado se no sentir que voc me ama pelo menos um pouquinho.
   - Um pouquinho? Tenho a impresso de t-la amado minha vida inteira. Mesmo quando a beijei pela primeira vez, pareceu-me que j a beijara antes. Por qu?
    - Carma.
    Sorri ante sua expresso de espanto.

     Havia algo que eu precisava fazer antes que minha me voltasse para casa. Um dia, quando no tive que dar aulas de bal e Jory estava na escola maternal, esgueirei-me 
at Foxworth Hall, utilizando-me de todos os
caminhos ocultos. Chegando  porta dos fundos, usei a velha chave de madeira que
Chris modelara tantos anos atrs. Era quinta-feira. Todos os criados estariam
na cidade, pois era o dia de folga. J que Bart relatara-me detalhadamente sua rotina de vida, revelara-me simultaneamente muita coisa sobre a vida cotidiana da 
av. Eu sabia que quela hora a enfermeira estaria repousando, aproveitando-se do perodo em que a av cochilava na parte da tarde, usando o pequeno quarto nos fundos 
da biblioteca - o mesmo quarto onde nosso av
ficara confinado em seus ltimos dias de vida enquanto ns quatro, ainda crianas, aguardvamos que ele passasse deste mundo para o outro, o que significaria sermos 
libertados de nossa priso no sto.
    Atravessei todos os grandiosos sales luxuosamente decorados, observando avidamente os belos mveis antigos, e vi as duas escadas curvas que subiam do vestbulo 
cujas dimenses permitiam que fosse utilizado como salo de baile. Onde as duas escadas curvas se encontravam, havia um balco no segundo pavimento, do qual partia 
outro lance de degraus que levava diretamente ao sto. Avistei o macio mvel em que Chris e eu nos escondramos para
assistirmos a uma festa de Natal no andar trreo. Fazia muitos anos, mas minha mquina do tempo recuou depressa: voltei a ter apenas doze anos, uma menina assustada, 
com medo que a gigantesca manso me engolisse caso eu me atrevesse a movimentar-me ou a falar mais alto que um leve sussurro. Mais
uma vez, maravilhei-me com os trs enormes lustres de cristal pendentes do teto que ficava a quase quinze metros do piso. E j que este era uma pista de dana feita 
com mosaicos especiais, tive que ceder ao impulso automtico de ensaiar alguns passos de dana, para verificar qual era a sensao.
     Continuei a avanar sem pressa, admirando os quadros a leo, os bustos de mrmore, os enormes lampies, as fabulosas tapearias e objetos de arte que s os 
super-ricos, capazes de avareza em pequenas coisas, podiam adquirir. Imaginem s! Minha av
#302
comprando peas de tafet por preos de
atacado, apenas para economizar alguns mseros dlares - quando podiam comprar tudo o que existia de melhor para decorar a casa e possuam milhes de dlares!
    Foi fcil encontrar a biblioteca. Lies aprendidas em idade tenra e condies miserveis no se esquecem com facilidade. Oh! que biblioteca! A cidade de Clairmont 
no possua uma biblioteca com tantos livros bons, raros e bem encadernados! Havia um retrato de Bart sobre a magnfica mesa de trabalho que pertencera a meu av. 
Muitos detalhes indicavam que Bart usava freqentemente a sala como escritrio e, tambm, para fazer companhia  sogra. Seus macios chinelos de couro marrom estavam 
sob uma confortvel poltrona perto da imensa lareira de pedra, cujo aparador tinha pelo menos seis metros de comprimento. Portas duplas envidraadas se abriam para 
um terrao de frente para um jardim formal, com uma fonte jorrando gua num bebedouro de pssaros formado por degraus de pedra, pelos quais a gua escorria aos poucos 
at um pequeno lago. Um local gostoso e ensolarado onde um invlido poderia sentar-se abrigado contra o vento.
     Afinal, vi o bastante para satisfazer minha curiosidade alimentada durante anos. Encaminhei-me para a macia porta na parede dos fundos da biblioteca. Alm 
daquela porta fechada, estava a av-bruxa. Rpidas lembranas dela passaram-me de relance pela mente. Vi-a mais uma vez como na primeira
em que chegamos, erguendo-se sobre ns como uma torre, o corpo grosso, robusto, poderoso, os olhos duros e cruis que nos estudaram sem o menor vestgio de simpatia 
ou compaixo para quatro rfos de pai, que tanto haviam perdido; ela nem mesmo nos dirigiu um sorriso de boas-vindas ou
acariciou os rostos rechonchudos dos gmeos, to lindos aos cinco anos de idade.
     Vi tambm a segunda noite, quando a av obrigou nossa me a exibir-nos as costas nuas, marcadas por verges vermelhos e sangrentos. Antes mesmo de nos mostrar 
o horrvel espetculo, ela agarrara Carrie pelos cabelos e Cory se jogara contra ela, tentando inflingir-lhe alguma dor com o pequeno sapato branco que desferia 
caneladas e com dentes que procuravam mord-la. Mas a
av o jogara longe com um nico e poderoso tapa. Tudo porque o menino tentara defender a sua querida irm gmea, que chorava e berrava.
     Ento, revi-me diante do espelho, totalmente despida - e o castigo aplicado pela av fora o mais impiedoso e desalmado: tentar despojar-me daquilo que eu mais 
admirava - meus cabelos. Chris passara um dia inteiro lutando para livrar-me do piche que ela derramara em meus cabelos e evitar que eu fosse obrigada a cort-los. 
Em seguida, duas semanas inteiras sem alimentos ou leite! Sim! A av merecia rever-me! Exatamente como eu jurara, no dia em que ela me surrara, que ainda surgiria 
uma ocasio, no futuro, em que ela fosse a indefesa e eu a que empunhava a chibata e estaria em condies de priv-la de alimentos!
     Oh! que doce ironia: ela se deleitara ao ver o marido morto e, agora, jazia na mesma cama que ele, ainda mais indefesa - e sozinha! Despi meu pesado capote 
de inverno, sentei-me para descalar as botas e, depois, calcei s sapatilhas de cetim branco. Usava #303
malha branca, o bastante transparente para
mostrar minha pele rosada. Soltei os cabelos, que me caram ao longo das costas numa luxuriante cascata de ondas douradas. Agora, ela admiraria e invejaria os cabelos 
que o piche, afinal, no conseguira estragar.
   Apronte-se, Av! Aqui vou eu!
     Silenciosamente, com grande cautela, aproximei-me da porta. Ento, abri-a com todo o cuidado. A av jazia, de olhos fechados, na alta cama de hospital. O sol 
que penetrava pela janela incidia-lhe no rosado e brilhante couro cabeludo, revelando que ela era quase totalmente calva. Oh!
como parecia envelhecida! Magra, abatida, to menor que antes! Onde estava a mulher gigantesca que eu conhecera? Por que no usava um vestido de tafet cinzento 
e proferia ameaas? Por que tinha que me causar pena?
     Endureci o corao, expulsando dele a piedade, pois ela jamais tivera pena de ns. Aparentemente, estava  beira do sono; entretanto, quando a porta se abriu, 
seus olhos tambm se abriram lentamente. Ento,
esbugalharam-se. A av me reconhecera. Seus lbios finos e enrugados estremeceram.
Estava com medo! Glria, aleluia! Minha vez chegara! No obstante, parei junto  porta, abismada. Viera exercer vingana, mas o tempo me pregara uma pea! Por que 
a av no era o monstro de que eu lembrava? Eu a queria como fora antes, no o que era agora: uma velha doente e calva, com o couro
cabeludo  mostra, os poucos cabelos que ainda lhe restavam puxados para cima e atados no topo da cabea com um lao de cetim cor-de-rosa. O lao dava-lhe uma aparncia 
simultnea de ogre e criana; mesmo reunidos como estavam, os fios de cabelo restantes formavam uma mecha mais fina que meu dedo mnimo - apenas um pequeno tufo, 
como os pelos de um gasto pincel para
pintura em aquarela.
     Outrora, a av tinha um metro e oitenta de estatura, pesava mais de cem quilos e seus enormes seios pareciam montes de concreto. Agora, aqueles mesmos seios 
pendiam como meias vazias e murchas, chegando-lhe ao abdomem inchado. Os braos pareciam secos como gravetos velhos, as mos
esquelticas com os tendes aparecendo, os dedos ossudos e nodosos. Ainda assim,
enquanto nos encarvamos em total silncio e o pequeno despertador marcava com seu tique-taque o correr dos segundos, a velha e desprezvel personalidade da av 
inflamou-se para revelar-me sua fria. Tentou falar para
expulsar-me. Se pudesse, ela gritaria: "Saia de minha casa, filha do Demnio! Fora, fora! Fora, filha do Demnio!" Mas ela no conseguiu pronunciar uma s palavra.
     Eu, pelo contrrio, pude cumpriment-la com amabilidade:
   - Boa-tarde, querida Av. Que prazer tenho em rev-la. Lembra-se de mim? Sou Cathy, um dos netos que voc ajudou a ocultar e todos os dias nos levava comida numa 
cesta de piquenique. Chegava l todos os dias, s seis e meia da manh, com uma enorme garrafa trmica de leite e outra menor com sopa morna - e sopa de lata, ainda 
por cima. Por que no nos levou ao menos uma vez um pouco de sopa quente? Era de propsito que s esquentava a sopa at ficar morna?
#304
    Entrei no quarto e fechei a porta. S ento ela viu a vara de salgueiro que eu tivera o cuidado de esconder s costas.
     Com a maior naturalidade, bati com a vara na palma da outra mo, dizendo baixinho:
    - Av, lembra-se do dia em que surrou nossa me? E de como a obrigou a despir-se diante do pai e deu-lhe uma surra de vara? E ela adulta, me de quatro filhos... 
Um ato vergonhoso, maldoso, pecaminoso, no concorda?
    Os olhos aterrorizados da velha estavam grudados  vara. Travava-se em seu crebro uma luta terrvel... e eu me sentia satisfeita, muito satisfeita, por Bart 
haver-me informado de que ela no estava senil. Olhos cinzentos, desbotados e midos, avermelhados e cercados por p-de-galinha, parecendo cortes que jamais cicatrizavam 
nem sangravam. Lbios finos e retorcidos, agora
murchos e midos, semelhantes a uma pequena casa de boto da qual se irradiavam profundas rugas sob o nariz comprido e adunco, numa teia de linhas que se cruzavam. 
E, por incrvel que parea, a gola alta e severa da camisola amarela de algodo estava fechada com o mesmo broche de brilhantes! Eu
jamais vira a av sem o broche na gola de seus vestidos de tafet cinzento, com golas debruadas de croch branco.
     Prossegui num tom de cntico religioso:
   - Av, lembra-se dos gmeos? As queridas crianas de apenas cinco anos que voc atraiu a esta casa e nunca lhes pronunciou os nomes enquanto aqui permaneceram? 
Nem os deles, nem os nossos. Cory morreu e voc sabe; por acaso, porm, minha me no lhe contou a respeito de Carrie? Pois Carrie
tambm morreu. No cresceu at a altura normal porque foi privada de sol e ar livre durante os anos que deles mais necessitava para desenvolver-se de modo saudvel. 
Chris e eu subamos ao telhado, onde nos sentvamos para tomar sol, mas os gmeos tinham pavor da altura. Voc sabia que eu e Chris saamos para l e ficvamos horas 
seguidas ao sol?... No; percebo que ainda no sabia disso.
    Ela se mexeu um pouco, dando a impresso de querer afundar-se no colcho fino. Deliciei-me observando-lhe o medo; alegrei-me por notar que podia mover-se um 
pouco. Agora, seus olhos eram como os meus tinham sido naquela poca remota: vidraas que revelavam todas as emoes e terrores que
lhe ferviam no ntimo - e ela no podia gritar por socorro! Estava  minha merc.
    - Lembra-se da segunda noite, querida, amvel e carinhosa Av? Voc levantou Carrie do cho pelos cabelos, sabendo que aquilo doa. Mesmo assim, foi o que fez. 
Depois, atirou Cory longe com um tapa, sabendo que aquilo tambm doa e que ele estava apenas querendo proteger a irm gmea. Pobre
Carrie, como sofreu por causa de Cory. Jamais se recobrou da morte do irmo;
nunca deixou de sentir-lhe a falta. Conheceu um bom rapaz chamado Alex. Apaixonaram-se e iam casar-se, quando ela descobriu que ele pretendia ser pastor protestante. 
Carrie ficou abalada. Compreenda: voc incutiu em ns o medo de gente religiosa. Um medo profundo. No dia em que Alex anunciou a
inteno de tornar-se pastor, Carrie mergulhou numa depresso desesperada, pois
#305
aprendeu a lio que voc nos ensinou to bem. Voc nos convenceu de que ningum jamais consegue ser bastante perfeito para satisfazer a Deus. Algo adormecido despertou 
no dia em que Carrie ficou enfraquecida pelo choque, depresso e falta de coragem para prosseguir. Agora, oua bem o que ela fez -
por causa de voc! Porque voc incutiu no seu crebro infantil a idia de que ela nascera m e seria pecaminosa por mais que se esforasse para ser boa! Carrie acreditava 
em voc! Cory morrera. Carrie sabia que ele tinha morrido por causa do arsnico colocado nas roscas aucaradas... Portanto, quando Carrie se sentiu incapaz de enfrentar 
a vida e encarar todas as pessoas que exigem perfeio, comprou veneno para ratos! E comprou tambm um pacote de roscas aucaradas, enchendo-as de arsnico do veneno 
de ratos! Comeu todas as roscas, menos uma - e at mesmo esta tinha uma marca de dentada. Agora... afunde-se nesse colcho e tente fugir da culpa que lhe cabe! Voc 
e
minha me mataram Carrie tanto quanto mataram Cory! Eu a odeio e desprezo, velha!
     No lhe disse que odiava ainda mais minha me. A av jamais gostara de ns; portanto, qualquer coisa que ela nos fizesse j era de se esperar. Nossa me, porm, 
nos dera  luz, cuidara de ns, amara-nos enquanto nosso pai era vivo - era um caso muito diferente: uma verdadeira estria de horror! E sua vez tambm chegaria!
    - Sim, Av, Carrie tambm est morta, porque desejava morrer do mesmo modo que ele e encontr-lo no cu!
    Ela apertou as plpebras e um leve tremor agitou as cobertas. Deleitei-me.
     Retirei de trs das costas minha caixinha preta contendo longos fios de cabelo de Carrie, que eu levara horas para arrumar e escovar at formarem uma comprida 
e brilhante mecha dourada. Amarrara uma das pontas com um lao de cetim vermelho e a outra com um lao roxo.
    - Veja bem, velha: isto aqui  parte dos cabelos de Carrie. Tenho outra caixa cheia de fios soltos e embaraados, pois no consigo suportar a idia de perd-los. 
Guardei-os no apenas para mim e Chris, como tambm para mostr-los a voc e nossa me... pois vocs duas mataram Carrie, com tanta
certeza quanto mataram Cory!
    Oh! eu estava quase louca de dio. A vingana me brilhava nos olhos, na raiva, fazendo-me tremer as mos. Revi Carrie em seu leito de morte, envelhecendo, murchando, 
com os ossos salientes at ficar reduzida a um pequeno esqueleto coberto por pele solta e plida, to transparente que permitia ver as veias - e os restos mortais 
que precisaram ser rapidamente lacrados num
caixo metlico para evitar o cheiro de apodrecimento.
    Aproximei-me mais da cama e exibi a mecha de cabelos dourados com as fitas de cores berrantes diante dos olhos muito abertos e amedrontados da velha.
    -  No so lindos cabelos, velha? Alguma vez teve cabelos to belos e fartos? No! Eu sei que no! Nada em voc poderia ser lindo algum dia! Nem mesmo em sua 
juventude! Eis o motivo pelo qual tinha tanto cime da 
#306
madrasta de seu marido - declarei, rindo ao v-la tentar esquivar-se. - Sim, querida
Av, hoje sei muito mais a seu respeito do que sabia outrora. Seu genro me revelou todos os segredos de famlia que a esposa lhe contou. A esposa dele, minha me. 
O seu marido, Malcolm, apaixonou-se pela esposa mais moa do pai, dez vezes mais bonita e bondosa do que voc! Portanto, quando Alicia
teve um filho, voc desconfiou que o Pai era seu prprio marido e por isso odiava a criana, que veio a ser nosso pai. Por isso mandou busc-lo, induzindo-o a acreditar 
que aqui encontraria um bom lar. Educou-o, deu-lhe tudo do melhor, a fim de que ele tomasse o gosto de uma vida boa e rica, desapontando-se ainda mais quando voc 
o enxotasse daqui e no lhe legasse um msero
centavo. Mas, em vez disso, meu pai lhe passou a perna, no foi? Roubou-lhe sua
filha nica, a quem voc tambm detestava, porque o pai gostava mais dela do que de voc. Assim, o meio-tio se casou com a meia-sobrinha. No obstante, voc estava 
enganada quanto a Malcolm e Alicia, pois a me de meu pai desprezava Malcolm! Afastou-o de si repetidas vezes; portanto, o beb que ela
teve no era filho de Malcolm, o seu marido! Embora tivesse sido, se Malcolm conseguisse fazer prevalecer sua vontade! 
    A av fitou-me inexpressivamente, como se o passado j no importasse, agora. S o presente interessava - e a vara em minha mo.
    - Agora, velha, vou dizer-lhe uma coisa que voc precisa saber: jamais nasceu um homem to bom como meu pai ou existiu uma mulher to honrada como a me dele. 
Contudo, no fique a deitada pensando que herdei
alguma das boas qualidades de Alicia ou de meu pai, pois sou igual a voc! Desalmada! Nunca esqueo, nunca perdo! Odeio-a por ter matado Cory e Carrie! Odeio-a 
por fazer de mim o que sou!
    Gritei as ltimas frases, descontrolada, esquecendo-me da enfermeira que cochilava no corredor. Tive vontade de obrigar a velha a engolir punhados de arsnico 
e sentar-me para v-la morrer e apodrecer diante de meus olhos, como ocorrera com Carrie. Fiz piruetas pelo quarto para aliviar minha tenso e frustraes, erguendo 
bem as pernas, exibindo o corpo bem conformado e
jovem. Depois, parei diante da velha e vociferei:
    - Durante todos aqueles anos em que nos manteve prisioneiros, voc nunca pronunciou nossos nomes, nunca olhou para Chris porque este era a imagem viva de nosso 
pai - e tambm do seu marido quando jovem, antes de
voc torn-lo to mau quanto voc mesma. Joga a culpa de tudo que est errado sobre os ombros de seres humanos com almas ruins e ignora a verdade. Dinheiro  o rei 
que impera nesta casa!  o dinheiro que faz as piores coisas acontecerem! Malcolm casou-se com voc por dinheiro - e voc sabe! E foi a
ambio que nos trouxe a esta casa, trancou-nos l em cima e roubou-nos trs anos e quatro meses de nossas vidas, colocando-nos  sua merc. Contudo, voc jamais 
teve piedade de ns, seus nicos netos. Nunca a emocionamos, no  mesmo? Embora tenhamos tentado, no comeo. Lembra-se?
     Pulei para cima da cama, batendo nela com a mecha de cabelos de Carrie. Um chicote macio, que no machucava - e, mesmo assim, ela fez um esforo para encolher-se. 
Ento, joguei os preciosos cabelos de Carrie na
#307
mesinha de cabeceira e brandi a vara diante de seus olhos. Dancei e rodopiei em cima da cama, sobre o corpo rgido da velha, exibindo-lhe minha grande agilidade, 
meu cabelo comprido e solto abrindo-se num crculo dourado.
    - Lembra-se de como castigou nossa me antes de passarmos a detest-la tambm?  um dbito que precisamos liquidar - declarei, postando-me de pernas abertas 
sobre o corpo escondido pelas cobertas. - Devo-lhe isso, da nuca aos calcanhares, sem falar nas chibatadas que voc aplicou em Chris e em
mim. Tambm isso eu lhe devo. E todas as outras coisas, pois trago cada uma delas gravada na lembrana. No lhe jurei que ainda chegaria o dia em que eu empunharia 
a vara e haveria na cozinha alimentos que voc jamais provaria? Bem... esse dia chegou, Av!
    Os olhos cinzentos afundados no rosto abatido faiscavam de dio, maliciosos e implacveis, desafiando-me a agredi-la - desafiando-me.
    - O que farei primeiro? - indaguei, como se falasse comigo mesma. - Ser a vara ou piche derretido em seu cabelo? Que prefere, velha? Sempre tive a curiosidade 
de saber onde voc conseguiu o piche. Planejou tudo com antecedncia e aguardou a oportunidade de us-lo? Confessarei agora algo que voc ignora: Chris nunca me 
cortou o cabelo todo, mas apenas a franja, a fim de iludi-la e lev-la a pensar que eu tinha raspado completamente a cabea. Por baixo daquela toalha, enrolada em 
minha cabea, estava todo o cabelo comprido que ele salvou. Sim, velha, o amor evitou que meus cabelos fossem
cortados. Chris me amava o bastante para passar muitas horas a fio salvando o
mximo possvel de meu cabelo. Isso  mais amor do que voc j conheceu. E de um irmo!
    Ela produziu um som estrangulado no fundo da garganta. O quanto desejei que conseguisse falar!
    - Querida Av - provoquei, com as mos nos quadris, debruando-me para observ-la melhor -, por que no me conta onde arranjou o piche? No consegui encontrar 
vestgios. No havia por perto obras de construo ou
reparos de estradas. Como no h no momento. Portanto, creio que serei obrigada a usar cera derretida. Voc poderia ter usado cera quente, pois surtiria o mesmo 
resultado. No pensou em derreter algumas de suas inmeras velas? - indaguei com um sorriso que eu esperava parecer ameaador. - Oh! querida
Av, como voc e eu nos divertiremos! E ningum saber, pois voc no pode falar nem escrever. S pode permanecer deitada e sofrer.
     No gostei de mim mesma, do que dizia nem do que fazia ou sentia. Minha conscincia pairava perto do teto, observando  envergonhada a exploso de fria que 
eu constitua metida na justa malha branca de bal. Espantada, sentia piedade daquela velha que j sofrera dois derrames cerebrais - contudo, a mulher em p sobre 
a cama era uma segunda verso de mim mesma: uma Foxworth m, violenta e vingativa, com olhos azuis to frios e duros quanto os cinzentos olhos da velha, estendida 
a meus ps. De repente, abaixei-me cruelmente, arrancando o cobertor e o lenol que a protegiam, deixando-a descoberta. Ela usava um tipo de camisolo de hospital, 
aberto apenas nas
costas. Um traje esquisito, com o  incongruente broche de brilhantes no 
#308
pescoo. Sem dvida, o broche seria pregado  roupa com que ela iria para a sepultura.
    Nua. Tinha que ficar nua, como obrigara Mame, Chris e eu tambm. Tinha que passar pela humilhao de ficar despida enquanto olhos cheios de desprezo obriga-la-iam 
a encolher-se, a tornar-se ainda menor. Sem a menor piedade, agarrei a bainha do ordinrio traje de algodo barato e, livre de
qualquer escrpulo, empurrei-o para cima, at as axilas. Tive o cuidado de afastar
as dobras amarrotadas que lhe cobriam parcialmente o rosto, pois no queria
perder a oportunidade de ver o mais leve sinal de expresso que ela pudesse mostrar. Em seguida, estudei-lhe o corpo com o mesmo ar de zombaria e repulsa que ela 
imprimira aos olhos maus e lbios finos quando eu tinha apenas quatorze anos e ela me apanhara de surpresa fitando-me no espelho,
admirando a beleza de um corpo que eu nunca antes vira despido.
     O corpo jovem  uma coisa bela... agradvel de olhar - os contornos suaves e firmes, a pele imaculada, os msculos geis e rijos. Oh! mas a velhice! O que antes 
foram dois cones de concreto eram agora dois beres flcidos que caam at a barriga, os bicos bem embaixo, grandes, escuros, manchados e encaroados. As veias azuis 
dos seios destacavam-se como cordas finas sob uma capa transparente. A brancura pastosa da pele era enrugada, marcada pelas estrias da gravidez; uma longa cicatriz 
do umbigo at o monte de Vnus quase desprovido de pelos revelava que ela fora submetida a uma histerectomia ou a uma cesariana. Uma cicatriz antiga, plida e mais 
brilhante que a pele branca, flcida e enrugada que a cercava. As pernas compridas e magras pareciam velhos galhos retorcidos de uma rvore cansada. Suspirei... 
Algum dia eu
ficaria assim?
     Impiedosa, sem preocupao com delicadeza, rolei-a de bruos e puxei-a
para o meio da cama. Durante o tempo todo, eu tagarelava a respeito dos comentrios que Chris e eu trocvamos quanto a ela pregar ou colar a roupa ao corpo e, naturalmente, 
jamais despir as roupas de baixo a menos que se trancasse num armrio com a luz apagada. As costas da velha apresentavam menos desgaste que a frente, embora suas 
ndegas fossem chatas, flcidas e brancas demais.
    - Agora, Av, vou aoit-la - declarei em tom inexpressivo, tendo perdido o gosto da vingana. - H muitos anos prometi que o faria caso tivesse oportunidade 
e hoje cumprirei a promessa!
    Fechando os olhos e rogando a Deus que me perdoasse o que estava prestes a fazer, levantei o brao e depois baixei a vara de salgueiro com toda a fora nas ndegas 
nuas da velha!
     Ela estremeceu, deixando escapar um som da garganta. Ento, deu a impresso de mergulhar na inconscincia. Relaxou-se tanto que esvaziou a bexiga. Comecei a 
chorar, emitindo soluos terrveis ao correr para o banheiro anexo  procura de um pano e sabo. Voltei correndo, com papel higinico para limp-la. Em seguida, 
lavei-a e apliquei uma pomada no feio vergo deixado pela vara.
#309
     Virei-a na cama, ajeitando o camisolo de modo a cobri-la decentemente. S ento preocupei-me em verificar se estava viva ou morta. Seus olhos cinzentos, abertos, 
fitavam-me sem expresso, enquanto as lgrimas escorriam pelo meu rosto. Depois, lentamente, enquanto eu continuava a soluar, os olhos dela comearam a brilhar 
numa muda expresso de triunfo! Sem emitir um som, ela dizia: Covarde! Eu sabia que voc no passava de uma moleirona fraquejante! Falta-lhe deciso, coragem! Mate-me. 
Vamos, mate-me! Eu a desafio: vamos logo - mate-me de uma vez!
    Pulei da cama e corri para a biblioteca, passando para a primeira sala de visitas que encontrei. Num frenesi de fria, agarrei o primeiro castial ao meu alcance, 
mas no achei fsforos! Voltei  biblioteca, procurando na mesa de trabalho usada por Bart. Ele fumava; portanto, deveria ter fsforos ou isqueiro. Encontrei fsforos 
de propaganda distribudos por uma discoteca local.
     As velas tinham cor de marfim, distintas e elegantes como a manso. Agora, os olhos de ao da velha exprimiam terror. Ela queria aquele tufo de cabelos ralos 
atados com a fita cor-de-rosa. Acendi uma vela, deixei-a queimar um pouco e, depois, segurei-a obliquamente sobre a cabea da av, de modo
que a cera quente e derretida escorreu, gota a gota, em seu cabelo e couro cabeludo. Deixei cair seis ou sete gotas, antes de no conseguir mais suportar aquilo. 
Ela estava certa: eu era covarde, no conseguia fazer com ela o que fora feito por ela conosco. Eu era uma Foxworth de pai e me; no obstante,
Deus alterara o molde e eu no cabia nele.
     Apaguei com um sopro a vela cor de marfim e recoloquei-a no castial.
     S quando cheguei ao salo de bailes lembrei-me da mecha de cabelos de Carrie. Voltei correndo para apanh-la. Encontrei a av na mesma posio em que a deixara, 
s que ela virara a cabea e duas grandes lgrimas brilhantes apareciam em seus olhos, que fitavam a mecha dos belos cabelos de Carrie. Ah! Agora eu estava realmente 
vingada!

    Bart passava mais tempo em meu pequeno chal que em sua imensa manso. Cobria-me de presentes - e fazia o mesmo com meu filho. Quando no passava o dia no escritrio 
- que eu desconfiava tratar-se mais de uma fachada para aparentar utilidade do que realmente um escritrio de advocacia - ele tomava caf da manh, almoava e jantava 
conosco. Minha escola de bal sofria financeiramente o resultado de tais atenes, mas no fazia diferena. Agora eu era uma mulher sustentada - paga para ser amante 
de Bart.
     Jory adorou as botinhas de couro que Bart lhe deu.
   - Voc  meu papai? - indagou meu filhinho, que completaria quatro anos em fevereiro.
    - No, mas bem gostaria de ser... ou poder ser.
    To logo Jory saiu para o jardim, pisando com fora e fitando os ps, que agora o fascinavam por causa das botas de cowboy, Bart virou-se para mim e se deixou 
cair fatigadamente numa poltrona.
    - Voc nem poderia imaginar o que aconteceu l em casa. Algum sdico idiota derramou cera derretida no cabelo de minha sogra, alm de lhe deixar nas ndegas 
um 
#310
feio vergo que no cicatriza. A enfermeira no sabe explicar. Interroguei Olivia, a fim de saber se foi algum que ela conhece, ou
algum dos criados, mas ela piscou os olhos duas vezes, querendo dizer no. Piscar uma vez significa sim. Estou furioso! Deve ter sido um dos criados, embora eu no 
consiga entender por que motivo algum seria to cruel a ponto de torturar uma velha indefesa, incapaz de fazer o menor movimento para proteger-se; contudo, Olivia 
se recusa a confirmar o nome de qualquer pessoa
que lhe mencionei. Prometi a Corrine cuidar bem de sua me e agora esta tem as ndegas em carne viva, de modo que  obrigada a permanecer deitada de bruos duas 
a quatro horas por dia e ser virada na cama durante a noite.
    - Oh! - exclamei, sentindo-me um pouco doente. - Que horror! Por que a ferida no cicatriza?
    - A circulao  deficiente. Teria que ser, no  mesmo, j que ela no pode movimentar-se normalmente?
    De repente, Bart exibiu-me um sorriso brilhante, como o sol surgindo aps uma tempestade.
    - No se preocupe, querida. O problema no  seu;  meu - e dela, naturalmente.
    Estendeu os braos para mim e apressei-me a aninhar-me neles. Bart beijou-me ardentemente antes de carregar-me para o meu quarto. Depositou-me na cama e comeou 
a despir-me.
    - Eu seria capaz de torcer o pescoo do maldito que fez aquilo com Olivia! - exclamou.
    Permanecemos abraados aps fazermos amor, escutando o vento mesclar-se ao riso agudo de Jory que corria atrs do poodle de brinquedo que Bart lhe dera. Os primeiros 
flocos de neve comeavam a cair. Eu sabia que teria que levantar-me logo, para que Jory no entrasse de repente e nos
surpreendesse na cama, s para informar-nos de que estava nevando. O menino no se recordava de ter visto neve anteriormente e mal o solo ficasse recoberto de branco, 
desejaria construir um boneco de neve. Primeiro suspirei, depois beijei Bart e, afinal, libertei-me com relutncia de seu abrao. Dei-lhe as costas numa atitude 
recatada, a fim de vestir as calcinhas tipo biquini, enquanto ele se apoiava num cotovelo a fim de observar-me.
   - Voc possui um lindo traseiro - comentou.
     Agradeci o elogio, acrescentando:
   - Que tal minha parte da frente?
   Bart replicou que no era das piores. Atirei-lhe um sapato.
   -  Cathy, por que nunca diz que me ama?
   Girei nos calcanhares, espantada.
   - Voc alguma vez me disse a mesma coisa a srio? - retruquei, abotoando um minsculo suti.
   - Como pode saber se no falo srio? - indagou ele, zangado.
   - Permita-me explicar como sei. Quando a gente ama, quer a pessoa amada ao nosso lado durante todo o tempo. Quando voc evita o assunto de divrcio, isto constitui, 
por si, #311
uma indicao do quanto voc me ama e do
que significo em sua vida.
    - J foi muito magoada, no  mesmo, Cathy? No quero que sofra ainda mais. Voc brinca comigo; sei disso. Que diferena faz tratar-se apenas de sexo e no de 
amor? E ensine-me a distinguir onde um acaba e o outro comea.
   Suas palavras zombeteiras foram como uma faca em meu corao, pois, de algum modo, sem desejar que isto acontecesse, eu me apaixonara loucamente por ele, como 
uma idiota.

    Segundo o entusistico relato de Bart, sua esposa - ausente havia tanto tempo - regressara da longa viagem de rejuvenescimento parecendo devastadoramente jovem 
e bela.
    - Perdeu dez quilos! Juro que aquela plstica no rosto surtiu resultados
sensacionais, maravilhosos! Ela est linda e - que diabo! - incrivelmente parecida com voc!
    Era fcil ver o quanto ele se impressionara com a nova esposa, de aparncia mais jovem; e se tencionava apenas tirar o vento de minhas velas por demais enfunadas, 
no dei a perceber que conseguia faz-lo. Em seguida, afirmou que tinha tanta necessidade de mim como antes - num tom que
desmentia o sentido das palavras.
    - Cathy, ela mudou enquanto esteve no Texas. Voltou a ser como outrora: a mulher suave, carinhosa, com quem me casei.
    Homens! Como eram crdulos! Era evidente que minha me seria mais delicada e carinhosa com Bart - agora, que sabia que ele possua uma amante facilmente acessvel 
e que esta era a prpria filha dela. Tinha que saber, pois os mexericos corriam pela cidade. Todo mundo sabia.
    - Neste caso, por que voc est aqui comigo, quando sua esposa regressou to semelhante a mim? Por que no se veste, diz adeus e nunca mais volta  minha casa? 
Diga que foi bom enquanto durou, mas agora est terminado; ento, eu lhe agradecerei os maravilhosos momentos que me proporcionou,
antes de lhe dar um ltimo beijo de despedida.
    - Bem - disse Bart, arrastando ainda mais o sotaque sulino, enquanto me puxava ainda mais de encontro ao seu corpo despido. - Eu no disse que ela est to sensacional. 
Alm disso, voc possui algo de especial que no consigo definir nem compreender o que seja. Mas o fato  que no sei se poderei
viver sem voc de agora em diante.
    Falou srio, com a verdade estampada nos olhos escuros.
    Eu vencera - vencera!

    Por mero acaso, certo dia minha me e eu nos encontramos na agncia postal. Ela me avistou e estremeceu. Sua bela cabea ergueu-se ainda mais quando ela se virou 
um pouco para o outro lado, fingindo no me conhecer. Renegar-me-ia como renegara Carrie, muito embora fosse to bvio sermos
me e filha, no duas desconhecidas. Mas eu no era Carrie. Portanto, tratei-a como ela #312
me tratou - com indiferena, como se ela nunca tivesse sido para mim uma pessoa especial e nunca mais pudesse voltar a s-lo. No obstante, enquanto eu esperava 
impaciente pela minha folha de selos, percebi que os olhos de minha me lanavam olhares para acompanhar os incessantes
movimentos de meu filhinho, que sentia necessidade de olhar para tudo e para todos. Era um menino lindo, gracioso e encantador, que atraa a ateno de todas as 
pessoas; estas paravam para admir-lo e acariciar-lhe os cabelos. Virando-se, ele notou o prolongado olhar de minha me e sorriu para ela.
    - Ol - cumprimentou-a. - Voc  bonita... como minha mame.
    Oh! as coisas que as crianas diziam! Que conhecimento instintivo possuam, percebendo prontamente o que as pessoas tentavam instintivamente no admitir. Jory 
aproximou-se hesitante de minha me e estendeu o brao para tocar-lhe o casaco de peles.
   - Minha mame tem um casaco de peles. Ela  bailarina. Voc tambm dana?
   Ela suspirou; prendi a respirao. Veja, Mame: eis a o neto que seus braos jamais seguraro. Voc nunca o ouvir pronunciar seu nome... Nunca!
   - No - sussurrou ela. - No sou bailarina.
     Tinha os olhos marejados de lgrimas.
   - Minha mame pode ensinar voc a danar.
   - J sou velha demais para aprender - murmurou ela, recuando.
    - No , no - insistiu Jory, tentando pegar-lhe a mo como se quisesse mostrar o caminho.
    Mas ela recuou a mo, lanou-me um olhar, ficou muito vermelha e depois abriu a bolsa para pegar um leno.
    - Voc tem um filho pequeno para brincar comigo? - quis saber Jory, preocupado ao ver-lhe as lgrimas, como se o fato de ter um filho compensasse no ser bailarina.
    - No - replicou ela num sussurro trmulo. - No tenho filhos.
    Foi ento que me interpus para declarar em tom spero:
    - Determinadas mulheres no merecem ter filhos.
    Peguei meus selos e guardei-os na bolsa.
    - Algumas mulheres como a senhora, Sra. Winslow, preferem ter dinheiro ao incmodo causado por filhos que podem atrapalhar muitos momentos de diverso. O prprio 
tempo lhe mostrar, mais cedo ou mais tarde, se a
sua deciso foi correta.
    Ela me voltou as costas e tornou a estremecer, como se todos aqueles agasalhos de pele fossem insuficientes para proteg-la do frio. Ento, saiu da agncia postal 
e se encaminhou para uma grande limusine preta dirigida por um chofer. Partiu como uma rainha, de cabea erguida. Jory perguntou:
    - Mame, por que voc no gosta daquela moa linda? Gosto muito dela.  parecida com voc... mas no to linda.
    Preferi no fazer comentrios, embora tivesse na ponta da lngua algo to feio que ele jamais esqueceria.
#313
    No crepsculo daquela tarde, sentei-me perto das janelas, olhando para Foxworth Hall e imaginando o que Bart e minha me estariam fazendo. Cruzei as mos sobre 
a barriga ainda chata, mas que logo comearia a dilatar-se com a criana que talvez tivssemos gerado. A ausncia de um perodo
menstrual nada provava - exceto que eu desejava um filho de Bart e procurava ter
certeza, atravs de pequenos detalhes, de que realmente estava grvida. Permiti que a depresso viesse apoderar-se de mim. Bart jamais abandonaria minha me e sua 
fortuna para casar-se comigo e eu teria outro filho sem pai. Que tola eu fora ao iniciar tudo aquilo... Mas, de todo modo, eu sempre fora uma tola.
    Ento, avistei um homem que se esgueirava atravs do bosque, vindo em minha direo, Sorri e recobrei a confiana em mim mesma, Ele me amava! De verdade!... 
E to logo eu tivesse certeza absoluta de seu amor, contar-lhe-ia que estava por ser pai.
    O vento entrou no chal quando Bart abriu a porta, derrubando a jarra de flores de cima da mesa. Levantei-me e fiquei olhando para os cacos de cristal e ptalas 
soltas espalhados pelo cho. Por que o vento estava sempre querendo dizer-me alguma coisa? Algo que eu no desejava escutar!

Preparando o Baralho

    - Cathy, voc disse que no precisvamos tomar precaues.
    - E no havia necessidade. Quero ter um filho seu.
    - Quer um filho meu? Que diabo pensa que poderei fazer - casar-me com voc?
     - No. Fiz minhas prprias previses. Presumi que voc se divertiria  vontade comigo e, quando tudo terminasse, voltaria  sua esposa para ter outra parceira 
em suas brincadeiras. Nesse caso, eu teria exatamente o que sempre desejei desde o incio: um filho seu. Agora, posso cair fora. D-me um beijo de despedida, Bart, 
considerando-me apenas outra dentre suas muitas aventuras extraconjugais.
    Ele pareceu furioso. Estvamos na minha sala de visitas e uma violenta tempestade uivava l fora. A neve empilhava-se em montes que atingiam a altura dos peitoris 
das janelas e eu me acomodara diante da lareira, tricotando um agasalho de beb. Estava prestes a terminar um ponto de tric quando Bart arrancou-me tudo das mos 
e jogou num canto da sala.
    - Vai desfiar! - protestei, desanimada.
    - Que diabo est querendo fazer comigo, Cathy? Sabe que no posso me casar com voc! Nunca lhe menti e disse o contrrio. Voc est fazendo algum jogo comigo!
#314
    Engasgou-se, cobriu o rosto com as mos, depois recomps-se e implorou:
    - Eu a amo. Deus me perdoe, mas  verdade. Quero voc sempre perto de mim. E meu filho tambm. Que tipo de jogo voc faz agora?
    - Apenas o jogo de uma mulher: o nico jogo que ela pode fazer e ter certeza de vencer.
    - Oua - ponderou Bart, procurando reassumir o controle da situao. - Explique exatamente o que quer dizer; no me venha com frases de duplo sentido. Nada precisa 
mudar porque minha mulher regressou. Voc
ocupar sempre um lugar em minha vida e...
    - Em sua vida? No se refere, mais corretamente,  periferia da sua vida?
    Pela primeira vez, escutei um tom de humildade na voz de Bart:
    - Seja razovel, Cathy. Eu a amo e tambm amo minha esposa. s vezes, sinto-me incapaz de separar as duas. Como j lhe contei, ela voltou diferente e, atualmente, 
 como costumava ser quando a conheci. Talvez o corpo e rosto de aparncia mais jovem lhe tenham restitudo a confiana que ela perdera e, por isso, tornou-se capaz 
de ser mais delicada. Seja qual for o motivo, sinto-me grato. Mesmo quando eu tinha raiva dela, continuava a am-la. Quando ela se mostrava detestvel, eu tentava 
desforrar-me procurando outras mulheres, mas no deixava de amar a ela. O nico motivo importante pelo qual brigamos  sua recusa em ter filhos ou mesmo adotar uma 
criana.
Naturalmente, agora j passou da idade de ser me. Por favor, Cathy, fique! No v
embora! No leve meu filho para longe, de modo que nunca saberei o que acontece com ele... ou ela... e com voc!
    Fui peremptria:
    - Muito bem. Ficarei, mas com uma condio: s divorciando-se dela e casando-se comigo voc ter o filho que sempre desejou. Do contrrio, irei embora para muito 
longe - o que significa que seu filho ir comigo. Talvez eu lhe escreva para informar se nasceu um menino ou menina, talvez no. De todo modo, depois que eu me for, 
voc estar definitivamente excludo de
minha vida. 
    Pensei com meus botes: Veja como ele se comporta! Como se o testamento no inclusse aquele codicilo que proibe sua esposa de ter filhos! Protege-a! Exatamente 
como Chris - quando, na realidade, tem que saber de
tudo. Foi ele quem redigiu o testamento. Portanto, tem que saber! 
    Bart postou-se junto  lareira, com o brao apoiado no aparador. Em seguida, descansou a testa no brao e ficou olhando para o fogo. Mantinha a mo livre s 
costas, com o punho cerrado. Seus pensamentos eram to confusos e profundos que me deixaram emocionada de pena. Ento, virou-se para
mim, fitando-me nos olhos.
    - Meu Deus! - exclamou, chocado pela descoberta. - Voc planejou tudo isto desde o incio, no foi? Veio para c a fim de cumprir um objetivo, mas qual  ele? 
Por que escolheu a mim para magoar? O que lhe fiz de mal, Cathy, seno am-la?  bem verdade que comeou com sexo e eu no queria que
#315
passasse disso, mas cresceu e transformou-se em algo muito maior e profundo. Gosto de estar a seu lado, apenas sentado e conversando, ou caminhando pelos bosques. 
Sinto-me bem na sua companhia. Gosto do jeito como voc me trata, tocando-me o rosto ao passar por mim, despenteando-me os cabelos ou beijando-me o pescoo. Gosto 
do modo suave e tmido como acorda e sorri ao ver-me a seu lado. Gosto dos jogos inteligentes que pe em prtica, sempre me mantendo na expectativa, sempre divertido. 
Tenho a impresso de possuir dez mulheres reunidas numa s e, agora, sinto que no posso mais viver sem voc. Mas no posso abandonar minha esposa e me casar com 
voc.
Ela precisa de mim!
    - Voc deveria ser ator, Bart. Suas palavras me provocam lgrimas. 
    - Maldita seja por levar-me na brincadeira! - explodiu ele. - Colocou-me num aparelho de tortura e est apertando os parafusos! No me faa odi-la, destruindo 
os melhores meses de minha vida!
    Com isso, saiu do chal num rompante de fria. Fiquei sozinha, tristonha, lamentando o fato de sempre falar demais, pois permaneceria ali enquanto Bart necessitasse 
de mim.

    Emma, Jory e eu achamos maravilhosa a idia de fazermos uma excurso a Richmond para as compras de Natal. Jory no se lembrava de ter visto Papai Noel e se aproximou 
muito temerosamente do homem de barbas brancas e roupas vermelhas que estendia os braos para encoraj-lo. Hesitante, meu filho sentou-se no colo do Papai Noel da 
loja de Departamentos Thalhimers e fitou, incrdulo, os brilhantes olhos azuis do velho, enquanto eu batia
fotografias de todos os ngulos, at mesmo engatinhando pelo cho para alcanar a posio desejada.
    Em seguida, visitamos uma loja de modas da qual eu ouvira falar, onde entreguei o desenho de um modelo criado por mim mesma. Escolhi o tom exato de veludo verde 
e, depois, o chiffon verde mais claro para a saia.
    - E faam os cordes do corpete com brilhantes de imitao... No se
esqueam: as partes esvoaantes devem atingir a altura da bainha.
    Enquanto Emma e Jory assistiam a um filme da Walt Disney, cortei o cabelo e mandei pente-lo num estilo diferente. No s o aparei, como de costume, mas pedi 
que cortassem mais curto do que eu jamais usara. O penteado caiu-me muito bem, da mesma forma que ficara muito bem em minha me quando ela o usara, havia quinze 
anos.
    - Oh! Mame! - exclamou Jory,  contristado. - Seu cabelo caiu.
    Comeou a chorar.
    - Pegue outra vez seu cabelo comprido - implorou. - Agora, voc nem parece minha mame!
    No parecia; era exatamente esse meu objetivo. No desejava parecer comigo mesma naquele Natal - no naquele Natal especial, em que eu precisava constituir uma 
duplicata exata de minha me quando eu a vira danar
pela primeira vez com Bart. Agora, finalmente, minha oportunidade se
apresentava: num vestido igual, com penteado igual e rosto mais jovem, eu me defrontaria #316
com minha me em sua prpria casa - e nos termos ditados por mim!
    Mulher a mulher - e que vencesse a melhor! Ela estaria com quarenta e oito e uma recente plstica no rosto. Eu sabia que ela ainda era muito bonita. Mas no 
poderia competir com a prpria filha, vinte e um anos mais jovem! Ri quando me observei no espelho aps vestir a nova roupa verde. Oh! sim, transformara-me no que 
ela fora: o tipo de mulher a que homem nenhum conseguiria resistir. Tinha a mesma fora e beleza que ela - e dez vezes mais inteligncia. Portanto, como poderia 
perder para ela?
    Trs dias antes do Natal, telefonei para Chris e lhe indaguei se gostaria de acompanhar-me at Richmond, pois eu esquecera algumas pequenas coisas que as lojas 
locais no tinham  venda.
    - Cathy - respondeu ele num tom frio e carregado de hostilidade. - Quando voc desistir de Bart Winslow, tornarei a v-la. Antes disso, porm, nem quero passar 
por perto de voc!
    - Est bem! - explodi - Fique onde est! Pode perder a oportunidade de vingana, mas no deixarei escapar a minha! Adeus, Christopher Doll, e espero que os percevejos 
o devorem durante a noite!
    Desliguei!
    Eu j no dava aulas de bal com a mesma freqncia que antes, mas na poca dos recitais sempre voltava ao trabalho. Meus pequenos bailarinos adoravam vestir 
as elegantes roupas de espetculo e se exibir diante dos pais, avs e amigos. Ficavam adorveis nas roupas apropriadas para o Quebra-Nozes. At mesmo Jory tinha 
dois pequenos papis para danar: o de um floco de neve e o de um bombom.
     Na minha opinio, no existia maneira mais cheia de magia para passar ao menos uma vspera de Natal que reunir a famlia para assistir a uma apresentao do 
Quebra-Nozes. E a ocasio se tornava mil vezes mais maravilhosa quando uma daquelas talentosas crianas pequenas e graciosas era o nosso
prprio filhinho, que completaria quatro anos dentro de um ms e meio. A doce infantilidade de Jory, danando no palco com tanto entusiasmo, arrancou repetidos aplausos 
da platia, que se ergueu para ovacion-lo de p ao final do solo que eu coreografara especialmente para ele.
    O melhor de tudo: eu forara Bart a jurar que obrigaria minha me a assistir ao espetculo - e eles compareceram. Fiz questo de verificar, espiando por detrs 
da cortina: no centro da primeira fila, o Sr. e Sra. Bartholomew Winslow. Bart parecia feliz; minha me, carrancuda. Portanto, eu exercia algum controle sobre Bart. 
O que ficou provado pelo enorme buqu de rosas
recebido pela professora de bal e a enorme caixa recebida pelo minsculo bailarino
que fizera o solo como floco de neve.
    - O que ser? - indagou Jory, muito corado, radiante de felicidade.
    - Posso abrir agora?
    - Claro, logo que chegarmos em casa. E amanh Papai Noel deixar uma centena de presentes para voc.
    - Por qu?
#317
    - Porque ama voc.
    - Por qu? - quis saber Jory.
    - Porque no poderia deixar de am-lo - eis a o motivo.
    - Oh!...
    Antes das cinco da manh, Jory j se levantara para brincar com o trem eltrico que Bart lhe enviara. Espalhados por toda a sala, os magnficos papis que haviam 
embrulhado centenas de presentes mandados por Paul, Henny, Chris, Bart e Papai Noel. Emma deu a Jory uma caixa de doces feitos
em casa, que ele devorou enquanto abria os outros pacotes.
    - Puxa, Mame! - exclamou. - Pensei que ficaria solitrio sem meus tios. Mas no fiquei. Estou me divertindo muito.
     Ele no ficou solitrio, mas eu fiquei. Queria Bart a meu lado, no com ela, na manso. Desejava que ele inventasse alguma desculpa para ir  farmcia e escapulir-se 
a fim de vir  minha casa. Mas tudo o que vi de Bart naquela manh de Natal foi a pulseira de brilhantes, com cinco centmetros de largura, que ele enviou junto 
a uma dzia de rosas vermelhas e um bilhete: "Eu a amo, bailarina."
    Se j existiu alguma mulher que se vestiu com mais apuro que eu naquela noite, deve ter sido Maria Antonieta. Emma chegou a reclamar que eu estava demorando 
uma eternidade. Maquilei-me como se fosse tirar uma foto do rosto para a capa de uma revista importante. Emma penteou-me o cabelo
exatamente como minha me se penteara tantos anos atrs.
    - Ondule-os suavemente, afastando-os do rosto, Emma. Depois, junte-os em cachos no alto da cabea, certificando-se de que alguns caiam at roar-me os ombros.
    Quando ela terminou, quase perdi o flego ao verificar que eu me tornara uma duplicata quase exata do que fora minha me quando eu tinha apenas doze anos! As 
mas do rosto eram realadas - como acontecera com as dela - pelo estilo do penteado. Como num sonho que eu nunca acreditara realmente tornar-se realidade, vesti 
o traje da gala com o corpete de veludo e a saia de chiffon. Tratava-se de um modelo que jamais sairia da moda. Girei diante do espelho, experimentando a sensao 
de ser minha me, com o poder que ela exercia sobre os homens, enquanto Emma observava de um canto,
cobrindo-me de elogios.
     At mesmo o perfume era o mesmo, almiscarado, com um aroma de jardim do Oriente. As sandlias eram finas correias prateadas, com saltos de dez centmetros, 
combinando com a bolsinha de prata. S me faltavam agora as jias de esmeraldas e brilhantes que ela usara. Em breve eu tambm as possuiria. Indubitavelmente, o 
destino no permitiria que ela se vestisse de verde
naquela noite. Em algum ponto de minha vida, o destino teria que estar do meu lado. Eu julgava que fosse naquela noite.
    Hoje, eu faria as surpresas e desferiria os golpes. Ela sentiria a dor de perder! Era uma pena que Chris no viesse assistir ao final de uma longa pea, que 
se iniciara no dia em que nosso pai morrera na estrada.
#318
   Lancei ao espelho um derradeiro olhar cheio de admirao, peguei a estola de peles que Bart me dera, reuni toda a minha hesitante coragem, dei uma ltima espiada 
em Jory, que dormia encolhido de lado, como um anjo. Debrucei-me para beijar-lhe com ternura o rostinho corado e redondo.
   - Eu o amo, Jory - sussurrei.
   Ele despertou parcialmente de um sonho nebuloso, fitando-me como se eu fizesse parte do sonho.
    - Oh! Mame... est to linda!
    Seus olhos castanhos escuros brilharam com admirao infantil e ele indagou com grande seriedade:
    - Vai a uma festa para me arranjar um novo papai? 
    Sorri, tornei a beij-lo e disse que sim, sob certo aspecto era o que eu faria.
    - Obrigada, querido, por achar-me linda. Agora. durma outra vez e sonhe com coisas boas. Amanh faremos um boneco de neve.
    -  Traga um papai para ajudar-nos.

    Na mesa perto da porta de entrada havia um bilhete de Paul: "Henny est muito doente.  uma pena que voc no possa abrir mo de seus planos para visit-la antes 
que seja tarde demais. Desejo-lhe felicidades, Catherine."
    Larguei com um suspiro o bilhete de Paul e peguei o de Henny, que viera no mesmo envelope. Fora escrito num festivo papel vermelho, com letras de forma entortadas 
pela dolorosa artrite que deformava as articulaes de Henny.

     "Querida Filha-Fada,

     "Henny est velha; Henny est cansada; Henny est contente de ter por perto seu filho-doutor, mas infeliz porque outros filhos muito longe de casa.
     "Digo-lhe agora, antes de ir para um lugar melhor, o segredo simples para viver feliz. Tudo que tem a fazer  dizer adeus aos amores antigos e al ao novo amor. 
Olhe em volta, veja quem precisa mais de voc e no poder errar. Esquea quem precisou de voc ontem.
     "Voc escreve para dizer que tem na barriga novo beb feito pelo marido de sua me. Alegre-se com o beb, mesmo que o marido de sua me continue casado com 
ela. Perdoe sua me, mesmo se um dia ela
lhe fez mal. Ningum  errado em tudo e muito do que os filhos tm de bom deve ter vindo dela. Quando voc conseguir perdoar e esquecer o passado, a paz e o amor 
voltaro para voc. Desta vez, ficaro.
     "E se voc no tornar a ver Henny neste mundo, lembre-se de que Henny lhe quis bem, como se fosse sua prpria filha, da mesma maneira que amou sua
#319
irm-anjo, a quem espero encontrar dentro de pouco tempo.
     "De quem logo estar no cu,
     Henny."

    Larguei a carta de Henny com uma pesada sensao de tristeza no peito. Ento, sacudi os ombros. Tinha que fazer o que precisava ser feito. Enveredara por aquela 
senda havia muitos anos e haveria de segui-la at o final, no importava o que acontecesse.
    Como era estranho o vento ter parado de soprar quando sa do chal e me voltei para fazer um aceno a Emma, que passaria a noite com Jory. Com os ps calados 
de sandlias protegidos por galochas, encaminhei-me para meu carro.
    Macia como plumas, a neve comeou a cair. Olhei para o cu cinzento e ameaador, to semelhante aos olhos da av. Sentindo-me novamente resoluta, girei a chave 
na ignio e parti para Foxworth Hall, embora no tivesse recebido convite para a festa. Brigara violentamente com Bart por causa disso. 
    - Por que no insistiu e a obrigou a convidar-me?
    - Ora, Cathy, no acha que realmente seria pedir demais? Posso insultar minha esposa, pedindo-lhe que convide minha amante para sua festa? Talvez eu seja idiota, 
Cathy, mas no sou to cruel.
    Naquele primeiro Natal que passamos prisioneiros, quando eu tinha doze anos, eu me deitara com a cabea apoiada no peito adolescente de Chris, triste e sonhadora, 
desejando ser adulta e ter curvas to perfeitas quanto as de minha me, um rosto to belo e roupas to sensacionais. E, acima de tudo, desejei controlar minha prpria 
vida.
    Alguns dos desejos daquele Natal se tornaram realidade:

Revelaes

    Pouco depois das dez horas, utilizei a chave de madeira confeccionada por Chris tantos anos antes para esgueirar-me, sem ser observada, por uma porta dos fundos 
de Foxworth Hall. Muitos dos convidados j estavam l e outros mais chegavam. A orquestra tocava uma melodia de Natal, que me chegava de leve aos ouvidos. Uma msica 
to docemente cheia de recordaes que me
levou de volta aos tempos de infncia; s que desta feita eu estava sozinha em
territrio inimigo, sem ter quem me apoiasse, quando me esgueirei silenciosamente pela escada dos fundos, mantendo-me nas sombras, pronta para
ocultar-me depressa em caso de necessidade. Segui meu caminho solitrio at a grandiosa rotunda central, postando-me perto do armrio no qual Chris e eu nos escondramos 
#320
para observar uma outra festa de Natal, quinze anos atrs. Olhei para O salo e avistei Bart Winslow de p ao lado da esposa, que usava um vestido elegante de lam 
vermelho. A voz forte de Bart ressoava com sinceridade ao cumprimentar calorosamente os convidados que chegavam, apertando mos e beijando rostos, fazendo com perfeio 
o papel de anfitrio. Minha me dava a impresso de uma figura secundria ao lado do marido, quase desnecessria naquela imensa manso que em breve lhe pertenceria.
    Sorrindo amargamente com meus botes, encaminhei-me furtivamente aos grandiosos aposentos particulares de minha me. Recuei no tempo! Oh! meu Deus! Tive vontade 
de soltar uma exclamao infantil de deleite, surpresa, espanto ou frustrao, embora dispusesse agora de um vocabulrio bem mais
vasto e adequado. Naquela noite, no sentia frustrao, mas uma leve sensao de justificativa: o que quer que acontecesse seria por culpa dela. Veja bem, disse 
comigo mesma. L estava a esplndida cama em forma de cisne, com a caminha menor, tambm no mesmo formato, aos ps. Olhei em volta, verificando que tudo continuava 
como antes, exceto o tecido de brocado que forrava as
paredes - fora trocado por outro, diferente. Agora, j no era rosa-morango, mas de um leve tom de ameixa. Havia tambm um cabide metlico destinado a manter um 
terno masculino arrumado e sem dobras at que o dono o vestisse; era novo. Corri ao quarto de vestir de minha me. Ajoelhando-me, abri
o fundo especial de uma gaveta e tateei  procura do pequeno boto que precisava ser acionado numa determinada combinao de nmeros at abrir o complicado trinco 
de segredo. E, por incrvel que pudesse  parecer, ela ainda usava a mesma combinao: os nmeros do ms, dia e ano de seu nascimento! Oh! Deus! Era mesmo uma mulher 
confiante!
     Em poucos segundos, coloquei no cho, diante de mim, a grande prateleira forrada de veludo verde, de modo a poder servir-me  vontade das jias de esmeraldas 
e brilhantes que minha me usara naquela festa de Natal
em que Chris e eu a vramos pela primeira vez com Bart Winslow. Naquela ocasio, ns a amvamos muito e ficamos ressentidos contra ele. Ainda lamentvamos a morte 
de papai e no queramos que Mame se casasse outra
vez - nunca mais.
    Como num sonho, coloquei em mim as jias que to bem combinavam com meu vestido de veludo e chiffon verde. Mirei-me no espelho, a fim de verificar se parecia 
to jovem quanto ela naquela poca. Eu dava a impresso de ser alguns anos mais moa, mas no havia dvida de que me parecia muito
com ela. No exatamente igual, mas quase - assim como duas folhas da mesma rvore nunca so exatamente iguais. Recoloquei no lugar a bandeja de jias e gaveta, deixando 
tudo como antes. S que agora eu usava algumas centenas de milhares de dlares em jias que no me pertenciam. Consultei novamente o relgio. Dez e meia. Cedo demais. 
Queria fazer minha grandiosa entrada no salo  meia-noite, justamente como uma Cinderela ao inverso. 
    Com a maior cautela, percorri sorrateiramente os compridos corredores
que levavam  ala norte e encontrei aquele ltimo quarto, com a porta trancada. A chave de madeira ainda servia na fechadura - mas meu corao parecia no me caber 
no peito. #321
Batia depressa demais, com uma ferocidade exagerada, um barulho excessivo, pulsando com inusitada excitao. Precisava manter-me
calma, controlada, fazer tudo corretamente e no me deixar intimidar por aquela espantosa manso que fizera O possvel para destruir-nos.
    Ao entrar naquele quarto com duas camas de casal, penetrei de volta em minha infncia. As colchas douradas com franjas de cetim continuavam sobre as camas, perfeitamente 
arrumadas, sem apresentarem a mnima dobra. O aparelho de TV de dez polegadas ainda estava no canto. A casa de bonecas, com seus habitantes de porcelana e mveis 
de estilo antigo feitos em escala,
esperava que as mos de Carrie viessem reviv-la. A velha cadeira de balano
que Chris trouxera do sto ainda estava no mesmo lugar. Ora, era como se o tempo ali tivesse parado e nunca houvssemos fugido do local!
     At mesmo o inferno continuava nas paredes, representado pelas trs reprodues de obras-primas de mestres renascentistas. Oh! meu Deus! Eu jamais imaginara 
que aquele quarto me deixasse to despedaada
interiormente. No podia me dar ao luxo de chorar, o que estragaria a maquilagem. No
obstante, minha vontade era chorar como uma criana. A meu redor volteavam os fantasmas de Carrie e Cory, ento com apenas cinco anos, rindo, chorando, querendo 
sair dali, ansiando por sol e ar livre, mas podendo apenas empurrar pelo cho pequenos caminhes ao longo de uma estrada imaginria entre Nova York e So Francisco 
ou Los Angeles. E havia as antigas linhas de trem eltrico que percorriam o quarto inteiro, passando at por debaixo da moblia. Oh! que fora feito da ferrovia, 
dos minsculos vages e locomotivas? Tirei da pequena bolsa de prata um leno de papel e enxuguei cuidadosamente os cantos dos olhos. Debrucei-me para observar o 
interior da casa de bonecas. As criadas de porcelana ainda preparavam comida na cozinha; o mordomo estava postado junto  porta para receber os convidados que chegavam 
numa carruagem puxada por uma parelha de cavalos; e, no quarto da criana, o bercinho vazio! O bercinho que  desaparecera! Passramos semanas a
procur-lo, com medo que a av desse por sua falta e castigasse Carrie - e ali estava ele, no seu devido lugar! Mas faltava o beb, assim como os pais que costumavam
ficar na sala de visitas: o Sr. e Sra. Parkins, bem como Clara, o beb, agora me
pertenciam e jamais voltariam a morar naquela casa.
     Seria possvel que a prpria av tivesse escondido o bero, a fim de poder notar a sua falta e, quando no consegussemos apresent-lo, ter um bom motivo para 
castigar Carrie? E Cory tambm, pois ele correria automaticamente para defender sua irm gmea, sem qualquer temor das
conseqncias que tal gesto poderia causar-lhe. A av era perfeitamente capaz de arquitetar algo to mesquinho e cruel. Contudo, se agira assim, por que motivo no 
aplicara o castigo e no levara seu intento at o fim? Ri amargamente comigo mesma.
Ela levara seu intento at o fim - no apenas uma surra com a vara de salgueiro, mas algo muito melhor... ou pior! Veneno. Arsnico em quatro rosquinhas aucaradas.
    Sobressaltei-me. Tive a impresso de escutar um riso infantil. Minha imaginao, naturalmente. Ento, quando deveria ter pensado melhor, encaminhei-me ao armrio 
#322
embutido,  porta estreita e alta situada no fundo do quarto, que se abria para a escada ngreme, estreita e escura. Eu galgara
aquela escada um milho de vezes. Um milho de vezes, no escuro, sem vela ou lanterna para iluminar o caminho. Subi ao sto gigantesco, escuro, fantasmagrico. 
S quando cheguei l em cima tateei em busca do local que Chris e eu usvamos para esconder nossas velas e fsforos.
     Ainda estavam l. O tempo parara naquele local. Tnhamos vrios castiais, todos eles de estanho, com pequenas asas para a pessoa segur-los. Foram encontrados 
por ns num velho ba, junto com inmeras caixas de
velas grossas, curtas e mal acabadas. Sempre presumimos que fossem velas de fabricao caseira, pois exalavam um cheiro  desagradvel, de coisa velha, quando queimavam.
    Prendi a respirao! Oh! Era o mesmo! As flores de papel continuavam penduradas, mbiles que se moviam nas correntes de ar; e as flores gigantescas nas paredes. 
S que todas as cores se haviam desbotado num indistinto tom cinzento: flores fantasmas. Os centros brilhantes que havamos colado
nelas tinham-se soltado e agora s algumas margaridas ainda possuam centros
brilhantes. A gigantesca minhoca roxa de Carrie l permanecia, embora tambm estivesse cinzenta e desbotada. A lesma epiltica de Cory j no parecia uma brilhante 
e deformada bola de praia, mas uma laranja descorada e meio apodrecida. Os avisos de CUIDADO que Chris e eu havamos pintado em vermelho nas paredes ainda l estavam, 
como os balanos que pendiam das vigas do telhado. Perto do toca-discos, estava a barra que Chris fabricara e pregara  parede, para que eu pudesse ensaiar minhas 
posies de bal. At mesmo meus velhos trajes de bailarina pendiam murchos dos pregos, dzias deles, acompanhados por malhas das mesmas cores e gastas sapatilhas 
de dana - tudo desbotado, empoeirado, com cheiro de podre.
     Como se me movesse num pesadelo ao qual fora condenada, andei at a distante sala de aulas  luz bruxuleante da vela. Os fantasmas despertaram; lembranas e 
espectros acompanhavam-me  medida que os objetos pareciam acordar, sonolentos e bocejantes. No, refleti com meus botes, so apenas as sombras de minha esvoaante 
roupa de chiffon... s isso. O cavalinho
malhado de balano surgiu diante de mim, espantoso e ameaador. Levei a mo  garganta para sufocar uma exclamao de susto e medo. A enferrujada carroa vermelha 
parecia mover-se, empurrada por mos invisveis. Meu olhar fugiu em direo ao quadro-negro onde eu escrevera minha enigmtica mensagem aos que ali viessem no futuro. 
Como poderia imaginar que eu seria a
primeira? 

     "Vivemos no sto,
     Christopher, Cory, Carrie e eu...
     Agora, somos apenas trs."

    Sentei-me  pequena escrivaninha que pertencera a Cory, tentando enfiar as pernas sob ela. Desejava mergulhar num profundo devaneio para chamar o esprito de 
Cory, a #323
fim de que ele me dissesse onde se encontrava.
     Enquanto eu aguardava sentada, o vento comeou a soprar l fora, aumentando at uivar e fazer a neve cair obliquamente. Desabava outra tempestade violenta. 
Com ela, vieram as correntes de ar que apagaram minha vela! A escurido parecia gritar e tive que fugir correndo! Fugir depressa... fugir...
fugir antes de transformar-me num deles!

    A hora seguinte fora coreografada por mim nos mnimos detalhes. Quando o grande relgio de pndulo comeou a bater a meia-noite, postei-me no centro do balco 
do segundo andar. Nada fiz de espetacular seno ficar ali parada, com a pele iluminada pelas jias faiscantes. Em seu vestido de lam vermelho, de frente to alta 
que a gola chegava a tocar o grosso colar de brilhantes, minha me virou-se ligeiramente. Vi que o vestido que lhe deixava as costas nuas compensava a frente severa 
e no decotada, deixando  mostra o incio da depresso que lhe separava as ndegas. Seus cabelos louros, curtos como eu jamais os vira antes, estavam penteados 
num estilo solto em volta do rosto, embelezando-a ainda mais.  distncia, parecia muito jovem e linda, longe de demonstrar sua verdadeira idade.
    Ahhh!... Soou a ltima badalada da meia-noite...
     Algum sexto sentido deve t-la prevenido, pois voltou-se lentamente para olhar em minha direo. Comecei a descer a escadaria. Os olhos de minha me se esbugalharam 
e anuviaram; a mo que segurava um copo de bebida tremeu tanto que parte do lquido se derramou e escorreu para o cho. Como ela
olhava fixamente para mim, Bart acompanhou-lhe a direo do olhar. Ficou boquiaberto como se eu fosse uma apario. Agora, tanto o anfitrio como a anfitrioa estavam 
mesmerizados e todos os convidados se sentiram obrigados a olhar tambm na direo onde, certamente, esperavam avistar Papai Noel, mas era apenas eu. Apenas eu, 
como fora minha me tantos anos antes, usando o mesmo vestido de gala e, tenho certeza, ante os olhares de muitos daqueles mesmos convidados, que haviam comparecido 
quela festa de Natal. At mesmo reconheci alguns deles - mais velhos, agora, mas eu os reconheci! Oh! quanto prazer t-los ali!
     Foi o meu momento de triunfo! Movimentando-me como s uma bailarina  capaz de fazer, dispus-me a representar meu papel com o mximo de minha capacidade dramtica. 
Enquanto os convidados olhavam para cima, nitidamente enfeitiados pelo recuo no tempo, senti a imensa satisfao de ver minha me empalidecer. E tive ainda mais 
prazer em observar os olhos de Bart
esbugalharem-se ainda mais ao saltarem de mim para ela e, depois, de volta a mim. Lentamente, num silncio mortal - pois a msica parara de tocar -, desci o lado 
esquerdo da dupla escadaria curva, pensando que era a feiticeira m que lanara sobre Aurora a praga da morte; em seguida, imaginei-me como a Fada Lils, que roubou 
o Prncipe Encantado de Aurora enquanto esta
dormia o seu sono de um sculo. (Foi muito inteligente de minha parte no me lembrar de que era a filha de minha me e que dentro em breve a destruiria. Muita esperteza 
fazer de #324
tudo aquilo uma produo teatral, quando lidava com realidade e no com fantasia, e talvez houvesse derramamento de sangue).
    Corri graciosamente os dedos faiscantes de jias ao longo do corrimo de madeira-de-lei, sentindo minhas esvoaantes saias de chiffon verde balanarem a cada 
passo. E a cada segundo eu mais me aproximava do local onde minha me e Bart permaneciam em p, muito juntos. Ela tremia da cabea aos ps, mas conseguia no perder 
a pose. Julguei divisar um relance de pnico em seus olhos azuis de boneca de porcelana. Mimoseei-a
caridosamente com o mais gracioso de meus sorrisos, quando cheguei ao penltimo
degrau. Ali, estaquei. Desta maneira, aproveitava-me da vantagem de ficar mais alta que qualquer dos presentes  cena. Todos eles viam-se obrigados a erguer os olhos 
para ver-me, pois eu usava saltos de dez centmetros e solas tipo tamanco, semelhantes s de Carrie, com o propsito de ficar da mesma estatura que minha me quando 
nos enfrentssemos de perto. Assim, poderia
observar melhor seu espanto, embarao e colapso total! 
    - Feliz Natal! - disse eu para todos em voz alta e clara, que ecoou como a trombeta de um arauto, atraindo os que se encontravam em outros sales - e que acorreram 
s dzias, aparecendo mais atrados pelo  silncio profundo que pelo som de minha voz. - Sr. Winslow - convidei -, venha danar comigo, exatamente como danou com 
minha me h quinze anos, quando eu tinha apenas doze de idade e estava escondida no balco, l
em cima, e ela usava um vestido igual ao que uso no momento.
    Bart ficou visivelmente abalado. O choque aturdiu-o, anuviando-lhe o olhar, mas ele se recusou a sair de perto de minha me!
    Assim, forou-me a proceder como fiz em seguida. Enquanto todos aguardavam, imveis e calados, com a respirao presa na expectativa de outras revelaes explosivas, 
resolvi dar-lhes o que desejavam.
    - Gostaria de apresentar-me - declarei num tom agudo, a fim de fazer-me escutar perfeitamente. - Sou Catherine Leigh Foxworth, filha mais velha da Sra. Bartholomew 
Winslow que, como a maioria de vocs se recorda, foi anteriormente casada com meu pai, Christopher Foxworth. Lembram-se tambm de que ele era meio-tio de minha me, 
irmo mais moo de Malcolm Neal Foxworth. Este deserdou a filha, a nica herdeira que lhe restava, por cometer a pecaminosa temeridade de casar-se com o meio-irmo 
dele! Alm disso, tenho tambm um irmo mais velho, igualmente chamado
Christopher, que hoje  mdico. Outrora, tive um irmo e uma irm mais moos, gmeos, que nasceram quando eu tinha sete anos. Entretanto, Cory e Carrie esto mortos, 
porque foram...
     No sei por que motivo, interrompi-me. Em seguida, continuei:
    - Naquela festa de Natal, h quinze anos, Chris e eu nos escondemos na arca que ainda hoje est no balco, enquanto os gmeos dormiam no ltimo quarto da ala 
norte. Nosso local de brincar era o sto e nunca, nunca, nunca descamos. ramos ratos de sto, indesejveis e detestados desde que o dinheiro entrara em jogo.
#325
    E eu estava prestes a berrar todo o resto da estria, nos menores detalhes, mas Bart se encaminhou para mim.
    - Bravos, Cathy! - exclamou. - Representou seu papel com perfeio!
Parabns!
    Passou-me o brao pelos ombros, sorrindo encantadoramente e depois voltou-se para os convidados, que pareciam no saber o que pensar, em quem acreditar e, muito 
menos, como reagir.
    - Minhas senhoras e cavalheiros - acrescentou Bart. - Permitam que lhes apresente Catherine Dahl, que muitos de vocs tiveram oportunidade de ver no palco quando 
ela danava com o falecido marido, Julian Marquet. E, como acabam de verificar por si mesmos,  tambm uma atriz de enorme
talento. Cathy  parenta distante de minha esposa e, caso consigam perceber a semelhana fsica entre as duas, est tudo explicado. Na verdade, a Sra. Marquet  
atualmente uma de nossas vizinhas, como talvez vocs j saibam. J que se parece de modo to extraordinrio com minha esposa, arquitetamos esta pequena farsa e fizemos 
O possvel para que nossa pilhria animasse a festa, tornando-a um pouco diferente.
    Beliscou-me impiedosamente o antebrao antes de tomar-me pela mo, passar o outro brao por minha cintura e convidar-me para danar. 
    - Venha, Cathy. Decerto - deseja mostrar seus dotes de danarina, aps to sensacional apresentao dramtica.
    Quando a msica recomeou, ele praticamente me obrigou a danar! Virei a cabea e vi minha me derreada sobre uma amiga, o rosto to plido que a maquilagem 
se realava como manchas esquisitas. Mesmo assim, no conseguia despregar os olhos de mim nos braos de seu marido.
    - Sua putinha atrevida! - sibilou Bart. - Como ousa entrar aqui e fazer tal escndalo? Julguei que a amava. Detesto mulheres que se portam como gatas de unhas 
afiadas. No permitirei que arrune minha esposa! Sua pequena idiota, por que inventou tantas mentiras?
    - Idiota  voc, Bart - respondi com a maior calma, embora estivesse em pnico interiormente: e se ele se recusasse a acreditar em mim? - Olhe bem para mim. 
Como poderia eu saber que ela usou um vestido igual ao meu se no a tivesse visto com ele? Como poderia eu saber que voc a acompanhou
para ver o quarto com a cama em forma de cisne, se meu irmo Chris no se tivesse escondido para ver e ouvir tudo que vocs dois fizeram na rotunda do segundo andar?
    Bart olhou-me bem, parecendo to estranho, distante e esquisito.
    - Sim, querido Bart, sou filha de sua esposa e sei que se uma certa firma de advocacia, na qual voc trabalha, descobrir que sua esposa teve quatro filhos resultantes 
da unio de seu primeiro casamento, voc e ela perdero tudo. Todo o dinheiro e investimentos. Sero obrigados a devolver tudo o que compraram. Ora, tenho tanta 
pena que me d vontade de chorar!
    Continuamos a danar, o rosto dele bem perto do meu. Seus lbios exibiam um sorriso fixo.
#326
    - Esse vestido que voc est usando... como diabo descobriu que ela usava um exatamente igual na primeira vez em que entrei nesta casa para uma festa?
    Ri, simulando achar graa.
    - Meu caro Bart, voc  to estpido! Como julga que sei? Vi-a usando um vestido igual. Ela foi a nosso quarto para nos mostrar o quanto estava linda; invejei-lhe 
as curvas do corpo e o jeito de Chris fit-la com tanta admirao. Seus cabelos estavam penteados como os meus esto agora. E acabo de tirar estas jias do cofre 
existente em sua gaveta na mesinha de cabeceira.
    -  mentira - disse ele, mas sua voz tinha um tom de dvida.
    - Conheo a combinao do segredo - prossegui suavemente. - Os nmeros da data em que ela nasceu. Foi ela mesma quem me contou, quando eu tinha doze anos. Ela 
 minha me. Manteve-nos trancados  espera da morte do pai, a fim de herdar toda a fortuna. E voc sabe por que motivo ela foi
obrigada a fazer um grande segredo de nossa existncia. Foi voc quem redigiu o testamento, no  mesmo? Recue no tempo e lembre-se de uma certa noite, em que adormeceu 
nos grandiosos aposentos particulares que vocs dois usavam. Ento, sonhou que uma jovem usando uma curta camisola azul entrou sorrateiramente e o beijou. Voc no 
estava sonhando, Bart. Quem o beijou fui eu. Na ocasio, tinha quinze anos e entrava em seu quarto para roubar dinheiro. Lembra-se como dava pela falta de trocados? 
Voc e ela julgavam que os criados roubassem, mas era Chris. E, uma vez, fui eu... que nada encontrei porque voc estava l para me amedrontar.
    - Nooo... suspirou ele. - No! Ela no seria capaz de fazer isso com os prprios filhos!
    - No seria capaz? Pois foi! Aquela grande arca perto da balaustrada do segundo andar tem o fundo de tela metlica, atravs do qual Chris e eu pudemos observar 
muito bem. Vimos os funcionrios do buf prepararem os crepes suzettes, os garons trajados de preto e vermelho, uma fonte de onde jorrava champanha... e duas imensas 
poncheiras de prata. Chris e eu sentamos
o aroma das iguarias e chegamos a babar de vontade de provar o que serviam aqui nos sales. Nossas refeies eram enjoativas, sempre frias ou apenas mornas. Os gmeos 
quase no se alimentavam. Voc compareceu ao jantar do Dia de Ao de Graas, quando ela subiu e desceu tantas vezes? Quer saber o
motivo? Preparava bandejas de comida para levar-nos sempre que John, o mordomo, no estava na copa.
    Bart sacudiu a cabea, os olhos esgazeados.
    - Sim, Bart, a mulher com quem voc se casou tinha quatro filhos que ela manteve escondidos e trancados durante trs anos e quase cinco meses. Nosso playground 
era o sto. Por acaso voc brincou num sto durante o vero? Ou no inverno? Imagina que seja agradvel? Faz idia de como nos
sentamos, ano aps ano, esperando que um velho morresse para que nossas vidas
pudessem ter incio? Conhece o trauma que sofremos ao saber que ela dava mais importncia ao dinheiro que a ns, seus prprios filhos? E os gmeos no se desenvolveram 
fisicamente. Ficaram to pequenos, raquticos, com enormes olhos
#327
assustados, mas ela entrava no quarto e nunca olhava para eles! Ela fingia no ver o precrio estado de sade em que se encontravam!
    - Cathy, por favor! Se est mentindo, pare! No me faa odiar minha mulher!
    - Por que no odi-la? Ela merece - prossegui, enquanto minha me ia
recostar-se numa parede, parecendo doente e prestes a vomitar. - Certa vez, deitei-me naquela imensa cama de cisne, com a caminha igual aos ps. Na gaveta da mesinha 
de cabeceira vocs tinham um livro sobre sexo, disfarado por uma capa cujo ttulo era "Como criar seus prprios pontos de bordar",
ou algo semelhante.
    - "Como criar seus prprios bordados" - corrigiu ele, parecendo to plido e doente quanto minha me, embora continuasse a exibir aquele sorriso detestvel.
    - Est inventando tudo isso - declarou, num tom esquisito e desprovido de sinceridade. - Detesta-a porque me deseja e trama para iludir-me e destru-la.
    Sorri e rocei de leve os lbios no rosto dele.
    - Ento, permita-me convenc-lo melhor. Nossa av sempre usava vestidos de tafet cinzento com gola de croch feitas  mo e nunca sem um broche de brilhantes 
com dezessete pedras preciosas prendendo a gola na altura da garganta. Todas as manhs bem cedo, antes das seis e meia, levava comida e
leite para ns numa cesta de piquenique feita de vime. A princpio, alimentava-nos razoavelmente bem; contudo,  medida que seu ressentimento contra ns aumentou, 
nossas refeies se tornaram cada vez piores, at que passamos a comer apenas sanduches de creme de amendoim e gelia, recebendo
ocasionalmente uma rao de galinha frita e salada de batatas. Ela estabeleceu uma
longa srie de normas segundo as quais nos devamos comportar, sendo que uma delas nos proibia de abrir as cortinas para deixarmos entrar luz no quarto. Vivemos 
ano aps ano num quarto escuro, sem receber luz solar. Se voc ao menos soubesse o que  viver trancado, sem luz, sentindo-se  negligenciado, indesejvel e detestado... 
E tambm havia uma outra regra, extremamente
difcil de obedecermos: no devamos olhar-nos mutuamente, em especial os sexos opostos.
    - Oh! Deus! - exclamou ele, com um pesado suspiro. - Isso  bem do tipo dela. Voc disse que ficaram trancados mais de trs anos?
    - Trs anos e quase cinco meses. E se isso lhe parece muito tempo, o quanto julga que foi para duas criancinhas de cinco anos, uma de doze e outra de quatorze? 
Naquela poca, cinco minutos levavam cinco horas para se escoarem, os dias eram como meses e os meses pareciam anos.
    Tornou-se evidente que a dvida invadia sua mente de advogado, que via todas as ramificaes, se minhas palavras fossem verdadeiras.
    - Cathy, seja franca - totalmente franca. Voc tinha uma irm e dois irmos - e durante todo aquele tempo, inclusive quando eu j morava aqui, viveram trancados 
l em cima?
#328
    - No incio, acreditamos em nossa me, em cada palavra que ela pronunciava, porque a amvamos e confivamos nela: era a nossa nica esperana de salvao. E 
queramos que ela herdasse todo aquele dinheiro do pai.
Concordamos em permanecer trancados at que nosso av morresse, embora nossa me, ao dizer-nos que moraramos em Foxworth Hall, deixasse de mencionar que ficaramos 
trancados e escondidos. A princpio, pensamos que fosse apenas por um ou dois dias, mas aquilo continuou interminavelmente. Ocupvamos o tempo jogando... rezvamos 
muito, dormamos um bocado. Fomos ficando magros, doentios, subnutridos e passamos fome durante duas
semanas enquanto voc e nossa me viajavam pela Europa em lua-de-mel. E, depois, quando vocs foram visitar sua irm em Vermont, onde nossa me comprou um quilo 
de balas de acar de bordo. A essa altura, porm, j
estvamos comendo rosquinhas com arsnico misturado ao acar.
    Bart lanou-me um olhar ameaador, carregado de uma raiva terrvel.
    - Sim, compramos um quilo daquelas balas em Vermont. Contudo, Cathy, no importa qualquer outra coisa que voc me diga, jamais acreditarei que minha esposa decidiu 
deliberadamente envenenar seus prprios
filhos!
    Seu olhar cheio de desprezo percorreu-me de alto a baixo e voltou ao meu rosto.
    - Sim, voc se parece com ela! Talvez seja sua filha, admito! Mas dizer
que Corrine seria capaz de matar os prprios filhos - no posso acreditar!
    Empurrei-o com fora para longe de mim e girei nos calcanhares.
    - Ouam todos! - berrei. - Sou filha de Corrine Foxworth Winslow! Ela realmente trancou os quatro filhos no ltimo quarto da ala norte desta manso! Nossa av 
tomou parte no plano e cedeu-nos o sto como
playground. Decoramos o local com flores de papel, a fim de o alegrarmos para os gmeos. E tudo isso porque nossa me precisava herdar a fortuna do pai. Ela nos 
dizia que tnhamos que permanecer escondidos, caso contrrio nosso av jamais a incluiria no testamento. Todos vocs sabem o quanto ele a
desprezava por ter-se casado com o meio-irmo dele. Nossa me persuadiu-nos a virmos para c e vivermos l em cima, quietos como ratos de sto; obedecemos, confiando 
nela e acreditando que manteria a promessa e nos
libertaria no dia em que seu pai morresse. Mas ela no o fez! Nada disso! Deixou-nos sofrendo l em cima durante nove meses depois que seu pai morreu e foi sepultado!
    Eu tinha muito mais a dizer, mas minha me soltou um grito agudo:
    - Pare!
    Cambaleou alguns passos, com os braos estendidos para a frente, como se estivesse cega.
    -  mentira! - berrou. - Nunca vi voc antes! Saia de minha casa! Saia antes que eu chame a polcia para expuls-la daqui! Agora, caia fora e nunca mais volte!
    Agora, todos olhavam para ela, no mais para mim. Ela, sempre cheia de pose e arrogncia, se descontrolara, ficando trmula, o rosto lvido - as unhas em riste 
#329
tentando arrancar-me os olhos! No acredito que um s dentre os presentes duvidasse de mim - parecia-me demais com ela e sabia de
muitas verdades para estar mentindo!
    Bart afastou-se de mim e foi at a esposa, murmurando-lhe alguma coisa ao ouvido. Abraou-a com ar consolador e beijou-lhe o rosto. Minha me se agarrou a ele, 
indefesa, as mos plidas e trmulas de desespero, implorando-lhe auxlio com olhos grandes e lacrimosos de um azul cerleo - iguais aos meus, aos de Chris, aos 
dos gmeos.
    - Mais uma vez, muito grato pela sensacional apresentao, Cathy. Acompanhe-me  biblioteca para receber seu cach - disse Bart, correndo o olhar pelos convidados 
que nos cercavam e acrescentando com voz calma: - Sinto muito, mas minha esposa esteve doente e esta pequena brincadeira foi preparada por mim num momento pouco 
adequado. Eu jamais deveria ter planejado um espetculo como este. Portanto, se fizerem o favor de
perdoar-me, continuem a festa; comam, bebam e divirtam-se  vontade. Podem ficar at quando quiserem. A Srta. Catherine Dahl talvez lhes reserve outras surpresas.
    Como o odiei naquele momento!
    Enquanto os convidados se moviam por perto, trocando sussurros e olhando para ns, Bart pegou minha me, ergueu-a no colo e se encaminhou para a biblioteca. 
Ela estava mais pesada do que antes, mas parecia uma pluma nos braos dele. Bart me lanou um olhar por cima do ombro e fez-me um sinal com a cabea para acompanh-lo. 
Obedeci.
    Eu desejava que Chris estivesse ali a meu lado, como deveria. No me cabia a total responsabilidade de confrontar nossa me com a verdade. Sentia-me estranhamente 
solitria, na defensiva, como se no final Bart fosse acreditar nela e no em mim, a despeito de tudo que eu afirmasse, sem se importar com todas as provas que eu 
apresentasse. E eu possua muitas provas para confirmar minhas declaraes. Poderia descrever as flores no sto, a lesma
deformada, a minhoca, a enigmtica mensagem que eu escrevera no quadro-negro e, sobretudo, exibir a chave de madeira feita por Chris.
    Bart chegou  biblioteca e depositou cuidadosamente minha me numa das poltronas de couro. Deu-me uma ordem rspida:
    - Cathy, quer fazer o favor de fechar a porta? 
    S ento percebi quem mais se encontrava na biblioteca! Minha av, sentada na mesma cadeira de rodas que pertencera ao marido. Normalmente,  quase impossvel 
distinguir uma cadeira de rodas de outra, mas aquela fora fabricada sob encomenda e muito mais valiosa que as comuns. A velha usava um roupo azul sobre o camisolo 
de hospital e uma manta protegendo as pernas. A cadeira fora colocada perto da lareira, de modo que ela pudesse aproveitar o calor do fogo que ali crepitava. Sua 
calva brilhou quando ela virou a cabea para me olhar. Seus duros olhos cinzentos faiscaram maliciosamente.
    Uma enfermeira lhe fazia companhia. No me dei ao trabalho de notar-lhe o rosto.
#330
    - Sra. Mallory - disse Bart. - Faa o favor de deixar a sala e a Sra. Foxworth ficar conosco.
    No era um pedido, mas uma ordem.
    - Sim, senhor - disse a enfermeira, erguendo-se depressa e tratando de retirar-se o mais rpido possvel. - Basta tocar a campainha quando a Sra. Foxworth quiser 
deitar-se, senhor - disse ao chegar  porta, saindo em seguida.
     Bart parecia prestes a explodir ao caminhar de um lado para outro. A fria que sentia agora parecia dirigir-se no s contra mim, como tambm contra a esposa.
    - Muito bem - declarou, to logo a enfermeira fechou a porta. - Vamos terminar isto de uma vez por todas, Corrine. Tudo isto. Sempre desconfiei de que voc ocultava 
um segredo - um grande segredo. Ocorreu-me
muitas vezes a idia de que no me amava realmente, mas nunca me passou pela
cabea que pudesse ter quatro filhos, os quais manteve prisioneiros, escondidos no sto. Por qu? Por que no me procurou para contar toda a verdade? - rugiu ele, 
totalmente descontrolado. - Como pde ser to egosta, cruel, desalmada e brutal, a ponto de manter seus quatro filhos numa priso e, depois, tentar envenen-los 
com arsnico?
    Derreada, inerte numa poltrona de couro, minha me fechou os olhos. Parecia j no ter um pingo de sangue nas veias ao indagar com voz sumida e inexpressiva:
    - Ento, vai acreditar nela e no em mim? Bem sabe que eu seria incapaz de envenenar algum, por mais que viesse a ganhar com isso. E tambm sabe que no tenho 
filhos!
    Fiquei aturdida ao saber que Bart acreditava em mim e no nela. Mas logo raciocinei que ele no acreditava realmente em mim e usava um truque de advogado, atacando 
e esperando peg-la com a guarda baixa para, talvez, descobrir a verdade. Contudo, ela treinara durante tempo demais para permitir que algum a pegasse de surpresa.
    Avancei para fit-la furiosamente e indagar com meu tom mais rspido:
    - Por que no conta a Bart o que aconteceu a Cory, Mame? Vamos, conte-lhe como voc e sua me entraram em nosso quarto durante a noite e o embrulharam num cobertor 
verde, afirmando que o levariam para o hospital. Conte-lhe como voltaram no dia seguinte, dizendo que Cory morrera de
pneumonia. Mentira! Tudo mentira! Chris desceu s escondidas e ouviu aquele mordomo, John Amos Jackson, contar a uma das criadas que a av levava arsnico para o 
sto, a fim de matar os camundongos. Ns ramos os
camundongos que comiam as rosquinhas aucaradas contendo arsnico, Me !E
conseguimos provar que as roscas estavam envenenadas. Lembra-se do camundongo
de estimao de Cory, que voc costumava ignorar? Demos-lhe apenas um pedacinho de rosca aucarada e ele morreu! Agora, voc fica a sentada, chorando e dizendo 
que nunca me viu, negando a existncia de Chris - e tambm de Cory e Carrie, que j morreram!
#331
    - Nunca vi voc em minha vida - disse ela com voz forte, empertigando-se na poltrona e encarando-me nos olhos. - Exceto quando assisti ao bal, em Nova York.
    Bart apertou as plpebras, olhando primeiro para ela e depois para mim. Ento, tornou a fitar a esposa, com os olhos ainda mais apertados e ladinos.
    - Cathy - disse ele, ainda olhando para a esposa. - Voc est fazendo graves acusaes contra minha esposa. Alega que ela  culpada de homicdio, de assassinato 
premeditado. Se voc conseguir provar tais afirmaes, ela ir a julgamento por homicdio doloso -  isso que voc deseja?
    - Quero apenas justia, nada mais. No, no quero v-la na cadeia ou condenada  morte na cadeira eltrica... se isso  o que ainda fazem neste Estado.
    - Est mentindo - sussurrou minha me. - Mentindo, mentindo, mentindo...
    Eu viera preparada para enfrentar acusaes daquele tipo e, com a maior calma, tirei da bolsinha de prata as cpias autenticadas de quatro certides de nascimento. 
Entreguei-as a Bart, que as levou para perto de uma lmpada e se debruou para examin-las. Com crueldade e grande satisfao, sorri para minha me.
    - Querida me, cometeu uma grande tolice ao costurar aquelas certides de nascimento no forro de nossas maletas velhas. Sem aqueles documentos, eu no disporia 
da menor prova para mostrar a seu marido e, sem dvida, ele continuaria a acreditar em voc, pois sou atriz e, portanto, acostumada a
representar diversos papis.
    Aps breve pausa, acrescentei:
    -  uma pena ele no saber que voc  ainda melhor atriz que eu. Pode encolher-se, Mame, mas eu tenho as provas! 
    Ri desvairadamente, quase chorando ao ver as lgrimas que lhe comearam a brilhar nos olhos, pois outrora eu a amara e sob todo o dio e animosidade que sentia 
por ela ainda existia uma pontinha daquele amor.
Magoava-me realmente v-la chorar. No obstante, ela merecia. E eu repetia comigo
mesmo que ela merecia!
    - Sabe mais uma coisa, Mame? Carrie me contou que voc a encontrou na rua e a renegou. Pouco depois, ficou to doente que morreu - portanto, voc tambm contribuiu 
para mat-la! E sem as certides de nascimento, voc teria escapado de todo e qualquer castigo, pois aquele cartrio em
Gladstone, na Pensilvnia, foi destrudo num incndio, h dez anos. Est vendo como o destino foi bondoso para com voc? Contudo, Mame, voc nunca soube fazer nada 
direito. Por que no queimou os documentos? Por que os conservou?... Foi muito descuido de sua parte, querida e amantssima Me, preservar aquelas provas. Entretanto, 
voc sempre foi estouvada, descuidada, extravagante em relao a tudo. Julgou que se matasse seus quatro filhos poderia ter outros - mas seu pai lhe passou a perna, 
no  mesmo?
    - Cathy! Sente-se e deixe-me cuidar disto! - ordenou Bart. - Minha esposa sofreu recentemente uma cirurgia e no permitirei que sua sade seja colocada em risco 
por #332
voc. Agora, sente-se antes que eu a empurre!
    Obedeci.
    Bart olhou para a esposa e, depois, para a me dela.
    - Corrine, se algum dia voc me amou, se gostou um pouquinho de mim, responda-me: alguma coisa do que afirma essa mulher  verdade? Ela  sua filha?
    Com voz muito sumida, minha me sussurrou:
    - ... Sim.
    Suspirei. Tive a impresso de ouvir a casa inteira suspirar. E Bart tambm. Ergui os olhos e notei que minha av me fitava com a mais estranha das expresses.
    - Sim - prosseguiu minha me num tom inexpressivo, os olhos fixos em Bart. - Eu no lhe podia contar, Bart. Queria faz-lo, mas tinha medo de voc no me aceitar 
com quatro filhos e sem vintm - e eu o amava tanto. Torturei-me  procura de uma soluo que me permitisse ficar com voc, com meus filhos e, tambm, com o dinheiro.
    Empertigou-se de tal maneira que a espinha ficou ereta, com a cabea majestosamente erguida.
    - E encontrei a soluo! Encontrei! Levei muitas semanas pensando, planejando, arquitetando, mas achei uma soluo!
    - Corrine - disse Bart num tom gelado, postando-se diante dela como uma torre slida e inexpugnvel. - Homicdio nunca  soluo para nada! Voc s precisava 
contar-me a verdade e, juntos, imaginaramos um meio de salvar seus filhos e, ao mesmo tempo, a herana.
    - Ser que no compreende? - exclamou ela, excitada. - Eu encontrei sozinha uma soluo! Queria voc, meus filhos e o dinheiro tambm. Julgava que meu pai me 
devia aquele dinheiro!
    Riu histericamente, recomeando a descontrolar-se, como se tivesse o inferno em seu encalo e precisasse falar depressa a fim de escapar s queimaduras.
    - Todos me achavam estpida, uma linda loura desprovida de crebro. Pois eu a enganei, Mame - disse ela  velha na cadeira de rodas. Depois, virou-se para o 
retrato a leo acima da lareira: - Enganei-o tambm, Malcolm Foxworth!
    Em seguida, voltou-se furiosamente contra mim:
    - E voc tambm, Catherine! Achou que sofreu muito trancada l em cima, privada de sua vida escolar normal e de seus colegas e amigos, mas no imagina como isso 
foi bom em comparao com o que meu pai me fez! Voc... e suas constantes acusaes contra mim, quando eu no podia libert-los! Quando, aqui embaixo, meu pai me 
ordenava que fizesse isto ou aquilo, caso contrrio no herdaria um vintm e meu namorado - depois marido - seria informado da existncia de meus quatro filhos!
    Prendi a respirao. Ento, ergui-me de um salto.
    - Ele sabia a respeito de ns? O av sabia?
#333
    Ela tornou a rir, um som duro como diamante cortando vidro.
    - Sim, claro que ele sabia, mas quem contou no fui eu! No dia em que Chris e eu fugimos desta casa horrvel, meu pai contratou detetives para seguir-nos e mant-lo 
informado a nosso respeito. Ento, quando meu marido morreu naquele acidente, meu advogado aconselhou-me a pedir a ajuda de
minha famlia. Como meu pai se alegrou com isso! Ser que no entende, Cathy? - prosseguiu ela, to depressa que as palavras pareciam querer atropelar-se.
    - Ele queria que eu e meus filhos ficssemos nesta casa, sob seu controle,  sua merc! Planejou, junto com minha me, iludir-me e levar-me a pensar que ele 
no tinha conhecimento de que vocs estavam escondidos l em cima. Mas sabia, durante todo o tempo! Tencionava mant-los prisioneiros pelo resto de suas vidas!
    Fiquei sem respirar, encarando-a. Duvidava de suas palavras; como poderia acreditar numa s de suas afirmaes, aps tudo o que ela j fizera?
    - A av aceitou o plano? - indaguei, invadida por uma sensao de dormncia que me subia das pontas dos ps.
    - Ela? - replicou Mame, lanando um olhar furioso  av. - Ela fazia tudo que ele mandasse, porque me odiava. Sempre me odiou. Ele me amou demais quando fui 
criana, no gostando dos filhos, a quem ela favorecia mais que a mim. E depois que aqui chegamos, atrados  armadilha, ele adorou
manter os filhos de seu meio-irmo  capturados como animais numa jaula, a
fim de mant-los no cativeiro at morrerem. Portanto, enquanto vocs ficavam l em cima, jogando, brincando e decorando o sto, meu pai no me deixava em paz aqui 
embaixo, nem por um segundo, dia aps dia. "Eles nunca
deviam ter nascido, no  mesmo? ", indagava maliciosamente. Ento, com ar muito astucioso, insinuava que seria muito melhor vocs morrerem logo que serem prisioneiros 
at envelhecerem ou adoecerem e morrerem. No incio, no acreditei que ele falasse srio, julgando que se tratasse de mais um de seus
estratagemas para torturar-me. A cada dia, ele me dizia que vocs eram crianas malvolas, taradas, filhas do Demnio, que mereciam ser destrudas. Eu chorava, implorava, 
ajoelhava-me para suplicar - e ele ria. Certa noite, disse-me raivosamente: "Idiota! Foi bastante estpida para acreditar que algum dia eu a perdoasse por haver 
dormido com seu meio-tio - o mais ultrajante pecado contra Deus? E ter filhos com ele?" E continuou a vociferar, chegando s vezes a gritar comigo. Ento, desferia 
bengaladas, atingindo o que lhe estivesse
ao alcance. Minha me ficava sentada por perto, assistindo a tudo aquilo com uma careta de zombaria, de prazer. Mesmo assim, ele passou vrias semanas sem permitir 
que eu percebesse que ele sabia que vocs estavam presos l em cima... e, a essa altura, eu j estava irremediavelmente capturada na armadilha.
    Passou a implorar-me piedade:
    - Ser que consegue entender como foi? Eu no sabia para onde me voltar! No tinha dinheiro e julgava que meu pai morreria durante um daqueles terrveis ataques 
de fria. Portanto, passei a provoc-los, a fim de lhe causar a morte. Entretanto, ele continuou vivo, vociferando contra mim e meus filhos. E cada vez que eu ia 
a seu
#334
quarto, vocs me imploravam liberdade.
Especialmente voc, Cathy - especialmente voc!
     - E que mais ele fez para manter-nos prisioneiros? - indaguei, sarcstica. - Alm de gritar e lhe bater com a bengala? No poderiam ser pancadas dolorosas, 
porque ele estava muito debilitado e, ademais, nunca vimos marcas de pancadas em voc aps aquela primeira surra com a vara de salgueiro. Voc
tinha liberdade de sair e entrar quando entendesse. Poderia ter arquitetado algum plano para tirar-nos daqui sem o conhecimento de seu pai. Queria a herana e pouco 
se importava com o que tivesse que fazer para consegui-la! Desejava aquele dinheiro mais do que queria seus quatro filhos!
    Ante meus prprios olhos incrdulos, seu rosto delicado e lindo, recm-restaurado, assumiu a aparncia envelhecida da sua me. Deu a impresso de murchar e abater-se 
ante a perspectiva dos incontveis anos que ainda seria obrigada a viver cheia de remorsos. Desviou desesperadamente o olhar, procurando refugiar-se num local seguro 
onde pudesse ficar oculta para sempre, no s de mim como tambm da fria que ardia no olhar de seu marido. 
    - Cathy - implorou ela. - Sei que me odeia, mas...
    - Sim, Me, eu a odeio.
    - No odiaria se compreendesse...
    Emiti um riso duro e cheio de amargura.
    - Querida Me, no existe nada que voc possa dizer para me fazer compreender.
    - Corrine - interps Bart num tom estril, como se lhe tivessem removido o corao. - Sua filha tem razo. Pode ficar a sentada, chorando e relatando como seu 
pai a obrigou a envenenar seus prprios filhos - mas como poderei acreditar, se jamais o vi lanar um olhar mais severo em sua direo? Ele a fitava com amor e orgulho. 
Voc gozava de total liberdade para fazer o que bem entendesse. Seu pai lhe dava todo o dinheiro para comprar roupas novas e tudo mais que pudesse desejar. Agora, 
voc vem com essa ridcula estria de ter sido torturada por ele e obrigada a matar os filhos que mantinha escondidos. Oh! Deus! voc me enoja!
    Os olhos de minha me ficaram vidrados, fixos. Suas mos plidas e elegantes tremiam ao passar do colo para o pescoo, onde apalparam o colar de brilhantes que 
certamente segurava no lugar, a frente alta do vestido de gala.
    - Bart, por favor... no estou mentindo... Confesso que lhe menti no
passado, enganando-o quanto a meus filhos - mas no estou mentindo agora.
Por que no acredita em mim?
    Bart estava de p com os ps afastados, como um marinheiro que procura equilibrar-se num barco agitado pelas ondas. Mantinha as mos s costas, os punhos cerrados.
    - Que tipo de homem julga que sou... ou era? - indagou com amargura. - Poderia ter-me contado tudo na ocasio e eu entenderia. Eu a amava, Corrine. Faria tudo 
que fosse legalmente possvel para impedir as maldades de seu pai e ajud-la a receber a herana, ao mesmo tempo em que manteramos seus filhos vivos, livres para 
levarem uma vida normal. No sou um monstro, Corrine, e no #336
me casei com voc por dinheiro. Ter-me-ia casado mesmo que voc no tivesse um vintm!
    - No conseguiria ser mais esperto que meu pai! - bradou ela, erguendo-se de um pulo e comeando a andar de um lado para outro.
     Naquele brilhante vestido vermelho, minha me parecia uma labareda viva e a cor do tecido tornava-lhe os olhos roxos. Olhou alternadamente para cada um de ns. 
Ento, afinal, quando eu j no podia mais suportar v-la naquele estado, derrotada e alquebrada, despida de toda a antiga pose
majestosa, virou-se para sua me - a velha derreada na cadeira de rodas, como se
no possusse mais o esqueleto. Os dedos ossudos e retorcidos alisavam de leve a manta que lhe protegia as pernas, mas os fanticos olhos cinzentos faiscavam com 
um fogo forte e malvolo. Observei os olhares de me e filha se enfrentarem. Aqueles imutveis olhos cinzentos, que no se atenuavam com a idade ou o temor do inferno 
que devia estar  sua espera.
     E, para meu espanto e surpresa, minha me saiu do confronto empertigada e altaneira, a vencedora daquela batalha entre duas vontades de ao. Comeou a falar 
num tom desapaixonado, como se discutisse uma terceira pessoa. Era como ouvir as palavras de uma mulher que sabia estar-se matando
com cada slaba e, apesar disso, j no se importava com isso - pois a verdadeira vencedora era eu. E foi para mim, sua mais severa juza, que minha me dirigiu 
o apelo final.
    - Muito bem, Cathy. Eu sabia que mais cedo ou mais tarde seria forada a enfrent-la. Tinha certeza de que seria voc quem me arrancaria a verdade. Sempre teve 
o dom de ver atravs de mim, de adivinhar que no fui
sempre o que desejava que vocs acreditassem que eu era. Christopher me amava, confiava em mim. Voc, porm, nunca. No obstante, no incio, logo que seu pai morreu, 
tentei fazer o melhor possvel por vocs. Disse-lhes o que acreditava ser verdade, quando lhes pedi que viessem viver escondidos aqui at que eu recuperasse as boas 
graas de meu pai. Na verdade, no acreditava que pudesse demorar mais que um ou dois dias.
    Fiquei petrificada, olhando para ela, cujos olhos imploravam mudamente: Tenha piedade, Cathy, acredite em mim! Falo a verdade! 
    Desviou-se de mim e, muito combalida, apelou para Bart, falando do primeiro encontro que tiveram, em casa de um amigo comum. 
    - Bart, eu no queria am-lo e envolv-lo na encrenca em que me encontrava. Desejava falar-lhe a respeito de meus filhos e da ameaa que meu pai representava 
contra eles. Contudo, sempre que me resolvia a faz-lo, ele piorava e dava a impresso de estar s portas da morte, de modo que eu adiava a deciso e mantinha segredo. 
Rezava para que, quando eu finalmente lhe
revelasse tudo, voc me compreendesse e aceitasse. Fui estpida, pois um segredo
guardado durante tempo demasiado torna-se impossvel de explicar. Voc queria casar-se comigo. Meu pai insistia em negar seu consentimento. Meus filhos suplicavam-me 
diariamente serem postos em liberdade. Embora eu soubesse que tinham todo o direito de reclamar, comecei a ressentir-me contra
eles, contra o modo pelo qual instavam comigo, causando-me remorso e vergonha
#335
quando, na verdade, eu tentava fazer por eles o melhor possvel. E era Cathy, sempre Cathy, quem mais insistia comigo, no importava quantos presentes eu lhe desse.
    Lanou-me outro de seus olhares demorados e angustiados, como se eu a houvesse torturado alm de qualquer resistncia humana.
    - Cathy - murmurou ela em seguida, o olhar mido e angustiado animando-se um pouco ao pousar novamente em mim. - Fiz o melhor possvel! Disse a meus pais que 
todos vocs estavam doentes, especialmente Cory.
Como eles queriam pensar que Deus punira meus filhos, acreditaram facilmente. E Cory tinha resfriados sucessivos, alm da alergia. Ser que no entende o que tentei 
fazer? Procurei torn-los um pouco doentes, a fim de poder lev-los, um a um, para o hospital e depois dizer a meus pais que haviam morrido l. Utilizei um pouco 
de arsnico, mas no o bastante para causar a morte! Tudo o que desejava era faz-los ficar um pouco doentes, apenas o suficiente
para tir-los desta casa!
    Fiquei abismada por sua estupidez em arquitetar um plano to perigoso. Ento, calculei que tudo era mentira, no passando de uma desculpa para apaziguar Bart, 
que a encarava de modo muito esquisito. Embora me sentisse magoada por dentro a ponto de quase chorar, consegui sorrir para ela.
    - Mame - interrompi suavemente suas splicas. - J se esqueceu de que seu pai morreu antes de comearmos a receber as rosquinhas aucaradas?
    Ela voltou o olhar atormentado para a av, que a fitava de forma severa
implacvel.
    - Sim! - exclamou minha me. - Eu sabia! Se no fosse aquele codicilo no testamento, eu jamais teria necessidade de usar o arsnico! Todavia, meu pai revelou 
nosso segredo a John, o mordomo, que continuou vivo para verificar se eu obedecia as instrues e mantinha vocs presos l em cima at morrerem todos! E se John 
no o fizesse, minha me estava encarregada de
tomar providncias para que ele no herdasse os cinqenta mil dlares que papai lhe prometera. Portanto, havia tambm minha me, que desejava que John recebesse 
toda a herana!
    Um terrvel silncio pairou no ambiente enquanto eu tentava digerir tais afirmaes. O av soubera de tudo desde o incio e queria manter-nos prisioneiros at 
morrermos? E, como se isto no fosse castigo suficiente, at mesmo tentara obrig-la a matar-nos? Oh! Ele deveria ser muito pior do que eu imaginara! No era um 
ser humano! Ento, observando minha me, notando-lhe os olhos azuis que aguardavam ansiosamente uma resposta, vendo as mos que tentavam torcer um imaginrio colar 
de prolas, compreendi que ela mentia. Olhei para a av e percebi que franzia a testa, esforando-se por falar. Seus olhos expressavam feroz indignao, como se 
negassem todas as
alegaes de minha me. Por outro lado, ela odiava Mame. Desejaria que eu acreditasse no pior... Oh! Deus! Como poderia eu descobrir a verdade? 
    Olhei para Bart, que estava em p diante do fogo, os olhos escuros fitando a esposa como se nunca a tivesse visto antes e estivesse assustado com o que via agora.
#337
    - Mame - indaguei em voz baixa. - O que voc fez realmente com o corpo de Cory? Procuramos em todos os cemitrios da regio, examinamos os registros, e nenhum 
menino de oito anos morreu naquela ltima semana de
outubro de 1960.
    Primeiro, ela engoliu em seco. Depois, torceu as mos uma na outra, fazendo faiscar todos os brilhantes e outras jias.
    - Eu no sabia o que fazer com ele - sussurrou. - Morreu antes de chegarmos ao hospital. De repente, parou de respirar. Quando olhei para o banco traseiro, percebi 
que estava morto.
    Soluou com a lembrana, acrescentando:
    - Odiei a mim mesma, ento. Sabia que poderia ser acusada de homicdio e no desejara mat-lo! Apenas deix-lo um pouco doente! Portanto, joguei o corpo numa 
profunda ravina e o cobri com folhas mortas, galhos e pedras...
    Seus olhos enormes imploravam-me que acreditasse.
    Fui tambm obrigada a engolir em seco ao pensar em Cory, jogado no fundo de uma ravina escura, abandonado l para apodrecer.
    - No, Mame, voc no fez isso - minha voz baixa deu a impresso de cortar a atmosfera gelada da imensa biblioteca. - Antes de descer ao salo, visitei o ltimo 
quarto da ala norte.
    Fiz uma pausa a fim de conseguir maior efeito e dei um tom dramtico ao declarar em seguida:
    - Antes de descer a escadaria principal para me confrontar com voc, usei a escada que leva diretamente ao ltimo andar e, depois, a escadinha do sto, no armrio 
embutido do quarto que nos serviu de priso. Chris e eu sempre desconfiamos que devia existir outro acesso ao sto e presumimos
corretamente, que tinha de haver uma porta escondida atrs dos gigantescos e pesados armrios que nunca conseguimos afastar, por mais fora que empregssemos ao 
empurr-los. Mame... encontrei um quartinho que nunca
tnhamos visto antes. E ele exalava um odor muito peculiar, um cheiro de algo morto e apodrecido.
    Por um instante, ela foi incapaz de mover-se. O rosto ficou totalmente
inexpressivo. Fitou-me com olhar vago e movimentou os lbios, mas no emitiu o menor som. Tentou mas no conseguiu falar. Bart fez meno de dizer algo, mas ela 
tapou os ouvidos com as mos espalmadas, para evitar escutar qualquer coisa que algum dissesse.
    A porta da biblioteca se abriu repentinamente. Girei nos calcanhares,
furiosa. 
    Como num pesadelo, minha me virou a cabea para verificar por que motivo eu me mantinha imvel, com o olhar fixo na direo da porta. Chris estacou bruscamente 
e olhou para ela. Mame teve um sobressalto, como se
terrivelmente assustada. Ento, ergueu as mos num gesto que parecia querer afastar Chris. Estaria vendo o fantasma de nosso pai? - Chris...? - perguntou ela. - 
Chris, eu no queria - juro que no queria! No me olhe assim, Chris! Eu os amava! No queria usar o arsnico - mas meu pai me obrigou!
#338
Disse-me que eles nunca deviam ter nascido! Tentou convencer-me de que eram to pecaminosos que mereciam morrer e este seria o nico modo de eu ser perdoada do pecado 
que cometi ao me casar com voc!
    As lgrimas lhe escorreram pelo rosto e ela continuou a falar, embora Chris insistisse em menear negativamente a cabea.
    - Eu amava meus filhos! Nossos filhos! Mas o que poderia fazer? Eu s queria que ficassem um pouco doentes - apenas o suficiente para salv-los... nada mais... 
No me olhe assim, Chris! Sabe que eu jamais mataria nossos filhos!
    Os olhos azuis de Chris se tornaram gelados ao fit-la.
    - Ento, voc nos ministrou deliberadamente o arsnico? - indagou ele. - Nunca consegui acreditar realmente nisso depois que escapamos daqui e tive tempo para 
refletir melhor. Mas voc o fez!
    Ento, ela gritou. Nunca em minha vida eu escutei um grito como aquele, que aumentava e diminua histericamente. Gritos que pareciam uivos de um demente! Ainda 
gritando, ela girou nos calcanhares e correu para uma porta cuja existncia eu ignorava e pela qual ela desapareceu.
    - Cathy - disse Chris. obrigando-se a afastar os olhos da porta e examinando a biblioteca para notar a presena de Bart e da av. - Vim busc-la. Tenho ms notcias. 
Precisamos ir imediatamente para Clairmont! 
        Antes que eu pudesse responder. Bart indagou:
    - Voc  Chris, irmo de Cathy?
    - Sim, naturalmente. Vim buscar Cathy. A presena dela  necessria em outro lugar.
    Estendeu a mo e me encaminhei para ele.
    - Espere um momento - disse Bart. - Preciso fazer-lhe algumas perguntas. Tenho necessidade de conhecer toda a verdade. Aquela mulher de vestido vermelho  sua 
me?
    Primeiro, Chris olhou para mim. Meneei a cabea para indicar que Bart j sabia. S ento Chris encarou Bart, com certa hostilidade.
    - Sim.  minha me, me de Cathy e foi me de dois gmeos chamados Cory e Carrie.
    - E manteve vocs quatro trancados num quarto durante mais de trs anos? - quis saber Bart, como se ainda no quisesse acreditar.
    - Sim: trs anos, quatro meses e dezesseis dias. E quando levou Cory consigo certa noite, voltou depois para dizer-nos que ele morrera de pneumonia. E se deseja 
maiores detalhes, ter que esperar, pois h outras pessoas de quem precisamos cuidar agora. Venha, Cathy - acrescentou, estendendo outra vez a mo para mim. - Precisamos 
ir depressa!
    Olhando para a av, lanou-lhe um sorriso irnico.
    - Feliz Natal, Av. Eu esperava jamais tornar a v-la, mas estou percebendo que o tempo exerceu sua prpria vingana.
    Virou-se novamente para mim:
    - Vamos depressa, Cathy! Onde est seu casaco? Jory e a Sra. Lindstrom esto esperando em meu carro.
#339
    - Por qu? - quis saber eu.
    Entrei em pnico. O que acontecera?
    - No! - protestou Bart. - Cathy no pode partir: espera um filho meu e quero que fique comigo!
    Bart avanou para abraar-me carinhosamente e fitar-me com os olhos
cheios de amor.
    - Tirou-me a venda dos olhos, Cathy. Tinha razo. Eu certamente fui feito para coisas melhores que isto aqui. Talvez consiga redimir minha existncia fazendo 
algo til, para variar.
    Lancei um olhar triunfante  av e evitei fitar Chris. Com o brao de Bart passado em meus ombros, abandonamos a biblioteca e a av, atravessando todos os outros 
sales at chegarmos ao grandioso salo de bailes.
    O tumulto explodira! Todos gritavam, corriam, procuravam uma esposa ou um marido. Fumaa! Senti cheiro de fumaa!
    - Meu Deus! a casa est em chamas! - exclamou Bart, empurrando-me na direo de Chris. - Leve-a para fora e trate de mant-la em segurana! Preciso encontrar 
minha esposa!
    Olhou desesperadamente em volta, chamando:
    - Corrine! Corrine! Onde est voc?
    A multido apavorada procurava simultaneamente a mesma porta de sada. Grandes rolos de fumaa negra desciam pelas escadas. Pessoas caam e eram pisadas pelas 
outras. Os alegres participantes da festa lutavam agora para fugir dali e pobre de quem no tivesse foras para abrir caminho at a porta. Frentica, tentei acompanhar 
Bart com os olhos. Vi-o pegar um telefone, sem dvida para chamar os bombeiros. Em seguida, subiu correndo o lado direito da dupla escadaria, indo diretamente para 
o fogo!
    - No! - gritei. - Bart... no suba! Morrer a em cima! No, Bart! Volte!
    Creio que ele me escutou, pois fez uma pausa no meio da escada e sorriu para mim, que acenei em desespero. Li-lhe nos lbios as palavras eu a amo! Ento, ele 
apontou para o leste. No compreendi o gesto, mas Chris presumiu que Bart nos apontava outro caminho de sada.
    Engasgados, tossindo, Chris e eu corremos atravs de outro salo e, afinal, tive oportunidade de avistar o grandioso salo de jantar - que tambm estava cheio 
de fumaa.
    - Veja! - exclamou Chris, puxando-me pela mo. - Idiotas! Devem existir ao menos uma dzia de sadas no andar trreo, mas todos correm para a porta principal! 
Veja as portas do terrao!
    Conseguimos sair da casa e, afinal, chegamos ao carro de Chris, do qual Emma, com Jory no colo, observava a manso incendiar-se. Chris enfiou o brao pela janela 
do carro e pegou um agasalho para colocar em meus ombros. Ento, abraou-me quando me apoiei contra ele, chorando por Bart. Onde ele estaria? Por que no saa da 
casa?
     Escutei as sirenas dos carros dos bombeiros nas estradas da montanha, 
gemendo na noite j tumultuada pelo vento e a neve. Esta caa sobre a casa em chamas, #340
formando bolotas vermelhas que se derretiam, fervendo ao calor do fogo. Jory estendeu os braos, querendo o meu colo. Peguei-o e Chris passou o brao em torno de 
mim, protegendo-nos.
    - No se preocupe, Cathy - disse ele, tentando reconfortar-me. - Bart deve conhecer todas as sadas.
    Ento, avistei minha me em seu vestido vermelho como o fogo, sendo contida por dois homens. No parava de gritar o nome do marido e, depois, o de sua me.
    - Minha me! Est l dentro!  paraltica! Bart j chegara aos degraus do prtico quando escutou os gritos de minha me. Girou nos calcanhares e tornou a entrar 
na casa incendiada. Oh! Meu Deus! Ele voltava para salvar a av, que no merecia viver! Arriscava a prpria vida, fazendo todo o possvel para provar que, afinal, 
no era apenas um cozinho de estimao.
     Aquele era o incndio de meus pesadelos na infncia! Era o que eu mais temia, acima de tudo! Era o motivo pelo qual eu insistira em que fizssemos a escada 
com lenis rasgados em tiras, a fim de podermos escapar e chegar ao solo - caso necessrio.
    Foi mais que horrvel ver a imensa manso consumir-se em chamas, quando outrora eu ficaria alegre ao assistir a tal espetculo. O vento soprava implacavelmente, 
aumentando as labaredas at que estas
iluminavam a noite e davam a impresso de incendiarem o cu. Com que facilidade a madeira antiga queimava, junto com os genunos mveis de estilo e os objetos de 
valor inestimvel, impossveis de substituir. Seria um milagre sobrar alguma coisa, a despeito dos hericos bombeiros que lutavam como loucos, manipulando mangueiras 
que lanavam jatos de espuma contra o fogo! Algum gritou:
    - H pessoas presas l dentro! Salvem-nas!
    Creio que fui eu. Os bombeiros agiam com rapidez e agilidade sobre-humanas para salvar quem estava l dentro, enquanto eu gritava, desvairada e frentica:
    - Bart! No quero mat-lo! Quero apenas que me ame! No morra, Bart! No morra, por favor!
    Minha me me escutou e correu para o local onde Chris continuava a me abraar.
    - Voc! - berrou ela, com a expresso selvagem de uma louca. - Acha que Bart a amava? Que se casaria com voc? Idiota! Voc me traiu! Como sempre! E agora Bart 
morrer por sua causa!
    - No, me - replicou Chris, ainda me abraando e falando num tom frio como gelo. - No foi Cathy quem gritou para lembrar a Bart de que a av ainda estava l 
dentro. Foi voc. E deve ter percebido que ele no poderia voltar ao interior da casa e sobreviver. Talvez preferisse ver seu marido morto que casado com sua filha.
    Ela esbugalhou os olhos, movendo nervosamente as mos. Seus olhos azuis como o cu apresentavam manchas escuras de maquilagem derretida. Enquanto Chris e eu 
#341
observvamos, algo em seus olhos cedeu - algo que lhes emprestava clareza e inteligncia dissolveu-se. E ela pareceu murchar.
    - Christopher, meu filho, meu amor, sou sua me. No me ama mais, Christopher? Por qu? No lhe trago tudo que precisa ou que me pede? Novos livros, jogos e 
roupas? O que lhe falta? Diga-me, para que possa ir comprar para voc. Por favor, diga-me o que deseja, Christopher. Farei tudo, trarei tudo
para compensar o que voc est perdendo. Ser recompensado mil vezes quando meu pai morrer. E ele deve morrer a qualquer dia, qualquer hora, qualquer minuto - tenho 
certeza! Juro-lhe que no precisar permanecer aqui muito mais tempo! No muito tempo, no muito tempo, no muito tempo...
    E no parou de dizer aquilo, at que tive mpetos de gritar. Em vez disso, tapei os ouvidos com as mos e apertei o rosto de encontro ao peito largo de Chris.
    Meu irmo fez algum sinal para um dos motoristas da ambulncia. Os enfermeiros se aproximaram cautelosamente de minha me, que os avistou, soltou um berro e 
tentou fugir correndo. Ela tropeou quando o salto do
sapato se prendeu na bainha do vestido vermelho brilhante. Caiu de bruos na
neve, esperneando, gritando, esmurrando o solo. 
     Levaram-na embora numa camisa-de-fora, ainda berrando que eu a trara, enquanto Chris e eu permanecamos abraados, observando-a com os olhos esbugalhados. 
Sentamo-nos crianas outra vez, indefesos ante o luto recente e a vergonha que se abatera sobre ns. Acompanhei Chris enquanto
ele fazia o possvel para aliviar os sofrimentos das pessoas queimadas. Embora
s conseguisse atrapalh-lo, no permiti que se afastasse de minha vista.
    O corpo de Bart Winslow foi encontrado no cho da biblioteca, com a esqueltica av ainda em seus braos - ambos morreram sufocados pela fumaa, sem serem tocados 
pelo fogo. Aos tropees, cambaleando, fui at l puxar o cobertor verde para fitar-lhe o rosto e convencer-me de que, mais uma vez, a morte interferia em minha 
vida. Estava sempre interferindo! Beijei o rosto de Bart e chorei sobre seu peito inerte. Ergui a cabea e percebi que ele me fitava - sem ver mais nada -, tendo 
partido para onde eu jamais poderia alcan-lo e confessar-lhe que o amara desde o princpio, quinze anos
atrs.
    - Cathy, por favor - disse Chris, puxando-me. Chorei quando a mo de Bart me escapou dos dedos. - Precisamos ir! No temos motivos para ficar, agora que tudo 
terminou.
     Tudo terminou, terminou - estava acabado.
Meus olhos acompanharam a ambulncia que levou o corpo de Bart, junto com o de minha av. No sofri por ela - pois levara da vida aquilo que a ela trouxera.
    Voltei-me para Chris e chorei novamente em seus braos, pois quem viveria tempo bastante para me permitir manter o amor de que eu necessitava? Quem?
#342
    Horas e horas se passaram enquanto Chris me implorava que abandonasse aquele lugar que nada nos trouxera seno sofrimento e infelicidade. Por que no me lembrara 
disso? Tristemente, abaixei-me para pegar pedaos de cartolina que outrora tinham sido roxos e alaranjados. Outras peas de nossa
decorao do sto eram sopradas pelo vento: ptalas rasgadas, folhas arrancadas dos talos.
    Amanheceu antes que o incndio fosse controlado. A essa altura, a imensa grandiosidade que antes fora Foxworth Hall estava reduzida a runas fumegantes. As oito 
chamins permaneciam eretas em seus robustos
alicerces de pedra e, por mais estranho que pudesse parecer, a dupla escadaria curva
continuava no lugar, subindo para o nada.
    Chris estava ansioso por partir, mas tive que sentar-me e observar at a
ltima nesga de fumaa ser soprada para longe, desaparecendo para sempre. Foi minha saudao final a Bartholomew Winslow, que eu vira pela primeira vez aos doze 
anos de idade. E dera-lhe meu corao  primeira vista. A tal ponto que convencera Paul a deixar crescer o bigode, a fim de parecer-se mais com Bart. E de me casar 
com Julian porque seus olhos eram escuros, como os
de Bart... Oh! Deus! Como poderia eu continuar vivendo com o conhecimento de que matara o homem a quem mais amara?
    - Por favor, Cathy, a av j se foi e no posso dizer que me entristea com isso, embora sinta muito a respeito de Bart. Deve ter sido nossa me quem iniciou 
o incndio. Pelo que diz a polcia, o fogo comeou no sto, naquele quartinho junto  escada.
    A voz de Chris parecia vir de muito longe, pois eu me mantinha isolada como numa concha. Sacudi a cabea, tentando clarear as idias. Quem era eu? Quem era o 
homem a meu lado? Quem era o menino que dormia no banco
traseiro do carro, no colo de uma mulher mais idosa?
    - O que h com voc, Cathy? - indagou Chris, impaciente. - Oua: Henny sofreu um grave infarto, hoje! Ao tentar ajud-la, Paul tambm teve um ataque cardaco! 
Ele precisa de ns! Voc pretende ficar sentada a o dia inteiro, tambm, lamentando-se por causa de um homem do qual jamais se deveria ter aproximado e permitir 
que morra o nico homem que fez alguma coisa de bom por ns?
    A av dissera muitas coisas certas. Eu era m, nascera cheia de pecado. Tudo ocorrera por minha culpa! Tudo! Se eu nunca tivesse vindo, se eu nunca tivesse vindo... 
A frase se repetia em meu crebro enquanto eu chorava lgrimas amargas por ter perdido Bart.

Colhendo o que Foi Plantado

    Estvamos novamente em outubro, o ms das paixes. Naquele ano as rvores pareciam labaredas vermelhas, tocadas pelo frio precoce. Eu me encontrava na varanda 
dos #343
fundos da grande casa branca de Paul, descascando ervilhas e observando o pequenino filho de Bart correr atrs de seu
meio-irmo mais velho, Jory. Dramos ao filho de Bart o mesmo nome do pai, julgando que seria o mais certo, embora seu sobrenome fosse Sheffield e no Winslow. Eu 
agora era esposa de Paul.
    Dentro de poucos meses, Jory completaria sete anos e, embora a princpio tivesse um pouco de cimes, agora mostrava-se deleitado por ter um irmo mais moo com 
o qual compartilhar a vida - algum a quem ele
podia dar ordens, ensinar, ser condescendente. Embora ainda pequeno, Bart no era do tipo ao qual se do ordens. Sempre teve muita personalidade e foi
independente desde o incio.
    - Catherine - chamou a voz fraca de Paul.
    Deixei de lado a vasilha de ervilhas verdes e corri para o quarto dele, no andar trreo. Agora, Paul conseguia ficar sentado algumas horas por dia numa poltrona, 
embora no dia de nosso casamento estivesse de cama.
Passamos a noite de npcias abraados e nada mais que isto. 
    Paul perdera muito peso; estava magro e abatido. Toda sua juventude e vitalidade, s quais ele se apegara to corajosamente, haviam desaparecido quase da noite 
para o dia. No obstante, jamais me comovera tanto como quando sorriu para mim, estendendo-me os braos.
    - Chamei apenas para verificar se voc atenderia. Ordenei-lhe que sasse de casa, para variar.
    - Est falando demais - adverti. - Sabe que no deve falar muito.
     Era difcil para ele escutar as conversas sem tomar parte, mas tentava aceitar o fato. Suas palavras seguintes pegaram-me totalmente de surpresa e s consegui 
fit-lo, calada e boquiaberta, com os olhos esbugalhados.
    - Paul, no pode estar falando srio!
    Ele meneou solenemente a cabea, os olhos ainda lindos e iridescentes fixos nos meus.
    - Catherine, meu amor, j faz quase trs anos que voc vem sendo uma escrava para mim, esforando-se ao mximo para alegrar meus ltimos dias de vida. Todavia, 
jamais ficarei bom. Talvez continue vivendo assim durante anos e anos, como seu av, enquanto voc fica cada vez mais velha e jogando
fora os melhores anos de sua vida.
    - No estou jogando nada fora - repliquei, sufocando um soluo na garganta.
    Ele me sorriu docemente e estendeu os braos. Pressurosamente, aninhei-me em seu colo, embora os braos que me envolveram j no tivessem fora. Beijou-me. Prendi 
a respirao. Oh! Ser amada outra vez... Mas no permitiria - no podia permitir!
    - Pense bem no assunto, querida. Seus filhos precisam de um pai - o tipo de pai que j no poderei ser agora.
    - A culpa  minha! - exclamei. - Se me tivesse casado com voc h muitos anos, em vez de Julian, poderia ter cuidado bem de voc e impedido que trabalhasse tanto, 
esforando-se sem descanso dia e noite. Paul, se Chris, Carrie e eu no tivssemos #344
entrado em sua vida, voc no teria
necessidade de ganhar tanto dinheiro para custear os estudos de medicina de Chris e minhas aulas de bal...
    Ele me tapou os lbios com a mo e replicou que, se no fosse por ns j teria morrido h muitos anos por excesso de trabalho.
    - Trs anos, Catherine - repetiu. - E se voc refletir bem, constatar que  to prisioneira nesta casa quanto foi em Foxworth Hall, esperando que seu av morresse. 
No quero que Chris e voc terminem odiando-me... Portanto, reflita bastante e converse com ele a esse respeito. Ento, tome uma deciso.
    - Paul, Chris  mdico! Voc sabe que ele no concordaria!
    - O tempo est correndo, Catherine, no apenas para mim, mas para voc e Chris tambm. Em breve, Jory completar sete anos. Passar a lembrar-se mais nitidamente 
de tudo. Saber que Chris  seu tio. Contudo, se vocs partirem agora e me esquecerem, Jory considerar Chris seu padrasto e no
tio.
    Comecei a soluar.
    - No! E Chris no concordaria!
    - Escute-me, Catherine: no seria  errado! De agora em diante, voc no poder gerar outros filhos. Embora eu sofresse muito quando voc deu  luz seu filho 
mais novo, talvez tenha sido uma bno  disfarada. Sou impotente; no sou um marido de verdade. E logo voc ficar viva outra vez. Alm disso, Chris j esperou 
tanto tempo. Ser que no consegue pensar nele e
esquecer essa estria de pecado?

     E assim, como mame, ns tambm escrevemos nossos roteiros - Chris e eu. E talvez os nossos no fossem melhores que o dela, embora eu jamais tivesse planejado 
assassinar algum, nem tivesse a inteno de
empurr-la para alm dos limites da sanidade mental, de modo que o resto de seus dias se
passariam numa instituio para "convalescentes". E, ironia das ironias: tudo que ela herdara do pai lhe fora tirado, revertera  sua me. O testamento da av foi 
aberto e toda a sua fortuna, incluindo o que restava de Foxworth Hall, pertencia agora a uma mulher que s conseguia permanecer numa instituio para doentes mentais, 
sentada e olhando para quatro paredes. Oh! Mame, se
ao menos voc conseguisse prever o futuro quando pensou em levar seus quatro filhos de volta a Foxworth Hall! Amaldioada por todos os seus milhes de dlares - 
e incapaz de gastar um msero centavo! E nem um s vintm nos caberia. Quando nossa me morresse, o dinheiro seria distribudo entre diversas instituies de caridade.

    Na primavera do ano seguinte, sentamo-nos perto do riacho para onde Julia levara Scotty e o segurara sob a superfcie, de modo que ele se afogasse na gua rasa 
e esverdeada em que meus dois filhinhos brincavam com veleiros e vadeavam - num local onde a gua lhes chegava apenas aos
tornozelos.
#345
    - Chris - comecei, hesitante, embaraada, mas, ao mesmo tempo, feliz. - Paul fez amor comigo esta noite, pela primeira vez. Ficamos ambos to felizes que chegamos 
a chorar. No  perigoso, ?
    Meu irmo baixou a cabea para ocultar a expresso do rosto e o sol lhe iluminou os cabelos dourados.
    - Sinto-me feliz por ambos. Ora, o sexo no  perigoso, agora, desde que voc no o conduza a um grau muito elevado de excitao.
    - Tivemos cuidado.
    Aps quatro graves ataques cardacos, o sexo tinha que ser feito com muito cuidado.
    - timo.
    Naquele instante, Jory gritou que fisgara um peixe. Era pequeno demais? Seria obrigado a devolver mais um peixe ao riacho?
    - Sim - respondeu Chris. -  apenas um beb. No comemos peixes bebs, s os grandes.
    - Venham! - chamei. - Vamos voltar para casa. Est quase na hora do jantar.
    Meus dois filhos vieram correndo, to parecidos que davam a impresso de irmos inteiros, no apenas pela metade. E ainda no lhes contramos a verdade. Jory 
no perguntara e Bart ainda era pequeno demais para indagar tais coisas. Contudo, quando quisessem saber, revelaramos a verdade, por mais difcil que isso fosse 
para ns.
    - Temos dois papais! - gritou Jory, atirando-se nos braos de Chris enquanto eu pegava Bart no colo. - Ningum na escola tem dois papais e no compreendem quando 
eu digo... mas talvez eu no saiba explicar direito.
    - Tenho certeza de que voc no explica direito - disse Chris com um leve sorriso.
    No novo carro azul de Chris, voltamos  grande casa branca que tanto nos dera. Como na primeira vez em que ali chegamos, vimos um homem na varanda da frente, 
com os sapatos brancos apoiados na balaustrada. Enquanto Chris levava meus filhos para o interior da casa, fui at Paul e sorri ao v-lo cochilar com um sorriso 
de satisfao nos lbios. O jornal que ele estivera lendo
escapara-lhe dos dedos relaxados e cara no cho da varanda.
    - Subirei para dar banho nos meninos - sussurrou Chris. - E voc pode pegar os jornais antes que o vento os arraste para os jardins dos vizinhos.
    Por mais silenciosamente que se tente apanhar folhas de jornal e dobr-las, sempre se produz algum barulho. Paul entreabriu os olhos e sorriu para mim.
    - Ol - disse ele, sonolento. - Divertiram-se? Fisgaram algum peixe?
    - Apanhamos dois, na linha de Jory, mas ele teve que devolv-los  gua, porque eram muito pequenos. Com o que sonhava antes de acordar? - indaguei, debruando-me 
para beij-lo. - Parecia to feliz... foi um sonho libidinoso?
    Ele tornou a sorrir, desta vez com um ar levemente tristonho.
#346
    - Estava sonhando com Julia - respondeu. - Scotty estava com ela e ambos sorriam para mim. Sabe, ela pouco sorriu para mim depois que nos casamos.
    - Pobre Julia - comentei, tornando a beij-lo. - Perdeu tanta coisa. Prometo-lhe que meus sorrisos compensaro todos os que ela lhe negou.
    - J compensaram - replicou ele, estendendo o brao para acariciar-me o rosto e os cabelos. - Foi o meu dia de sorte quando voc galgou os degraus de minha varanda 
naquele domingo...
    - Naquele maldito domingo - corrigi. - Ele sorriu.
    - D-me dez minutos antes de me chamar para o jantar. Eu gostaria de encontrar aquele motorista de nibus e lhe dizer que nenhum domingo  maldito quando voc 
estiver no nibus.
    Entrei para ajudar Chris a cuidar dos meninos e, enquanto ele abotoava o
pijama de Jory, vesti um pijama amarelo em Bart Scott Winslow Sheffield. Comamos cedo, a fim de podermos fazer companhia s crianas.
    Logo os dez minutos se escoaram e tornei a voltar  varanda, a fim de acordar Paul. Chamei-o baixinho por trs vezes, acariciando-lhe o rosto. Afinal, soprei-lhe 
a orelha. Ele continuou a dormir. Comecei a cham-lo novamente, em voz mais alta, quando ele produziu um som gutural semelhante ao
meu nome. J trmula e cheia de medo, olhei-o com mais ateno. S o modo estranho como ele falara foi suficiente para encher-me de um terrvel pavor.
    - Chris - chamei com voz sumida. - Venha depressa examinar Paul. 
    Meu irmo devia estar no hall, enviado por Emma para verificar o motivo de nossa demora, pois saiu imediatamente da casa e correu para junto de Paul. Pegou-lhe 
a mo, tomou-lhe as pulsaes e, logo em seguida, tombou-lhe a cabea para trs, tapando-lhe o nariz e fazendo respirao boca a boca. Quando isto no deu resultado, 
desferiu vrias pancadas fortes no peito de Paul. Corri ao telefone para chamar uma ambulncia.
     Mas, naturalmente, tudo foi intil. Nosso benfeitor, nosso salvador, meu marido, estava morto. Chris passou o brao por meus ombros e me puxou para si.
    - Ele se foi, Cathy, do modo que mais gostaria - e eu tambm. Dormindo, sentindo-se bem e feliz.  um timo modo de morrer, sem dor ou sofrimento. Portanto, 
no fique assim - a culpa no  sua!

    Nunca nada era minha culpa. Havia s minhas costas um rastro de homens mortos. Mas eu no era responsvel pela morte de um s dentre eles, era? No, claro que 
no. Era de espantar que Chris tivesse coragem de
embarcar no carro e sentar-se a meu lado, dirigindo na direo oeste. Engatado ao
carro de Chris, vinha um reboque alugado contendo todas as nossas coisas. amos para o Oeste, como os antigos pioneiros  procura de um novo futuro, de um tipo diferente 
de vida. Paul me legara tudo o que possua, inclusive a casa de sua famlia. No testamento, declarava que, caso eu desejasse vender a casa, ele gostaria que Amanda 
tivesse prioridade para adquiri-la.
#347
    Assim, finalmente a irm de Paul tomou posse da residncia de seus antepassados, que ela tanto desejava e tantos esquemas armara para possu-la. Contudo, certifiquei-me 
de que o preo foi bastante elevado.
    Chris e eu alugamos uma casa na Califrnia at podermos construir uma
residncia trrea, no estilo de rancho, segundo nossas especificaes: quatro
dormitrios, dois banheiros completos e um menor. Alm disso, haveria um quarto com banheiro anexo para nossa empregada, Emma Lindstrom. Meus filhos chamam meu irmo 
de Papai. Ambos sabem que tiveram pais diferentes, que foram para o cu antes que eles nascessem. At o momento, ainda no
sabem que Chris  apenas seu tio. Jory j se esqueceu disso h muito tempo. Talvez as crianas tambm consigam esquecer o que desejam ignorar e no faam perguntas 
embaraosas de responder.
    Ao menos uma vez por ano fazemos uma viagem ao Leste para visitar amigos, inclusive Madame Marisha e Madame Zolta. Ambas fazem grande estardalhao quanto ao 
talento de bailarino de Jory e tentam ardorosamente transformar tambm Bart em bailarino. At o momento, porm, a nica
inclinao demonstrada por Bart  a medicina. Visitamos todos os tmulos dos
entes queridos que j se foram, l depositando flores. Sempre flores vermelhas
e roxas para Carrie; rosas de qualquer tonalidade para Paul e Henny. At mesmo encontramos o tmulo de nosso pai, em Gladstone, e tambm lhe apresentamos nosso respeito 
por meio de flores. Alm disso, nunca esquecemos Julian, nem Georges.
   Por fim, visitamos Mame.
     Ela vive num lugar imenso, a que tentam inutilmente dar um aspecto acolhedor. Geralmente, comea a berrar quando me avista. Em seguida, ergue-se de um salto 
e tenta arrancar-me os cabelos. Quando  contida, volta toda a fria contra si mesma, procurando repetidamente mutilar o prprio rosto e livrar-se para sempre de 
qualquer semelhana fsica comigo. Como se j no
se olhasse nos espelhos, que podem mostrar nitidamente que j no nos parecemos atualmente. O remorso transformou-a em algo horrvel de se ver. E outrora ela foi 
to linda! Os mdicos permitem que apenas Chris a visite durante cerca de uma hora, enquanto espero l fora com os meus filhos. Chris afirma que ela no ter que 
enfrentar uma acusao de homicdio, pois mesmo que se recupere ele e eu j negamos a existncia de um quarto irmo chamado Cory. Entretanto, ela no confia plenamente 
em Chris, sentindo que este sofre a minha influncia maligna e temendo que, se deixar desmoronar a
fachada de demente por detrs da qual se protege, seja condenada  morte na cadeira eltrica. Portanto, os anos transcorrem enquanto ela se apega  calculada farsa 
como meio de escapar tambm de um futuro sem ter ningum que goste dela. Ou, talvez, mais verdadeiramente, procure atormentar-se
atravs de Chris e da piedade que este  insiste em ter por ela. De fato, ela
constituiu o nico ponto que impede nosso relacionamento de ser perfeito.
    Portanto, deixei de lado os sonhos de perfeio, fama, fortuna, amor imorredouro e sem defeitos; tornei-me adulta demais para eles, da mesma forma que ocorreu 
em relao #348
aos brinquedos da infncia e s fantasias da
juventude.
    Freqentemente, olho para Chris e imagino o que ele v em mim - o que o une a mim de forma to permanente? Procuro adivinhar tambm o motivo pelo qual ele no 
teme o futuro ou a durao que este venha ter, pois  certo que sei cuidar melhor da sobrevivncia de mascotes do que de maridos.
Entretanto, ele sempre volta para casa com um andar animado, um sorriso feliz, aceitando alegremente os braos que estendo para receb-lo com a mesma frase de costume:
    - Beije-me se me ama!
   Sua clientela  grande, mas no demais, de modo que ele dispe de tempo para cuidar de nossos dois hectares de jardins, enfeitados com as esttuas de mrmore 
que trouxemos dos jardins de Paul. Na medida do possvel, copiamos os jardins de Paul, exceto pelo musgo espanhol - o belo parasita que se agarra s rvores at 
conseguir mat-las.
   Emma Lindstrom, nossa governanta, cozinheira e amiga, mora conosco como Henny morava com Paul. Sua famlia somos ns; ela nos  leal e no se intromete em nossos 
assuntos particulares.
     Pragmtico, jovial, o eterno otimista, Chris canta quando trabalha nos jardins. Ao barbear-se pela manh, cantarola melodias de bal, sem trepidaes ou lamentos 
- como se h muitos anos fosse ele o homem que danava
comigo nas sombras do sto e jamais permitia que eu lhe visse o rosto. Saberia desde o incio que, da mesma forma como me vencera em todos os tipos de jogos, acabaria 
vencendo o mais importante dentre todos?
    Por que eu no soubera?
    Quem me tapara os olhos?
    Deve ter sido Mame quem me disse um dia:
    - Case-se com um homem de olhos escuros, Cathy. Olhos escuros sentem tudo com terrvel intensidade.
    Que piada! Como se olhos azuis no possussem profundidade e firmeza. Ela deveria ter aprendido...
     E eu tambm deveria ter aprendido. Preocupo-me porque ontem subi ao nosso sto. Numa pequena alcova lateral, encontrei duas camas de solteiro, com suficiente 
comprimento para dois meninos se utilizarem delas at a idade adulta.
     Oh! Meu Deus! - Pensei comigo mesma. - Quem fez isto?
     Eu jamais trancaria meus filhos, mesmo que Jory se lembrasse algum dia de que Chris no  seu pai, mas tio. Eu no os trancaria mesmo que Bart, o menor dos 
dois, fosse informado da verdade pelo irmo. Eu seria capaz de enfrentar a vergonha, o embarao e a publicidade que arruinariam Chris
profissionalmente. No obstante... no obstante, comprei hoje uma cesta de
piquenique, do tipo com tampa dupla que se abre nas pontas: exatamente a mesma espcie de cesta que a av usava para levar-nos comida.
     Portanto, deito-me nervosa e permaneo acordada, temendo o que existe de pior em mim e esforando-me para agarrar-me ao que tenho de melhor.
#349
Tenho a impresso, ao virar-me na cama para aconchegar-me ao homem que amo, de poder escutar o vento frio soprando das montanhas azuladas to distantes.
     o passado que jamais consigo esquecer, que lana sombras sobre todos os meus dias e se esconde furtivamente pelos cantos quando Chris est em casa. Esforo-me 
realmente para ser como Chris, sempre otimista, quando estou muito longe de ser o tipo capaz de esquecer o azinhavre no reverso da mais
brilhante das moedas.
    Mas... no sou como ela! Posso parecer-me fisicamente com ela, mas, por dentro, sou honrada! Sou mais forte e mais decidida! No final de tudo, vencer o que 
tenho de melhor. Tenho certeza. O melhor tem que vencer, s vezes... no  mesmo?

        FIM
